Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

terça, 24 maio 2016 20:19

Rotação em pedra

 

Paulo Brito é um artista auto-didacta que se dedica à escultura. Moldar a pedra é uma arte que o fascina e cujos trabalhos apresentou numa pequena exposição, no centro de arte de Caravel, com o título de “rotação”.

Porquê a escolha do título para esta exposição?
Paulo Brito: Foi mais por causa desta peça, acho-a interessante e as pessoas gostam muito dessa obra, por isso, decidi chamar esta exposição de “rotação”.

É também para mostrar o trabalho que fazes na pedra?
PB: Sim, nesta exposição tenho estes trabalhos, mas havia outras obras que não pude mostrar por causa da dimensão e do próprio espaço. Estas obras são mais abstractas, embora, também aborde o figurativo, não ligo muito ao estilo artístico, aquilo que surge é o que faço.

Trabalhas sobretudo a escultura, qual é o teu material de preferência?
PB: Eu trabalho essencialmente com a pedra, porque é um grande desafio e exige muita paciência, muita concentração.

Mas, trabalhas vários tipo de pedra?
PB: Nesta exposição, não. Uma das peças exposta faz parte da minha colecção privada, é só mesmo para mostrar as surpresas que surgem quando trabalhámos a pedra, foi uma encomenda pelos 500 anos do Campanário e sem querer encontrei um fossíl, então achei interessante e deixei visível para que o público pudesse ver as surpresas que surgem quando trabalhámos a pedra.

Também possuis alguns trabalhos de pedra vulcânica. É uma pedra difícil de trabalhar?
PB: É um material complicado trabalhar este tipo de pedra, porque é rija e muito abrasiva. Ela queima muito o material com que trabalhámos. Temos de ter instrumentos específicos para poder trabalhá-la.

Queima as mãos é isso?
PB: Não, é uma pedra abrasiva para com os materiais, as ferramentas de trabalho que usámos, elas tem um nível de desgaste muito elevado.

E das peças que mostras qual é a tua preferida?
PB: Não tenho preferência, a pedra é que me leva a idealizar uma peça.

Quando fazes uma escultura como começa o processo criativo? Olhas para uma pedra e surge-te uma ideia?
PB: Sim, é mais ou menos isso. Depende. Às vezes penso já numa peça e quando a vou colocar em práctica, entretanto, vão surgindo outras ideias, vou desenvolvendo o conceito a medida que corto a pedra.

O que te inspira?
PB: Não vou buscar inspiração, nem nenhum lugar específico.

Saís em busca de pedras e há as que te chamam mais à atenção?
PB: Sim, tem alguns materiais que me chamam mais do que outras pedras.

E em relação aos materiais que não são comuns na ilha?
PB: Umas vezes encomendo, outras vou até um armazém que existe na ilha que possui pedras e falo com eles, são os meus fornecedores. Eles até deixam-me trabalhar nesse espaço nas peças de maior porte, as mais pequenas consigo desenvolver em casa.

Esculturas-paulo-brito.webmode.pt

terça, 24 maio 2016 20:15

Portugal renovável por 4 dias e meio

O país produziu energia limpa que se traduziu em menos de uma tonelada de CO2 para a atmosfera.

A Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) e a Zero (Associação Sistema Terrestre Sustentável) analizaram os dados da REN (Redes Energéticas Nacionais) e concluiram que entre as 06.45 do dia 7 deste mês e as 17.45 do dia 11 deste mês, correspondendo a um total de 107 horas seguidas, "atingiu-se um recorde importante neste século" avança o diário de Notícias. Para o presidente da APREN, António Sá Costa, trata-se de "um prenúncio do que se vai tornar realidade num futuro próximo, que serão 365 dias por ano". O responsável salienta ainda que este marco "é também uma prova do que é possível, para todos os que duvidavam", acrescentando que, "atualmente, mais de metade da eletricidade consumida em cerca de meio ano é de renováveis, a questão é que não são ainda dias seguidos". As vantagens de quatro dias e meio movidos a renováveis são inúmeras, desde a não emissão de uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera à não importação de carvão ou de petróleo. Para a Zero, os dados mostram que "Portugal pode ser mais ambicioso" numa transição para um consumo líquido de energia elétrica 100% renovável, com enormes reduções das emissões de gases com efeito estufa, causadoras do aquecimento global e consequentes alterações climáticas.

Já no primeiro trimestre de 2016, 72% do consumo de electricidade em Portugal foi abastecido através de fontes de energia renovável, de acordo com com a REN. Segundo a empresa registou-se a 18 de Fevereiro um recorde de produção de electricidade em Portugal, de 232 GWh, devido ao pico de produção das fontes hídricas e eólicas. “O Sistema Eléctrico Nacional teve a capacidade de encaixar na sua rede os picos de produção registados, mantendo os elevados níveis de qualidade de serviço”, explicaram em comunicado.
http://www.pordata.pt/

sexta, 22 abril 2016 17:37

O boémio sonhador

A música de Jorge Palma transcende várias gerações e por esse motivo continua a ser um dos artistas mais amados e como já se disse mais perdoado pelo público português. Um toque de genialidade natural que não reconhece, porque encara a música com um trabalho árduo, continuo, a pulso.

