Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

h facebook h twitter h pinterest

Yvette Vieira

Yvette Vieira

terça, 23 maio 2017 11:45

A acústica dos les saint armand

“Nó” é o título e single que apresenta o primeiro EP da banda nacional, que embora exista há dez anos, só em 2106 decidiu apostar na sua sonoridade acústica com raízes portuguesas, mas que também alberga influências musicais do mundo.

O álbum “Nó” tem muitos temas com a guitarra clássica, algumas das canções são até bastante compridas, com quase sete minutos de duração. Quando compuseste os temas para estes álbuns começas pela construção das melodias?

Tiago Correia: Sim, nós temos uma espécie de premisa que é tudo é acústico. A essência e a origem da banda consistiam em duas pessoas com a guitarra clássica, com as vozes e uma harmónica e quando começámos a envolver mais elementos, não quisemos “cair” na electrónica, nem usar guitarras eléctricas, porque sempre acreditámos pelo menos na nossa música. Na altura não havia este boom de bandas a cantar em português, as nossas canções deveriam funcionar nessa simplicidade, ou seja, deviam fechar-se em si mesmas pela melodia e pelo acompanhamento clássico. Assim, em vez de ser pensar num tema, num certo tempo colocar uma bateria, acolá uma parte de contrabaixo, não, o foco sempre é na melodia, na letra e no que queríamos transmitir.

Tu crias as melodias com o António Parra.
TC: Sim, inicialmente as melodias eram criadas pelos dois e por isso havia uma criação conjunta. Entretanto, acabámos por seguir as nossas vidas. A banda existe há dez anos e muita coisa foi mudando, uma grande parte dos temas são feitos na guitarra, depois críamos a melodia e os arranjos são feitos por todos em conjunto, é questionada por todos, é uma espécie de composição por camadas.

A melodia e as letras são feitas em paralelo? À medida que crias o som, vão surgindo as palavras?
TC: Sim já aconteceu com alguns temas que começaram pela guitarra, mas vão-se transformando um ao outro. A letra vai sofrendo alterações conforme aquilo que a música pede e também a melodia pode ser adaptada em função das palavras. Não criámos separadamente a melodia e depois juntámos a letra à força. É um trabalho em sintonia, há a necessidade de sublinhar determinadas palavras, dar mais valor a uma do que outras, é tudo feito no sentido de potenciar a canção no seu todo.

Então, como tem esse processo musical por camadas, com certeza, ao longo destes anos e tiveram muito tempo para practicar até chegar a este primeiro EP, o que regeu a escolha dos temas no “Nó”.
TC: De facto temos mais de 30 temas e os nossos concertos são de uma hora e meia, já com 15 músicas e há cinco anos era assim nos concertos. Ao longo do tempo houve elementos que saíram, estivemos algum tempo parados, depois voltámos, mas erámos só três, foi nessa fase que estivemos a trabalhar muito detalhadamente as vozes, os coros e esta linha de guitarras. Na altura estávamos sem contrabaixo e bateria e chegámos a 2012, 2013 com mais de 20 concertos, mas nunca durante esse período de tempo lançámos nada oficialmente e a determinada altura foi mau, em termos de oportunidades. Quando aparecemos como banda não havia o boom da música portuguesa cantada em português, os “Orquestrada”, o “B Fachada”, o Samuel Úria, os “Diabo na Cruz”, esses músicos não tinham lançado nada, mas naturalmente surgiu essa necessidade de escrever em português e apesar de não termos tido nenhuma ligação com eles, tornou-se uma moda. Ao fim de nove anos percebemos que temos 30 anos practicamente todos e as nossas vidas mudaram, três elementos são do teatro, portanto, temos sempre quotidianos com horários complicados, a música foi sempre uma actividade paralela e depois decidimos que não podia ser, não tínhamos as músicas registadas e tínhamos que lança-las e disponibiliza-las ao público. Os nossos temas já foram tocados por muitos músicos e sentimos pelo menos essa responsabilidade em relação as pessoas que nos acompanharam, durante estes dez anos, em dar-lhes a possibilidade de guardarem esses temas. Quando partimos para o “Nó” era porque não tínhamos capacidade de gravar um álbum, então, decidimos começar com o EP e tentar de uma forma séria e activa preparar um disco com mais de 10 ou 11 temas que também é a nossa história e quem sabe mais o que teremos para contar. O “Nó” surgiu não tanto por ser àquele álbum, mas decidir que músicas que íamos trabalhar com os novos elementos que entraram na altura, o Alex Rodrigues na bateria e o Aníbal Beirão no contrabaixo. Decidimos escolher 6 temas que para nós faziam mais sentido, foram as músicas mais recentes, sacrificando as canções da primeira fase da banda e deixando-as para a próxima oportunidade. A ideia é mostrar qual é a nossa linguagem agora, o nosso potencial na composição, essa viagem nos temas mais longos, são canções que nos tocam e pensámos muito nisso, ser uma espécie de viagem do início até o fim, passando por várias atmosferas em que há um períplo por esse som.

Porquê o título “Nó”?
TC: Precisamente por isto, além de ser o single, tem a ver com a metáfora de compromisso, não sei se conhece a expressão dar o nó?

Sim.
TC: E, portanto, era uma metáfora para isso, agora, viemos para ficar e para levar este projecto a sério como outro qualquer nas nossas vidas. É uma espécie de compromisso com connosco, com o público e as pessoas que nos seguem e desta vez não parámos para recomeçar de novo, viemos para ficar. Ao mesmo tempo é o oposto, a dificuldade que foi lançar o EP, tantos anos a tentar sem conseguir, demos este passo essencial que é gravar e entrar no circuito musical.

