Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

sexta, 31 março 2017 14:20

Noite

Esta peça surge de um convite ao encenador Graeme Pulleyn que se rodeou uma equipa quase inteiramente natural ou residente em Viseu para dar corpo a este desafio e que conta com a interpretação e co-criação de Sofia Moura

Perséfone, uma menina de 5 anos faz uma viagem inesperada com a sua mãe, da cidade para uma aldeia no interior de Portugal, que tanto podia ser de Lisboa como para o Minho, para visitar a avó que está doente. Esta noite vai ter que dormir sozinha, no quarto onde a mãe dormia quando era pequena. Quarto este recheado de sombras estranhas, ruídos assustadores e um baú que esconde os segredos da noite. Até o peluche, que lhe faz companhia, não é o dela. E surge na cabeça da pequena Perséfone a grande questão. "Para que é que serve noite?". Pouco a pouco vai ganhando coragem para enfrentar os seus medos e com a ajuda da Dona Noite e do Capitão Escuro a menina heroína embarca numa viagem emocionante à descoberta dos segredos da noite.

Este espectáculo, dirigido a um público infantil, dos 3 aos 6 anos, e familiar é uma criação original de Graeme Pulleyn e Sofía Moura. Num processo de improvisação, que cruza as linguagens da dança, do teatro e dos contadores de histórias, os dois artistas de Viseu procuraram criar um espectáculo com uma forte vertente visual, que puxa pela imaginação, que mexe com as emoções e com uma forte narrativa que agarra miúdos e graúdos. A peça foi concebida como uma viagem algures entre a realidade e o sonho, durante a qual Perséfone vai conhecendo as criaturas e as personagens da noite e vai percebendo que a noite é um mundo para descobrir. Sofia Moura desdobra-se nas múltiplas personagens desta história que só termina com o nascer do sol e o chilrear dos passarinhos.

Este espectáculo é uma produção das Comédias do Minho, companhia sediada em Paredes de Coura e que serve os cinco concelhos de Paredes de Coura, Valença, Melgaço, Monção e Vila Nova de Cerveira.

Ficha Técnica e Artística
Entidade Produtora Comédias do Minho
Encenação e co-criação Graeme Pulleyn
Interpretação e co-criação Sofia Moura
Assistência de Encenação Inês Amaral Mendes
Desenho de luzes Vasco Ferreira
Direcção do projecto pedagógica das Comédias do Minho Alice Silva

VILA NOVA DE CERVEIRA
1 ABR | Biblioteca Municipal | 11:00

PAREDES DE COURA
23 ABR | Centro Cultural | 15:30

MONÇÃO
29 ABR | Biblioteca Municipal | 15:00

VALENÇA
13 MAI | Biblioteca Municipal | 15:00

sexta, 31 março 2017 14:05

Verão explosivo

São algumas das propostas dos designers portugueses para o tempo estival.

O designer de moda Luís Carvalho teve como inspiração o estilo de Debbie Harry dos Blondie e assim surge “Heart of Glass”, uma coleção "com referências nos estilos pop/rock dos anos 70. A sua silhueta varia entre o crop/longo e o skinny/XL, em materiais que contrastam entre o fluido e o estruturado onde são exploradas diferentes texturas. Os detalhes como as riscas e as aplicações metálicas surgem em evidência ou em pequenos pormenores, com uma paleta de cores tem como referência as obras da artista plástica dos anos 70, Gretchen Albrecht e que resulta numa explosão de cores vivas que variam entre o coral, verde, vermelho e o azul". Em termos de tecidos houve o estilista seleccionou malhas com acabamentos de vinil, sarjas de algodão, algodão, cupro e seda que conferem um toque de luxo aos coordenados.

 

Retrospectiva é mote de Filipe Faísca para a coleccção que mostrou na moda Lisboa, para esta estação de primavera-verão, um “Fast. Forward. Play. Again. Stop! Aqui chegados, o que ficou? O que se segue? Qual o caminho? O que importa: o mundo, eu, o outro? Que valores subsistem? Refugiamo-nos de quem? Que guerra é a nossa? Que crise vivemos? Que moda é esta? Retro? Tudo depende da perspetiva em que se olha. A máquina do tempo não pára. Passado. Presente. Futuro. Chamemos-lhe Retrospectiva. Somos a soma do que vivemos, do que aprendemos. Reinventemos os dias com o que nos define, a nossa essência. Já nos conhecemos? Tudo depende da perspetiva em que se olha. Stop!". O estilista mostrou várias peças em algodão, cabedal , cupro , lyocell, neoprene, seda, tencel, veludo e viscose, misturando padrões de pathwork, riscas e plissados. O padrão mandala é da autoria de Colin Foord e Jared Mckay e as cores variaram entre uma palete muito diversificada de amarelo sol, azul indigo, branco giz, camel, mel e verde militar e recife. Os totes e chapéus é da marca Palmas Douradas Algarve, os acessórios Montblanc e os sapatos Christian Laboutin.

sexta, 31 março 2017 14:01

História de antiguidades

Para Rui Afonso Santos, no prefácio que escreve sobre o seu amigo, estas crónicas de aventuras e cumplicidades são deliciosas, porque “com extraordinário deleite e prazer se lêem estas narrações, através das quais o Anisío Franco afirma a sua pujança como historiador e aventureiro, desbravador de novos caminhos histográficos”.

Por norma, quando entrevisto um autor de um livro, nunca cito frases dos textos, mas para aguçar à vossa curiosidade sobre este escritor e as histórias maravilhosas e ao mesmo tempo hilariantes que tem para contar e que tive o prazer de ouvir em mais uma palestra sobre “Dar a Ver” vou buscar duas crónicas, a primeira, intitulada, “a minha bigoduda”... “ Mal a avistei, periclitantemente encostada à escada, jurei que havia ser minha, mesmo com o marido ali ao lado. Mas, quem era ela, a brava senhora com cara de poucos amigos e lábio superior ornado de bigode?”.

“O ídolo”... “ Um agente da Guarda Nacional Republicana apresentou-se junto do presidente da Cooperativa Agrícola Unidade de Manços. À pergunta sobre o paradeiro da escultura romana, reponderam-lhe outra: O Santo Antoninho?As coisas azedaram quando o ídolo voltou a ser reclamado”.

Queria saber há quantos anos é que faz esta colecção de retratos?
Anísio Franco: Esta especificamente, porque o coleccionismo começa muito antes, focou-se provavelmente em 1988, quando tive a possibilidade de comprar e adquirir peças de arte. No princípio até não era uma colecção, era algo que achava graça, tinha a ver com o que estudava, a retratística, os retratos e as séries régias, depois comprei, uma e outra pintura e transformou-se em algo muito sério.