Em mais do que uma entrevista refere que a sua veia criativa provavelmente já passou, não acha que a maturidade e a experiência contam?
Jorge Palma: Acho que há fases em que não faço muito por puxar pela imaginação, porque há sempre coisas novas a acontecer, porque existem períodos mais produtivos do que outros. Mesmo quando escrevi a canção “uma página em branco” é um pouco a brincar com a imaginação, isso basicamente é trabalho. É só meter na cabeça que vou fazer um disco à maneira, mas as primeiras coisas vão para o lixo.

Então acha que ainda vai escrever o seu melhor álbum de sempre?
JP: A ideia é sempre fazer uma coisa boa. Acho que sim, porque vou reunindo muita informação, portanto a idade e a vivência ajudam...

Faz a perfeição?
JP: Não, não, eu não quero perfeição. (risos)

E dos discos que já editou qual é o reflecte melhor o artista?
JP: Isso é muito subjectivo. Eu gosto de todos por motivos diferentes, uns por motivos mais afectivos, outros por serem mais eficazes.

Como o “dá-me lume” que foi um sucesso junto da crítica e do público?
JP: Trata-se de uma colectânea. Foi muito bem organizada pelo Tiago Palma, meu filho, aliás, é a minha melhor colectânea, foi muito bem tratada e masterizada. A canção “dá-me lume” é daquelas que ficou junto do público e que é mais ou menos obrigatório tocar.

Sente que agora tem um novo público depois do aparecimento de “vôo nocturno” e de uma das canções ter feito parte da banda sonora de uma telenovela portuguesa?
JP: Essa verdade a gente não sabe, mas o “encosta-te a mim” foi um sucesso que ninguém estava à espera, não vale a pena fazer previsões. A verdade é que naquele verão de 2008 eu já não podia ouvir aquilo, era em todo o lado, na rua, no quartel dos bombeiros... (risos)

Acha que não tivesse feito parte da banda sonora da telenovela teria o sucesso que teve?
JP: Concerteza isso contribui sempre. Mas, o sucesso não vem de uma telenovela, nem dum disco em particular, resulta de muito trabalho, a pulso, depende de uma continuidade. Existem coisas que correm melhor inclusivamente nos concertos, há sempre uns melhores do que outros, por razões diversas, mas há um percurso muito sádio.

Abordando os concertos, há um tema emblemático que lhe pedem para tocar sempre?
JP: Depende. Há sempre umas bocas. (risos) Se essa canção estiver no alinhamento, se me sentir capaz de a tocar, toco. Mas, o que acontece muitas vezes é que acabo por tocar esses temas, porque esta no alinhamento, eu costumo fazer concertos grandes, mais de duas horas, nos concertos com o Ségio Godinho há mesmo muita música, que ultrapassa claramente essas duas horas.

Diz que nasceu músico, desde o quatro anos quando começou a tocar piano...
JP: Não tinha consciência disso, mas a verdade é que era.

Se não fosse músico o que teria sido?
JP: Já quis ser aviador, bombeiro (risos). Eu estudei com alguma convicção, ao princípio o curso de engenharia, gostava de ter acabado o curso porque gosto de matemática, física. Não me teria feito mal nenhum, mas a verdade é que o ambiente musical proporcionou-me muita actividade e não dava para conciliar as duas coisas.

Essa área da matemática tem influência na hora de compor?
JP: Acho que a matemática tem influência em tudo, no equilíbrio e funcionamento de uma melodia é fundamental.

E nas letras? Sei que um dos seus mestres foi o Ary dos Santos.
JP: Foi sim, ele deu-me as ferramentas para trabalhar, transmitiu-me confiança e foi muito importante aquele período de trabalho, era um ambiente de festa todos os dias, mas havia muito trabalho. Depois tenho outros mestres que nem sabem que o são, das coisas que eu ouço, agora morreu o Bowie. Eu quando gosto de uma canção, meto na cabeça que vou aprender a letra, estudo-a mesmo, não é só decorar, tento perceber como a pessoa escreveu aquilo e tento aprofundar o mais possível.

Para se ser um excelente músico, tem-se que ser um pouco melómano, ouvir muita música? Isso é importante para o processo?
JP: Havia períodos da minha vida que passava de manhã à noite a ouvir música, mas a ouvir com atenção. Neste momento nem tanto, mas tanto pode ser um Mozart, como o Tiago Bettencourt.

Isso é importante para o processo criativo?
JP: Quando gosto de ouvir, não gosto que haja conversa, com pessoas a mexer-se, ou a falar. Na minha adolescência e juventude habituei-me a isso, podia estar uma dúzia de pessoas, mas a gente ouvia, ninguém falava, estavámos a ouvir com muita atenção, eu gostava muito de retirar trechos de guitarra, baixo, bateria e piano para aprender.