Um dos temas não tem título, a única vez que tinha visto algo sim foi nas exposições de arte.
TC: Viemos quase todos do teatro, alguns são músicos de jazz, mas foram as últimas pessoas chegar ao projecto. Vemos a criação artística seja no que for e a vemos da mesma maneira e talvez por isso uma música para nós é um quadro, um filme ou peça de teatro. A música tem este poder de em 3 a 4 minutos chegar as pessoas, de as tocar profundamente, o que uma peça de teatro faz numa hora e meia. A música tem esse poder com palavras, ou mesmo poucas, de conseguir chegar as pessoas. Esta sem título também, porque é um tema que costumámos chamar de raiz, porque é uma música que fala de uma mulher no presente que é rainha da paixão, que esta por cima de todas as coisas e talvez por isso preferimos não colocar um título, porque rainha seria demasiado.

Demasiado pretensioso?
TC: Sim e pomposo, por ser uma coisa que não é possível nomear, seria redutor chamar todo aquele poder feminino, é diminuidor até chamá-lo de rainha. Por isso se chama “sem título” é uma espécie de ironia.

Neste momento estão em tournée pelo país para apresentar o “Nó”, então tocam as seis músicas do álbum, mais os 30 temas que referiste?
TC: Não, para já temos um alinhamento de 15 canções, estámos a desvendar o que será muito do próximo álbum. Estámos a rodar muito para tornar a banda mais coesa e que o próximo disco tenha essa mesma energia.

O próximo terá sempre como pano de fundo esta melodia acústica, continuam com essa linha?
TC: Sim, primeiro queríamos por cá para fora os novos temas, mas temos cantado uma canção de 2008 e que vislumbra o que é o futuro da banda, mas não queria desvendar muito sobre o próximo álbum, porque estámos a presentar o “Nó”. Queremos mostrar as potencialidades da canção, de que forma se pode desconstruir sem perder as suas raízes, o seu lado mais essencial que é a poesia cantada. Também estámos a explorar como a canção se poder abrir e novidades em como fazer as coisas. Estámos sempre muito preocupados em procurar uma forma nova que nos surpreenda de alguma maneira, fazer uma canção com uma estrofe, um refrão e uma terceira parte é muito redutor, queremos ir até as raízes da música portuguesa, do mundo, mas que possa deixar esse molde repetitivo. Não tentámos ser comerciais nesse sentido, mas gostámos que a nossa música seja ouvida por todos os tipos de públicos e isso é importante para nós. Isso não quer dizer que sejamos amplos em termos musicais para que toda a gente goste, não pensámos muito nisso, queremos fazer algo de que gostámos e que esteja interligado com as nossas raízes e mesmo que reflita a influência da música que ouvimos, desde os Radiohead a Maia Andrade, o Tom Jobim, é um espectro muito grande.

O facto de estarem em tournée e a criar canções ao mesmo tempo para o próximo álbum, ajudou? Tocarem juntos ajudou na construção das melodias?
TC: Sim, completamente, porque quando gravámos o EP e começámos a tournée há temas do “Nó” que não tocámos da mesma forma. As canções já evoluíram, como somos uma banda independente, não tivemos tempo para estar um mês parados a tocar e essa foi uma das limitações. Depois os elementos novos só entraram recentemente, ou seja, ao fim de 20 concertos e de ter tocado para tanta gente, há uma banda, já sabemos o que o outro vai fazer, partilhámos uma linguagem de uma forma mais coesa. Os elementos mais antigos que é o António Parra, eu e o André Teixeira já estamos juntos de 2009 e o Alex Rodrigues e o Aníbal Beirão só entraram em 20015 e agora é impossível imaginar esta banda de outra maneira. O facto de termos estado a tocar os temas do EP, as músicas novas e trabalha-las em conjunto fez com que fossemos sempre introduzindo novas canções aos concertos, experimentámos e há toda uma diferença. O próximo álbum será mais coeso, terá outra energia e será mais forte. Eu penso que é impossível que não seja assim, tanto é que há temas que gostaria de tê-los feito de outra maneira.

Era exactamente isso que te ia perguntar a seguir, como estas a dizer que pegaram em algumas canções e as melhoraram se consideram relança-las de novo, fazer um remix?

TC: Eu gostava, porque os temas estão sempre em processo. Como somos independentes e não temos uma editora por detrás a pressionar fazer tudo da mesma maneira, desde que encontrámos espaço para evoluir, não vamos deixar de o fazer para tocar de uma determinada forma. Assim, as músicas continuam a crescer e nesse sentido queríamos estar a gravar os temas todos para mostrar a evolução, quem ouvir o concerto em 2010, que tem canções do “Nó”, vai gostar dessas músicas, ou não. Por outro lado, estas canções estão gravadas e temos muito mais por gravar, em principio não devemos repetir, mas queremos mostrar outras, continuaremos a aperfeiçoa-las, mas no futuro talvez encontremos uma oportunidade de as tocar de novo. Se houver essa possibilidade porquê não? Gostaríamos de ter a alternativa de parar dois ou três meses, se nos dessem condições para isso fazíamos um súper álbum, ou um duplo. A verdade é que estámos limitados pelo tempo que estámos na música, por isso, creio que o nosso álbum seria um best off.

Depois da tournée quando pensam lançar este segundo álbum?
TC: Eu gostava que este novo álbum saísse no início de 2018. Este ano estaríamos a apresentar o “Nó” e temos vários concertos agendados até o final do ano. O Outono é um período menos profícuo em termos de concertos do que no Verão seria uma altura ideal para gravar e estámos a tentar arranjar condições para isso.

Mas, ainda não tem uma editora?
TC: Não temos.

https://lessaintarmand.bandcamp.com/

terça, 23 maio 2017 11:34

Escolhas, o livro

Dizem que uma imagem vale por mil palavras, nesta livro de fotografia de Miguel Leitão Jardim, a premissa é ligeiramente subvertida há 14 fotografias que servem como fonte de inspiração para vários autores. Cada uma das imagens sugere um poema, com menos palavras é certo, mas plenas de significado.

