Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

sexta, 25 novembro 2016 18:09

A prata e o ouro

É uma viagem no tempo por algumas das peças mais emblemáticas da ourivesaria portuguesa de finais do século XII até o princípio do XIX, no Museu de Arte Sacra, do Funchal, através do profundo conhecimento do Francisco Clode, director regional de serviços de Museus e Património da direcção regional da cultura, naquela que foi a última palestra cultural do projecto “Dar a ver”.

A colecção de ourivesária do Museu de Arte Sacra é de elevada importância não só pela sua qualidade e diversidade e pelo seu legado histórico, como pelo desvendar da história da ourivesária portuguesa. Há um conjunto de obras de arte de absoluta excepção, são quatro peças oferta directa da corte do rei D.Manuel I, cuja obra mais emblemática tem circulado pelo mundo por inúmeras exposições, desde o século XIX, pela sua representividade da ourivesaria manuelina, porquê é que esta cruz, a peça central de doação do rei, que morre em 1521, mas deixa por vontade expressa numa carta régia que esta obra de ourivesária litúrgica e as restantes ficariam para a capela-mor na Sé do Funcha, é tão importante? Esta cruz procissional, como a palavra indica, que dizer que é levada na procissão, é única, porque as restantes obras similares e documentadas que se conhecem desapareceram, a dos Jerónimos é um desses exemplos e a outra cruz procissional que se aproxima é muito mais tardia e esta hoje no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.

A peça é constituida pelos elementos típicos das cruzes procissionais, um delas é um nó e ela ser como em muitos casos da ourivesaria manuelina é uma mistura de feitos, isto é, ela tanto representa um gótico final em progressivo desaparecimento, mas é em si a expansão portuguesa e da abertura ao mundo, é uma abertura renascentista à Europa. É importante observar já na época que se fazia a alusão da arquitectura ao romano, que é o nova arte emergente, o renascimento que vem misturar-se ao gótico. A arte manuelina é esse cadinho entre união dessa tradição sacro-mediaval que se encontra com a arte do renascimento. O aparato constitui sempre as obras ligadas as encomendas régias, para já, a presença constante dos símbolos do rei, a esfera amilar, os ajustamentos, a coroa real portuguesa, estão representadas quer nos portais da arquitectura civil, quer no religioso, no coroamento das abóbodas e é muito interessante que na ourivesária manuelina aparecem novamente esses elementos.

Há também outro dado, muitas vezes na ourivesária portuguesa, muita dela era feita na rua dos ourives em Lisboa, onde havia mestres dedicados apenas ao ouro e outros a prata, na cidade pombalina aparece a rua do ouro e da prata, e portanto, é no círculo da corte, entre os ourives mais próximos do rei que se executa esta cruz. Quero chamar à atenção também para o facto que estas cruzes muitas vezes serem maquetes para a arquitectura, se reparámos o nó da cruz, tem os seus contra-fortes, butaréus e pináculos, todos esses elementos verticais que dão o efeito de uma construção que se aproxima à Igreja dos Jerónimos, com a sua arquitectura manuelina.

Depois há outro elemento interessante, para além dos pormenores de raíz gótica, tem também vazados nestes portais que se vão desenvolvendo no hexágono da base, são elementos abertos, que se identificam com o Diogo de Castilho, o autor do claustro do mosteiro dos Jerónimos, portanto, isso são elementos renascentes que tem a ver com essa nova gramática decorativa, através da gravura flamenga e italiana que começou a chegar a Portugal, muitas vezes através de modelos espanhóis, ou mesmo pela presença de ourives estrangeiros que vieram trabalhar para a corte de Lisboa.
Outro aspecto de referir, a enorme delicadeza e de apuro tecnológico e é assim que se deve dizer, a peça em prata é muito avançada para o seu tempo, tal é a qualidade de toda a sua gramática simbólica e temática exposta, como também pelo apuro do desenho e do trabalho da prata. A representação da flagelação de Cristo, a traição de judas, há uma história principal e a narrativa que se desenvolve, de um lado temos o Cristo crucificado, do outro o Cristo redentor e salvador.

A segunda oferta do rei, esta incluída, nas 21 peças que foram colocadas numa caixa em Lisboa, das quais apenas estas quatro sobreviveram até os dias de hoje, o porta-paz, é também em si uma obra raríssima da ourivesária portuguesa, mais do que a cruz processional, esta peça se afasta ainda mais de uma linguagem gótica final e assume um gosto moderno. Tem entabulamentos, tem capitéis coríntios, pela aplicação de pedras preciosas na ourivesária chega-se a conclusão que estes jazigos de São Tiago de Compostela, tem a ver com esta ideia simbólica de oferta da paz, uma peça que se move, que representa a epifania.
Depois há um duplo sentido, os peregrinos foram aqueles que se movimentam para os locais de maior peregrinação, que é o sentido da presença do jazigo da pedra que ladeia a cena principal, mas tem também possui alguns símbolos régios, os trintões, umas figuras míticas meias-humanas, meias-peixes que estão a segurar a coroa, não sabemos se a figura superior seria um anjo-tenente, ou o Deus Pai, porque esta partida. Contudo, existe algo que sabemos é que a cena dos reis magos que tem duas representações, uma no retábulo de São Bento, de Gergório Lopes, e outra do retábulo de Sétubal de Jorge Afonso, muito provavelmente os ourives da prata tinham por modelo gravuras flamengas e italianas, mas foram influenciados pelos pintores primitivos portugueses, ambos os nomes citados foram artistas da corte e muito próximos desta inovação que as presentações renascentistas tem na ourivesária portuguesa.

