Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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O errante vagabundo

Escrito por  yvette vieira fts pepe brix

 

Pepe Brix é um aventureiro açoriano que por herança genética se transformou num navegador da retina humana pelo mundo. Os seus trabalhos, na área do fotojornalismo, incidem sobre a natureza humana em confronto com a natureza do qual resultam imagens que são autênticas obras de arte do quotidiano dos diversos povos e das suas lutas diárias que ficam eternizadas no momento em que faz um click.

Como é que alguém de uma ilha, Santa Maria, se torna fotojornalista?
Pepe Brix: Isso tem a ver com a minha história familiar. O meu avô antes de vir para os Açores era artista de circo, veio em tournée até Santa Maria e farto daquela vida errante acabou por vender a sua quota do circo, decidiu comprar uma câmara à la minute e começou a fazer fotográfia nos Açores. Com o passar dos anos, já era muito velhinho, passou o negócio ao meu pai que como já era profissional lhe deu continuidade e eu como nasci no meio desta algazarra fotográfica, acabei por ganhar o gosto ao ofício. Uma das coisas de que me lembro, que influênciou esta minha decisão de ser fotojornalista, foi precisamente o trabalho que o meu avô deixou feito, reportagens de alguns acidentes que se passaram na ilha, eventos culturais e sociais e algumas dessas imagens foram tão marcantes que me fizerem ganhar o gosto pela profissão.

Quero abordar um dos teus projectos, o código A2053N, como é que surge na tua vida?
PB: Esse projecto surge após uma sequência de viagens que tinha feito, pelo Peru e EUA. Depois fui parar à Índia e ao Nepal e uma das coisas que estive a fotografar foi uma comunidade de pescadores, no sul da Índia. Quando voltei para Portugal estive um ano a preparar um ciclo de exposições nos Açores e no continente, dividida em dois andamentos, uma com fotos sobre o Nepal e outra com imagens da Índia. Depois numa daquelas viagens que não estava a contar nada fui parar à ilha do Faial, numa competição de vólei, e acabei por encontrar um grande amigo meu, que é o Henrique Ramos, que perguntou-me o que andava a fazer, eu contei-lhe o que tinha deambulado pelo continente Asiático e que estava à procura de algo para fotografar em breve, ele como tem uma empresa de consultadoria na área das pescas e era responsável pelos operadores portugueses que pescam o bacalhau na Terra Nova, acabou por me propor esse embarque para que eu fosse como observador. Obviamente tive que fazer uma formação de alguns dias para ser capaz de exercer essa profissão e lá fui eu quase de olhos vendados para o Canadá, fui até a Gafanha da Nazaré para embarcar na Joana Princesa e estive três meses e meio a bordo com essa tripulação de 34 pessoas e recolher imagens sobre o seu ambiente de trabalho.

Quais foram os maiores desafios dessa viagem? O que tiveste de ter em conta? E quais as dificuldades em termos fotográficos?
PB: Em termos fotográficos as maiores dificuldades surgiam quando o mar estava mau, o navio mexia mais, quando nevava criavam-se placas de gelo no convés e aí na verdade fotografar não era difícil, era sim, mais perigoso fisicamente andar, exigia alguns cuidados. Em termos fotográficos como em qualquer espaço acabámos por adaptar-nos às condições de luz e até tive tempo para isso. A maior dificuldade que enfrentei ultrapassou as condições técnicas, foi muito mais exigente em termos pessoais, como o tempo que estas embarcado sem vir à terra, passas meses sem ver mais ninguém, são só aquelas 34 pessoas que por sorte me dei muito bem, com quem ainda hoje mantenho contacto e tenho um apreço enorme. Mas, a verdade é que estas isolado, não tens televisão, não tens rede móvel, nem internet, não tens nada e havia dias em que o mar estava muito mau e não conseguia dormir muito bem, porque estas sempre a saltar do beliche e todas essas condições foram mais difíceis de ultrapassar do que qualquer questão técnica fotográfica.

Disseste que a tripulação recebeu-te bem, em termos de captação de imagens, tens alguns primeiros planos muito bonitos, quase íntimos, eles não se sentiram constrangidos ou incomodados?
PB: Quando fotografas alguém há sempre um cuidado a ter e num trabalho deste tipo, ou em qualquer projecto de fotojornalismo, tem de haver uma preparação prévia quando vais fazer a fotográfia de alguém, por isso, há uma relação, um compromisso de quem fotografa e esta a ser fotografado e tudo isso passa por conheceres essa pessoas, dares-te a conhecer e criares laços para de certa forma te sentires envolvido. Eu também não consigo captar a imagem de uma pessoa e sentir que não estou ligado a esse ser humano, parece uma coisa quase que hipócrita estar a querer passar uma mensagem que não depreendi e esse meu cuidado é transversal a todos os meus trabalhos de fotojornalismo.

Como surgiu a oportunidade de publicares as fotos no “National Geographic” (NG)?
PB: Depois de algum trabalho de edição deste projecto que foi feito a bordo deste navio, uns meses depois de uma maturação do trabalho acabei por enviar um pdf para NG Portugal que acabou por achar piada e publicá-lo.