Qual foi o ponto de partida para este livro de fotografia?
Miguel Leitão Jardim: O ponto de partida foi uma série de viagens minhas em espaços museológicos. Especialmente Serralves, no Porto e as Mudas, na Madeira e ao contrário de outros trabalhos este surgiu de algumas dessas fotografias que fiz e que me motivaram a continuar uma série que percebi que tinha, aumentá-la e dar-lhe vida. O enquadramento que surgiu resulta dos vários autores que foram convidados para escreverem sobre as várias imagens que estavam aliadas a este projecto.

Fala-me das imagens. São na sua maioria a preto e branco.
MLJ: Sim, só com excepção de uma que tem o elemento de cor que é o centro do livro, tem um texto também, embora tenha aparecido posteriormente ficou muito bem enquadrado para a ideia que eu tinha para a imagem central do livro que é uma cadeira vermelha.

As imagens a preto e branco também estão relacionadas com os próprios espços?
MLJ: Sim, tem a ver com os espaços muito brancos, muito negros e pouca cor. É o conceito do livro e por isso achei que aqui muita cor não faria sentido, com a excepção que mencionei.

terça, 23 maio 2017 11:30

O homem dos mil rostos

Fernando Alvim é um dos comunicadores mais multifacetados ao nível nacional. É dono de um estilo muito próprio de entrevistar, apresentar programas e escrever humor que fazem as delicias dos ouvintes, telespectadores e leitores que o acompanham há mais de 20 anos.

És radialista, apresentador, humorista e empreendedor, tens uma série de facetas, qual delas te define? Ou não?
Fernando Alvim: Não tem a ver com uma que me defina melhor. Eu sou uma série de coisas e não uma só. Há quem goste de fazer apenas uma, eu estou um bocado em várias e as pessoas perguntam-me como consigo fazer tanta coisa? Eu costumo dizer que é a única forma de fazer cada uma delas, isto é, se eu tivesse só uma faceta possivelmente já me tinha aborrecido e tinha desistido. Assim, faço tanta coisa, vou variando e é como consigo viver.

Como consegues gerir o tempo, porque tu também escreves tudo, quando fazes um programa ao vivo preparas-te antes?
FA: Não, eu quando faço um programa ao vivo, nunca escrevo. A minha preparação advém de ler muito, jornais e revistas, leio em função das pessoas que vou entrevistar, mas também para mim, para me alimentar cerebralmente. O resultado disso tudo faz com que tenha um verdadeiro interesse em saber sobre a pessoa que esta à minha frente, quem estou a entrevistar. Há um erro comum nos entrevistadores que é não ouvirem o que o entrevistado esta a dizer, faz com que estejam muito focados com as perguntas que preparam e não com aquilo que o convidado diz.

É como se fosse uma barreira?
FA: Não é como se houvesse algo de rígido em relação as perguntas. Sabes que a próxima pergunta é se sou do Benfica, o que é verdade e parece que não estas a ouvir o que a pessoa te esta a dizer e não colocas uma questão em função disso. Ora, as vantagens de um convidado perceber que tu estas atento ao que diz são muitas, primeiro, demonstras audácia, perspicácia e és rápido no tratamento dessa questão, geras automaticamente mais respeito e possivelmente mais um grau de exigência das suas respostas. Se fores previsível, sem chama e nada inesperado, podes fazer com que o teu convidado perceba que não és diferente dos demais e passas a ser vulgarizado pelo olhar da pessoa que entrevistas. Quando vêm pessoas a entrevistar-me e fazem-me perguntas clichés, tipo, fala-nos sobre um episódio marcante da tua vida? Ou numa banda, porquê se chamam assim? Ou qual é o vosso som? Isso demonstra que o entrevistador não tem o mínimo de conhecimento sobre quem esta a entrevistar e não vai ser tão respeitado quanto poderia ser.

Sim, isso é muito bom quando tens um entrevistado como tu que dizes uma série de coisas, ou outros que dão um enorme feedback, mas existem pessoas que são muito minimalistas no seu discurso e aí o que é que tu fazes?
FA: Eu costumo usar uma tática que é esta, nunca ponho a culpa no árbitro, eu nunca culpo o convidado. Porquê sou eu que estou que estou a fazer a entrevista? E não aquele senhor que anda pela rua? Não é por fazer a entrevista fácil, tanto o senhor que anda pela rua, como eu o poderíamos fazer entrevistar alguém como o Manuel Luís Goucha é fácil, porque é alguém que adora falar, qualquer pessoa o pode fazer. A diferença entre uma pessoa qualquer e eu é que vou salvar o difícil, é por isso que estas lá estas e te pagam ao final do mês, as pessoas pagam-me não para resolver um problema fácil, quando tenho um desses convidados que não diz nada, é monossilábico, tenho que salvar o programa. Eu dou-te um exemplo, há uns anos entrevistei um contador da história, como é óbvio perguntei-lhe se nos podia contar uma história, ele não quis e eu fiz cinco vezes esta pergunta ao longo do programa e cinco vezes ele disse que não queria contar uma história e eu tive de contar uma, o programa foi marcante para mim porque de facto foi isso que aconteceu. Tive que esforçar-me mais para salvar essa situação que é surreal, porque tens um contador de histórias que não te conta histórias e tens um programa de uma hora. Portanto, vais falar de quê? Acho que salvei o programa.

Quando terminas um programa, ou mesmo no ar, vais ver o feedback que recebes?
FA: Não, é muito raro. A questão é esta, não quero que qualquer tipo de comentário possa interferir com a minha audácia, coragem e que vá para casa a pensar sobre o que li ontem. Portanto, desde há uns anos que não leio nem as coisas boas, nem as más.

Vais corrigir o teu Wikipédia?
FA: Nunca fui ver, não sei como esta a minha Wikipédia, nem quero saber.

Já alguma vez foste ao google fazer uma pesquisa ao teu nome?
FA: Não, nunca fiz, nunca fui ver. Para mim passa o que as pessoas me dizem na rua, são as que me interessam. Não é a virtualidade.

Então quais são as principais características que um comunicador deve ter?
FA: Deve gostar de pessoas, deve saber comunicar com elas, mais do que falar, deve ouvir, esse é o grande segredo.