E no total possui quantos retratos?
AF: Cerca de 300 retratos, pinturas de pessoas feias, bonitas, altas, magras, o que me importa é a figura humana. Há um teor humanista nesta colecção, interessa-me preservar a memória daquelas pessoas. Contudo, foram esquecidas e mais tinham o desejo de que alguém os preservasse, uma vontade que acabou por não ser respeitada.

Conseguiu descobrir já todas as histórias dos seus quadros?
AF: Não e ainda bem que não. Eu não gosto de retratos por saber quem é que esta representado. Eu prefiro o desafio, tem a ver com a minha formação de história da arte. O estilo e história verdadeira dos quadros que comprei é o que menos me interessam, por exemplo, tenho um quadro na sala de que sei tudo, o nome do autor, do pintor, quem fez a moldura, a tela, tudo e só o acho decorativo. Para mim o mais importante é sempre o desafio e ainda bem que há muitos que nada sei, porque ainda tenho muito para trabalhar e estudar.

Já alguma vez se interrogou porque gosta tanto dessa área artística tão específica?
AF: Sim, já, porque gosto dos seres humanos. É uma questão humanista. As pessoas que estão ali retratadas viveram, tiveram os seus problemas, as suas idiossincrasias, como aquela mulher do bigode. Interessam-me pelo respeito que tenho pela humanidade.

De entre todos esses retratos que encontrou, houve algum que tivesse descoberto que se tratava de um tesouro artístico, não em termos da pessoa em si, mas sim do autor da pintura?
AF: Sim, claro. Eu já tive retratos que pensei que era uma coisa e afinal era algo melhor. Mas, esse é o aspecto que menos me interessa, definitivamente. Até porque depois não tenho vontade de os trocar por dinheiro, o facto das pessoas acharem maravilhoso, porque se trata de um artista com um certo valor no mercado, isso não me entusiasma nada, particularmente. Já o que me importa sendo bom ou mau, e não há muitos maus retratos por uma questão muito simples, ninguém gosta de ser mal retratado e o pintor estava sempre em frente do retratado, é quem lá esta.

Existe algum quadro, dos muitos que não conhece as verdadeiras histórias e não incluo as que inventa para alguns dos seus retratos, com o qual esteja obcecado por descobrir?
AF: Existem alguns, a questão é que com o tempo as verdadeiras histórias vão aparecendo, quando menos espero, como conto no livro, como quando encontrei uma gravura onde uma das minhas pessoas estava retratada.

Como é que fez a selecção para este livro “histórias de antiguidades”?
AF: Foi muito difícil, porque eu tinha escrito muitas histórias ao longo dos anos, mais em duas revistas sobre arte, a “Arte Ibérica” e a “L+ Arte”. Depois acabei por fazer uma selecção temática, uma em torno dos retratos, outra enfim sobre objectos de arte, não foi algo que me tivesse sido fácil, porque havia muitas outras histórias para publicar e as condições editoriais não eram propriamente folgadas, por isso, era necessário reduzir e acabei por escolher as mais empolgantes, as mais divertidas.

As que não publicou em livro, já pensou em usá-las para outras publicações?
AF: Sim, já, mas entretanto, tudo passa pela questão editorial deste momento. Em Portugal, ao contrário do que acontecia há alguns anos, o autor impunha o que pretendia publicar e actualmente o público é que manda no que quer comprar e as editoras vivem disso. Depois existem outras áreas mais interessantes para os leitores, como por exemplo, com esta vaga de turismo, tenho o “Caminhar por Lisboa” e essa vertente editorial é muito mais apelativa para o mercado.

E o que pensa fazer com todos os seus retratos quando envelhecer?
AF: É uma das questões que me preocupa, mas as colecções tem de ser preservadas. Bem, pensei que podiam ir até o museu de Lagos, por exemplo. (risos)

    

“Obscuros somos sempre, mesmo sem pedi-lo. Grande vitória que ninguém nos poderá arrebatar. Que nem mesmo Deus, se existesse...Etc”. São frases como estas que deram origem a um grande conjunto de ilustrações em lápis de cor e acrílico de Mariana Viana que exploram 23 contos, de prosa poética, sobre “Os passos em volta” de Herberto Helder.

Como é que surge este projecto do “Desenhos em volta de os passos de Herberto Helder”?
Mariana Viana: Este projecto surge de uma tese de doutoramento em artes visuais com o título “Os passos em volta de Herberto Helder e a ilustração enquanto parte onírica” foi um trabalho em torno do livro “Os passos em volta” no sentido de perceber que tipo de imagens ou ilustrações poderiam trabalhar paralelamente com o texto.

Quais foram os textos de esta obra que escolheste?
MV: Foi a obra completa. Fui lendo o livro durante muito tempo, embora já conhecia o “Os passos em volta” há muito tempo, depois fiz um trabalho de releitura já a pensar que tipo de energética é que poderia suscitar, coloquei a obra de parte e comecei a desenhar diariamente durante dois anos, foram mais de 400 desenhos que tinham que ver com os 23 textos no seu conjunto. Só mais tarde é que comecei a pensar como é que os ia encaixar em determinado tipo de textos, ou que textos poderiam ir juntamente com os desenhos. Posteriormente, foi também feita uma proposta de livro onde as restantes ilustrações pudessem constar.

 Porquê escolheste de toda a obra de Herberto Helder logo um livro de prosa?

MV: Porque era um livro que me dizia muito e queria mesmo explorar esse tipo de energética.

O que te atraiu no livro em termos visuais?
MV: Esse lado onírico e essa dualidade entre a realidade e o sonho, o andarem nessa passagem entre um e outro. Acho que nesses textos isso é muito significativo, para mim, evoca muito esses universos.

Disseste que começaste logo a desenhar, então depois de dois anos, como é que fizeste a selecção das imagens para esses textos?
MV: Foi olhando para os desenhos, relendo os textos e tentando encaixá-los. Algumas das ilustrações estavam muito relacionadas directamente com alguns dos textos em particular, outros podiam ilustrar qualquer um. Mas, foi um trabalho em duas fases, uma primeira foi o desenho que sai muito espontaneamente e depois saber onde é que encaixam nos textos.

Há muitas ilustrações com animais.
MV: Os textos não falam assim tanto de animais.
Não?
MV: Eu acho que sim, embora não seja explícito.

Sabendo que Herberto Helder era um ilhéu de origem, houve algo de ilha neste trabalho?
MV: Quando olho para o produto final, talvez. Mas, não foi um factor importante. É muito difícil falar sobre o nosso trabalho, só no fim fiz alguma análise a mim própria e ao meu trabalho, até porque ficava muitas vezes admirada comigo mesma e depois percebia o que estava lá, mas foi mais um trabalho compulsivo e de grande envolvimento com os textos.