O cálice de ouro, do final do século XVI, não conta já com a presença de campainhas, porque quando se elevava o cálice elas redobrabam a atenção do gesto, mas em seu lugar possui pingentes no cristal de rocha, que é considerada uma pedra preciosa e é muito interessante perceber que isto resulta da expansão marítima de Portugal no Oriente. Estes materiais provém dessas zonas do globo que permitem a sua adaptação e aplicação nestas peças de ourivesária. O cálice é proveniente da Sé do Funchal, mas a sua origem é de uma capela arruínada, que é de São João Latrão, já perto do Aeroporto internacional da Madeira.

A nossa senhora do Rosário, é outra das obras do espólio, o rosário julga-se que é de coral, é uma peça que pode ser datada entre os 25 a 35 anos do século XVI, contrariamente ao que se pensou, também é única no contexto nacional, na sua base apresenta um dos símbolos de ser nossa senhora da brota, que é um flor e ela abre-se, é a ideia de ser mãe não só de Deus, mas de todos nós, porque trouxe-nos a descendência divina. Abordo esta obra de escultura porque faz um enquadramento da época e como as outras artes reagem perante da ourivesária.

As últimas peças são de Antuérpia, é o cálice da matriz de Machico e a celébre bandeja dita do Figueira, ninguém sabe quem é este homem, desde essa altura é apelidada como a bacia do Figueira, é uma obra flamenga do terceiro quartel do século XVI e tem a representação do deus Janus, que é o deus do dois mundo, das duas faces, da porta para o caminho do céu, ou do pecado. É muito interessante ver como a mitologia clássica e toda essa gramática simbólica do renascimento se introduz também nas peças do cristianismo. Não esqueçámos que a Antuérpia era até 1587 um dos mais importantes centros do comércio na Europa e porquê esta data? Porque o império espanhol toma conta da cidade, a arrasa nesse ano e deixa de ser o centro da ourivesária europeia.

A caldeirinha é também um encontro de dois mundos, o quase desaparecimento do gótico final e essas ideias classicistas do renascimento e aqui temos a importância dos símbolos régios, uma das maiores esferas amilares do contexto português, a esfera mundi, símbolo do rei português que se tinha em tanta consideração que se auto-intulava esperança do mundo e era presentado como redentor. É muito interessante ver que a esfera cobre todo o fundo da peça.

O outro conjunto de peças que representa a riqueza extraordinária e a diversidade tipológica do museu, no último quartel do século XVI e boa parte do XVII, todas elas, ou a grande maioria representam a riqueza das oficinas de ourives e os revelam que os mestres da prata ao trabalhar para as confrarias religiosas demonstram uma grande vitalidade deste negócio em Portugal.
A maior parte dos ourives na Madeira aproximam-se do maneirismo nacional e muitas vezes se traduzem numa linguagem despojada sem grande teor de aparato, mas tem uma delicadeza formal e um trabalho de gravura que é muito característico da ourivesária da época. A salva com pé, foi executada por alguém que viu o trabalho dos flamengos e estabeleceu isso na bandeja do Figueira, havia uma capacidade de observar a ourivesária de outros lados e depois traduzi-la ao gosto nacional e regional. Outro elemento que aproxima esta peça à arquitectura é que a arte portuguesa possui uma ideia de simplicidade, de desornamentação, de rigor formal, que é raro no contexto europeu, mas que é interessante no contexto ibérico e sobretudo no nacional. Não podemos esquecer que em 1580 perdemos a independência, que só recuperámos em 1640 e portanto vai assistir-se em Portugal, o que se designa de arquitectura chã, que é despojada, cria uma ideia de grande simplicidade formal e decorativa e que depois tem esse efeito funcionalista.

