Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

quarta, 19 julho 2017 14:51

A criatura nasce e a obra acontece

Este projecto inusitado surgiu de uma vontade de Edgar Vicente de fazer música portuguesa com outros músicos e o que começou com apenas seis elementos foi ganhando mais força e mais instrumentos e neste momento é uma banda que mais do que cantar em português faz uma ponte entre o som tradicional e uma sonoridade em camadas mais contemporânea, que resultam em canções que vão ao encontro da portugalidade e da identidade da banda como um todo.

A criatura começa contigo, com música portuguesa de raiz tradicional e criastes uma banda gigantesca?
Edgar Vicente: A minha ideia era de ir ao encontro da minha identidade, da minha geração e com as pessoas de uma forma geral, dos mais novos aos mais velhos. Queria que fosse uma identidade em uníssono, que conseguisse juntar as pessoas, todas, numa altura em que o amor esta mais globalizado e dia após dia perdemos essa ideia de pertença. Temos de nos revisitar constantemente e comecei essa ideia em Serpa com o objectivo de gravar um disco. O que pretendia era ir até à tradição e perceber o que aquilo era, o que já não faz parte e aí surge uma necessidade, também, de precisar de mais gente, mais criativos que me ajudassem a perceber isso e começaram a surgir os convites. São pessoas com quem tinha tido muita vontade de trabalhar, mas ainda não tinha surgido essa oportunidade, como o Carlos e o Gil e outros ainda com quem ainda não tinha tocado antes e que queria levá-los nessas musicalidades.

O que achei curioso ao ouvir o álbum, “Aurora” e ouvi-los em palco há uma diferença brutal. No CD o som era menos vivaz, mais polido, muito bem acabado e masterizado, mas preferi as versões em palco.
EV: Isso tem a ver com facto do álbum ter sido feito há três anos.
Gil Dionísio: São três anos de estrada, deste revisitar para dentro, foi o ser obrigados a ter um olhar verdadeiro lá para fora e para o que esta à nossa volta e isso fez com que houvesse coisas que tivessem sido feitas na altura, eu tinha 24,25 anos e tu tinhas 19?
EV: 21 anos
GD: Agora o Edgar tem 25 anos e existe uma diferença brutal. Uma pessoa pensa de forma diferente do que pelo menos há quatro anos e eu vou fazer quase 30 anos. Ou seja, nós crescemos com esta música que fizéssemos e houve coisas que falharam, houve temas que agora tem mais força e estão mais bonitas e outras que foi o inverso, canções que acabaram por ter uma dimensão muito menos forte. Acima de tudo quando o ouço o álbum e eu crio uma relação à medida que o vou ouvindo, mais o amadureço. A própria capa é uma peça, é tudo o que queremos fazer e com o passar do tempo, em palco, criou-se uma relação muito íntima com estas músicas, com a Portugalidade, seja o que for que isto quer dizer, mas que pode querer transmitir muita coisa. Com o tempo formos criando esta relação com este olhar, com esta forma de fazer música de uma forma emocional, ou como o Edgar diz de quem “cá esta”, é uma tradição de música tradicional portuguesa, de música pimba e de toda a música do mundo que existe ao mesmo tempo e que influenciou essa mesma musicalidade. Ou seja, quando trazemos música tradicional não podemos só olhar para a “modinha”, olhámos para pessoas, para as histórias e todo um conjunto de coisas que estão em volta para que essa relação com os temas seja mais intensa, mais emocional. Quando chegámos ao palco há todo um romance que nunca mais acaba e isso é o que se nota.

Vocês são muitos, cerca de 11 músicos em palco, deve ter sido difícil conjugar isso tudo e as personalidades musicais, ou não?
EV: Isso é um dos aspectos principais deste grupo, o facto de sermos diferentes e já partimos todos para isto sabendo que erámos muito diferentes, há muita tolerância. De vez em quando existe um que avança e diz que no rock não se faz assim, não sabíamos o que estávamos à procura, nem no que estávamos a fazer, sabíamos apenas que éramos todos muito diferentes. Abrimos um grande espaço para a tolerância, para aproveitarmos o que outro vai fazer à partida, porque sabemos que vai ser diferente do que vamos trazer.
GD: Há um aspecto muito importante aqui, enquanto grupo e que estamos todos a fazer, é que não sabemos o que isto de fazer música tradicional. Na banda descobri muita coisa e quando fazemos algo distinto uns dos outros, isso abre as possibilidades todas e quando embocámos nesse poço todos juntos são muitas ideias, muitos pontos, mas no geral é vamos lá descobrir o que é esta herança muito grande, gigante.

É, por isso, que os temas são tão compridos? Porque comparando com uma melodia de música portuguesa são até bastante extensos.
EV: Nós gostámos de atingir um certo estado com as músicas, o que não quer dizer que os caminhos não atinjam certos picos, mas em alguns temas já dá para sentir uma história.
Mas, há um tema que parece contar mais do que uma história, a canção que fala da rapariga que não quer ir à missa e do jovem que embora não queria ir para universidade, não paga.
EV: Na verdade é ao contrário, ela vai à missa e eu vou para a faculdade não foi por não querer, mas porque ninguém me disse para não ir.

Achei que eram dois temas numa única canção.
EV: Exactamente, esse tema se chama “É da praxe” e acabámos por cantar que há coisas que por mais que seja tradição, ou que tem de ser assim, se pensarmos bem naquilo em que nos estamos a meter acabámos por não as fazer e isto não é mais do que fazer perguntas, é isso que sugerimos as pessoas. É bom não seguir a maré, é bom olharmos em volta e remarmos por outras rotas onde podemos chegar mais depressa até.

No concerto já cantaram um dos temas do próximo disco, “A noiva”.
GD: Cantámos cinco músicas do próximo álbum. “A noiva”, “bem bonda”, “lóbis homem”, “dá praxe” e “a gaita”.

Porque decidiram começar a apresentar estes temas em palco, para já obter feedback do público?
EV: Acho que é por essa relação que a banda tem de ser renovada constantemente. Jamais conseguiríamos a tocar o mesmo repertório por três anos seguidos, as canções vão surgindo naturalmente para nós estimular como grupo e cativarmos a nós próprios. É tão bom quando alguém chega com uma canção pela primeira vez, vamos ensaiá-la e temos um momento novo que nos traz uma magia renovada em palco. O espectáculo é muito mais do que isso.