Porquê criaste uma editora só para humoristas?
FA: Porque não existia e achei que poderia ser uma boa forma de editar livros. Não havendo uma editora para humor achei que era uma boa forma de criar uma chancela diferente. Para mim não tem sentido nenhum, por exemplo, se houver um restaurante que vende atum, abrir um que só tem esse peixe e não outro, ou fazes uma coisa que seja diferenciadora, original e claramente algo que te realize, senão, não vale a pena, embora não tenha jeito nenhum para o negócio, portanto, estou à vontade para fazer isso.

Também ajudaste a criar um canal de televisão.
FA: Sim, sou uma pessoa criativa, nada passiva, não estou à espera que as pessoas se lembrem de mim, ou me convidem para projectos, sou eu me lembro de mim em primeira instância e depois proponho essas ideias as pessoas à medida que os vou criando. Sou muito dependente das minhas próprias ideias, que dependem de outras para as aprovarem, mas são minhas.

Como és uma personalidade pública há vários anos, na rádio e tv, deve ser mais fácil aceitarem os projectos que propões? Daí o canal Q?
FA: É possível que assim seja, é a ordem natural da vida, o reconhecimento pode no fundo nos dá uma respeitabilidade, mas a idade não é um posto, nem nunca será, nunca ouvirás da minha boca, agora não tenho que provar nada a ninguém. A vida é uma contínua prova, de não resignação. Percebi que com a idade tornei-me mais crítico ainda e menos resignado o que é uma coisa incrível, mas é verdade.

Tens menos medo de ser diferente também?
FA: Eu nunca tive medo de ser diferente. Nem menos, nem mais. Nunca tive. Sempre privilegiei à originalidade em detrimento de mais do mesmo. Não é de todo o meu objectivo.

Então, como é que te dividindo em mil e uma tarefas, tens tempo para ler…
FA: Sim, tenho uma vida. Isso é essencial.

E tens uma vida social?
FA: Sim, consigo ter.

És uma pessoas muito regrada nos teus horários?
FA: Não sou, mas sei criar espaços para minha vida e isso é fundamental.

E quando tens tempo para ler, já que lês tanto?
FA: Olha leio, por exemplo, à noite, quando me deito, leio uma hora. No domingo à noite, vou para a rádio e leio durante cinco a seis horas todos os jornais e tomo apontamentos sobre quem quero entrevistar.

E o que estas a ler à noite?
FA: Estou a ler um livro do Beckett que tem três romances, “O inominável”, o “Molloy” e o “Murphy”. Este escritor é uma espécie de Messi da literatura, eu gosto disso.

E ainda lês jornais e revistas em papel? Ou é tudo online?
FA: Geralmente leio muitos em papel.

Ainda compras?
FA: Não é preciso, como na rádio tem todos os jornais e revistas leio, mas compro muitas revistas, ainda não sou totalmente mitra, já não é mau.

E és do que acredita que a versão papel vai desaparecer dos meios de comunicação social?
FA: Acredito. Acho que não vai desaparecer completamente, mas vai sofrer um grande desgaste. Ninguém quer ler notícias de ontem quando só te interessam as de hoje.

E qual é o conselho que darias a um jovem que esta a começar uma carreira nesta área da comunicação, onde existe tanta dispersão e a informação flui de todos os lados?
FA: Acho que vai ganhar o que investir mais em si. Deve ler, deve esta mais informado e fazer cursos que o passam tornar mais forte que os outros. A ideia de ter um canudo e pensar que já não temos que estudar mais, francamente é uma ideia obsoleta. Acho que temos de estudar todos os dias, para evoluirmos, tornar-nos mais competentes e melhor do que outros, para desempenhar melhor uma função.

E ser polivalente? Como tu que estas disperso por várias áreas?
FA: Eu creio que a polivalência é importante, porque não estas seguro em apenas numa vertente. Muito mais nos dias de hoje, se te falhar uma valência tens outra, penso que é facilmente compreensível.

Tenho uma curiosidade, tu começaste nas chamadas rádio piratas, que já não existem, mas não só estas nesse meio, como fazes podcast.
FA: Faço podcast que são cada vez uma realidade para tu descobrires talentos na comunicação social sem precisares de ninguém, nem sequer de uma rádio para emitir. É cada vez mais difícil ir para uma rádio com um programa que te aceite, isso já não existe e é bom. Podes fazer rádio no “youtube”, tens os youtubers e isso faz com que sejas dependente de ti próprio.

E já reconheces algum desses novos talentos que andas a ouvir nos podcast ou no “youtube”?
FA: Não, eu que ando sempre alerta sobre isso e ainda não apareceu alguém que se destacasse nos novos talentos.

Achas que portugueses não os apreciam?
FA: Não, acho que há comunicadores óptimos, não vou dizer nomes porque acho que seria injusto com alguém. Temos muito bom talento, então, no domínio do humor temos muitos.

E quais desses talentos é que gostas?
FA: Temos o Salvador Martinha, Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira que não são novos talentos, estão é completamente sedimentados. São pessoas que me fazem rir muito.

Achas que os portugueses são hoje em dia mais receptivos a esses meios de propagação digital? Somos um povo que no início da internet não erámos muito receptivos à publicação de conteúdos.
FA: Claro que sim, hoje em dia, vê-se que os vídeos mais partilhados e comentados são os de humor. É claramente o meio de maior partilha e de maior reconhecimento na internet.

Então és fã do “youtube”?
FA: Não sou nada dependente do “youtube”, no sentido de ser grande fã, sou consumidor, mas não vou todos os dias.

terça, 23 maio 2017 11:25

Workshop de critica de cinema

Trata-se da segunda edição deste evento inserida na programação do 25º Festival de Curtas-metragens de Vila do Conde.