A naveta, que servia para transporte do incenso, há uma grande presença da ourivesária do século XVII e XVIII, mas estão integradas outros elementos artísticos e que ajudam a perceber o contexto decorativo, neste caso, é a ideia do barroco. Nesta época temos o enchimento dessa arte chã por elementos barrocos. A palavra barroco parece que é de origem portuguesa, segundo alguns países europues surge na forma como portugueses chamavam umas pedras deformadas da Arábia, as barrocas, pérolas que não eram perfeitas, mas também no Alentejo existem umas pedras nas planícies chamadas de barrocais, no fundo o que esta na base deste movimento é uma dispersão visual.
Quando olhámos para as peças que estavam marcadas pela contenção visual no espaço com a sua sobrieridade decorativa, o barroco traz o espectáculo do triunfo de uma igreja que se quer renovada, depois do cisma da Europa e do concílio de Trento que vai trazer uma nova expressão e propaganda da fé. Esta linguagem visual esta ligada a uma apropriação do espaço, há uma espécie de gesto largo, não equilibrado e que começa a desenvolver-se em todas as obras de arte até a arquitectura e a ourivesária.
A grande sede da arte barroca é Roma e é de Itália que vem os modelos que ser expandem em Portugal e que vamos traduzir à nossa maneira. A peça é de extraordinária cinzelado, é uma das obras da corte barroca, de 1747, anterior ao terramoto de Lisboa, há uma atenção formal ilusória, mas que depois é revolucionada por estes aconcheados e labéus e trazem espaço dentro do próprio objecto.
A Madeira possui a maior coleção de navetas ao nível nacional, a peça em causa é uma espécie de representação do barroco, a definição da nau desapareceu quase completamente, descolou da obra e é uma revolução formal da apropriação do espaço, um caos organizado, o desaparecimento da forma base e da criação de uma autoridade formal que é bem idetificativa da arte barroca portuguesa. Destaco ainda, uma série de sacras, que valem pelo seu sentido arquitectónico, pela ilusão óptica, mas no fundo eram uma cábula, para que os padres não se enganassem estava escrito exactamente o que se tinha de dizer, a repetição de momentos da missa.

A custódia de ouro de um ourives francês que vivia em Lisboa, Paul Malle, esta datada de 1799, é o primeiro exemplo de ourivesária neo-clássica em Portugal, para além disso, temos alguns elementos do neo-classicismo que vai marcar o século XVIII e uma parte do XIX. Chamo à atenção para a delicadeza do trabalho de gravação de ouro, dos recortes das pinturas do clássico.

sexta, 25 novembro 2016 17:58

Aristides um homem bom, nos bastidores

É um documentário sobre a vida do cônsul português que desafiou a Salazar para salvar vidas, realizado por Victor Lopes com uma equipa de jovens universitários argentinos e filmado na cidade de Buenos Aires. A estreia está prevista para o fim do ano no Festival Internacional dos Direitos Humanos, em São Paulo, no Brasil, entre os dia 7 e 13 de Dezembro de 2016.

"Não se é santo para ser-se um eleito por Deus, senão que, se é um eleito por Deus para ser-se santo", repete Victor Lopes, um argentino com nacionalidade portuguesa, para sublinhar a obra humanitária do cônsul de Portugal, em Bordéus, que assinou 30000 visas em apenas sete dias desobedecendo ao ditador luso António de Oliveira Salazar, quando os nazis invadian França nos cruéis tempos de 1940, "Para Aristides teria sido mais fácil desocupar com o exército, ou a policia, os jardins da Embaixada que nesse momento encheram-se de homens, mulheres e crianças perseguidos procurando un salvo-conduto que os levasse ao porto de Lisboa. Contudo, Aristides não o fez, Sousa Mendes não chamou as tropas alemãs e a questão é o que eu faria? O que farias tu? O que fariam os nossos atuais embaixadores de Portugal ao redor do mundo?”. É esse o eterno conflito gerado entre "o dever e a conciência que não sempre estão de acordo" diz Lopes, enquanto lembra também o soldado da obra de Javier Cercas que podendo matar a um Sanchez Mazas indefeso decidiu não o fazer, durante a tragédia da Guerra Civil Espanhola.
"Portugal teve uma ditadura de mais de quarenta anos e desembaraçar a trama de cumplicidades de centos, milhares de profissionais e líderes formados na intolerância vai levar muito tempo", como sabe que sucede nos países que sofrem com os regimes autoritários, apesar do esforço e a boa vontade que realizam os atuais dirigentes e as novas gerações democráticas. Levar ao ecrã e ao público a história de Sousa Mendes é um dos objetivos do realizador com uma equipe formada por jovens das universidades argentinas e a produtora “cite tango-ultra tango”, debaixo do atento olhar de Paula Fossatti e Ramiro Klement, junto com os atores Melissa Zwanck y Nahuel Vec, Lopes vai assim, "aportar o seu grãozinho de areia" aos que já vêm fazendo o mesmo há muito tempo em diversos lugares do mundo, quer sejam familiares, amigos, ou fiéis seguidores da causa Sousa Mendes. Victor Lopes reconhece ainda, que pouco a pouco irá respondendo as convocatórias que diariamente lhe chegam já que “a proposta causou boa recepção por tratar-se duma história praticamente desconhecida e que ainda desperta certa polémica nos setores mais conservadores da sociedade portuguesa”.

sexta, 25 novembro 2016 17:44

Salve o fura-bardos

 

São pequenas aves cuja importância para o ecossistema da Laurissilva na ilha da Madeira é imprescindível.