Depois deste trabalho todo o que sentiste? Depois de decidir tudo, quais as ilustrações para cada um dos textos e saberes que tinhas uma obra.
MV: Vazia. Tinha espurgado tudo. (risos) Foram dois anos que tinham chegado ao fim e dificilmente sairia mais nada, já tinha saído tudo o que era possível para aquele trabalho.

quarta, 29 março 2017 16:32

3º festival do ouriço-do-mar

As "Jornadas Técnicas" destacam projetos de investigação científica, de preservação do ouriço-do-mar e a enogastronomia, no concelho de Mafra, dos dias 31 de Março até 9 de Abril.

A Ericeira é a anfitrião de este encontro que visa mostrar as potencialidades de uma iguaria ainda desconhecida de muitos, e que por esses dias irá revelar todo o seu sabor e potencial. Mais do que um evento gastronómico, o festival é ainda a oportunidade perfeita para conhecer a fundo esta espécie, o seu habitat, características biológicas e até fatores sociais e ambientais que, atualmente, ameaçam esta criatura marinha.
A proteção da espécie é o mote das "Jornadas Técnicas" que se realizam na Casa da Cultura Jaime Lobo e Silva, localizada no centro da vila da Ericeira, um conjunto de sessões e palestras, a decorrer no dia 1 de Abril, especificamente dedicadas à investigação e projetos relacionados com a preservação do ouriço-do-mar.
As atividades das Jornadas serão dinamizadas por investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE). Estes irão fazer o ponto da situação sobre a pesca e o cultivo do ouriço-do-mar, bem como as estratégias para levar a cabo a sua exploração económica sem provocar impactos nas populações selvagens. Serão também apresentados os projetos candidatos ao MAR 2020, o "Ouriceira Mar", que integra o estudo sobre a ecologia e a exploração de ouriços-do-mar na Ericeira e regiões adjacentes e o "Ouriceira Aqua" que visa criar as bases para o cultivo da espécie na região e em Portugal.
A segunda parte deste encontro é dedicada ao debate sobre Turismo Gastronómico, será centrada em temas como o impacto da enogastronomia no turismo culinário, promoção turística de recursos e produtos endógenos e desenvolvimento económico dos territórios.
Durante os restantes dias do Festival do Ouriço-do-mar, a Câmara Municipal de Mafra, promotora da iniciativa, propõe ainda acompanhar e participar numa série de experiências gastronómicas nos 24 restaurantes aderentes, em cujas ementas o ouriço-do-mar adquire um especial protagonismo, e sessões de showcookings pedagógicos e degustações, nos sábados dias 1 e 8 abril à tarde, no Mercado Municipal da Ericeira, com a presença de reputados chefs nacionais e internacionais.

 

JORNADAS TÉCNICAS

Sábado | 1 Abril 2017 | 09h30 - 13h00 Auditório da Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva, Ericeira Participação gratuita (mediante lotação da sala)

CERIMÓNIA DE ABERTURA DAS JORNADAS TÉCNICAS com Presidente da Câmara Municipal de Mafra, Hélder Sousa Silva

1.ª PARTE

ABUNDÂNCIA, DISTRIBUIÇÃO E EXPLORAÇÃO DO OURIÇO-DO-MAR (PARACENTROTUS LIVIDUS) NA COSTA ALENTEJANA Orador: Nuno Mamede, Investigador do MARE, Laboratório de Ciências do Mar, Universidade de Évora.

AVANÇOS E NOVOS DESAFIOS PARA O CULTIVO DO OURIÇO-DO-MAR (PARACENTROTUS LIVIDUS) Oradora: Susana Ferreira, Investigadora do MARE e Professora adjunta da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (da ESTM) do Instituto Politécnico de Leiria.

PROJETO OURICEIRA MAR: ECOLOGIA E EXPLORAÇÃO DE OURIÇOS-DO-MAR (PARACENTROTUS LIVIDUS) NA ERICEIRA E EM REGIÕES ADJACENTES, TRANSFERÊNCIA DE CONHECIMENTOS A PESCADORES, GESTÃO E REPOVOAMENTO Orador: José Lino Costa, Investigador do MARE, Coordenador do pólo da Universidade de Lisboa do MARE e Professor Auxiliar da FCUL, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

PROJETO OURICEIRA AQUA: AQUACULTURA E ACABAMENTO DAS GÓNADAS DO OURIÇO-DO-MAR (PARACENTROTUS LIVIDUS) Oradora: Ana Pombo, Investigadora do MARE e Professora adjunta e Coordenadora do Mestrado em Aquacultura da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESTM) do Instituto Politécnico de Leiria.

ALGAS MARINHAS NA ALIMENTAÇÃO HUMANA Orador: Leonel Pereira, Investigador do MARE, Departamento Ciências da Vida, Universidade de Coimbra.

2.ª PARTE

TURISMO GASTRONÓMICO

Debate sobre o impacto da enogastronomia no turismo gastronómico, promoção turística de recursos e produtos endógenos e desenvolvimento económico dos territórios.
Moderadora: Alexandra Prada Coelhp, jornalista jornal Público.
Convidados à mesa: Mafalda Patuleia, Diretora Turismo da Universidade Lusófona Bruno Ramos, Diretor Marketing das Aldeias do Xisto Albano Silva, Diretor do Grupo Vila Galé.

ENCERRAMENTO DAS JORNADAS TÉCNICAS

SHOWCOOKINGS

PROGRAMA

Sábado | 1 de abril-Chef Justin Jennings (Austrália), Restaurante DownUnder em Lisboa Chef António Alexandre (Portugal), Endògenos e Lisboa Marriott Hotel, en Lisboa e Chef Pedro Mendes (Pt), Restaurante Maria Pia, Cascais Sábado |

Sábado |8 de abril-Chef Roberto Sihuay (Peru), Restaurantes Ceviche 103 e Nikkei 103 em Barcelona, Chef António Alexandre (Pt), Endògenos e Lisboa Marriott Hotel, en Lisboa eChef Paulo Morais (Pt), Restaurante Rabo d’Pêxe, Lisboa Mafra Wine & Beer Pairing.

Sábados |Dias 1 e 8 de abril de 2017 16h00 às 21h00 no Mercado Municipal da Ericeira.
Provas e vinho a copo, harmonização vínica, cerveja artesanal, iniciativas a desenvolver em paralelo com as criações gastronómicas dos chefes convidados nas sessões de showcooking do evento. Produtores presentes, Quinta de Sant’Ana, ManzWine, Adega Cooperativa de Azueira e Mean Sardine Brewery Ericeira

terça, 07 março 2017 22:44

Big fish

É uma das canções como pré-lançamento do oitavo álbum da banda de Alcobaça, dos The gift, cujo primeiro single é um ode ao efémero.