“A noiva” não é um nome definitivo para o álbum?
EV: Ainda não sabemos bem qual será o nome do disco.
GD: Não consigo fazer essa projecção.
EV: Eu sei como que se vai chamar (risos)
GD: É “bem bonda”, mas ainda não há uma certeza. É curioso nos gostámos de saber o que realmente andámos a fazer, gostámos de olhar para o que estamos a fazer. Vamos gravar ainda neste final do ano e início do próximo, não temos datas projectadas, nem nomes ainda, embora não tenha algum problema em tocar as músicas antes. Não consigo adiantar o que o álbum vai ser, porque parte desse percurso é descobrir o que vai ser esse disco. Esta banda é isso, até nos concertos não sabemos como vai ser. Curiosamente quanto as canções não acho que sejam longas, são narrativas por camadas que vamos descobrindo cada vez que as tocámos. “A noiva”, ou “A gaita” não sabemos como vai soar. Provavelmente vai ser como o que viste em palco e até nem sei o que será, obviamente já pensámos sobre isso, mas se calhar nessa altura vão aparecer outras coisas e seja o tempo a dar-nos essa resposta. Vamos vivendo, tocando e quando chegar ao álbum vai ser um cabaz, mas não sei é como vai soar.

https://www.youtube.com/watch?v=uOo4ymyWZ2I

quarta, 19 julho 2017 14:48

Sou eu mais livre, então

Trata-se de um diário sobre um preso político angolano, Luaty Beirão. Um relato, na primeira pessoa, que servem como testemunho do quotidiano dos 13 dias que esteve preso numa cadeia de Angola e que ainda inclui uma entrevista a Carlos Vaz Marques onde aborda os 36 dias de uma greve de fome que o deixou em perigo de vida.

Este é um diário sobre o período em que esteve preso?
Luaty Beirão: Na verdade são 13 dias em que tive acesso a um caderninho e uma caneta no ano que lá cheguei. Depois é compensado com uma entrevista mais aprofundada do Carlos Vaz Matos em que se aborda o que não esta registado no diário. São basicamente pensamentos, letras de música, coisas da próxima visita que tinham de me trazer, tem de tudo um pouco, é muito misturado.
É o relato de um ano?
LB: Tem um hiato de 3 meses de prisão domiciliária, depois da condenação voltámos para a prisão onde ficámos desde o dia 20 de junho 2015 até que fomos soltos no dia 29, um um ano e nove dias depois.
O que mudou em Angola?
LB: Tem vindo a mudar, houve um salto desde este período em que estivemos presos. Existe um lento despertar de consciência, um tímido calar do medo, há uma inversão em como as pessoas se relacionam com o seu próprio medo, elas começam a falar mais e protestar mesmo que seja em espaços mais reduzidos como as redes sociais, ainda não se transporta para a rua, mas sente-se que esta a desaparecer aos poucos. O caminho faz-se caminhando e um passo de cada vez, também não sei se seria muito bom que tudo fosse tão repentino, não sei se saberíamos gerir uma mudança do dia para a noite, esta a ser como tem de ser e esta a correr bem. Não consigo quantificar um tempo para que essa mudança aconteça, sei que já não será para nós, somos os agentes de mudança, mas não sei se será imediato, temos é que provocá-la.
E Portugal deve ser agente nessa mudança?
LB: Se Portugal não fosse conivente seria bom, não pode fazer mais do que isso por questões de soberania. Não calar processos que existem aqui, por causa de crimes que foram cometidos lá. Gostam de dizer que os poderes são separados, mas nem sempre é assim, lá como cá, mas o papel de não ajudar os que lá estão já é alguma coisa. É bastante.
Tem uma vida normal em Angola?
LB: Não existe uma vida normal em Angola. Nem estas pessoas que se vêem a esbanjar milhares de euros em relógios vivem normalmente. Uns vivem em redomas, atrás de muros, saem com carros blindados o que não é normal e os outros vivem num outro extremo à procura de água, luz e comida, coisas básicas para a dia-a-dia. Nada disto é normal. Mas, percebo o que me quer perguntar, se sou incomodado, ou seguido, acho que o sou de uma maneira mais discreta, antes via quando saia para a rua quem me ia seguir, mas tenho a noção que eu e os outros somos monitorizados, aprende-se a viver com isso também, não é normal, é a vida que temos.

Voltando um pouco ao diário, trata-se de um registo de 13 dias em que também refere escreveu para não enlouquecer.
LB: Eu estava confinado a uma solitária, não sei se foi bem para não enlouquecer, não sei o que teria acontecido se não tivéssemos acesso a livros e a escrita, não sei como teria lidado com uma cela durante 3 meses, iria haver algum impacto ao nível do meu estado psicossomático. Bom, felizmente ao fim de três dias tivemos livros, cadernos e canetas, que depois foram sendo retirados quando invadiam as celas e às vezes levavam os cadernos e as canetas. Chegou um ponto em que não tinha mais vontade de escrever, porque não sabia se voltaria a ver os meus escritos. Esse caderno que saiu foi uma sorte, alguém que já tinha a experiência de estar preso em Angola sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde e conseguiu camuflar o caderno numa coisa saiu e que foi para a cidade. Eu estava a 100 quilómetros da cidade.
Acha que o seu grito acabou por inspirar mais pessoas não só em Angola, mas em outros países?
LB: Não sei se poderia dizer que inspirou outras pessoas um pouco por todo o mundo, ou em Angola e que isso esta a transformar alguma coisa. Não estou muito preocupado com o ego, a vaidade, esta coisa do eu, não gosto muito de falar disso. Não estou sozinho, mas se o que estámos a fazer esta a transformar, isso seria óptimo, não por uma questão de vaidade, espero não me contagiar com isso. O que se esta a conseguir é a transformação social num ambiente político que é hostil, acho que isso é muito superior, seja por acção individual, ou seja de quem for.
Mas, ajudou dar a conhecer o seu caso.
LB: Lá esta a estupidez dos regimes totalitários de não se darem de conta dos limites e a visibilidade que se pode dar a um grupo de pessoas que até é pequeno e insignificante e que passam a ter um palco e um espaço. Foi sem dúvida o grande holofote mediático mundial que acabou por reverter a nossa situação, senão fosse isso, estaríamos na cadeia até hoje.
Foram 36 dias de uma greve de fome, quais foram as sequelas físicas e psicológicas que ficam? As crónicas ajudaram nesse sentido?
LB: Não, porque o escrevi antes. Aquilo foi escrito no primeiro mês, a greve de fome acontece no terceiro mês de carcere, felizmente quando fui fazer uma série de exames a seguir não apareceu nada que me tivesse afectado, foi milagroso. O médico avisou-me ao 30º dia que estava tudo aparentemente bem, mas a partir daí tudo conta, podia ter falência de órgãos em cascata.
E a nível psicológico ficaste com receio de espaços fechados? Ou de estar sozinho?
LB: Não, gosto de estar sozinho, se calhar foi por causa disso que a solitária não me afectou tanto, tive muitas coisas positivas no meio deste transtorno. Foi sobretudo à minha família que sentiu mais. Eu fui “bem tratado” na prisão, a minha mulher até me levava salmão. Parece até que estou a minimizar a gravidade da situação, mas eu prefiro olhar para o que houve de positivo, tive tempo para ler e estive informado sobre a revolta que houve na sociedade e como a começou a transformar. O pior para mim foi estar afastado da minha filha.
Acha que as condições que teve na cadeia que acabou de referir surgiram porque o seu pai foi uma figura pública em Angola?
LB: O meu já faleceu em 2006 e os meus colegas também estavam em celas solitárias, privados de ver-nos, eu até fui adicionalmente privado de ter visitas depois e houve um episódio de revolta pela forma como nos estavam a tratar. Mas, nesses 3 primeiros meses todos os que tiveram na mesma prisão do que eu, sofreram o mesmo tratamento, não houve nada diferenciado.
Então o que notou é que graças a uma campanha internacional houve um tratamento diferente? Porque outro tipo de presos que não tiveram os holofotes mediáticos e as acções de organizações não governamentais por detrás teriam recebido o mesmo tratamento?
LB: Eu tenho a certeza quase absoluta que sim, não o posso comprovar, teria sido diferente senão fossem os holofotes mediáticos. Eu conheço pessoas que neste momento são presos políticos que não estão a ter o mesmo tratamento. E quanto mais eles podem torturar as pessoas, ao priva-los dos seus direitos plasmados na lei prisional, eles fazem-no sem hesitar. Só quando as pessoas conseguem passar a mensagem cá para fora é que eles acabam por ceder. Tenho a noção com toda à atenção que tivemos eles tiveram mais cuidado, mais ou menos.
E as pessoas que referiu que estão presas e a sofrerem todo o tipo de tortura, o Luaty é a sua voz cá fora agora?
LB: Não gosto de me arvorar da voz. Eu sou mais um, é o que tenho tentado ser e não ser singularizado dessa forma. Portanto, continuo a fazer o que fazia antes de ser preso e colocar o foco nas injustiças que acontecem em Angola, mas de maneira nenhuma me considero representante dessas pessoas. Se me considerarem um deles já me considero reconhecido.