A história do cinema é já longa e centenária. Ao longo das décadas, o cinema conviveu com um discurso crítico sobre a sua própria condição. A crítica de cinema, primeiro alicerçada em publicações físicas como revistas e jornais, ocupou um lugar central na construção de um cânone sobre os discursos do cinema. Nos dias de hoje, a crítica está a sofrer várias mudanças, sobretudo pela alteração do seu suporte, passando da imprensa física para a internet, com a sua democratização, mas também com a sua banalização.
Reconhecendo a complexidade do novo paradigma crítico, este workshop vai ao encontro da necessidade de formar e potenciar novos valores da crítica de cinema, permitindo um diálogo entre gerações e uma plataforma para desenvolver uma discussão crítica sobre os filmes que são exibidos no Curtas Vila do Conde.

O workshop será composto por duas fases, a primeira mais direcionada para uma aprendizagem dos diferentes modos de crítica e de diferentes modelos da história do cinema, através de masterclasses e conversas. A segunda, em modo tutorial, para o acompanhamento do festival e a produção de textos. Este material produzido pelos participantes será publicado nas plataformas web do festival, assim como pelos parceiros de imprensa. A formação será orientada por tutores do festival e por convidados de imprensa nacionais e internacionais. Tem uma duração prevista para 7 dias, incluído 22h de masterclasses e 24h de tutoriais.
Programa

Trata-se de um curso intensivo, em que os participantes estão ativamente envolvidos no festival, visionando filmes e escrevendo textos para publicação. O Workshop inicia no dia 7 de julho e prolonga-se até 14 de julho, com orientações tutoriais diárias, visionamento de filmes, participação em debates e uma masterclass diária com convidados.
Tutores
Daniel Ribas e Paulo Cunha
Oradores convidados
Jorge Mourinha, Javier H. Estrada, Nicole Brenez, João Tabarra, Filipa César, entre outros.
Tópicos a abordar
Técnicas de escrita e de entrevista, modos da crítica, tendências do cinema contemporâneo, cinema experimental, arte cinemática.
Inscrições
As inscrições são aceites até 31 de Maio de 2017

Inclui Free Pass que dá acesso a todas as sessões do festival, salvo excepções assinaladas no programa.

www.curtas.pt

terça, 09 maio 2017 17:26

Festival de telheiras comemora 10 anos

Esta é a sua 8ª edição oficial, que se realiza de 10 a 21 de maio pelos diversos espaços públicos e culturais do bairro, numa parceria local de Telheiras e a Junta de Freguesia do Lumiar, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

O Festival de Telheiras(FesTel) continua a ser um marco único em Lisboa pelos melhores motivos, não só pela envolvência comunitária, como pelo número de entidades, actores locais envolvidos e pela filosofia de reforço do sentimento de bairro e da sua identidade. O Festel volta a marcar a diferença pelo equilíbrio e pluralidade das actividades que oferece, nesta oitava edição, estão previstas mais de 40 acções promovidas pelo comércio local, pessoas do bairro, grupos de fora e instituições interessadas em participar e dar mais vida e cultura a Telheiras.

Não obstante de ser centrado neste bairro da cidade de Lisboa, é pensado para toda a cidade e continua a apresentar uma programação eclética e dedicada a todos os públicos. Durante a semana as actividades programadas disseminam-se pelos diferentes espaços públicos e espaços culturais do bairro que acolhem workshops de gastronomia e saúde, debates temáticos, a “hora do conto” para crianças e pais, teatro, iniciativas de rastreios de saúde e atividades desportivas e muito mais. No cinema, destaca-se a exibição do filme “Dheepan” sobre a integração de refugiados que foi Palma de Ouro em 2015.

No fim-de-semana, dias 19, 20 e 21 de Maio, a festa concentra-se no jardim de Telheiras, junto à saída do Metro. Os dias são dedicados ao convívio e lazer com a Feira da Tralha, onde se promove a venda de artesanto e artigos em 2ª mão e do comércio local. Haverá também actividades holísticas e de desporto e um espaço dedicado às crianças com insufláveis e muitas surpresas. Pela noite usufrui-se dos petiscos acompanhados de concertos que começam pelas 19h00.

A música estará em destaque este ano, com a apresentação de projetos que vão desde as bandas do bairro, até a nomes mais consagrados no panorama nacional.

Produtos Sonoros e Nuno Sanches – Projecto de exploração sonora-13/05 – 19:00.
Waste & The Candyman – O rock clássico-17/05 - 21:30.
Torga- Exploração de música tradicional- 18/05 - 21:30.
Estraca -Hip hop do bairro- 19/05 - 19:00.
Minta & The Brook Trout- Apresenta o seu novo EP “Row” -19/05 - 21:00
Melech Mechaya- Apresentam o seu novo disco "Aurora" -20/05 - 22:00
.

O Festival de Telheiras surgiu em 2007 e cresceu do empenho e dinamismo de um grupo de jovens moradores que assumiram o compromisso de alavancar este movimento de aproximação de realidades, de pessoas e de serviços. O objectivo do FesTel é apresenta-se como uma forma de impulsionar a participação ativa da comunidade, estimulando um sentimento de pertença e de identidade, refortalecendo os laços de vizinhança.

terça, 09 maio 2017 17:19

Pinceladas de luxo

António Soares é considerado um dos melhores ilustradores de moda ao nível europeu tendo começado por ilustrar designers nacionais. Actualmente é muito requisitado globalmente pelas grandes marcas de luxo e revistas da especialidade que encomendam as suas requintadas e glamorosas ilustrações.

Sei que é licenciado em pintura pela Escola de Belas Artes do Porto, mas como é que a ilustração de moda entra na sua vida?
António Soares: A oportunidade surgiu há uns anos depois de terminar o curso dava aulas de pintura num atelier e técnicas de ilustração do CITEX, a actual Modatex e aí decido começar a ilustrar designers de moda portugueses.

Mas, era ao nível particular ou não?
AS: sim, era apenas um escape, a oportunidade surgiu após um convite do Nuno Baltazar para ilustrar a sua colecção para à Moda Lisboa. Depois começaram a surgir encomendas.