O dia 10 de março marca o lançamento de um novo single dos the Gift, “Big Fish", com produção de Brian Eno, reconhecido produtor inglês que trabalhou durante dois anos com o grupo no álbum “Altar”, um projeto que a banda descreve como a “obra de uma vida”. O grupo aproxima-se da data de lançamento do seu próximo álbum de originais e antecipa agora este single, uma canção que remete para o sentimento vivido pela banda nas suas sessões de gravação num estúdio na Galiza, em Espanha, em Londres e finalmente em Alcobaça, partilhadas com o produtor britânico, Brian Eno.

“Big Fish” é uma ode ao presente, uma epopeia do efémero, de como aproveitar cada momento que a vida nos oferece. É um tema sobre a mutação, sobre o viver dentro de um corpo maior que nós próprios, um espelho para a própria relação que a banda tem para com a sua música.Ainda antes do lançamento do álbum, os the Gift preparam-se para tocar no SXSW em Austin, nos Estados Unidos, o maior festival de showcases de música no mundo, passando ainda por Nova Iorque para um concerto único marcado para dia 12 de março.

https://soundcloud.com/the-gift-official/big-fish

ALTAR TOUR

ABRIL
13.04 - Cine Teatro de Alcobaça
14.04 - Cine Teatro de Alcobaça
19.04 - Grande Auditório do CCB - Lisboa
21.04 - Centro Cultural Vila Flor - Guimarães
22.04 - Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão
25.04 - Teatro Aveirense - Aveiro
26.04 - Teatro Municipal de Vila Real
29.04 - Teatro das Figuras - Faro

MAIO
01.05 - Casa da Musica - Porto
03.05 - Auditório do Convento de São Francisco - Coimbra
05.05 de Maio - Cine Teatro Avenida - Castelo Branco
06.05 - Theatro Circo - Braga
19.05 - The Great Escape - Brighton, UK
25.05 - Bush Hall - Londres, UK
30.05 - Maschinenhaus - Berlim, DE

terça, 07 março 2017 22:38

Minha senhora de mim

Maria Teresa Horta, uma das famosas três marias da novas cartas portuguesas, escreveu este compêndio de poemas, cujo impacto foi de tal forma poderoso que incomodou o poder do Estado Novo.

Trata-se de um pequeno caderno de poemas editado em finais de 1969, que apesar do seu sucesso editorial, o seu conteúdo foi condenado à obscuridade pela polícia política, a malfadada PIDE, que mandou apreender todos os exemplares existentes ao nível nacional, em todas as livrarias do país. O então subsecretário do Estado da Presidência do Concelho liderada por Marcelo Caetano, César Moreira Baptista, chegou ao ponto de ameaçar à proprietária da editora, Snu Abecassis, com o encerramento à Dom Quixote caso publicasse qualquer outra obra de Maria Teresa Horta. Mas, o que havia de tão perigoso, subversivo ou mesmo ameaçador para o fascismo na “Minha senhora de mim”? A própria autora esclarece numa entrevista que faz parte da obra “Novas cartas portuguesas: entre Portugal e o mundo”, “desejou escrever um livro directo, sem eufemismos, que falasse do prazer sexual da mulher”. A poetisa recorda ainda que, “por causa dele estive presa durante 24 horas. As paredes da minha casa foram pichadas com dizeres ofensivos e recebi telefonemas e cartas anônimas contendo ameaças”. Maria Teresa Horta, E sublinho o apenas, cometeu o crime supremo de abordar a sexualidade feminina sem pudores, nem constrangimentos. Se leremos alguns desses poemas, sob os auspicios da era moderna, parecem até inofensivos, mas, se fizermos uma viagem no tempo, até um Portugal fechado em si próprio, onde os direitos das mulheres eram extremamente limitados, foi uma lufada de ar fresco que ofendeu os ditos defensores da ordem, da moral e dos bons costumes da sociedade portuguesa. Caramba, com esta frase até já pareço uma das personagens do Herman José, o diácono Remédios, lembram-se do que ele diria? Não havia necessidade! Mas, afinal havia necessidade e muita de ler palavras carregadas de erotismo e sensualidade e por isso mesmo, aconselho vivamente a leitura deste livro de poemas, e sim, até poderia ter falado sobre a obra das três marias, mas apeteceu-me em vez disso, fazer uma pequena provocação. Fica a promessa de que para o próximo ano há mais três. Feliz leitura.

terça, 07 março 2017 22:33

Feminista em estado puro

Sílvia Vasconcelos é a coordenadora regional do Movimento Democrático das mulheres (MDM), que radica a sua participação na sociedade portuguesa, através da participação quer política, embora seja apartidário, quer através de debates, junto da populações e das escolas sobre os direitos humanos, com particular ênfase nos direitos das mulheres.

Segundo um estudo da OCDE as mulheres portuguesas gastam mais de 328 minutos por dia em trabalhos domésticos contra os 96 minutos dos homens. Elas ganham menos 15,7% do que eles e no entanto representam 48% da força laboral. Então como é que se verificam ainda estas discrepâncias, apesar de todos os direitos adquiridos depois das conquistas de Abril?
Silvia Vasconcelos: Exactamente, depois das conquistas de Abril e do pressuposto democrático que deveria direccionar para uma igualdade de géneros que não há. E porquê? É complexo responder de uma forma linear, porque tínhamos que retroceder na história, porque temos séculos de machismo e pratriarcado. A democracia em Portugal é algo muito recente, o que são 43 anos? Quando, no passado, as mulheres tinham de pedir autorização senão era ao marido, era ao pai para trabalhar, ou para viajar. Elas eram objectos, cujas escolhas dependiam deles, isto é algo muito recente e ainda temos um longo percurso a fazer e como é que isto se faz? Através de todas as frentes possíveis, com sensatez e todos os meios legais. Faz-se com campanhas de sensibilização, sobretudo nas escolas. É aí que devemos começar pelos meninos e pelas meninas e o movimento democrático das mulheres já deu os primeiros passos nesse sentido, mesmo ao nível nacional, que é aproximar os programas. Sendo um deles a violência no namoro, obviamente que chegámos lá e dizemos que eles e elas são absolutamente iguais, olham uns e para outros e riem-se, mas são iguais em termos de direitos e oportunidade e as diferenças existem para se complementar e mais nada. Descontruímos estereótipos, abordámos a corte de Luís XIV onde os homens tinham cabelos compridos, pintavam a cara, usavam saltos altos e vestiam calças que pareciam leggings e isso era masculinidade daquela altura, as mulheres deviam ser mais roliças e essa noção de homens e mulheres, essa diferenciação que existe, além das questões hormonais que são belas, de resto são tudo concepções culturais que são surreais. Quando uma menina nasce não é submissa e o menino não é dominador. São tudo processos sociais que, nós, mulheres e homens adultos temos responsabilidades pela forma como educámos as meninas e os meninos. Há uma video muito interessante que ilustra isso mesmo, ambos nascem iguais e são de cor amarela e depois vão-se diferenciando pela cor, ela de rosa e ele azul, porquê? Precisamente pelas acções de pais e educadores. Quando uma rapariga quer sair de noite é uma série de obstáculos e para ele é mais aceitável, há uma diferenciação muito grande ainda hoje em 2017, embora, eu espero que para o final deste século tenhámos uma sociedade mais alertada para esta questão da educação. Perguntava-me como se dá à volta a isto? Pela educação em casa e nas escolas.