O palmarés da 25ª edição do Curtas Vila do Conde foi entregue a um filme português de Marta Mateus.

O júri do festival internacional considerou o filme “Farpões baldios” "uma obra tão luminosa quanto exigente" que "revivifica uma linhagem de obras onde a infância desbloqueia os sofrimentos, os erros e a virtualidades do passado, tradição que devemos, entre outros, a Manoel de Oliveira, a António Reis e Margarida Cordeiro, a Teresa Villaverde". A curta-metragem venceu ainda o grande prémio DCN Beers da Competição Internacional.
Na mesma competição, "My Burden" de Niki Lindroth von Bahr foi o vencedor do prémio para Melhor Animação; "O Peixe" do brasileiro Jonathas de Andrade foi considerado o Melhor Documentário e "Les Îles" de Yann Gonzalez foi premiado com o troféu para Melhor Ficção. O Prémio do Público Niepoort foi atribuído pelos espetadores a "Retouch" do iraniano Kaveh Mazaheri.
A espanhola Laura Ferrés venceu o Prémio de Melhor Curta-Metragem Europeia com "Los Desheredados". O filme ficou, assim, nomeado para os European Film Awards da European Film Academy.
Na Competição Nacional, que contou com 16 filmes portugueses a concurso, o vencedor do Prémio BPI e Pixel Bunker foi "Où En Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues?", de João Pedro Rodrigues, um filme que, segundo o júri, é "capaz de fazer explodir tudo, e o mais depressa possível", debatendo-se com o auto-retrato da humanidade por ela própria, empreendimento geral que é o cinema, ao mesmo tempo que desloca os princípios da autobiografia."

Gabriel Abrantes venceu, pelo segundo ano consecutivo, o Prémio Blit para Melhor Realizador Português, desta vez com "Os Humores Artificiais". Nas palavras do júri, o prémio foi atribuído ao realizador "pela sua fantasia romântico-tecnológica, por ter inventado o primeiro robot multigénero, por ironizar energicamente um mundo onde não queremos viver".

O Prémio do Público SPA, destinado ao melhor filme português com melhor média de votação atribuída pelo público, foi atribuído à animação "Surpresa" de Paulo Patrício.

Também pelo segundo ano consecutivo, a realizadora Rosa Barba venceu a Competição Experimental, com o seu novo filme "From Source to Poem". O Prémio Grupo Jorge Oculista foi atribuído "pela inteligência da sua proposta visual e sonora, a criação de uma constelação não-linear de imagens e sons do maior arquivo multimédia do mundo, onde a presença de texto e tipografia aparecem em constante transformação, refletindo os interesses da artista relativos à permanente perda de informação essencial". Ainda na Competição Experimental, foi atribuída uma Menção Honrosa a Lois Patiño pelo filme "FAJR".

No Curtinhas, secção para os mais novos onde o júri é composto por crianças, o Prémio Curtinhas MAR Shopping foi entregue a "Revolting Rhymes, Part One" de Jakob Schuh e Jan Lachauer. Nesta competição foram ainda distinguidos com menções honrosas os filmes "Jubilee" de Coralie Soudet, Charlotte Piogé, Marion Duvert, Marion El Kadiri e Agathe Marmion; "Lost In Spring" de Fred Leao Prado Wall e "Mindenki", de Kristof Deak.
João Nicolau venceu a Competição de Vídeos Musicais com "Old Habits" de Minta & The Brook Trout.
Na Competição Take One!, dedicada a filmes de escola, foram entregues à curta-metragem "De Gente Se Fez História", de Inês Pinto Vila Cova, o Prémio IPDJ, o Prémio Smiling, o Prémio Agência da Curta Metragem e o Prémio Restart. Ricardo Pinto de Magalhães venceu o Prémio Kino Sound Studio para Melhor Realizador pelo filme de escola "Delphine Aprisionada".
Os filmes premiados repetem, este domingo, no Teatro Municipal de Vila do Conde, em várias sessões. Os premiados serão também apresentados, em diferentes cidades do país, através das extensões do festival que arrancam já amanhã.
Gabriel Abrantes won, for the second consecutive year, the Blit Award for Best Portuguese Director, this time with "The Humores Artificiais". In the words of the jury, the award was attributed to the director "for his romantic-technological fantasy, for having invented the first multigeneric robot, for ironically energetically a world where we do not want to live."
The Público SPA Award, for the best Portuguese film with the best voting average attributed by the public, was attributed to the animation "Surprise" by Paulo Patrício.

Um estudo inédito que surgiu de um repto lançado aos estudantes de terceiro ano de biotecnologia, pela investigadora principal do Centro de Estudos do Ambiente e do Ar, do departamento de química da Universidade de Aveiro (UA), Teresa Rocha Santos, acabou por dar frutos e descobriu-se graças a tenacidade de uma jovem estudante, Ana Paços, que o Zalerion maritimus, um fungo muito comum na costa portuguesa, consegue num ambiente em tudo semelhante ao do mar poluído com microplásticos, em apenas sete dias reduzir 77% daquele material tóxico. Para os três investigadores envolvidos nesta pesquisa “este é sem dúvida o primeiro estudo a apresentar estratégias de biorremediação, processo que utiliza organismos vivos para reduzir ou remover contaminações no ambiente, neste caso específico de microplásticos. Portanto, este trabalho pode ser considerado um primeiro passo e uma contribuição para a resolução deste problema”. Esta é também primeira solução ecológica alguma vez descoberta para combater os plásticos nos oceanos, já que, ao otimizar-se o raro apetite do fungo recorre-se a uma solução oferecida pelo próprio mar. Um achado científico que segundo o editor da revista “Sciene of The Total Environment,” onde o estudo foi publicado, abriu as portas para “um verdadeiramente novo campo de investigação”.