O projeto Life Fura-bardos termina em 2017 mas, até agora, os fundos não são suficientes para dar continuidade ao trabalho de conservação desta subespécie prioritária e do seu habitat, a floresta Laurissilva da Madeira. Depois dos últimos incêndios na Madeira, nunca foi tão importante agir. A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves lança esta campanha de crowdfunding para continuar a assegurar o controlo de espécies invasoras e a recuperação de floresta Laurissilva, bem como a conservação do fura-bardos através da sua monitorização e sensibilização ambiental.
Partilhe esta campanha com os seus amigos, familiares e contactos. Identifique-nos nas redes sociais usando a hashtag #HelpFuraBardos.
Mais do que um projeto, uma parte única da Madeira necessita da sua ajuda!
Apoie a causa e contribua em

https://www.generosity.com/animal-pet-fundraising/help-fura-bardos-in-madeira

quinta, 27 outubro 2016 15:32

Das entranhas de são miguel

 

É a segunda parte de um passeio pela ilha com nome de santo.

Foi das experiências mais marcantes nesta minha viagem, o mergulhar no oceano e a água era uma mistura de frio e quente, com sabor a sal e metal ao mesmo tempo e não, não estou a exagerar. São Miguel é famosa pelo seu grande número de inusitadas experiências termais, a minha favorita foi na Ponta da Ferraria, em Ginetes. Trata-se de uma pequena reentrância na costa onde o mar se expande e ao mesmo tempo sai água quente do interior da ilha, é uma sensação bizarra e excitante ao mesmo tempo, esse megulhar numa mistura de água salgada metalizada, morna e nota-se de imediato a diferença, à superfície o conforto de um banho de água quente e por debaixo uma impetuosa corrente marítima gelada que se dispersa em terra, sem exagero podemos ter uma parte do corpo aquecida pelas águas termais vulcânicas e do outro lado somos “massajados “ pelas ondas frias do Atlântico, foi surreal em todos os sentidos, literalmente. O nosso organismo ao tentar adaptar-se a esta nova e estranha dinâmica que acontece ao mesmo tempo em há também um choque térmico e somos invadido por uma sensação de euforia partilhada também pelas pessoas que também decidiram mergulhar nestas estranhas águas.

 

Mas, não foi a minha única aventura surrealista, em contagem decrescente, a próxima paragem foi nas Furnas, não pelas fumarolas, mas pelo parque Terra Nostra. É um jardim bicentenário, com 12,5 hectares de jardins e matas, dividida por diferentes colecções botânicas. Para os especialistas em jardins e botânicos, calculo que deva ser um sonho tornado realidade, mas mesmo para os restantes comuns mortais, é simplesmente um percuros a não perder pela sua grande beleza cromática. Existe uma área só dedicada a floresta endémica dos Açores, outra para os fetos gigantes, depois existe uma zona para as vireyas, umas plantas provenientes da Malásia que florescem ao longo do ano em várias tonalidades, há um canteiro de azáleas e as cycadelas, plantas com milhões de anos, em vias de extinção, parecia o parque jurássico, a sério, seria um excelente local para filmar um cena com dinossauros, mas ...adiante, só neste espaço existem 85 exemplares diferentes e para os mais românticos há pelo menos vários espaços com camélias. Os lagos que interligam estas diversas zonas, são populados por peixes koi, enormes e em diversas tonalidades o que confere um ar ainda mais exótico a toda esta atmosfera e existem ainda diferentes espécies de patos.

 

A jóia da coroa para mim, no final deste périplo, foi mergulhar no tanque de água termal, é uma piscina enorme subjacente à casa principal desta propriedade que esta rodeada por um jardim, as águas são côr de laranja por causa do ferro rodam os 28 graus celsius e garanto que não ficámos alaranjados, mas os fatos de banho mudam de tom, e mais uma vez aqui tive uma daquelas experiências para toda a vida, estava eu na água com centenas de turistas rodeada por árvores de grande porte e plantas de diferentes espécies e eis que começou a chover, um grupo de patos juntou-se a nós e foi mais uma vez daqueles momentos de outro mundo. Eu, aquecida pelas águas metálicas que burbulham a partir do ventre da ilha e do céu caiam gotas de água doce fria que refrescavam o meu rosto. Mas, o dia não acabou aqui, depois desta visita uns metros mais à frente existem as chamadas poças de Dona Beija, com cinco tanques de água férrea a rondar os 40 graus e se quiser um outro momento kodac para mais tarde recordar, posso adiantar que estas piscinas estão abertas até às 10 horas da noite, e não há nada melhor para o corpo e a mente fatigadas do que estar de molho rodeada de uma vegetação mista, em vários tons de verde até o sol se pôr no horizonte e os únicos arrepios que tive foi uma felicidade imensurável e não pude deixar de admirar mais uma vez a pujança desta natureza indomável.

quinta, 27 outubro 2016 15:26

O arrancar páginas

Trata-se de uma restrospectiva crítica sobre as publicações dedicadas a moda.