Entretanto, deixou a pintura?
AS: Continuei com o atelier, mas neste momento dedico-me exclusivamente à ilustração de moda.

Mas, há dois tipos de ilustrações pelo que pude notar.

AS: Sim, tenho desenhos que são encomendas dos meus clientes e aí as ilustrações reflectem as colecções e depois tenho os meus projectos pessoais que apresento na minha página do Tumblr.

Notei que são mulheres muito etéreas, mas loiras.
AS: Loiras? Eu nem acho muito isso, até porque as mulheres que pinto mais são africanas e asiáticas e tenho alguns homens.

Sim, de facto notei isso, mas são ilustrações mais recentes. Também se nota que utiliza aguarela em detrimento do pastel, ou outras tintas, porquê?
AS: Sim, porque é fácil de transportar, eu consigo desenhar em qualquer lado e não apenas no meu atelier. Há outro aspecto, que é facto de ser mais fácil de utilizar do que o pastel, uma ilustração em aguarela leva menos tempo e tem outro efeito.

Mas, demora quanto tempo efectuar uma das suas ilustrações?
AS: Depende, uma única ilustração pode demorar uma noite inteira, ou apenas uma hora, depende do meu estado de espírito, do tipo de detalhes que é necessário inserir e se é uma encomenda de corpo inteiro ou não.

Mas, há uma distinção?
AS: Sim, tenho dois tipos de projectos, o pessoal, onde desenho consoante à minha inspiração e gosto pessoal e as encomendas dos clientes. As ilustrações que são encomendadas têm prioridade.

Abordemos as cores, noto que usa uma palete muito restrita, é basicamente o preto e cor de pele e em outros há uma explosão de tonalidades.
AS: Nos projectos pessoais uso muito o preto, é verdade. Gosto muito do preto.
E porquê?
AS: Não sei.

E nos restantes?
AS: Os restantes que tem mais cor são as encomendas. Eu ilustro consoante as especificações dos clientes, são eles que decidem quais as peças que fazem parte da ilustração. Quando são projectos privados, essa escolha é apenas minha.

Segundo uma revista de moda espanhola, Vanidad, o António é um dos melhores dez ilustradores da Europa.
AS: Isso nem sabia, mas tem pouco peso. Este é um mundo muito competitivo ao nível profissional, porque existem muitas pessoas talentosas nesta área e eu tento manter sempre um nível elevado de exigência em relação aos meus trabalhos para continuar a receber encomendas. Neste momento é a minha profissão, vivo exclusivamente das ilustrações de moda.

http://antoniosoares.tumblr.com/

terça, 09 maio 2017 17:16

O novíssimo testamento

É da autoria do escritor Mário Lúcio Sousa que granjeou o prémio literário Carlos Oliveira de 2009.

Decidi ler este livro pela premissa fantástica e inusitada de um novíssimo testamento anunciado numa pequena ilha africana, reencarnado não por um homem Deus, mas sim, sob a forma humana de uma simples mulher, crente, beata e negra. E ao lançar-me à descoberta desta estória tão de divertida, como de verossímil, não pude deixar de notar não só a riqueza do vocabulário, como a sua clara sonoridade. E ainda não tinha chegado ao final da leitura, intrigada pela sua musicalidade, decidi investigar um pouco sobre o autor desta obra que confesso desconhecia e quando verifiquei na pequena biografia na lapela da contracapa que era multinstrumentista e já tinha trabalhado com os grandes nomes da música africana, tudo fez perfeito sentido. O compasso da narrativa obedece a um certo ritmo, é uma espécie de melodia silábica que impõe uma determinada velocidade que se reflecte na forma como lemos esta obra, não quer dizer que se leia a correr, não é nada disso, mas a melhor forma de o descrever é usando uma metáfora… é como um gelado que se saboreia com deleite antes que o sol o derreta completamente. E rimei sem querer, juro, fruto da inspiração que surgiu pela leitura deste livro. Outro dos aspectos que me atraíram neste “novíssimo testamento” foi a sua efabulação, uma vertente literária de que muito aprecio e que é de facto muito recorrente nos autores africanos. Depois trata-se de um livro muito bem-humorado, se não for um fanático religioso pelo menos, poderá deliciar-se com o seu tom satírico e até sarcástico que como descreve no final há-de ser uma sagrada escritura para muitos leitores. Bem-haja.

terça, 09 maio 2017 17:09

Linhas, das ideias aos sentidos

 

Dina Pimenta aborda nesta exposição uma reflexão sobre o espaço da Casa da Cultura de Santa Cruz, de onde surgiu um conjunto de fragmentos de ideias que despertaram os seus sentidos para as várias visões e metáforas que a linha produz. Uma mostra patente até o dia 16 de junho.