Como é que descobriram as qualidades deste fungo que absorve microplásticos no oceano?
Teresa Rocha Santos: É um fungo que se chama Zalerion marítimo e que tem capacidade de degradar a celulose. Portanto, é encontrado na madeira no oceano. Atendendo a que a celulose é um polímero bastante complicado, nós achámos que seria capaz de degradar plástico que é constituído por polietileno e foi o caso que testámos. Outro dos aspectos que nos levou a escolher este fungo é que existe na costa portuguesa. Era uma proposta possível interessante se quisessemos avançar com o sistema de tratamentos de plásticos na nossa costa. É uma espécie que já existia e não haveria problemas de introduzir algo novo.

Se existe na costa portuguesa, o fungo tem de ser usado em áreas controladas, porquê? Se deixarmos que este fungo actue de forma aberta ele espalha-se de forma descontrolada, como acontece nos rios e albufeiras, quando aparecem manchas de algas?
TRS: Exactamente, todo o organismo tem tendência para fazer isso. Não o podemos introduzi-lo em grandes quantidades, porque senão pode induzir a um desequilíbrio no ecossistema. Portanto, o que temos de fazer é ter locais controlados para introduzir maior ou menor quantidade de fungo e não deixar para o resto do oceano.
Como podem controlar isso com redes?
TRS: Da mesma maneira que se faz produção de algas e peixe em aquacultura, também se pode produzir um fungo nas mesmas condições. Estámos ainda a pensar o que vamos fazer na fase seguinte, antes estivemos a fazer um estudo com aluminais, depois passámos para os aquários onde nos encontrámos actualmente. Como estámos na zona de Aveiro e temos salinas abandonadas vamos criar as condições necessárias para fazer aí um género de estação de tratamento. Isto sempre será um ensaio, deverá estar afastado de aquaculturas e outro tipo de actividades deste género, porque temos de ter a certeza que não iremos produzir nenhuns danos, temos de estudar devidamente o fungo a degradar o microplásticos e ter de ter a certeza de que a água não contém componentes tóxicos.

Outra questão que tenho é se este fungo tem algum predador natural? Ou seja, há sempre organismos vivos que comem outros, essa questão se pode colocar futuramente quando coloquem o Zmaritímo em redes no oceano?
TRS: Não sabemos, porque este fungo esta muito pouco estudado, também foi um dos motivos porque achámos que também era interessante estudá-lo na altura. Efectivamente existem predadores, mas se o tivermos numa estação fechada essa questão não se coloca, à partida não temos esse problema. Temos colecções deste e outros organismos que podem ser comprados para serem reproduzidos em laboratórios, portanto não há o problema de se esgotar no oceano.

Este é um estudo pioneiro, foi publicado numa revista científica, mas há quantos anos estão centrados neste estudo?
TRS: Este estudo começado há um ano atrás, no seguimento de um convite que recebi para escrever um livro com outros autores sobre microplásticos. Na altura achámos interessante tentar procurar, toda a gente o esta a tentar, uma solução para a sua monitorização no oceano, porque é muito importante e não temos a noção de onde é que existem e em que quantidade. Por isso, é necessário fazer uma monitorização exaustiva, por outro lado, também achámos que era necessário lançar uma solução e decidi lançar o tema ao terceiro ano do curso de biotecnologia e departamento de química da UA. Uma aluna, Ana Paços, escolheu este tema, porque o achou interessante e veio trabalhar connosco. Ela era muito interessada e uma excelente aluna e com as parcerias que obtivemos no laboratório para executar estes trabalhos acabámos por obter estes resultados. O trabalho de lá para cá já evoluiu de outra forma e como ela se interessou tanto, este ano quis continuar a trabalhar connosco em regime de voluntariado, apesar de termos outras pessoas envolvidas neste assunto e ainda resolveu fazer a tese de mestrado connosco sobre este mesmo tema. Temos, neste momento, uma equipa de três pessoas para conseguir os resultados mais rapidamente.

Esta segunda fase, de testar este fungo num ambiente controlado vai ser de quanto tempo?
TRS: Não sabemos ainda, porque estámos a fazer o estudo com aquários, estámos nesta fase aquática desde fevereiro. Mediante os resultados que obtivermos, que será entre setembro, ou outubro voltámos a publicar esses resultados e tomámos uma decisão do que vamos fazer a seguir. Nessa altura, decidimos se avançámos mais ou só daqui a algum tempo e como é que vamos avançar, porque ainda não conseguimos ter essa noção.

A Fundação para a Economia Circular (FEC) organiza um novo encontro ibérico, no próximo dia 22 de junho, no círculo das Belas Artes, em Madrid.

O debate visa dar a conhecer à actual situação da península ibérica no âmbito do novo pacote de Economia Circular. Um dos oradores confirmados, na comitiva portuguesa, é Fernando Leite, administrador-delegado da LIPOR.
Desde que o novo pacote de Economia Circular foi apresentado pela Comissão Europeia em dezembro de 2015, Portugal e Espanha, tal como outros países europeus, começaram a efetuar a migração para um novo modelo económico. No entanto, durante esta transição, as duas nações vizinhas ainda apresentam determinadas questões por resolver, que acrescem a outras mais recentes que são um verdadeiro desafio e estão no centro do debate atual europeu no domínio da economia circular.
Nesta quinta edição do Meeting Point, a FEC pretende demonstrar com a ajuda de algumas administrações locais espanholas, que é possível implementar políticas locais adequadas em termos de recursos materiais, produtos e resíduos que aumentam a participação social e conseguem aumentar as taxas de reutilização e material reciclado. Bem como, aplicar um imposto, coerente, transparente e proporcional aos objetivos ambientais pretendidos, destinado a incentivar a cooperação dos cidadãos e pequenas empresas, não penalizando aqueles que contribuem adequadamente para a gestão de resíduos produzidos pela administração local.

A Fundação de Economia Circular pretende ainda abordar outro dos assuntos pendentes tanto em Portugal como em Espanha, a questão do desenvolvimento de estatísticas de resíduos. Como interpretar as estatísticas anuais sobre a gestão de resíduos publicadas pelo Eurostat? Quais são os pontos de divergência e por que motivo? Como poderiam ser corrigidos?

No âmbito da economia circular, há outros três temas que neste momento merecem ser alvo de um debate essencial. O primeiro está relacionado com as interações entre as políticas da UE em termos de substâncias químicas, produtos e resíduos. Como conciliar objetivos ambientais da reciclagem cada vez mais exigentes com o desenvolvimento da legislação “REACH”? O regulamento “REACH” deve ser utilizado para proibir determinadas substâncias químicas em materiais secundários? Que medidas podem ser contempladas para garantir uma economia circular "não tóxica"?
O segundo tópico, concerne à comunicação da Comissão Europeia sobre o papel de transformação de resíduos em energia no âmbito da economia circular, datada de 26 de janeiro de 2017. Que conclusões podem ser tiradas? Qual a forma de recuperação energética que atualmente deveria ser prioritária em Espanha e Portugal? E qual para os territórios insulares?