Sou fã de revistas de moda desde a minha adolescência, ainda hoje há duas publicações que compro religiosamente todos os meses só para ler os artigos, ver as tendências e admirar as fotografias das campanhas publicitárias. Leio e folheio tudo mais do que uma vez por mero prazer, mas como leitora atenta não pude deixar de notar algo ao longo do tempo que o número de páginas para a publicidade aumentou exponencialmente em detrimento das reportagens interessantes que abordavam várias temáticas ligadas ao universo feminino em todas suas vertentes. Estou a falar disto porquê? Recentemente vi um vídeo que criticava precisamente as revistas de moda pelo perpetuar não só dos modelos corporais impossíveis de atingir para a grande parte das suas leitoras e que potenciam a baixa auto-estima das mulheres em geral, mas também como as revistas ao longo do tempo se transformaram em meros catálogos de vendas de luxo, porque ao arrancar as imagens de publicidade, restavam apenas algumas páginas de conteúdo jornalístico. Não pude deixar de concordar com todos os argumentos desta exposição, que aliás, também defendo veemente, e um dos que mais me toca, se calhar pelo aspecto profissional, foi o lento desaparecimento dos artigos de teor informativo substituídos por pseudo-entrevistas as atrizes internacionais e nacionais que afinal não passam de manobras publicitárias, onde “casualmente” se aborda um produto, ou marca que utilizam no seu dia-a-dia e que ocupam no mínimo três a quatro páginas. Não tenho nada contra a publicidade, garanto, também gosto de folhear as imagens sofisticadas de malas, sapatos, roupas e perfumes, é um fraquinho que eu tenho, mas não posso deixar de lamentar que o evoluir visual das campanhas não seja acompanhado por grandes reportagens com informação importante e pertinente e muitas das vezes nada glamorosa. Fico triste com esta realidade que já venho notando há vários anos, porque se fizermos este mesmo exercício de arrancar as páginas publicitárias de uma revista de moda nacional muito conhecida, por exemplo, no início do anos noventa e fizermos o mesmo na sua última edição, o resultado é demolidor.
Actualmente há uma clara diminuição dos artigos de teor informativo e a publicidade, camuflada ou não, domina o espaço da publicação quase por completo. Um dos principais motivos, ao meu ver, porque isto tudo acontece é por causa do aglomerar de vários meios de comunição social num único grupo económico, dou-vos um exemplo que veriquei sobre uma entrevista da Meryl Streep, li o mesmíssimo texto ilustrado por fotos diferentes e com a ordem das perguntas alteradas em diferentes publicações do mesmo grupo, porquê? Porque ajuda a reduzir custos em termos de pessoal, pesquisa de conteúdos e potenciais deslocações, por isso, é mais fácil para uma empresa comprar de agências noticiosas internacionais um determinado número de textos que são iguais para todo o mundo, do que ter um grupo de profissionais credenciados a produzi-los localmente, o que em termos economicistas acaba por maximar as receitas de venda de espaço publicitário não só pelo maior número de páginas numa só revista, como pelas restantes publicações que pertencem ao grupo empresarial, gerando assim mais lucro.

Eu vou ser franca, eu gosto de revistas de moda, gosto de folhear publicidade e quero continuar a consumi-las, mas não deixa de ser lamentável, que sejámos vistas pelos agentes económicos como meras consumidoras fúteis que carecem de ser devidamente apreciadas e informadas. E sabem o que mais me irrita nisto tudo? É que as redacções e as chefias nestas publicações são, por norma, constituidas por mulheres como nós e o que ganhámos com isso? Nada, pelos vistos, a estupidificação massificada é mais lucrativa do que conteúdos mais informativos e socialmente, etnicamente e até corporalmente mais apropriados. Tenho mesmo que deixar de comprar revistas de moda que perpetuem estes modelos...

quinta, 27 outubro 2016 15:24

Estórias de amor para meninos de cor

Este é um livro de crónicas de Kalaf Angelo, o gajo dos Buraka.