Como é que fizeste a selecção das fotografias? Afinal foram três meses e meio à bordo de um navio onde tiraste de certeza milhares de fotografias, havia um fio condutor?
PB: Quando estas a fazer as imagens de coração, quando fazes algo por paixão, na altura em que tudo acontece não te consegues desligar daquilo. Basicamente o que acontecia era mal fotografava, a segunda parte do dia era ir editando as imagens que fazia, isso permitiu-me chegar à terra com o trabalho meio feito, já tinha fotos pré-seleccionadas. É sempre importante dar uma volta pelas fotográfias todas para confirmar que aquelas são as imagens mais significativas e fortes. Ali, no momento, podes ficar “agarrado” emocionalmente a algumas das imagens e mais tarde chegas a conclusão que não trazem nada de novo a essa história. Às vezes, é preciso dar a mão à palmatória e esquece-las, não é um processo muito fácil, mas é importante na edição e como já tinha mais ou menos feito todo esse trabalho antes, quando cheguei à terra tive todo esse processo facilitado. É tudo passo a passo, no fundo o que acontece é que tu quando te distancias desse trabalho, consegues saber melhor qual é a história que queres contar ao público que vai ver essas imagens, depois é perceberes quais são as melhores fotos para ilustrares cada uma dessas etapas e o processo final é editar as melhores para cada capítulo.

 

Então qual é a história do código postal A2053N?
PB: A ideia é mostrar a beleza dessas epopeias da pesca do bacalhau, que hoje em dia as pessoas não sabem que existem. Era também passar a mensagem que os pescadores do bacalhau passam de 7 a 8 meses no mar e só os restantes em terra, muitas vezes o navio é quase a casa deles. O título ao trabalho é a matrícula do navio Joana Princesa, foi pegar nesse conceito de código postal, de casa, que apliquei neste projecto.

Agora falando de um outro projecto teu, “na rota das manchas” fizeste este trabalho posteriormente porquê? Ganhaste-lhe o gosto as embarcações de pesca?
PB: Esse trabalho curiosamente já estava pensado mesmo antes do código A2053N, eu sou dos Açores, sempre convivi com pescadores, com o mar e sinto essa forte ligação. Surgiu da minha vontade de explorar uma temática açoriana, por isso, é muito fácil te deparares com o mar e foi isso que aconteceu. Pouco antes disso tinha feito algo completamente diferente que foi uma viagem de mota, três portugueses pelo mundo.

 Foi a viagem Lisboa, Pequim, Lisboa?

PB: Sim.

Estas embarcações de pesca de atum são muito mais pequenas, com pouco espaço para as pessoas se mexerem e aí quais foram dos desafios nestas fotográfias, num espaço tão exíguo?
PB: A privacidade num barco de 16 metros é sempre menor que num de 80, como podes calcular e a relação do tamanho do barco para o número de tripulantes também não é funcional, numa embarcação de 80 metros tens 34 tripulantes e num de 16 tens 11 pessoas a bordo, dá uma média de 1,76 por metro quadrado, já que uma grande parte da embarcação é o porão e a casa das máquinas. O espaço de livre circulação é muito pouco e na pesca do atum há um período de tempo em que não se pesca, eles só vão atrás das manchas logo de manhã ao nascer-do-sol e no final do dia, no pôr-do-sol, ou seja, passam o resto do dia todo em que não estão pescar a cozinhar, ou a fazer as obras de manutenção que são necessárias e isso de não fazer nada durante algum tempo é muito mais fácil num navio com 80 metros que tem mais espaço para cicular, ao contrário de um tão reduzido.

E qual foi a história que quiseste contar aqui?
PB: “A rota das grandes manchas” é quase uma mostra do tipo de pesca que se faz nos Açores, na Madeira e em Cabo Verde, que merece essa visibilidade pela sua sustentabilidade, num mundo em que há sítios em que a pesca intensiva é de tal forma devastadora que se torna assustadora. Prestei uma homenagem também a uma pesca artesanal que é bonita, ilustra a luta de um homem com um atum, com uma linha e um anzol, não há cercos, ou arrastos, que é quase uma covardia. Houve ainda a necessidade de focar questões problemáticas, as dificuldades que os pescadores estão a passar agora, achámos, ou pelo menos a comunidade científica acredita que a falta de atum que se faz sentir na pesca dos Açores, porque há uma grande crise neste sector, esta relacionada com o Golfo da Guiné. O problema é que nesta zona na costa Ocidental de África estão-se a criar grandes plataformas artifíciais para assimilar essas grandes manchas, com o intuito de acumular peixe que depois não é pescado por anzol como na Macaronésia, mas sim por cerco, onde a pesca é mais massiva. Essas plataformas são estrategicamente colocadas nas grandes “auto-estradas” dos atuns, no fundo as rotas de migração, são as correntes de água quente que estes peixes conseguem identificar através da percepção das temperaturas do mar e acredita-se que isso esta a afectar a pesca do atum no Açores. Por isso, houve uma necessidade de fazer uma chamada de atenção para essa situação que já esta a afectar uma série de famílias aqui nos arquipélagos.

Quais são os teus próximos projectos?
PB: Existe um trabalho que estou a desenvolver também para a NG, não posso dizer ainda o que é, mas irá decorrer durante este ano. Há ainda há um ciclo de exposições com as imagens do Joana Princesa e da pesca do atum que já estão a decorrer e tenho uma ida à Cabo Verde para fazer uns laboratórios de fotográfia que estão associados ao projecto na “rota das grandes manchas” .

Foi importante teres ganho o prémio gazeta?
PB: Claro que sim, embora não sou muito de galardões. Aliás, essa foi a primeira vez que submeti uma candidatura a um concurso, mas é sempre bom veres o teu trabalho reconhecido, principalmente no panorama nacional. Além de que o prémio traz alguma visibilidade para outros trabalhos, é como uma porta aberta, com novas janelas de oportunidades que surgem para continuares a poder desenvolver os teus projectos e essa é parte mais importante.

http://www.pepebrix.com/projects

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