Mas, ainda ouve muita música clássica?
JP: A minha mãe habitou-me a ouvir e em criança gostava muito de ouvir música clássica. Depois na adolescência virei-me para o rock, mas retomei os estudos, porque há compositores fantásticos, o Joahnn Sebastian Bach é uma sonoridade que não há como ficar completamente rendido.

Esta numa fase de concertos pelo país, inclusive com o Sérgio Godinho, mas tem algum projecto em vista?
JP: Projecto é esta digressão, mas com um fim que não esta a vista. Portanto é continuar. Tenho cada vez há mais trabalho e quero ver se gravo temas novos, esta-me a apetecer.

sexta, 22 abril 2016 17:32

Moçambique inspira verão

O Mozambique fashion Week apresentou as novas tendências para esta primavera-verão 2016.

Graças a parceria da Portugal Fashion e da semana da moda em Moçambique fiquei a conhecer alguns dos estilistas de maior renome deste país e as suas colecções. Devo reconhecer que fiquei fascinada, encantada e siderada por muitos dos coordenados que não só nos transportam até o continente através dos seus padrões vibrantes, como pela explosão de cores e tipos de tecido lindíssimos que me deixaram completamente rendida. Devo confessar que vestia quase todas as peças e muitas delas são uma óptima sugestão para a nova estação que se aproxima.

"Uma ideia é um ponto de partida e nada mais. Logo que se começa a elaborá-la,
é transformada pelo pensamento." a frase de Plabo Picasso foi a ideia inicial para a colecção de Roselyn Silva, que apresentou uma colecção cheia de cores vibrantes que variaram entre os tons de rosa, carmim, azul, amarelo e branco. Os coordenados apresentavam silhuetas dinâmicas com recortes que ajudam a realçar os padrões geométricos, veiculando a ideia de uma mulher forte e ao mesmo tempo muito feminina.

A coleção de Shaazia Adam para o próximo período primavera-verão inspira-se no filme "Factory Girl". A musa da coleção é Edie Sedgwick. São coordenados muito coloridos e florais, traços que coexistem com saias muito fluídas com uma mistura de cortes rígidos. Possui ainda, um perfil muito jovem com tons de rosa bebé, salmão, verde azeitona, coral e amarelos ao longo das peças. Os tamanhos variam entre os shorts e os blazers longos ou de três quartos. Os outfits contam ainda com um bordado floral e adornos ao longo das linhas do pescoço e da cintura, bem como nos bolsos.

Ideias a metro apresentou uma coleção com um padrão único e exclusivo que reflete a fusão da cultura Moçambicana, através dos seus tecidos tradicionais, as capulanas, e a cultura portuguesa, nomeadamente através das cores e dos padrões dos lenços tradicionais do Minho. Há uma mistura de cores, tecidos e texturas em peças muito femininas, elegantes e sofisticadas mas sempre com um design extremamente confortável e um toque boémio.

A marca "Omar Adelino” tem vindo a transmitir desde o ano em que entrou para o mundo da moda um conceito de classe, glamour, simplicidade e muita união em termos de padrões. A paleta de cores envolve tons nobres como o preto, o dourado e o colorido da capulana tradicional moçambicana. Os materiais escolhidos são o lurex, a renda, o linho gianni, o chiffon, a capulana, pedras swarovski e pérolas. A coleção é composta por doze combinados, ao todo, são nove femininos e três masculinos, que pretende mostrar m pouco de uma África moderna, simples e em expansão. Um encontro do chique e do casual.

http://www.portugalfashion.com/pt/edicao/ss16/participantes/dielmar/ideias-a-metro-mozambique-fashion-week/

sexta, 22 abril 2016 17:29

O livro das noivas

Foi uma obra obrigatória para as jovens casadoiras, escrita por Laura Santos.