Curiosamente, também ia abordar o estudo sobre violência no namoro, porque até são números preocupantes, mesmo na região, mas o que é intrigante é quem educa e transmite esses hábitos aos filhos são as mães.
SV: Eu estava-lhe dizer há bocado, que nós temos uma herança secular de pratriarcado e machismo.

Sim, mas muitas dessas mães actuais são da nossa geração e já estavam conscienzalizadas para esta questão, então, porquê este aparente retrocesso?
SV: Porque as mulheres também são machistas. Não são todas, obviamente. Posso falar de um caso sem abordar ninguém, a minha mãe tem 75 anos e ela sem saber é machista, porque tivemos uma familiar que decidiu terminar com uma relação que não a fazia feliz e mudou de vida. Para a minha mãe, é verdade que já foi há mais de dez anos, era uma situação condenável, porque ela saiu de casa, estava numa outra relação, mas se fosse ao contrário, diria que os homens eram assim, tinha-se portado mal, mas era homem, mas quando ela decidiu mudar era um escândalo e não era só a minha mãe a recriminá-la, eram as minhas tias e isso acontece porquê? Elas foram educadas dessas maneira, para mim foi diferente, eu tive acesso a educação e a liberdade, tive outras referências e tentei desconstruir isso tudo. Essa foi a educação que elas tiveram, a mulher é submissa ao homem e elas transferem isso para nós e se não tivermos alertadas e usufruirmos das oportunidades que teve a maior parte de nossa geração, continuámos com essa mentalidade. Nós, mulheres temos uma herança de patriarcado e machismo em nós e temos de nos libertar e por isso as mães educam os filhos de forma diferenciada. Se calhar com a nossa geração, espero que as coisas sejam diferentes e que daqui a 10, 20 anos os números sejam outros e a igualdade seja mesma e que o sucesso dependa do ser, não por ser mulher, ou homem, por ser aquela pessoa, que o género seja um pormenor das nossas diferenças que são bonitas.

A Sílvia é deputada, a violência doméstica ainda é uma realidade gritante na nossa sociedade, como sabemos morrem muitas mulheres que são assassinadas pelos companheiros, ou maridos. Então como deputada como é que se cria mecanismos para evitar que estes números continuem a crescer?
SV: Politicamente há muito trabalho para fazer. Tem-se criado muitas campanhas de sensibilização, mas há um aspecto da nossa legislação que previne a violência doméstica, que pune os agressores e pergunta-se se existe legislação, porquê estes números? Porque muitas vezes não é aplicada, esse é um dos pontos, há mentalidades que é necessário mudar e isso é um processo moroso, numa sociedade que é tão machista como a nossa, porque é verdade, somos latinos e é necessário desconstruir todos estes mitos em relação ao género, em torno da discriminação, há muito trabalho por fazer. A legislação existe, mas não sei até que ponto poderia ser mais apertada.

Mas, podia-me dar um exemplo? Porque até bem pouco tempo, quando uma mulher fazia uma queixa formal na polícia,ou junto dos tribunais passado pouco tempo retirava-a, porque ambos continuavam a residir na mesma residência e elas e os filhos eram ameaçados. Agora, é crime público, mas mesmo assim, eles perseguem-nas, elas mudam de vida, de zona do país e morrem na mesma.
SV: Isso é porque a legislação não se cumpre, legalmente a mulher tem mecanismos que a protegem, mas o problema reside na prática. O agressor devia ser submetido a todos os mecanismo de afastamento, mas não acontece, mesmo com pulseiras electrónicas transgridem, outras vezes tem medidas de caução em termos de distância, transgridem e isso leva a que estas pessoas desenvolvam um quadro patológico, porque ninguém na sua devida sanidade tem este comportamento que leva a perseguições, ou mesmo obssessões, é um processo extremo de machismo, em que ele manda, domina e se não sou eu não podes amar ninguém, ou se te fores embora eu mato-te e não me importo e mato-me. Em relação ao que estámos aqui a abordar, garanto que existe legislação, agora, não é cumprida, mesmo em máteria de justiça não é devidamente aplicada, em princípio há uma caução que beneficia o agressor e democracia também é isto, acaba por penalizar a vítima em alguns casos. Obviamente, que em caso de dúvida há a presunção da inocência e os agressores defendem-se, mas depois a culpada já é a mulher e raramente se aplica a maior medida de caução que é a prisão preventiva. Na Madeira, se há dois ou três assim é o máximo, pelo menos que tenha conhecimento. O que se verifica são medidas como suspensação de prisão, ou de afastamento e na verdade o que se devia fazer é obrigar aos agressores a efectuarem tratamentos, sob a pena de serem presos. Deviam também haver cursos, ou formações de reabilitação que já existem em vários países europeus e nos EUA, mais penas com trabalho comunitário para eles, ou elas porque também existem mulheres agressoras. Ao meu ver, todas estas medidas ao médio e longo prazo seriam mais eficazes. O que temos de mudar também são as mentalidades, porque a justiça só por si não é suficiente, as medidas políticas não tem sido suficientes, devemos promover o tratamento dos agressores, mas também das vítimas, no caso da violência doméstica é tão devastador que são marcas para toda a vida.

Acha que é uma ilha, onde as mentalidades são mais fechadas, é um meio muito mais pequeno onde as pessoas se reconhecem socialmente não é tão visível o problema da violência doméstica?