Porquê o título? E qual foi o fio condutor para esta exposição?
Dina Pimenta: É um título transversal a tudo o que é área das sensibilidades, poderia sair até das artes e podíamos até viajar para outras áreas como da poesia, até na literatura e na música as coisas funcionam num modelo próximo deste. Mas, aqui eu trouxe uma intenção, é um projecto em aberto para mim também e para quem vêm visitar, porque sendo artista plástica questiono-me sempre sobre qualquer coisa, o que estou a fazer e em que lugar? O que eu sou? O que me move para fazer as coisas? Portanto, esse é o lugar de equação, de meditação, de gerir ideias, ou um espaço até sons e sentimentos. Quando penso nas ideias e nos sentidos não os estou a equacionar apenas integralmente, eu sinto até que tenho um sexto sentido, não literalmente, mas vou tentando. Naturalmente os artistas plásticos usam a visão, aquilo que vêem, mas eu acho que não é só por aí. Somos educados desde que nascemos a interpretar o que vemos, ao longo da nossa vida, em nossa volta, depois de sentirmos e vermos tudo em redor, somos pessoas visuais, estámos de olhos fechados, reflectimos sobre as coisas e não as vemos. Por exemplo, eu sou professora, na aula de geometria eu ponho os meus alunos a olhar para os espaços, é um sistema de representação que é rigoroso, vai para o papel onde há uma equação e tem um resultado matemático. Ao mesmo tempo estou a fazer um trabalho palpável, completamente subjectivo de um ponto transcrever uma recta, depois deslocá-la até um plano, criar uma superfície e ainda não estámos a estar a falar em artes plásticas visuais, estámos a falar de uma disciplina que é rigorosa do método científico e tem um sistema de representação. Como sou formada em artes, em pintura e escultura, misturo as duas coisas e trago sempre estas duas vertentes atrás de mim. Na minha área profissional acabei por ser professora foi um enriquecimento, mas sempre deixando espaço para a minha arte e o que queria fazer. E pensei que tinha de estar lado a lado, tenho estado sempre disponível para as duas coisas e cria-se o espaço para o fazer. Não podemos deixar de parte o que ensinámos, ou aprendemos e há sempre coisas que ficam connosco, apreendemos uma mensagem visual e passámos para um entendimento que é a expressão plástica e o que é a área da pintura, desde o aspecto técnico ao simbolismo e vamos adquirindo esses entendimentos porque fazem parte do nosso crescimento, o amadurecimento das ideias cresce dentro de nós. Quando venho para esta exposição trago uma vida que já vivi, não esta totalmente equacionada, há novas ideias e estes trabalhos mostram por onde as ideias passam onde elas me levam. Também trago temáticas que gosto que o público interprete e as pessoas que fruírem pelo espaço passem por essas experiências, cada um à sua medida, com a sua escala, porque uns precisam mais de tempo do que outros, há pessoas que veem logo e outros reconhecem aos poucos. Passo ainda por uma metáfora onde passo pelas formas e as linhas pelas quais me expresso, porque já me exprimi de outra maneira, passei por um momento onde pintava com mais cores, outro período em que não havia cor porque entendia que nas superfícies estavam as cores todas, no preto estava o vazio e no branco a cor, eu vejo esse colorido.

Em termos temporais, falou que são diversas fases, estámos a falar de quê?
DP: Esta exposição é apenas um projecto idealizado para este espaço.

Durante quanto tempo?
DP: Três meses.

Sempre com a linha como pano de fundo?
DP: Não preocupada com a linha que se vê, mas sim a linha das ideias que me fazem mover até chegar a outros resultados. Dígamos que é estructurante, um pouco até emocional, depois há o desenho que é a minha linha para expressar o que quero fazer agora e brinco com isso. Há uma expressão, que menciono e contextualiza o trabalho. Aborda também os sentidos.

Nestes trabalhos há escultura.
DP: Sim, trabalhos de escultura dígamos que modelar, que é feito com peças que estiveram ligadas à minha área profissional. Ao longo do tempo temos que registrar muito do que fazemos, cada turma tem um dossier, documentos que registem os trabalhos e sou obrigada a fazer uma avaliação que é algo difícil, mas sou obrigada a guardá-los, porque rabisco muito nelas. E nesse lugar de guardar as coisas criei uma instalação que chamo de “visita mutante”, é um presente que dou aos visitantes, desejo que seja reconhecido por algumas pessoas e que estas me questionem para percebe-la um pouco. Depois tem uma outra escultura que desenhei em 2010, como objecto para este local. Mas, quando chego a este espaço, a sua área circundante e questionando-me sobre isso, eu vou repescar um assunto que me inquietava e que me representa que chamo de “forte saudade”.

Abordando o desenho, disse que foi sempre desenhando ao longo da sua vida, que tipo de linhas utilizou para esta exposição? Foi pintando com lápis?
DP: Raramente uso lápis. Desenho com tinta, ou com uma caneta que desliza rápido, desabituei-me da grafite e usei-a durante muito tempo e estou orgulhosas disso. Agora uso a caneta com tom da grafite, mas por norma, desenho directamente a tinta.

E há uma linha unificadora de toda esta exposição?
DP: Não sei se trago o potencial que a linha tem, dígamos que é corpo, substância e tem expressividade, eu trago um pouco isso e se tivesse desenvolvido esse potencial seria ainda melhor, mas eu sempre me questiono se poderia fazer mais qualquer coisa.

Algum destes desenhos são emblemáticos de todo esse universo que teve em mente para esta exposição?
DP: Eu trago uma temática mais na minha área profissional, é sobre pessoas que cresceram, que me acompanharam e que são agora meus iguais, são meus pares. São grandes figuras, poetas, são maiores do que eu na forma de pensar e orgulho-me disso. Depois há pessoas que se cruzaram comigo nesta linha da vida também e imensas pessoas que se calhar me entendem ou nem por isso. Eu represento tudo isso por metáforas e se calhar usei tudo isso para representar pessoas e coisas.

E fica a interpretação para quem “lê” estas obras?
DP: Eu deixo isso ao critério das pessoas, haverá uma que acharão piada, mas espero que não se sintam magoadas, eu gosto de rir, brincar e não o faço para os magoar. O potencial que a minha área me permite e o potencial que daí surge, o artista tem de ser livre e ter essa liberdade. Pode estar a ouvir ou estar muito agarrado as suas preocupações de quem gosta e não gosta, se é bom ou mau, mas se andarmos condicionados não produzimos nada. Ficámos amarrados e isso não se deve reflectir num trabalho nosso, penso que as metáforas são feitas com muito carinho.

O artista não pode ser limitado? Hoje vivemos numa sociedade do politicamente correcto que abrange quase todas as áreas e não apenas a arte.
DP: Eu sinceramente não pretendo ofender ninguém, não me sinto à vontade para magoar as pessoas, evito, mas houve fases em que senti, como outros ser portador de vozes, ou ideias, mas isso é algo que faço com cuidado. Não gosto de estar sempre a magoar, penso que se queremos comunicar estámos a resolver as coisas, os meus trabalhos fazem questionar as pessoas, é a minha parte soldado.