Por fim, a luta contra o “littering”, ou os chamados resíduos de varredura. O que pode ser feito para parar o fluxo de resíduos de origem terrestre que chegam ao mar? Como actuar para cobrir os custos ambientais e económicos da luta contra o littering? Qual é o regime de responsabilidade aplicável? Até onde chegou a inovação relativamente à correção do problema? O que pode ser feito em termos da educação e cidadania?

A Fundação para a Economia Circular é uma organização privada, de âmbito ibérico e projeção supranacional, formada por um patronato composto por antigos altos cargos de administrações autonómicas com um grande equilíbrio territorial e político. Colaboram com esta instituição personalidades experientes ao nível mundial, administrações públicas, entidades privadas e agentes sociais. A FEC trabalha em tarefas relacionadas com a economia circular, a sustentabilidade, o uso dos recursos e o meio ambiente. Actualmente é líder indiscutível em conhecimento a respeito destes sectores de actividade, prolongando seu trabalho de excelência pelo meio ambiente em Portugal, Espanha, o resto da Europa, a bacia mediterrânica, a Latino-América e aos territórios insulares do planeta.

http://economiacircular.org/

sexta, 09 junho 2017 15:24

Jornadas de Teatro´17

Fórum de Artes Performativas Independentes

Teatro Nacional São João
12-13 de Junho de 2017

As artes performativas em Portugal encontram-se numa encruzilhada: há novos modelos de apoios às artes em preparação; as condições de acesso, apresentação e circulação das artes sofrem alterações significativas; há novos artistas que surgem no panorama português, mas também muitas indefinições quanto ao seu estatuto e condições de trabalho.

No seguimento das Jornadas de Teatro que aconteceram em 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, as principais organizações representativas do setor das artes performativas realizam novas jornadas no âmbito do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, nos dias 12 e 13 de Junho, no Teatro Nacional São João, a fim de proporcionar um fórum onde todos os artistas, criadores e envolvidos nos campos das Artes Performativas se possam encontrar e debater estes e outros problemas que afetam o setor.

 

 

terça, 23 maio 2017 11:45

A acústica dos les saint armand

“Nó” é o título e single que apresenta o primeiro EP da banda nacional, que embora exista há dez anos, só em 2106 decidiu apostar na sua sonoridade acústica com raízes portuguesas, mas que também alberga influências musicais do mundo.

O álbum “Nó” tem muitos temas com a guitarra clássica, algumas das canções são até bastante compridas, com quase sete minutos de duração. Quando compuseste os temas para estes álbuns começas pela construção das melodias?

Tiago Correia: Sim, nós temos uma espécie de premisa que é tudo é acústico. A essência e a origem da banda consistiam em duas pessoas com a guitarra clássica, com as vozes e uma harmónica e quando começámos a envolver mais elementos, não quisemos “cair” na electrónica, nem usar guitarras eléctricas, porque sempre acreditámos pelo menos na nossa música. Na altura não havia este boom de bandas a cantar em português, as nossas canções deveriam funcionar nessa simplicidade, ou seja, deviam fechar-se em si mesmas pela melodia e pelo acompanhamento clássico. Assim, em vez de ser pensar num tema, num certo tempo colocar uma bateria, acolá uma parte de contrabaixo, não, o foco sempre é na melodia, na letra e no que queríamos transmitir.

Tu crias as melodias com o António Parra.
TC: Sim, inicialmente as melodias eram criadas pelos dois e por isso havia uma criação conjunta. Entretanto, acabámos por seguir as nossas vidas. A banda existe há dez anos e muita coisa foi mudando, uma grande parte dos temas são feitos na guitarra, depois críamos a melodia e os arranjos são feitos por todos em conjunto, é questionada por todos, é uma espécie de composição por camadas.

A melodia e as letras são feitas em paralelo? À medida que crias o som, vão surgindo as palavras?
TC: Sim já aconteceu com alguns temas que começaram pela guitarra, mas vão-se transformando um ao outro. A letra vai sofrendo alterações conforme aquilo que a música pede e também a melodia pode ser adaptada em função das palavras. Não criámos separadamente a melodia e depois juntámos a letra à força. É um trabalho em sintonia, há a necessidade de sublinhar determinadas palavras, dar mais valor a uma do que outras, é tudo feito no sentido de potenciar a canção no seu todo.

Então, como tem esse processo musical por camadas, com certeza, ao longo destes anos e tiveram muito tempo para practicar até chegar a este primeiro EP, o que regeu a escolha dos temas no “Nó”.
TC: De facto temos mais de 30 temas e os nossos concertos são de uma hora e meia, já com 15 músicas e há cinco anos era assim nos concertos. Ao longo do tempo houve elementos que saíram, estivemos algum tempo parados, depois voltámos, mas erámos só três, foi nessa fase que estivemos a trabalhar muito detalhadamente as vozes, os coros e esta linha de guitarras. Na altura estávamos sem contrabaixo e bateria e chegámos a 2012, 2013 com mais de 20 concertos, mas nunca durante esse período de tempo lançámos nada oficialmente e a determinada altura foi mau, em termos de oportunidades. Quando aparecemos como banda não havia o boom da música portuguesa cantada em português, os “Orquestrada”, o “B Fachada”, o Samuel Úria, os “Diabo na Cruz”, esses músicos não tinham lançado nada, mas naturalmente surgiu essa necessidade de escrever em português e apesar de não termos tido nenhuma ligação com eles, tornou-se uma moda. Ao fim de nove anos percebemos que temos 30 anos practicamente todos e as nossas vidas mudaram, três elementos são do teatro, portanto, temos sempre quotidianos com horários complicados, a música foi sempre uma actividade paralela e depois decidimos que não podia ser, não tínhamos as músicas registadas e tínhamos que lança-las e disponibiliza-las ao público. Os nossos temas já foram tocados por muitos músicos e sentimos pelo menos essa responsabilidade em relação as pessoas que nos acompanharam, durante estes dez anos, em dar-lhes a possibilidade de guardarem esses temas. Quando partimos para o “Nó” era porque não tínhamos capacidade de gravar um álbum, então, decidimos começar com o EP e tentar de uma forma séria e activa preparar um disco com mais de 10 ou 11 temas que também é a nossa história e quem sabe mais o que teremos para contar. O “Nó” surgiu não tanto por ser àquele álbum, mas decidir que músicas que íamos trabalhar com os novos elementos que entraram na altura, o Alex Rodrigues na bateria e o Aníbal Beirão no contrabaixo. Decidimos escolher 6 temas que para nós faziam mais sentido, foram as músicas mais recentes, sacrificando as canções da primeira fase da banda e deixando-as para a próxima oportunidade. A ideia é mostrar qual é a nossa linguagem agora, o nosso potencial na composição, essa viagem nos temas mais longos, são canções que nos tocam e pensámos muito nisso, ser uma espécie de viagem do início até o fim, passando por várias atmosferas em que há um períplo por esse som.