Para ser franca o que me atraiu neste livro em primeiro lugar foi o título, queria descobrir quem eram esses meninos de cor apaixonados e o que encontrei foi o olhar de um errante que se move entre duas cidades, que aborda a sua percepção desses lugares tão díspares e a sua interpretação de outros mundos tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos. Kalaf Angelo tem uma escrita limpa e cuidada, o que indicia uma obra de fácil leitura que aguça o apetite por mais, mas (e quase sempre há um) temos a sensação que algumas das crónicas mereciam ter tido mais espaço para respirar, para mergulhar nos personagens, nas histórias e no final fica-se com a sensação que deveria ter havido mais alguma coisa, mais umas palavras. Só quase no final é que me dei de conta que o autor é o mesmo que nos deu a conhecer a semântica dos Buraka Som Sistema e ainda, para meu espanto e agrado não gosta de ser apresentado como tal. Agora, reflectindo sobre o assunto, ainda bem que não tive a noção inicial de quem era Kalaf Angelo até ter começado a ler o livro, porque se calhar o meu olhar seria muito mais crítico, ou ficaria viciado pela opinião que já tenho da banda e para que conste é a melhor possível, porque gosto da música, mas quanto ao livro posso dizer que é agradável e acessível. Boa leitura.

quinta, 27 outubro 2016 15:22

O ilusionista do caos

E se por instantes parássemos para pensar no infinito número de coincidências. Esta é uma das premissas do novo espectáculo de Luís de Matos, sobre a teoria do caos, em tournée nacional, que apresenta novas ilusões, transformações do efeito borboleta que transportam o espectador para um momento que nunca mais se repetirá no tempo.

Demora muito tempo para montar um espectáculo como o “Chaos”? Já que um dos truques começa em 2011.
Luís de Matos: Cada espectáculo demora uma vida inteira a preparar, porque cada show não é o resumo dos dois ou três anos que dedicámos mais a um determinado projecto, nele se vê reflectido toda uma vida, uma carreira, uma experiência, um conceito estético e uma maturidade que é só possível ter se considerarmos todos os anos para atrás. Respondendo à pergunta, sim, demora dois a três anos a preparar, mas neste período de tempo não se faz tudo o que esta aqui, isto é uma evolução de toda uma vida dedicada à magia.

25 anos de carreira, olhando para átras, houve alguma coisa que não fizeste ainda ou te arrependeste de fazer?
LM: Arrepender não me arrependo de practicamente nada, sobretudo das coisas más, porque são elas que nos fazem crescer, que nos dão uma maior atenção, maturidade, cuidado, mestria e isso vem tudo com os erros se cometem ao longo da vida, não mudaria nada. Se há coisas que gostaria de fazer e não fiz ainda, milhares delas e são elas que quero fazer cada dia.

Tu és quase um atleta, tens de treinar o teu corpo intensamente para alguns dos truques que apresentas que são muito exigentes fisicamente, é-te mais fácil actualmente entrar nesse estado de espírito com o passar dos anos?
LM: Provavelmente quando se somam experiências e quando o que faço é feito por paixão e gosto. Eu o desenhei e tive a ambição de o fazer assim, enfim é algo que faço sempre com grande prazer numa tentativa de auto-superação e de não desapontar as pessoas que acompanham mais de perto o meu trabalho.

Durante o espectáculo disseste que vês os shows de outros mágicos. Há um certo medo de repetição? Por vezes pensas num truque e depois aparece no trabalho de outro mágico.
LM: Sim, claro, acontece por várias maneiras. Ocorre quando esse mágico se dedica ao plágio e copiou coisas que já viu antes, pode também acontecer porque esse profissional teve uma ideia semelhante e não tenha visto nada antes, pode suceder por muitas circunstâncias. Agora, eu procuro despertar a minha concorrência, sou eu que procuro ser melhor hoje do que ontem, só isso faz com que valha a pena o meu dia-a-dia, o meu esforço, a minha paixão, só vale a pena ser melhor do que fui ontem e espero que amanhã seja muito melhor.

Achas que os portugueses ainda gostam de magia ou nem por isso? Já que nos últimos anos a tua carreira tem-se centrado mais em Espanha.
LM: Acho que todas as pessoas gostam de magia com qualidade e há muito que partiram da ideia estereotipada de um mágico de cartola que faz aparecer lenços e pombas e hoje querem mais. Com a internet, com os canais de televisão e as viagens as pessoas estão à procura de uma magia mais contemporânea, que possa ombrear com as outras formas de arte, mas que não cheire a mofo, que tenha um toque de contemporaniedade permanente e isso é o mais importante.

Tu organizas festivais de magia, ao nível nacional, tu notas que há cada vez mais jovens entusiasmados com o ser mágico?
LM: Não só nos festivais de magia que organízamos, mas no final de cada espectáculo eu tenho sempre 4 a 10 jovens mágicos que mostram truques e habilidades com cartas, coisas especiais e acho que isso é prova que a magia como arte transversal, como forma universal de comunicação que continua a apelar, enfim, a todas as idades. Existem, contudo, jovens que derivam facilmente para uma profissão hoje e amanhã querem outr e há um dia que querem ser mágicos, para alguns isso acaba por ficar, que é o meu caso.