Recentemente quando fiz uma limpeza voltei a redescobrir dois livros que pertenceram à minha mãe e que na sua juventude eram leitura quase obrigatória para quem se ia casar, a famosa “escola de noivas”. Deliciei-me e ao mesmo tempo fiquei horrorizada com alguns dos capítulos que discorrem sobre este conceito de mulher moderna que recebia uma espécie de manual que lhe ensinava entre outras coisas como uma noiva deve comportar-se, o tipo de enxoval que deve possuir, a vida pós-casamento, como agradar o seu marido, os cuidados a ter com as crianças, conselhos de como tirar os diversos tipos de nódoas da roupa (que achei deveras úteis), a decoração do lar, o que constitui um serviço de mesa apropriado, como arrumar um armário, como limpar a casa, que tipo de plantas são adequadas numa residência e claro esta “pequenos nadas que fazem as boas cozinheiras” acompanhadas de receitas (algumas das quais com ar de serem muito saborosas, devo confessar). Numa das páginas chega a afirmar-se que “não basta à mulher ser uma perfeita dona de casa, económica, asseada e habilidosa. Deve igualmente receber bem na sua casa, tanto as suas amigas, como os amigos do seu marido” fim de citação, referente ao subcapítulo das apresentações. Agora, talvez fiquem com uma ideia do grau de excelência que se esperava de uma jovem mulher casada ao ponto de ser necessário publicar um livro para a ajudar nessa tarefa hercúlea que era a gestão de um lar português (e sim estou a ser irónica, caso não tenham notado!). E não pensem que se tratava de um conceito anacrónico para a época, a “escolas de noivas” tinha e...ainda tem um público vasto no nosso país, porque ao fazer uma rápida pesquisa na internet encontrei uma edição de 2007. E não só, a título de curiosidade cabe referir que a autora, Laura Santos, por conta destes livros e outras publicações sobre gastronomia portuguesa e lavores construiu um império editorial que ainda se mantém nos nossos dias.
Depois de folhear esta “escola de noivas” não pude deixar de reflectir sobre o papel da mulher portuguesa na sociedade dos anos 60 e princípios dos anos 70 de como estas jovens ficavam confinadas a um ideal de donas de casa perfeitas e não desesperadas, verdadeiras super mulheres bem vestidas e de sorriso constante no rosto, numa sociedade conservadora que só lhes permitia trabalhar, ou viajar apenas com permissão escrita do marido, ou do pai no caso das solteiras. Só tenho mais uma coisa a acrescentar sobre esta matéria, viva a revolução do 25 de Abril!Boa leitura!

sexta, 22 abril 2016 17:23

O sal da terra

É um filme de Juliano Ribeiro Salgado e Win Wenders sobre o fotojornalista Sebastião Salgado.

Trata-se de uma narrativa a preto e branco que nos remete para o percurso fotográfico de Sebastião Salgado ao longo de toda a sua carreira. É sobretudo uma visão bipartida, por um lado, Wim Wenders debruça-se sobre o profissional sob o ponto de vista do admirador de uma obra icónica. Do outro, temos o olhar do filho, que aborda à ausência de um pai em constante movimento motivado pela apetência por outras realidades, por outros mundos longíquos que o afastavam do quotidiano familiar. O que não deixa de ser curioso é que Juliano Ribeiro Salgado acaba mesmo fazendo parte dessa errância de forma a poder conhecer o pai que nunca esteve presente e que nos dá a conhecer através deste documentário. Aos poucos estas duas visões antagónicas do mesmo homem complementam-se e vão construindo uma narrativa que não se limita a admirar a obra, mas que também nos mostra o lado mais humano, mais frágil e intímo de um homem que perpetou em imagens o pior e o melhor da natureza humana. Assim como, homenageia um terceiro elemento basilar para a carreira de Sebastião Salgado, a sua esposa, Lélia Warnick Salgado, porque sem ela nada teria sido possível. O Sal da terra é um documentário marcante, porque é impossível ficar indiferente as imagens mais negras da história da humanidade captada pela lente acutilante de Sebastião Salgado, mas ao mesmo tempo termina com um sopro de esperança, quando aborda o seu último grande projecto fotográfico génesis e ainda o trabalho desenvolvido pelo Instituto Terra, uma organização ambiental sem fins lucrativos fundada pela família Salgado, que tem como objectivo a reflorestação da mata atlântica no sudoeste Brasileiro.

http://www.expogenesis.pt/

sexta, 22 abril 2016 17:19

O caricaturista da diversão

 

Os desenhos do Bruno é um projecto que surgiu por necessidade, mas que resulta de uma paixão pelo cartoon de Bruno Prates. Uma iniciativa que não se limita as caricaturas, mas que se estende aos mais jovens, através de um projecto no pré-escolar que pretende promover a criatividade, através desta forma de arte e no futuro uma academia do desenho para todos.

O que te levou a este projecto do Bruno e das suas caricaturas?
Bruno Prates: Este projecto de certa forma começa na infância, quando o meu pai me incentivava a desenhar num caderno o tio patinhas, ou o zé carioca, era assim que passávamos o tempo. Depois comecei a criar os meus próprios bonecos com a cabeça de um desenho animado, os pés e braços de outros, porque achava que era mais importante do que copiar os originais. Como treinava muito, comecei a ouvir que até desenhava bem e em 1997 experimentei enviar para um jornal de Alcobaça uns desenhos em tom mais crítico, a chamada tira humorística, o director gostou, publicou e aí começou à minha experiência em termos de imprensa. Por outro lado, também tinha o hábito de fazer desenhos para oferecer aos meus amigos, ou familiares numa festa de casamento, ou de aniversário e as pessoas começaram a encorajar-me a cobrar pelos desenhos, mas não o fazia, porque sou professor de educação visual e tecnológica desde 2003, se a minha profissão fosse desenhar cobrava dinheiro, mas eu faço isto por prazer. Em 2013 o Ministério de Educação entendeu que já não havia a necessidade de ter dois docentes por sala e passou apenas a ter um e muitos de nós professores dessa área ficámos desempregados e eu tive de arranjar uma alternativa à escola e das muitas coisas que podia fazer lembrei-me que as caricaturas era a única que dominava e comecei a publicar os meus trabalhos nas redes sociais e a receber encomendas.