SV: Visível é e há um relatório ao nível nacional que mostra que os números são preocupantes, em 2015 colocam à Madeira no topo da violência doméstica. Não possuo os dados mais actuais, mas creio que não decresceram assim tanto, nos Açores acontece o mesmo. Essa questão dos meios mais pequenos é porque se criam tensões, que levam ao álcool, as drogas que conduzem a comportamento mais agressivos e há violência doméstica não só contra as mulheres, mas também as crianças e a Madeira poderá não estar no topo do ranking, mas ainda tem um dos índices mais altos de violência doméstica do país. O nosso caso tem uma particularidade muito alarmente é que esse dados que não correspondem à realidade. Há muitas mulheres que não fazem queixa por vergonha, isto acontece tanto com a operária, como a executiva, qualquer uma de nós pode ser uma potencial vítima. Mesmo que tenhámos conhecimento seja de quem for, é moral e legal denunciar essa situação. Mas, o que nos diferencia do país são as morte por violência doméstica, é menor, tivemos dois casos no ano passado, mas a proporção em termos do território é muito mais pequena.

E como é que a associação intervêm, como tem acções nesse sentido? De alertar e educar também?
SV: Temos vários programas junto das escolas por causa da violência no namoro, educámos para a não-violência, para a igualdade, para a harmonização dos sexos, sem que ninguém seja superior, tentámos sensibilizá-los para situações que parecem muito inócuas. Não fazemos apresentações com powerpoint, é pela via do diálogo, que temos de descontruir alguns desses mitos. Por exemplo, um dos comentários mais frequentes diz respeito aos ciúmes, ser ciumento não tem mal nenhum, é sinal de gostar, é uma forma de amor, mas sabemos que o ciúme mata. Dei aulas de teatro numa comunidade, há cinco anos, em que elas ficavam entusiasmadas porque era uma forma de aumentar a sua auto-estima, eram actrizes, trabalhavam para a comunidade e cheguei a ter meninas que iam as escondidas dos namorados, não podiam usar mini-saias, maquilhar-se e estámos a falar de raparigas de 15,16 e 17 anos. E muitas das vezes a violência doméstica com esses números assustadores começa por aqui. Se não intervirmos nestes casos, como podemos daqui há vinte anos ter a perspectiva e a esperança de que a igualdade seja um facto e que estas entrevistas nem façam sentido. Temos que actuar nestas idades, em toda a comunidade, junto dos políticos, magistrados e professores, todos em conjunto temos de agir, não podemos continuar que continuem a morrer mulheres, ou meninas e homens, porque a violência existe e é uma realidade.

Tem acções junto das escolas, mas ao nível das mulheres adultas também promovem actividades?
SV: Na Madeira fazemos campanhas de sensibilização nas associações sobre essas matérias, trazemos a comunidade até esses encontros e debatemos esses temas para promover mais ideias. Não temos ainda uma sede regional, o MDM tem um papel político, embora não seja partidário, não tem um papel de assistência social por assim dizer, recebemos sim mulheres que nos chegam por casos de violência doméstica que são encaminhámos e nesse âmbito temos uma associação muito interessante que é a “presença feminina” elas recolhem as queixas e encaminham para a via judicial, ou social. O que não temos é um sistema de proteção, nós apenas intervimos politicamente e quando digo isto falo de intervenção que tira as mulheres da rua, que protege as crianças isso é que política na sua concepção grandiosa. Este é um movimento apartidário onde cabe toda a gente, de todas as religiões, esse é o nosso papel de intervenção junto das escolas e da comunidade sobre todos os temas. Há bem pouco tempo debatemos “a mulher e a deficiência” e trazemos tudo isto para a política, através de diplomas de resolução que possam favorecer a mulher. No dia 8 de Março íamos abordar a mulher e a sexualidade, porque ainda é um tabu, no século XXI, mas recuámos por agora, vamos falar em vez disso da mulher, a família e o trabalho, porque há pouco tinha razão em abordar esses dados da OCDE e houve até uma manifestação na Islândia, onde elas trabalharam as mesmas horas que os homens, e pararam por um dia, a partir do momento em que começam a laborar da graça, tendo em conta ao que recebem. Felizmente, hoje em dia, há muita coisa que mudou, já há mulheres electricitas e mecânicas, mas ainda há a feminização do trabalho. Por outro lado, quando elas saem do trabalho, além de receberem menos que os homens e trabalharem mais horas, chegam aos seus lares e tem de cumprir várias tarefas domésticas, gastam mais tempo nisso que os homens e isso é uma desigualdade tremenda.

Mesmo com toda a legislação existente ainda há um grande preconceito em termos não só de empregar deficientes, como também em relação a cor da pele.
SV: Confesso que não tenho um grande conhecimento sobre essa matéria, o racismo não é radical na sociedade portuguesa.

No entanto, eu tive uma colega que estudou engenharia e foi chamada para uma entrevista pelo conteúdo do seu curriculum e não foi pelas respostas que proferiu na conversa formal, mas ela acha que foi preterida pela cor da pele e não é caso único.
SV: Acredito que sim e custa-me imenso dizer isso. São situações que por mais que tenhámos consciência que existam e que são absurdas, admito que ocorrem. Os portugueses não são dos povos mais racistas, embora tenham sido conquistadores no passado, mas esse problema é real. Confesso que nunca me tinha debruçado sobre esse tema da mulher, o trabalho e a cor da pele.

Se calhar porque na Madeira não há grandes comunidades de descendentes africanos, mas no Continente é uma realidade muito visível.
SV: Isso é um campo de actuação que devia ser estudado. No caso das mulheres com deficiência elas sofrem um caso da tripla discriminação, porque são do sexo feminino, porque tem deficiências e dependem de outras pessoas ao nível até da locomoção. Acredito que uma mulher ou homem com deficiência tem as mesmas capacidades do que um dito normal, tem é algumas limitações físicas e necessitam de diferentes ferramentas de trabalho e é verdade que muitos empresários empregam essas pessoas, porque tem vantagens sociais e fiscais com essas contratações, mas não adaptam os locais de trabalho, essas pessoas não são alvo de formações e obviamente que no final do contratos de trabalho são despedidas. Estava há pouco a perguntar-me pelas medidas que se podem tomar, estes casos sim, necessitam de uma iniciativa forte, porque em lugar de resolver esta questão, dão-se pensões e eu não estou obviamente a contestar essas benifícios, porque se não fosse essas verbas as pessoas não tinham como se socorrer. Sobretudo, devia promover-se a empregabilidade dessas pessoas, deviam e precisam, porque o trabalho é uma mais-vália, ajuda na auto-estima.