Porquê o título “Nó”?
TC: Precisamente por isto, além de ser o single, tem a ver com a metáfora de compromisso, não sei se conhece a expressão dar o nó?

Sim.
TC: E, portanto, era uma metáfora para isso, agora, viemos para ficar e para levar este projecto a sério como outro qualquer nas nossas vidas. É uma espécie de compromisso com connosco, com o público e as pessoas que nos seguem e desta vez não parámos para recomeçar de novo, viemos para ficar. Ao mesmo tempo é o oposto, a dificuldade que foi lançar o EP, tantos anos a tentar sem conseguir, demos este passo essencial que é gravar e entrar no circuito musical.

Um dos temas não tem título, a única vez que tinha visto algo sim foi nas exposições de arte.
TC: Viemos quase todos do teatro, alguns são músicos de jazz, mas foram as últimas pessoas chegar ao projecto. Vemos a criação artística seja no que for e a vemos da mesma maneira e talvez por isso uma música para nós é um quadro, um filme ou peça de teatro. A música tem este poder de em 3 a 4 minutos chegar as pessoas, de as tocar profundamente, o que uma peça de teatro faz numa hora e meia. A música tem esse poder com palavras, ou mesmo poucas, de conseguir chegar as pessoas. Esta sem título também, porque é um tema que costumámos chamar de raiz, porque é uma música que fala de uma mulher no presente que é rainha da paixão, que esta por cima de todas as coisas e talvez por isso preferimos não colocar um título, porque rainha seria demasiado.

Demasiado pretensioso?
TC: Sim e pomposo, por ser uma coisa que não é possível nomear, seria redutor chamar todo aquele poder feminino, é diminuidor até chamá-lo de rainha. Por isso se chama “sem título” é uma espécie de ironia.

Neste momento estão em tournée pelo país para apresentar o “Nó”, então tocam as seis músicas do álbum, mais os 30 temas que referiste?
TC: Não, para já temos um alinhamento de 15 canções, estámos a desvendar o que será muito do próximo álbum. Estámos a rodar muito para tornar a banda mais coesa e que o próximo disco tenha essa mesma energia.

O próximo terá sempre como pano de fundo esta melodia acústica, continuam com essa linha?
TC: Sim, primeiro queríamos por cá para fora os novos temas, mas temos cantado uma canção de 2008 e que vislumbra o que é o futuro da banda, mas não queria desvendar muito sobre o próximo álbum, porque estámos a presentar o “Nó”. Queremos mostrar as potencialidades da canção, de que forma se pode desconstruir sem perder as suas raízes, o seu lado mais essencial que é a poesia cantada. Também estámos a explorar como a canção se poder abrir e novidades em como fazer as coisas. Estámos sempre muito preocupados em procurar uma forma nova que nos surpreenda de alguma maneira, fazer uma canção com uma estrofe, um refrão e uma terceira parte é muito redutor, queremos ir até as raízes da música portuguesa, do mundo, mas que possa deixar esse molde repetitivo. Não tentámos ser comerciais nesse sentido, mas gostámos que a nossa música seja ouvida por todos os tipos de públicos e isso é importante para nós. Isso não quer dizer que sejamos amplos em termos musicais para que toda a gente goste, não pensámos muito nisso, queremos fazer algo de que gostámos e que esteja interligado com as nossas raízes e mesmo que reflita a influência da música que ouvimos, desde os Radiohead a Maia Andrade, o Tom Jobim, é um espectro muito grande.

O facto de estarem em tournée e a criar canções ao mesmo tempo para o próximo álbum, ajudou? Tocarem juntos ajudou na construção das melodias?
TC: Sim, completamente, porque quando gravámos o EP e começámos a tournée há temas do “Nó” que não tocámos da mesma forma. As canções já evoluíram, como somos uma banda independente, não tivemos tempo para estar um mês parados a tocar e essa foi uma das limitações. Depois os elementos novos só entraram recentemente, ou seja, ao fim de 20 concertos e de ter tocado para tanta gente, há uma banda, já sabemos o que o outro vai fazer, partilhámos uma linguagem de uma forma mais coesa. Os elementos mais antigos que é o António Parra, eu e o André Teixeira já estamos juntos de 2009 e o Alex Rodrigues e o Aníbal Beirão só entraram em 20015 e agora é impossível imaginar esta banda de outra maneira. O facto de termos estado a tocar os temas do EP, as músicas novas e trabalha-las em conjunto fez com que fossemos sempre introduzindo novas canções aos concertos, experimentámos e há toda uma diferença. O próximo álbum será mais coeso, terá outra energia e será mais forte. Eu penso que é impossível que não seja assim, tanto é que há temas que gostaria de tê-los feito de outra maneira.

Era exactamente isso que te ia perguntar a seguir, como estas a dizer que pegaram em algumas canções e as melhoraram se consideram relança-las de novo, fazer um remix?

TC: Eu gostava, porque os temas estão sempre em processo. Como somos independentes e não temos uma editora por detrás a pressionar fazer tudo da mesma maneira, desde que encontrámos espaço para evoluir, não vamos deixar de o fazer para tocar de uma determinada forma. Assim, as músicas continuam a crescer e nesse sentido queríamos estar a gravar os temas todos para mostrar a evolução, quem ouvir o concerto em 2010, que tem canções do “Nó”, vai gostar dessas músicas, ou não. Por outro lado, estas canções estão gravadas e temos muito mais por gravar, em principio não devemos repetir, mas queremos mostrar outras, continuaremos a aperfeiçoa-las, mas no futuro talvez encontremos uma oportunidade de as tocar de novo. Se houver essa possibilidade porquê não? Gostaríamos de ter a alternativa de parar dois ou três meses, se nos dessem condições para isso fazíamos um súper álbum, ou um duplo. A verdade é que estámos limitados pelo tempo que estámos na música, por isso, creio que o nosso álbum seria um best off.

Depois da tournée quando pensam lançar este segundo álbum?
TC: Eu gostava que este novo álbum saísse no início de 2018. Este ano estaríamos a apresentar o “Nó” e temos vários concertos agendados até o final do ano. O Outono é um período menos profícuo em termos de concertos do que no Verão seria uma altura ideal para gravar e estámos a tentar arranjar condições para isso.

Mas, ainda não tem uma editora?
TC: Não temos.

https://lessaintarmand.bandcamp.com/

terça, 23 maio 2017 11:34

Escolhas, o livro

Dizem que uma imagem vale por mil palavras, nesta livro de fotografia de Miguel Leitão Jardim, a premissa é ligeiramente subvertida há 14 fotografias que servem como fonte de inspiração para vários autores. Cada uma das imagens sugere um poema, com menos palavras é certo, mas plenas de significado.