Tu tens um personagem principal nas tuas caricaturas ou são apenas resultado das fotos que te enviam?
BP: São dois conceitos diferentes, eu tenho o cartoon por encomenda, em que as pessoas enviam a fotografia e eu faço o desenho e depois tenho a tira humorística para imprensa que faço desde sempre onde tenho uma personagem principal que é o Zé Povinho, é um desenho que nos representa a todos inspirado em Bordalo Pinheiro e essa sim é a minha personagem habitual.

Quando desenhas o cartoon por encomenda para além da foto, tu pedes um resumo da personalidade da pessoa que vais caricaturar ou nem por isso?
BP: Por norma peço a fotografia e um tema em que queiram ver a pessoa representada. Se for algo muito elaborado aumenta o preço, é consoante a complexidade do trabalho. Regra geral as pessoas dizem-me os gostos musicais dos visados para eu desenhar algo que tenha a ver com a música, ou se apreciam os computadores para ter um elemento associado à informática, ou as novas tecnológias. Por exemplo, há crianças que sonham ser astronautas, eu desenha-os dessa forma. Existem características que questiono ao cliente, se for apenas uma caricatura eu faço-a no estilo cómico e divertido que me caracteriza, se for uma empresa a fazer um pedido aí sim peço o “retrato” das várias personalidades, ou pessoas a representar. As caricaturas para as empresas é um projecto mais recente e menos consistente, nesse caso faço um cartoon baseado no que os colegas de trabalho reparam na pessoa visada, qual a ideia que tem dele.

Quais são as pessoas que te pedem cartoons? Já tens ideia de um cliente-alvo?
BP: Sim, já. Os desenhos do Bruno existem desde 2013 e nestes 3 anos de existência já consigo fazer essa classificação, maioritariamente são mulheres, entre uma faixa etária entre os 25 e 45 anos são as que me contratam, porquê? Não sei bem, elas pedem-me muitas caricaturas de crianças, dos maridos ou dos namorados para oferecer. Os homens são mais recatados ou desconfiados, também pedem, mas é mais ao nível empresarial. Nota-se isso particularmente no dia do pai, quando se aproxima da data tenho muitas encomendas, quando é o dia da mãe, quase não tenho pedidos.

Desvenda um pouco o que pretendes a longo-prazo que sejam os “desenhos do Bruno”?
BP: Como sou professor e dou formação tenho um projecto com o pré-escolar que tem como objectivo o desenvolvimento da criatividade a partir do cartoon. Este é um trabalho que pretendo desenvolver com as idades mais precoces e que já existe. Comecei o ano passado a apresentar a ideia e este ano já consegui implementá-lo em parceria com à Câmara Municipal das Caldas da Rainha. Outro dos objectivos é ir até as escolas abordar esta temática da caricatura, de explicar como dá para viver do desenho, depende da maneira como trabalhámos. A médio e longo-prazo que é para isso que estou a trabalhar, pretendo ajudar a criar uma academia do desenho na vertente cartoon e não tanto a expressão plástica, isto porque eu tenho muitas solicitações de workshops para adultos e por vezes não é fácil porque não tenho disponibilidade para tudo. Gostaria de disponibilizar uma academia onde se pudesse desenvolver este tipo de competências no desenho.

Já tiveste algum pedido de uma caricatura um tanto quanto estranha ou inusual?
BP: Tenho uma ou outra cliente que me pede para favorecer determinadas partes do corpo, falo dos genitais e essas situações deixa-me um tanto quanto embaraçado, embora seja tudo via internet e eu tenho manter ao máximo um certo distanciamento e respeito que é para não haver confusões. Depois tenho clientes muito bonitas e tento passar a mensagem que provavelmente vai ser difícil transpor isso para o desenho, porque é uma caricatura divertida.

Então é sempre dessa forma que são feitas as encomendas? Via internet? Nunca te encontras fisicamente com a pessoa para fazer um cartoon?
BP: Não, há poucas situações dessas, porque a caricatura é muito simplificada. É um desenho rápido, que não carece de uma análise in loco, através da fotografia consigo fazer o desenho, embora haja clientes que tenham essa ideia, mas eu explico sempre o processo, que é simples porque permite-me trabalhar a hora que eu quiser, vou gerindo o meu tempo de forma eficiente e consigo trabalhar desta forma.

Quanto tempo em média demoras para fazer uma caricatura?
BP: Primeiro, leio tudo o que as pessoas escrevem sobre a pessoa, desenho logo a caricatura numa folha a lápis, digitalizo, a seguir faço o vector no computador e pinto, no final mando aplicar em t-shirt, ou em canecas, ou molduras, mas também faço pinturas em paredes, por média demoro duas horas quando é uma pessoa. Continuo a desenhar a lápis para não perder essa hábito do desenho, gosto de desenhar e também porque a parte da digitalização é a mais aborrecida do trabalho. Passo o cartoon para o vector para se tornar mais fácil à sua aplicação noutros materiais. Quando faço o desenho envio uma prova para o cliente aprovar, se for aprovado de imediato fica tudo resolvido em duas horas, mas se não responder logo, ou for necessário alterar alguma coisa, que acontece algumas vezes, um trabalho pode demorar mais tempo. Existe também esta questão, a pessoa envia-me uma fotografia de que gostam muito e não uma mais fiel das suas feições, eu desenho a partir dessa imagem, depois a pessoa diz que não se parece com ela, porquê? Para aí o desenho é meu e +e a minha visão daquela pessoa, não reproduzo apenas o que elas querem, embora nem toda a gente seja fácil reproduzir.