Mas, isso também envolve uma vertente cultural. Os empregadores não criam os acessos, porque se reparámos de um modo geral ainda subsistem inúmeros obstáculos arquitectónicos e não são tão poucos quanto isso, existe legislação nesse sentido e contudo, vêem-se algumas rampas tão inclinadas que é impossível até para a circulação de cadeiras de rodas e elevadores que não funcionam.
SV: Tem razão e há legislação para isso e posso dizer que ao nível regional, debatemos isso, existe um plano para as acessibilidade inclusivé para os edifícios públicos e não há acesso para estas pessoas. As leis são excelentes, mas não são aplicadas.

Os portugueses são reconhecidos por uma legislação muito avançada em termos de igualdade do género e outros direitos, mas que falha sempre na práctica. Então o problema no nosso caso qual é?
SV: É necessário continuar com o trabalho, mais acções políticas e fazer cumprir a lei.

No fundo não se penaliza ninguém.
SV: É o machismo social e político também, porque temos uma constituição, e vou reforçar que, é belíssima, foi uma das mensagens de 1976, em termos de direitos humanos e da igualdade de género esta lá tudo. Estámos também avançados em matéria de direito ambiental, mesmo que alguns países europeus, e a verdade é que somos um país que deve muito a igualdade do género, dos direitos das pessoas com deficiência e até em termos ambientais e tudo tem a ver com mentalidades. Atrevo-me a dizer que a educação é basilar nesta matéria e ponto. E quando temos um fraco investimento político nesta área e professores a serem humilhados, isto desmoraliza a classe e obviamente que o ensino não será o mesma para as gerações futuras. É um processo em cadeia, um sistema que não é nada abonatório numa sociedade que se quer mais justa e igualitária.

Mas, as mulheres portuguesas já ultrapassam os homens em termos de habilitações literárias.
SV: Ainda há uma herança patriarcal muito pesada. Estámos melhor, mas é um progresso muito lento.

Recentemente há uma palavra que voltou a ribalta que é o feminismo, porque a nossa geração de mulheres que usufruem os direitos adquiridos acham que já não é necessário, mas vemos ainda um pouco por todo o mundo que as mulheres são alvo de trafégo de seres humanos e não tem direitos. Acha que temos de ser mais feministas em Portugal?
SV: Em primeiro lugar, acho que essas questões feministas já não se justificam quando o feminismo é visto como o contrário de machismo. O machismo mata e humilha todos os dias, tortura, escraviza, explora, prostitui e discrimina a mulher por ser mulher. O feminismo foi inicialmente um movimento de mulheres e alguns homens e estámos a falar do século XIX e XX em que havia várias republicanas portuguesas e mais recentemente as três marias nas “novas cartas portuguesas”. Estas mulheres não eram contra os homens, o feminismo é uma filosofia, uma moral atrevo-me a dizer que promove a igualdade de género e diginidade das mulheres, porque ao defender os nossos direitos não estámos a dizer mulheres sim, homens não. Vou dizer mais o feminismo que estes movimentos defenderam o direito a emancipação das mulheres, do voto até no sexo masculino, porque se fossem pobres os homens não votavam, defenderam também o direito das crianças, das populações negra e outras étnias, no fundo era uma questão de direitos humanos. Sou a favor do feminismo, faz todo o sentido ser-se feminista, mas não é por sermos mais dos que os homens.

Abordo isto, porque os movimentos de extrema-direita na Europa e a eleição de Trump para presidente dos EUA relançaram esses ideiais, reforçaram esses argumentos, porque agora parece que estão a tentar retirar-nos esses mesmos direitos adquiridos e até na Rússia se aprovou uma lei em que um homem pode ser violento por um dia contra uma mulher. É por isso que parece que temos encetar novamente esse tipo de lutas e reavivar esses movimentos.
SV: É verdade. Focou uma questão que é interessante, nossa geração partiu do princípio que isto era tudo assim e que temos direitos adquiridos. Volto a sublinhar esta questão que é necessário educar os meninos e as meninas, porque não é um dado adquirido. É preciso ensinar através da história que foi necessário mulheres e homens lutarem pelos seus direitos de afirmação e de direito ao emprego. É natural que haja uma contestação contra este tipo de medidas, como é que hei-de classificar sem ser ofensiva? São inconcebíveis num Estado avançado, como esse caso na Rússia e por todos as outros que estão a emergir e mais ainda nestas nações ocidentais e não em países onde as mulheres são vistas como objectos. Na Europa 3 em cada 10 já experienciaram qualquer tipo de violência, sexual, física e psicológica, um número que nem se imaginaria. Quanto ao aparecimento desses governos, são movimentos de reacção, obviamente, temos de insurgirmos contra isso, mas dizer que esta a reaparecer o feminismo não, a MDM nunca deixou de ser feminista, é pela defesa dos direitos humanos e por isso temos de reagir de todas as formas cívicas e legais seja nos EUA, na Rússia ou em Portugal.

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terça, 07 março 2017 22:29

A animadora do pensamento

Margarida Madeira é o cérebro criativo por detrás da produtora pickles films e de várias animações premiadas em festivais nacionais e internacionais, entre elas, “Os prisioneiros” e a famosa “Dona Fúnfia”.

Como é que surge a animação na tua vida?
Margarida Madeira: Eu estava estudar design de comunicação na Faculdade de Belas Artes do Porto e fui fazer Erasmos na Pólonia. Como a animação neste país é muito importante, então decidir ter umas aulas, apercebi-me que era o que gostava mais, depois quando voltei para Portugal apostei nessa vertente.

Começaste a trabalhar numa produtora na América do Sul, na “Hierroanimación”, e como foste parar à Colombia depois do curso, ou não foi assim este percurso?
MM: Não foi bem assim esse percurso, depois de terminar o curso fui fazer um mestrado em Barcelona. Tinha um grupo de amigos que elaborou um projecto que se tornou uma série, como tinham o apoio de um canal de televisão colombiano e precisavam de mão-de-obra, pessoas formadas em animação e que soubessem utilizar o software que tinha sido usado na curta-metragem, convidaram-me a mim e outras pessoas e fui trabalhar para lá.

Depois tivestes outra oportunidade no México?
MM: Sim, quando acabou à produção da série estava a pensar o que iria fazer, esse mesmo grupo de amigos decidiu ir até o México e eu resolvi procurar trabalhar lá e estive uns meses numa agência de publicidade.

Depois voltastes para Portugal e criaste uma curta-metragem bastante premiada que é “Os prisioneiros”. Como é que surge este projecto?
MM: “Os prisioneiros” surge quando ainda estava no México, falaram-me de um livro “As prisioneiras:Mães atrás das grades ” de Isabel Mery, escritora e jornalista, eu não sabia que as mães podiam ficar com as crianças na cadeia e fiquei chocada, porque achava que não era muito ético e até mau para elas. Depois de ler o livro à minha opinião não ficou assim tão clara, fiquei com sérias dúvidas sobre aquilo que achava antes e pensei que era um bom tema para desenvolver numa animação. Por outro lado, achei que seria bom para à divulgação do tema do livro e que seria um óptimo veículo para fazer chegar essa mensagem a outros públicos.