Existem várias promessas nacionais que não conseguem fazer carreira cá. Tu, embora tenhas começado em Portugal, eras practicamente o único na altura, agora, que conselhos dás aos jovens tendo em consideração que não podem estar restrictos as fronteiras do seu país?
LM: Eu acho que o conselho que dou aos jovens que querem ser mágicos, é o mesmo que dou aos que querem ser médicos, advogados e agricultores, ou políticos, é que estudem línguas, aprendam a falar o maior número possível de idiomas. Falar inglês, francês e espanhol são passaportes para a vida, são formas de que nos permite conhecer as ideias dos outros para além daquelas com quem partilhámos um país. Para mim aprender línguas é o mais inteligente e rentável investimento que qualquer pessoa em qualquer idade, principalmente os jovens podem e devem fazê-lo.

Há alguns dos jovens mágicos nacionais que de facto admires?
LM: Ao nível nacional gosto do trabalho do Tiago Morgado e do João Blümel que apresentam trabalhos originais, independentes e sérios. A propria selecção natural se vai encarregando que uns triunfem mais do que outros e isso tem a ver com o agrado que conseguem suscitar junto do público, na perseverança que tem no seu trabalho e na procura constante de se auto-superarem e, portanto, acho que o tempo decide quem é que fica e quem é passageiro.

Tens algum nemesis?
LM: Não, acho que aquilo que a minha força é a vida, é o estar, não tenho nenhuma dependência para além daquela que é acordar e ter o prazer enorme de estar vivo e poder ser dono do meu tempo.

E ao fim de 25 anos ainda continuas apaixonado pela magia do que quando começaste?
LM: O mais possível e isso é de facto o mais surpreendente, porque para mim o que marca é o segredo de fazer o que faço, a paixão que sinto pela minha profissão, mas se a perder terei que ter a coragem suficiente de me afastar.

Se não fosses mágico o que serias?
LM: Não sei, poderia trabalhar num Mac Donald, podia ser realizador, presidente de Câmara, taxista, nunca se sabe, é difícil saber o seríamos se não fossemos o que somos, porque somos o resultado de todas as escolhas que fizemos na vida, é disso que fala a teoria do caos e do efeito borboleta. As pequenas coisas que fizemos ao longo da vida acabam por ter repercussões grandes e acabam por determinar o que acontece ao longo dos nossos dias e isso tudo é belo.

Achas que há um ponto em que vais ter de reformar? Olhando para a tua carreira e pensando que atingiste o ponto.
LM: O ponto esta decidido desde o início da minha carreira, no dia em que deixar de gostar.

Sim, mas muitos dos teus truques dependem do teu corpo.
LM: Sim, aquilo que foi utilizando em cada ilusão foi variando ao longo dos tempos, não é preciso depender do corpo para criar truques, há uns que se criam com palavras, pensamentos e outros sentado numa cadeira. Há ilusões para todo o tipo, isso é o mesmo que dizer que só as pessoas com dedos longos é que podem tocar piano, ou podem ser pintores, existem pessoas que não tem mãos e pintam e há quem toque com os pés. A magia esta cheia de histórias de auto-superação que mostraram precisamente que não existe uma fisicalidade absolutamente necessária para criar ilusões, é uma questão de estética, de gosto e apetência para usar aquilo que temos, mas no meu caso é perfeitamente claro, no dia em que não gostar de fazer o que faço, tenho imensas outras coisas para ocupar o meu tempo.

terça, 04 outubro 2016 15:09

A terra das vacas felizes

  

É o início de um períplo pela maior ilha do arquipélago dos Açores.

Dizem que não há duas pessoas iguais, excepto os gémeos verdadeiros e mesmo esses tem diferenças quase indeléveis, o mesmo se aplica às ilhas Atlânticas, podem ter
pontos em comum, mas são totalmente díspares. É o caso de São Miguel, a maior das ilhas do Arquipélago dos Açores, cuja beleza serena e ondulada entra pelos olhos a dentro em várias tonalidades de verde que nos deixam sem palavras. Ponta Delgada fica a cerca dez minuto do aeroporto, mesmo com trânsito em hora de ponta! Estou a brincar, a circulação rodoviária nesta ilha é tão calma como a sua paisagem, só comparável a uma estrada interregional algures no Alentejo mais profundo. Vale a pena alugar um carro, porque graças a gestão ponderada do governo local, a via rápida que atravessa da ilha permite uma condução segura, as estradas regionais estão em excelente estado de conservação e mesmo os acessos secundários são muito bons e acredite, mesmo os condutores menos experientes não terão dificuldades, é evidente que dentro das localidades as vias estreitam-se, nada não que não seja manejável, se percebem o meu bom português.
São Miguel vale a pena ser visitado em qualquer altura do ano, devido ao seu clima temperado, onde se pode desfrutar dos micro-climas, ou seja, ao longo do dia, chove, fica nublado e faz sol. No verão, por outro lado, a humidade pode rondar os 90% o que é um desafio especialmente de noite para dormir, mas nada que um bom ar condicionado não possa resolver.
Ao sair de Ponta Delgada o que chama mais à atenção são pastagens pontuadas com vacas malhadas pretas e brancas e deixem-me que vos diga, não há animais mais felizes que estes, elas pastam sem problemas todo o dia, porque é tudo plano e como o clima é tão ameno, comem erva fresca todos os dias, depois há campos e campos de milho transgénico que mais tarde é seco e serve como forragem para as vacas, daí que elas produzam o melhor leite, manteiga e queijo ao nível nacional, é tudo uma delicia e de chorar por mais.