O que torna uma pessoa mais difícil de desenhar que outras?
BP: É ser o mais normal possível. Se não tiver uma característica física que o realce como o nariz, os dentes, as orelhas, os olhos ou o cabelo, torna-se mais difícil porque é um rosto comum e tens de andar à procura de algo para não ficar igual a fotografia.(risos).

sexta, 22 abril 2016 17:13

Aldeias de portugal

Novo guia que ajuda a promover turismo no Norte durante todo o ano.

“Aldeias de Portugal” é um novo guia para “combater a sazonalidade turística” e promover a “economia local” que o Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP) e a Associação de Turismo da Aldeia (ATA) lançam no final do mês de Março.


A publicação apresenta 80 aldeias de Portugal ao longo de cerca de 100 páginas e revela aqueles espaços rurais como um “produto turístico único e inimitável”, “personalizado” e que valoriza a “hospitalidade”, “lazer” e “tradições”, refere um comunicado do TPNP. “Este projeto é uma excelente aposta para combater a sazonalidade, aumentar a estada média e trazer valor acrescentado aos nossos parceiros públicos e privados, com a dinamização da economia local”, defende o presidente da instituição nortenha, Melchior Moreira.


Para Ana Paula Xavier, da ATA, as aldeias da região Norte apresentam locais “de uma beleza paisagística e riqueza arquitetónica memoráveis”. “Ao longo dos últimos dez anos, temos promovido um esforço importante no desenvolvimento integrado e sustentado do turismo nos territórios rurais, na valorização de recursos e produtos locais e na preservação da cultura e do património do mundo rural”, adiantou Ana Paula Xavier.

Com lusa

terça, 22 março 2016 17:38

O memorialista crioulo

Dany Silva é um dos nomes incontornáveis da música cabo-verdiana em Portugal. O seu nome ficará para sempre associado à promoção de ritmos crioulos e da divulgação das mornas e coladeiras no nosso país, mas foi o tema “branco velho, tinto e jeropiga” que o tornou um artista imortal na memória dos portugueses.

Em 2012 gravou o álbum “amor em adjectivo”.
Dany Silva: Eu não gravei, participei nesse álbum, estou eu, o Vitorino e um cantor cubano. Neste trabalho participo com 3 ou 4 temas, a ideia era um criar um triângulo do Atlântico, Portugal, Cabo Verde e Cuba.

Dessa experiência que retirou? De certeza que houve uma troca de impressões sobre a música dos vossos respectivos países?
DS: O que acontece no caso do Vitorino é que ele faz música popular portuguesa, alentajana e não houve grande dificuldade, porque o conheço há vários anos e até conheço o irmão, o Janita Salomé. Em relação ao músico cubano, nos ouvimos muito este tipo de sonoridades em Cabo Verde, é uma música com ritmo e dançante e o cabo-verdiano, por natureza, gosta de festa. Neste disco deram-me 4 poemas para musicar e fizemos um espectáculo em Guimarães onde chegámos à conclusão, nos ensaios, que estávamos a seguir caminhos parecidos. Depois neste mundo global onde estámos a viver e ouvimos música de todo o lado, sobretudo, aquelas que gostámos, os poemas levaram-nos para esses lados, mas foi engraçado. Esse concerto foi gravado ao vivo e depois então editado em CD e foi um trabalho interessante, porque me deu muito prazer fazer.

O Danny Silva gosta muito de parcerias musicais. Porquê, buscar esse seu repertório detrás, que é extenso?
DS: Faço sobretudo quando são intérpretes que me agradam e as músicas também.
Na minha carreira tenho feito muitos duetos, não só em trabalhos meus, como eu prórprio apareci em discos dos outros. Normalmente, é uma forma de ganhar experiência e uma maneira diferente de mostrar um tema, eu componho uma canção e dá-me “gozo” ouvir outra pessoa a cantá-la. Eu escolho as pessoas, vejo como cantam e sentem a música, dá-me imenso prazer fazer esse tipo de experiências. Por norma, esses duetos tem saído com muita qualidade e não me lembro de nenhuma excepção.