Qual foi o ponto de partida para este livro de fotografia?
Miguel Leitão Jardim: O ponto de partida foi uma série de viagens minhas em espaços museológicos. Especialmente Serralves, no Porto e as Mudas, na Madeira e ao contrário de outros trabalhos este surgiu de algumas dessas fotografias que fiz e que me motivaram a continuar uma série que percebi que tinha, aumentá-la e dar-lhe vida. O enquadramento que surgiu resulta dos vários autores que foram convidados para escreverem sobre as várias imagens que estavam aliadas a este projecto.

Fala-me das imagens. São na sua maioria a preto e branco.
MLJ: Sim, só com excepção de uma que tem o elemento de cor que é o centro do livro, tem um texto também, embora tenha aparecido posteriormente ficou muito bem enquadrado para a ideia que eu tinha para a imagem central do livro que é uma cadeira vermelha.

As imagens a preto e branco também estão relacionadas com os próprios espços?
MLJ: Sim, tem a ver com os espaços muito brancos, muito negros e pouca cor. É o conceito do livro e por isso achei que aqui muita cor não faria sentido, com a excepção que mencionei.

terça, 23 maio 2017 11:30

O homem dos mil rostos

Fernando Alvim é um dos comunicadores mais multifacetados ao nível nacional. É dono de um estilo muito próprio de entrevistar, apresentar programas e escrever humor que fazem as delicias dos ouvintes, telespectadores e leitores que o acompanham há mais de 20 anos.

És radialista, apresentador, humorista e empreendedor, tens uma série de facetas, qual delas te define? Ou não?
Fernando Alvim: Não tem a ver com uma que me defina melhor. Eu sou uma série de coisas e não uma só. Há quem goste de fazer apenas uma, eu estou um bocado em várias e as pessoas perguntam-me como consigo fazer tanta coisa? Eu costumo dizer que é a única forma de fazer cada uma delas, isto é, se eu tivesse só uma faceta possivelmente já me tinha aborrecido e tinha desistido. Assim, faço tanta coisa, vou variando e é como consigo viver.

Como consegues gerir o tempo, porque tu também escreves tudo, quando fazes um programa ao vivo preparas-te antes?
FA: Não, eu quando faço um programa ao vivo, nunca escrevo. A minha preparação advém de ler muito, jornais e revistas, leio em função das pessoas que vou entrevistar, mas também para mim, para me alimentar cerebralmente. O resultado disso tudo faz com que tenha um verdadeiro interesse em saber sobre a pessoa que esta à minha frente, quem estou a entrevistar. Há um erro comum nos entrevistadores que é não ouvirem o que o entrevistado esta a dizer, faz com que estejam muito focados com as perguntas que preparam e não com aquilo que o convidado diz.

É como se fosse uma barreira?
FA: Não é como se houvesse algo de rígido em relação as perguntas. Sabes que a próxima pergunta é se sou do Benfica, o que é verdade e parece que não estas a ouvir o que a pessoa te esta a dizer e não colocas uma questão em função disso. Ora, as vantagens de um convidado perceber que tu estas atento ao que diz são muitas, primeiro, demonstras audácia, perspicácia e és rápido no tratamento dessa questão, geras automaticamente mais respeito e possivelmente mais um grau de exigência das suas respostas. Se fores previsível, sem chama e nada inesperado, podes fazer com que o teu convidado perceba que não és diferente dos demais e passas a ser vulgarizado pelo olhar da pessoa que entrevistas. Quando vêm pessoas a entrevistar-me e fazem-me perguntas clichés, tipo, fala-nos sobre um episódio marcante da tua vida? Ou numa banda, porquê se chamam assim? Ou qual é o vosso som? Isso demonstra que o entrevistador não tem o mínimo de conhecimento sobre quem esta a entrevistar e não vai ser tão respeitado quanto poderia ser.

Sim, isso é muito bom quando tens um entrevistado como tu que dizes uma série de coisas, ou outros que dão um enorme feedback, mas existem pessoas que são muito minimalistas no seu discurso e aí o que é que tu fazes?
FA: Eu costumo usar uma tática que é esta, nunca ponho a culpa no árbitro, eu nunca culpo o convidado. Porquê sou eu que estou que estou a fazer a entrevista? E não aquele senhor que anda pela rua? Não é por fazer a entrevista fácil, tanto o senhor que anda pela rua, como eu o poderíamos fazer entrevistar alguém como o Manuel Luís Goucha é fácil, porque é alguém que adora falar, qualquer pessoa o pode fazer. A diferença entre uma pessoa qualquer e eu é que vou salvar o difícil, é por isso que estas lá estas e te pagam ao final do mês, as pessoas pagam-me não para resolver um problema fácil, quando tenho um desses convidados que não diz nada, é monossilábico, tenho que salvar o programa. Eu dou-te um exemplo, há uns anos entrevistei um contador da história, como é óbvio perguntei-lhe se nos podia contar uma história, ele não quis e eu fiz cinco vezes esta pergunta ao longo do programa e cinco vezes ele disse que não queria contar uma história e eu tive de contar uma, o programa foi marcante para mim porque de facto foi isso que aconteceu. Tive que esforçar-me mais para salvar essa situação que é surreal, porque tens um contador de histórias que não te conta histórias e tens um programa de uma hora. Portanto, vais falar de quê? Acho que salvei o programa.

Quando terminas um programa, ou mesmo no ar, vais ver o feedback que recebes?
FA: Não, é muito raro. A questão é esta, não quero que qualquer tipo de comentário possa interferir com a minha audácia, coragem e que vá para casa a pensar sobre o que li ontem. Portanto, desde há uns anos que não leio nem as coisas boas, nem as más.

Vais corrigir o teu Wikipédia?
FA: Nunca fui ver, não sei como esta a minha Wikipédia, nem quero saber.

Já alguma vez foste ao google fazer uma pesquisa ao teu nome?
FA: Não, nunca fiz, nunca fui ver. Para mim passa o que as pessoas me dizem na rua, são as que me interessam. Não é a virtualidade.

Então quais são as principais características que um comunicador deve ter?
FA: Deve gostar de pessoas, deve saber comunicar com elas, mais do que falar, deve ouvir, esse é o grande segredo.

Porquê criaste uma editora só para humoristas?
FA: Porque não existia e achei que poderia ser uma boa forma de editar livros. Não havendo uma editora para humor achei que era uma boa forma de criar uma chancela diferente. Para mim não tem sentido nenhum, por exemplo, se houver um restaurante que vende atum, abrir um que só tem esse peixe e não outro, ou fazes uma coisa que seja diferenciadora, original e claramente algo que te realize, senão, não vale a pena, embora não tenha jeito nenhum para o negócio, portanto, estou à vontade para fazer isso.

Também ajudaste a criar um canal de televisão.
FA: Sim, sou uma pessoa criativa, nada passiva, não estou à espera que as pessoas se lembrem de mim, ou me convidem para projectos, sou eu me lembro de mim em primeira instância e depois proponho essas ideias as pessoas à medida que os vou criando. Sou muito dependente das minhas próprias ideias, que dependem de outras para as aprovarem, mas são minhas.