A cooperativa de consumo fruta feia (CCFF) criada em novembro de 2013 recolhe produtos fruto-hortícolas que não são aceites pelos supermercados.

Com o lema “gente bonita come fruta feia” a CCFF ultrapassou já a marca das 500 toneladas de produtos fruto-hortícolas nacionais que não foram desperdiçados. A rede “fruta feia” conta com sete pontos de entrega em distintas zonas de Portugal e possui 3062 consumidores inscritos que através de uma quota anual de 5 euros, recolhem os seus cabazes com frutas e hortaliças da época que por norma são rejeitadas pelas grandes superfícies alimentares, porque não obedecem aos parâmetros impostos em termos de cor, formato e calibre.
A cooperativa acolhe 123 produtores de várias regiões, onde voluntários recolhem nas suas hortas e pomares as hortaliças e frutas pequenas, grandes ou disformes que de outra forma os agricultores não conseguiriam escoar. O cabaz de fruto-hortícolas é depois recolhido pelos consumidores num dos pontos pré-definidos, com preços que rodam os 3,5 e 7 euros dependendo do tamanho das cestas.
Com esta iniciativa a CCFF consegue evitar o desperdiço semanal de 8 toneladas de fruto-hortícolas que de outra forma iam parar ao lixo combatendo, do seu ponto de vista, uma ineficiência do mercado.
Outro dos objectivos deste movimento associativo visa alterar os padrões de consumo e gerar um mercado de valor que combata o desperdício alimentar e o gasto desnecessário de recursos, tendo em conta que só em Portugal, cerca de 30% da fruta produzida é desperdiçada pois, apesar de ser saborosa e de qualidade, não tem o aspecto desejado.
Se quiser aderir a “fruta feia” basta aceder ao link:

http://www.frutafeia.pt/pt

quinta, 20 abril 2017 15:11

A outsider musical

O nome surma quer dizer deixar a sua marca no mundo, esta associada a originalidade, ousadia, espírito competitivo, independência e a força de vontade, tudo sinónimos que se adequam na perfeição ao alter-ego de Débora Umbelino, a mente criativa por detrás deste projecto musical único e estranho como que ela própria se define.

Fala-me um pouco sobre o teu processo criativo para criar uma melodia? Utilizas samples de vários tipos e queria que me fizesses uma resenha de como isso funciona?
Surma: É um bocado em cima da hora, até porque num dia qualquer gravo um som no meu telemóvel e às vezes trabalho a partir disso para uma melodia. Outras, agarro no sintetizador quando estou em casa. Também acordo durante a noite quando tenho ideias na cabeça, levanto-me às quatro da manhã, vou trabalha-los ao longo da madrugada e depois volto para a cama de manhã. É o que me lembro na altura e começo logo a trabalhar esse som.

Depois dessas secções sonoras, essas ideias que vais tendo ao longo dos dias e depois juntas isso tudo que gravas para um tema?
S: Eu não tenho uma estructura muito definida, como por exemplo na música pop, onde há uma refrão, verso e melodia. Eu tento ligar os ritmos uns com os outros, vou trabalhando com o sintetizador por cima, meto a voz para complementar, é como se fosse uma construção por camadas. Como trabalho muito com loops a música acontece nessa base e depois vou contruindo a partir daí.

Estiveste em tournée e nesse períplo tens escritos temas para o teu próximo EP?
S: Sim, tenho gravado alguns temas com uma banda da Omnicord records também e estámos quase a acabar a pré-produção do álbum. Ainda faltam umas melodias, tenho trabalhado durante o dia para complementar algumas músicas do disco, também desenvolvo algumas letras, mas ainda falta muito trabalho por fazer.

E quando lançares este álbum qual é a ideia geral? Em termos de alma o que vai ser?
S: A ideia geral é que vai ser muito genuíno, porque é tudo feito na hora. Depois vou para o estúdio e trabalho muito na música. Tenho um tema onde batemos umas castanholas uma na outra e trabalhámos sobre esse som, ou então a sonoridade emitida por uma caneta a fechar. É um pouco virado para a ciência, não sei explicar muito bem esse conceito, é feito na base de pormenores e ruídos.

És muito diferente mesmo em termos de imagem, única em termos musicais também, como é que te encaixas no cenário nacional português?
S: Eu não sei bem, é uma pergunta que me fazem várias vezes, até me questionam sobre o género com o qual me identifico e eu não sei responder, porque nem eu mesma sei onde me encaixo na cena musical nacional. Eu sou experimental e estranha ao nível musical, sinto-me uma “outsider” para ser sincera.

E o teu público, agora que estás en tournée, já notaste quem são?
S: Eu acho que vai dos 8 aos 80 anos, porque vejo muitas crianças no público e depois avisto pessoas acima dos 50 anos. É um público muito abrangente, mas pelo que noto é muito mais dos 25 anos para cima.

Vamos falar sobre a tournée propriamente dita pela Europa, como foi a aceitação da tua música em termos do público estrangeiro?
S: Foi das melhores experiências que tive até agora, estava com um pouco de medo em relação as pessoas e se iam gostar ou não, mas no geral foi brutal. Sempre reagiram bem nos concertos, tivemos sempre salas compostas e os que foram entravam mesmo na atmosfera de cada concerto, acho que correu muito bem mesmo. Depois crescemos mais como artistas ao nível musical, como pessoas também e ganhámos muito com isso.

E os concertos ao nível nacional? Como estão a correr?
S: Os concertos fora são diferentes que cá dentro, porque são públicos diferentes., não sei. Mas, não me posso queixar, mesmo em Portugal a reação tem sido muito boa. Vai dar ao mesmo, tenho tido muito apoio das pessoas e do público que assiste aos concertos.

Já pensastes quando vais lançar este EP?
S: Sim o álbum esta previsto para setembro.

E tens um título previsto?
S: Tenho mais do que um, mas nenhum deles esta previsto para o disco. Não tenho um fixo.

Pág. 1 de 129
FaLang translation system by Faboba

Podcast

Eventos

loading...