Com mais de 40 anos de carreira, qual é ao se ver o seu trabalho discográfico que melhor o definia como músico?
DS: É difícil, porque todos os trabalhos, principalmente os que estão gravados, ou editados, tem a ver comigo. Há deles que marcaram a minha carreira, o primeiro disco que gravei em português, era um single, tive logo sorte, foi um sucesso enorme, que é “branco velho, tinto e jeropiga”. Foi um sucesso de vendas, mas não falo apenas disso, as pessoas vinham falar comigo, desde as mais novas, as mais velhas. Nestes quarenta anos, em todos os espectáculos que fiz, deixava esse tema para fim para ver se as pessoas o esqueciam, porque o toquei centenas de vezes, mas as pessoas pediam-mo sempre e não era só em Portugal, em Angola e Moçambique e fui convidado a tocar em França e outros países por conta desse tema. Nesse mesmo EP eu tinha uma tema muito ligado aos blues, era cantado em inglês, teve uma boa aceitação nesse meio, mas que não chega aos calcanhares de “branco velho, tinto e jeropiga” o que me proporcionou e me marcou imenso. Esse tema apareceu porque quando fiz o contacto com a editora, a Valetim de Carvalho que era mais poderosa da época em Portugal, foi na altura da explosão da música rock portuguesa, do Rui Veloso, dos GNR e dos Já fumega, eu estava preparado para fazer música cabo-verdiana, da minha terra, que na altura estava pouco divulgada e fazia parte do contrato cantar em português, porque era a onda. A partir daí nasceu a canção e só para acrescentar que mais tarde houve outro disco que me marcou, convenci a editora a gravar temas de raíz cabo-verdiana e cantadas em crioulo, foi o meu primeiro LP, chamado “Lua vagabunda” e onde esta incluída uma morna muito antiga, da ilha da Boavista, “a lua nhá testemunha” e esse tema deu-me um prazer enorme e quando as pessoas não cabo-verdianas começaram a ouvir, começaram a cantar e aceitá-la também. Como também a “crioula de São Bento” que é um tema mais africano, que tem um tom brejeiro, na altura essa zona de Lisboa chamavámos de zona libertada por causa dos restaurantes e tascas cabo-verdianas e é um tema que também faz parte deste meu percurso.

Existe algum projecto musical em mente, ou que não terminou e gostaria de gravar?
DS: Há muita coisa por fazer ainda, eu tenho 68 anos, mas ainda posso fazer muito mais, desde que tenha saúde. Eu tenho um projecto que comecei em 2007, são temas que não compus, que não gravei, mas são músicas que eu adoro, são de outras pessoas, são duetos, comecei a gravá-los e como não tinha uma editora a apoiar-me, realizei uma produção própria, com custos económicos que suportei eu próprio e com o apoio dos músicos que participaram. O material musical uns a gravaram por amor e carinho, ou paguei um terço do que deveria pagar de direitos de autor e este disco acabei de completá-lo há dois anos, depois disso, como não consigo ter por detrás uma máquina de marketing esta na gaveta. Já contactei várias editoras, mas não chegámos a acordo, não por questões económicas, eu quero que o álbum seja bem tratado ao nível da produção e quanto mais não seja, por respeito as pessoas que participaram nesse trabalho, a maior parte tem uma carreira feita em Portugal com muito sacrifício e não queria que esse disco aparecesse maltratado, desde uma capa condigna, a uma produção a condizer e uma distribuição aceitável, no país todo e a lusofónia, mas ainda não consegui uma editora que aceitasse estes termos e por isso tenho-o na gaveta, vou ouvindo-o de vez em quando, à espera que surja uma oportunidade, ou um patrocinador.

Tem um título esse trabalho discográfico?
DS: Não tem, mas podia chamá-lo de canções da minha vida em torno disso, porque eu quero que as pessoas percebam que são os temas de que mais gosto e que tenho “raiva” de não ter sido eu a compo-los, porque são lindos.

Actualmente as pessoas valorizam mais a música cabo-verdiana precisamente pelo trabalho desenvolvido pelo Dany, pelo Tito Paris, a Cesária Évora e outros nomes.
DS: Antes de mim, o Tito Paris começou a gravar porque tinha uma editora própria e passou pelo Senegal antes de chegar a Paris, mas houve outras pessoas antes dele que passaram despercebidas, porque havia um gueto dígamos assim. Àquela zona de São Bento era frequentada por quem esteve em Cabo-Verde, ou quem tivesse vindo de Angola também para ouvir música, mas as editoras não se interessavam muito. Por isso, é que o Bana abriu um bar, no largo do Rato, frequentado por africanos em geral e com o dinheiro que ia ganhando ia fazendo os seus discos, com uma editora dele que fazia a distribuição caseira, por intermédio de amigos, através de caixotes que eram levados até França para vender na colónia de emigrantes cabo-verdianos, depois ia fazendo segundas edições, mas ele gravou muito mais trabalhos em crioulo e lá esta ele não teve a divulgação que merecia.