Como és uma personalidade pública há vários anos, na rádio e tv, deve ser mais fácil aceitarem os projectos que propões? Daí o canal Q?
FA: É possível que assim seja, é a ordem natural da vida, o reconhecimento pode no fundo nos dá uma respeitabilidade, mas a idade não é um posto, nem nunca será, nunca ouvirás da minha boca, agora não tenho que provar nada a ninguém. A vida é uma contínua prova, de não resignação. Percebi que com a idade tornei-me mais crítico ainda e menos resignado o que é uma coisa incrível, mas é verdade.

Tens menos medo de ser diferente também?
FA: Eu nunca tive medo de ser diferente. Nem menos, nem mais. Nunca tive. Sempre privilegiei à originalidade em detrimento de mais do mesmo. Não é de todo o meu objectivo.

Então, como é que te dividindo em mil e uma tarefas, tens tempo para ler…
FA: Sim, tenho uma vida. Isso é essencial.

E tens uma vida social?
FA: Sim, consigo ter.

És uma pessoas muito regrada nos teus horários?
FA: Não sou, mas sei criar espaços para minha vida e isso é fundamental.

E quando tens tempo para ler, já que lês tanto?
FA: Olha leio, por exemplo, à noite, quando me deito, leio uma hora. No domingo à noite, vou para a rádio e leio durante cinco a seis horas todos os jornais e tomo apontamentos sobre quem quero entrevistar.

E o que estas a ler à noite?
FA: Estou a ler um livro do Beckett que tem três romances, “O inominável”, o “Molloy” e o “Murphy”. Este escritor é uma espécie de Messi da literatura, eu gosto disso.

E ainda lês jornais e revistas em papel? Ou é tudo online?
FA: Geralmente leio muitos em papel.

Ainda compras?
FA: Não é preciso, como na rádio tem todos os jornais e revistas leio, mas compro muitas revistas, ainda não sou totalmente mitra, já não é mau.

E és do que acredita que a versão papel vai desaparecer dos meios de comunicação social?
FA: Acredito. Acho que não vai desaparecer completamente, mas vai sofrer um grande desgaste. Ninguém quer ler notícias de ontem quando só te interessam as de hoje.

E qual é o conselho que darias a um jovem que esta a começar uma carreira nesta área da comunicação, onde existe tanta dispersão e a informação flui de todos os lados?
FA: Acho que vai ganhar o que investir mais em si. Deve ler, deve esta mais informado e fazer cursos que o passam tornar mais forte que os outros. A ideia de ter um canudo e pensar que já não temos que estudar mais, francamente é uma ideia obsoleta. Acho que temos de estudar todos os dias, para evoluirmos, tornar-nos mais competentes e melhor do que outros, para desempenhar melhor uma função.

E ser polivalente? Como tu que estas disperso por várias áreas?
FA: Eu creio que a polivalência é importante, porque não estas seguro em apenas numa vertente. Muito mais nos dias de hoje, se te falhar uma valência tens outra, penso que é facilmente compreensível.

Tenho uma curiosidade, tu começaste nas chamadas rádio piratas, que já não existem, mas não só estas nesse meio, como fazes podcast.
FA: Faço podcast que são cada vez uma realidade para tu descobrires talentos na comunicação social sem precisares de ninguém, nem sequer de uma rádio para emitir. É cada vez mais difícil ir para uma rádio com um programa que te aceite, isso já não existe e é bom. Podes fazer rádio no “youtube”, tens os youtubers e isso faz com que sejas dependente de ti próprio.

E já reconheces algum desses novos talentos que andas a ouvir nos podcast ou no “youtube”?
FA: Não, eu que ando sempre alerta sobre isso e ainda não apareceu alguém que se destacasse nos novos talentos.

Achas que portugueses não os apreciam?
FA: Não, acho que há comunicadores óptimos, não vou dizer nomes porque acho que seria injusto com alguém. Temos muito bom talento, então, no domínio do humor temos muitos.

E quais desses talentos é que gostas?
FA: Temos o Salvador Martinha, Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira que não são novos talentos, estão é completamente sedimentados. São pessoas que me fazem rir muito.

Achas que os portugueses são hoje em dia mais receptivos a esses meios de propagação digital? Somos um povo que no início da internet não erámos muito receptivos à publicação de conteúdos.
FA: Claro que sim, hoje em dia, vê-se que os vídeos mais partilhados e comentados são os de humor. É claramente o meio de maior partilha e de maior reconhecimento na internet.

Então és fã do “youtube”?
FA: Não sou nada dependente do “youtube”, no sentido de ser grande fã, sou consumidor, mas não vou todos os dias.

terça, 23 maio 2017 11:25

Workshop de critica de cinema

Trata-se da segunda edição deste evento inserida na programação do 25º Festival de Curtas-metragens de Vila do Conde.

A história do cinema é já longa e centenária. Ao longo das décadas, o cinema conviveu com um discurso crítico sobre a sua própria condição. A crítica de cinema, primeiro alicerçada em publicações físicas como revistas e jornais, ocupou um lugar central na construção de um cânone sobre os discursos do cinema. Nos dias de hoje, a crítica está a sofrer várias mudanças, sobretudo pela alteração do seu suporte, passando da imprensa física para a internet, com a sua democratização, mas também com a sua banalização.
Reconhecendo a complexidade do novo paradigma crítico, este workshop vai ao encontro da necessidade de formar e potenciar novos valores da crítica de cinema, permitindo um diálogo entre gerações e uma plataforma para desenvolver uma discussão crítica sobre os filmes que são exibidos no Curtas Vila do Conde.

O workshop será composto por duas fases, a primeira mais direcionada para uma aprendizagem dos diferentes modos de crítica e de diferentes modelos da história do cinema, através de masterclasses e conversas. A segunda, em modo tutorial, para o acompanhamento do festival e a produção de textos. Este material produzido pelos participantes será publicado nas plataformas web do festival, assim como pelos parceiros de imprensa. A formação será orientada por tutores do festival e por convidados de imprensa nacionais e internacionais. Tem uma duração prevista para 7 dias, incluído 22h de masterclasses e 24h de tutoriais.
Programa

Trata-se de um curso intensivo, em que os participantes estão ativamente envolvidos no festival, visionando filmes e escrevendo textos para publicação. O Workshop inicia no dia 7 de julho e prolonga-se até 14 de julho, com orientações tutoriais diárias, visionamento de filmes, participação em debates e uma masterclass diária com convidados.
Tutores
Daniel Ribas e Paulo Cunha
Oradores convidados
Jorge Mourinha, Javier H. Estrada, Nicole Brenez, João Tabarra, Filipa César, entre outros.
Tópicos a abordar
Técnicas de escrita e de entrevista, modos da crítica, tendências do cinema contemporâneo, cinema experimental, arte cinemática.
Inscrições
As inscrições são aceites até 31 de Maio de 2017

Inclui Free Pass que dá acesso a todas as sessões do festival, salvo excepções assinaladas no programa.

www.curtas.pt

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