E foi nessa altura que decidiste criar à tu produtora a pickles films?
MM: Isso foi um pouco por necessidade, porque como consegui um apoio do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) para desenvolver esse projecto era necessário uma produtora e achei que era boa ideia para começar a desenvolver esta e outras animações.

E qual foi o feedback do público em relação a esta curta-metragem?
MM: As pessoas gostaram muito e como eu havia muita gente que não sabia que as crianças podiam estar com as mães na cadeia. Acho que cumpri os meus objectivos com esta animação que foi fazer as pessoas pensar, dar conta que a realidade não é preto e branco e que existem vários tons e que é preciso pensar duas vezes sobre as coisas. As pessoas ficaram sensibilizadas e mesmo com os prémios foi bom perceber que, ao nível internacional, fazia sentido a mensagem que queria transmitir.

Como aparece à “Dona Fúnfia, volta a Portugal em bicicleta”?
MM: Foi uma ideia que já tinha há algum tempo, uns bons anos, mas que não nunca tinha posto em práctica. Era sobre uma senhora que nunca tinha andado de calças e era sobre uma realidade que eu conhecia. Surge enquanto aguardava para saber se tinha apoio ou não para desenvolver “Os prisioneiros” . Peguei em coisas antigas que já tinha e num mês fiz essa curta-metragem. “Dona Fúnfia” foi feita nos meus tempos livres, mas depois acabou por resultar muito bem, porque foi bem aceite pelas pessoas, participou em alguns festivais e até deu origem a um primeiro episódio de uma série.

Sim, mas vais continuar este projecto, porque tens previsto levar à “Dona Fúnfia” por outras localidades de Portugal.
MM: Pois, eu fiz esse primeiro episódio que é sobre uma volta por Portugal e a localidade é Vila Real. Estava à procura de financiamento para fazer os restantes capítulos, a ideia é fazer 20, entretanto, surgiram outras animações e também não consegui as verbas necessárias para dar-lhe continuidade, por isso, é um projecto que esta em stand by.

E tens uma parceria com “a música portuguesa a gostar de si própria”. Como é que isso surgiu?
MM: Uma das ideias iniciais da “Dona Fúnfia” é apoiar-se muito na música tradicional portuguesa e em todos os aspectos culturais que isso envolve. Sempre gostei desse projecto do Tiago Pereira, então, resolvi perguntar se podia usar as músicas e inspirar-me nas imagens do filme que ele grava para desenvolver personagens e completar os episódios da animação. Ele achou óptima ideia, peguei nos vídeos e nas pessoas de alguns deles para fazer à Dona Fúnfia” pela sua volta à Portugal.

E a voz da dona Fúnfia, como seleccionaste a pessoa para essa personagem?
MM: Isso foi muito fácil, a primeira “Dona Fúnfia”, a original da curta-metragem que fiz num mês, a única pessoa que me ocorreu para a voz foi à minha avó, então, decidi continuar, porque ela tem bastante empatia e jeito para narrar histórias.

E o aspecto físico do personagem foi baseado na tua avó?
MM: Não, a “Dona Fúnfia” não é a minha avó, o aspecto físico da personagem é baseado nas senhoras que via diariamente em Canas de Senhorim, que faziam parte do meu imaginário, que nunca usavam calças e andavam sempre vestidas com batas.

E qual foi à reação em relação a esta animação?
MM: Tem sido muito boa, mesmo ao nível internacional, já ganhou bastantes prémios e eu até pensava que era uma realidade bastante portuguesa, mas afinal notei que também existe em outros países e as pessoas gostam de alguns aspectos que desenvolvo nesta curta-metragem.

Estas a desenvolver outros projectos?
MM: Sim, estou a desenvolver uma curta-metragem chamada “Ensaio sobre a morte”, baseada no livro da mesma escritora de “Os prisioneiros”, da Isabel Mery, é sobre a morte e eu queria explorar esse tema, porque me faz pensar.

E vais apresentá-la ainda este ano?
MM: A ideia é essa, mas será lá para o final do ano, quando terminar à produção.

http://www.pickle-films.pt/

quarta, 01 março 2017 16:54

Sopas do espírito santo

A Ronda dos Quatro Caminhos, lança um novo trabalho dedicado à música tradicional dos Açores, com edição da Ocarina. É o 14º disco da carreira da Ronda, na continuação das últimas grandes produções editoriais, "Terra de Abrigo" e “Tierra Alantre".

O disco foi composto e pensado com base na Orquestra Regional Lira Açoriana, uma orquestra de instrumentos de sopro e percussão, que integra jovens músicos das bandas filarmónicas das várias Ilhas e que participa em todos os temas, todos eles populares, com orquestrações dos músicos da "Ronda dos Quatro Caminhos”. Além da orquestra, participam no disco vários coros polifónicos e músicos populares e eruditos de todas as Ilhas do Arquipélago, num total de mais de 300 músicos e cantores.
Neste trabalho, a música regional dos Açores é vista sob a perspectiva das bandas filarmónicas que têm um papel de grande relevo e destaque na vida comunitária dos Açores, quer pela formação musical que proporcionam à juventude, quer pela participação nas festividades religiosas e populares. O mesmo acontece com a harmonia coral religiosa e pagã, através dos coros polifónicos, geralmente ligados à celebração litúrgica, mas também com um repertório clássico e popular, tendo-lhes sido dada neste trabalho, a par com a orquestra, a relevância que na verdade têm e certamente merecem. Depois a viola da terra, com as suas variações e diferentes maneiras de tocar, certamente o instrumento mais representativo da tradição popular, participa por direito próprio neste disco.
Para os músicos da Ronda, Mário Peniche, Pedro Fragoso, António Prata, Carlos Barata, João Oliveira, Pedro Pitta Groz, o problema maior foi "em relação aos vários grupos e formações de danças e cantares populares, guardiães maiores do cancioneiro popular, dos cantadores dos vários estilos e canções populares, dos tocadores de instrumentos também relevantes na música tradicional, como o violino, o bandolim, o violão, etc., que pessoas e agrupamentos convidar, numa terra de brilhantes músicos e instrumentistas? Já sobre o repertório, como escolher uma dúzia de cantigas numa terra onde se respira música popular e com um cancioneiro tradicional tão vasto e variado? A escolha foi assim, como certamente podería ter sido outra dúzia diferente e mais outra e outra. Quantos discos haveria que fazer?".

 

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