Mas, quando se fala de música cabo-verdiana em Portugal o seu nome é sempre lembrado.
DS: Sim, é verdade. Quando eu gravei o single com dois temas, eu não podia fazer um concerto com duas canções, então o que fazia? Cantava música cabo-verdiana primeiro e depois pelo meio cantava um dos temas, mais coladeiras e mornas e depois a face b. Aproveitando o êxito de “branco velho, tinto e Jeropiga” eu ia divulgando a música de Cabo-Verde. Foi isso que marcou muito as pessoas ao fazerem críticas aos meus concertos, isso acabou por associar o meu nome a dos divulgadores da música cabo-verdiana. A música de Angola ouvia-se pouco, só se ouvia falar do duo “ouro negro”, era basicamente isso, depois mais tarde, após o 25 de Abril aparece um grande poeta e compositor angolano o Rui Midas, que gravou, mas como estava ligado ao MPLA foi encaminhado para o governo e muito raramente cantava. Nos últimos 10 anos a música angolana aparece com mais força graças ao Kuduro e o Kizomba, eu penso que isto aparece por detrás da grande divulgação que a música cabo-verdiana teve, em particular com a Cesária Évora. Depois há um outro fenónemo muito importante para a música de Angola e Cabo-Verde que foi o aparecimento do Zouk, a música das Antilhas que cantavam em crioulo.

As novas gerações ainda reconhecem esse legado.
DS: Em Cabo-verde a juventude é muito virada para as raízes. Gostam dos ritmos estrangeiros como o reggae e hip-hop, mas compõem em crioulo, não dispensam a sua morna genuína, ou a sua coladeira.

Então a música cabo-verdiana esta de boa saúde e recomenda-se.
DS: Esta de boa saúde e recomenda-se cada vez mais e com muito boa gente a cantar.

E os músicos portugueses são sensíveis a este tipo de sonoridade africana?
DS: O Vitorino, há uns anos, fez um novo álbum e gravou com a Joana Rosa. Até fizemos uma tradução em crioulo, eu fiz um dueto com o Tito Paris e a geração que aprecia música tradicional portuguesa, como o fado, começaram também a interessar-se pela sonoridade cabo-verdiana.

terça, 22 março 2016 17:31

A fajã dos padres

  

É mais uma viagem pelas belas paisagens do arquipélago da Madeira.

As origens das Fajãs remontam ao cessar da actividade vulcânica da ilha. Em termos geológicos resultam do desmoronamento de terras situadas a montante, ao longo da costa marítima, que se desagregraram das vertentes da montanha, sem qualquer aviso, ou possivel previsibilidade, simplesmente acontecem e tanto podem criar tractos de terreno de maior ou menor extensão, como podem pura e simplesmente desaparecer por arrastamento das terras pelas marés. É um evento da natureza que pode provocar ondas gigantes, devido ao colapso das encostas e segundo relatos populares que já se viram confrontados com esses actos pungentes naturais parecem autênticos terramotos, tal é a força do impacto da queda das terras no oceano.

Na Madeira ao longo da costa existem vários destes terrenos que desde o início da colonização da ilha foram utilizados pela população pela elevada fertilidade da terra e fácil acesso pelo mar. A Fajã dos padres é um desses exemplos, situada na costa sul, trata-se de uma área de terreno no fundo de um grande rocha colonizada pelos jesuitas que nele produziam todo o tipo de frutas, vegetais e ainda foram responsáveis pela plantação de uma mais famosas castas de vinho Madeira, a malvasia.
Desde o século XV até ao XVIII os padres e mais 50 habitantes que lhe deviam obediência foram responsáveis pela exportação de milhares de barris de vinho por toda à Europa, uma história de sucesso que terminou abruptamente quando o Marquês de Pombal decidiu extinguir à Companhia de Jesus e expulsou os jesuitas de todo o reino de Portugal. No caso das Fajã dos Padres os terrenos que se extendiam até o Campanário foram vendidos em leilão e a propriedade foi fragmentada.
Nos nossos dias a fajã é considerada um dos segredos mais bem guardados da ilha, do topo da elevada encosta são ainda visíveis os vestigíos da passagem dos jesuitas por esta zona, a capela onde se rezava pela salvação das almas, a adega onde se espremiam as uvas e algumas habitações dos antigos colonos, que na actualidade são alugadas aos turistas e locais.

Aviso à navegação, uma visita à Fajã dos Padres é toda uma aventura, acreditem, para aceder ao elevador panorâmico com vista para o oceano, é necessário descer cerca de 92 escadas, depois é uma viagem de quatro minutos, ao longo de uma encosta de 300 metros de altura na vertical que é de tirar o fôlego e não falo apenas do mar azul infinito que desfila em frente do nosso olhar. Mas, a odisseia não termina aí, já que é necessário calcorrear mais noventa e duas passadas na saída. Prometo que vale a pena o esforço, porque somos logo brindados com uma paisagem cravejada de diferentes variedades de árvores de frutas tropicais, são mais de 25 espécies, que são um dos mais belos cartão-de-visita desta área e ainda podem provar o famoso vinho malvasia que é produzido em menor escala. É um recanto para descobrir com calma, onde parece que o tempo parou, quase que isolado do mundo, onde só se ouve o bater das ondas no calhau... Bem, nem tudo é assim tão paradisíaco, existe wi-fi, um bar, praia e tem também disponível um teleférico para a delicia dos visitantes.

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