A primeira paragem, como é da praxe, é a visita aos lagos, a mais famosas das quais, das sete cidades com a sua coloração azul e verde, que segundo reza a lenda, advém das lágrimas vertidas por uma princesa de olhos azuis de um reino encantado e um humilde pastor de olhos verdes que se apaixonaram perdidamente e perante a impossibilidade de serem felizes para sempre choraram copiosamente a sua tristeza e magicamente criaram os dois lagos unidos para toda a eternidade. Uma história que vale a pena recordar no miradouro do rei à medida que o nevoeiro denso se iça lentamente para mostrar a beleza sem paralelo destas duas caldeiras e toda a paisagem verdejante circundante. Descendo pela estrada sinuosa sempre rodeada de tufos de hortênsias e campos cobertos de amarelo das flores conhecidas como roca-da-velha, chegámos a ponte que divide os dois lagos e a perspectiva é ainda mais impressionante, pela sua paisagem em profundidade. É uma visão de 365 graus em que as paredes verdejantes banhadas pelas águas calmas e profundas mudam consoante a cor do lago, como é Domingo apenas se ouve o sibilar de uma brisa, o pio das aves e o tocar do sino para chamar os fiéis para a pequena igreja da localidade com o mesmo nome, as Sete Cidades, mas porquê esse nome tão invulgar?
Mais uma vez uma característica lendária mistura-se com a realidade, um açoriano de nome Fernão Telles afirmava que São Miguel era a famosa “insula septem civitatum”, uma referência histórica mediaval que assegurava que havia uma ilha algures no Atlântico ocidental, rodeada de lagos e rios, onde viviam sete povos em sete cidades diferentes, e como se pensou que esta ilha portuguesa correspondia a localização da lendária Antilia, o nome ficou. Não deixa de ser quase inverossímel que dois lagos inspirem tantas histórias míticas, quase diria que os colonizadores e os reis que os governaram não passavam de uns românticos.
A segunda lagoa que merece um vista de olhos é a do Fogo, a maior da ilha de São Miguel com cerca de 1,360 hectares, que deve o seu nome ao vulcão que a criou e cuja última erupção data de 1563, sendo que o que mais impressiona nesta caldeira é o seu azul tão profundo que parece que uma parte do mar se perdeu em terra.
A terceira porção de água doce que vale a pena referir é a lagoa das furnas, onde estão localizados os fumeiros vulcânicos onde se faz o famoso cozido, que como é tradição comi, mas devo confessar que prefiro a versão original, cozido à portuguesa. A paisagem circundante é idílica, o cheiro que provém da água borbulhante vulcânica é que pode “estragar” um pouco a experiência, mas ao mesmo é impressionante como estámos perante um submundo subterrâneo que se manifesta de forma tão poderosa, a natureza aqui domina e parece que se deixa domar, mas nem por isso, somos meros convidados de um ecossistema maravilhoso e encantado, como nas lendas.

terça, 04 outubro 2016 15:02

Jóias de escamas

 

Isabel Silva Melo é licenciada em Escultura pela escola superior de belas artes do Porto, uma formação que em muito contribui para as suas peças de bijutaria de autor feitas de escama de peixe, que modernizam uma tradição secular açoriana.

Primeiro queria abordar esta técnica ancestral das escamas de Peixes nos Açores.
Isabel Silva Melo: Sim, que eu tenha conhecimento é uma técnica utilizada desde o século XVIII, na altura os pescadores tinham embarcações muito pequenas e quando não iam com muita frequência ao mar esta era forma que as esposas tinham de ajudar na economia familiar, durante o inverno. Habitualmente trabalhava-se sempre em branco, faziam-se pequenos palmitos para ornamentar as imagens religiosas, era uma arte destinada unicamente ao contexto religioso, em comunhões e baptizados para ornamentar também as crianças. A escama do peixe era trabalhado com um canutilho, que era um fio prateado ou dourado, ainda utilizo esta técnica como no contexto religioso, mas uso a cor evidentemente. Para usar esta técnica em termos de bijutaria retiro o cantilho e aproveito a própria configuração da escama que é linda, é quase como fosse um apontamento de uma pétala e depois “brinco” com este material.

É qualquer tipo de escama de peixe que se pode utilizar?
ISM: Não, habitualmente nos Açores trabalha-se com vários peixes, mas eu gosto mais da veja, porque tem uma escama grande e tem um desenho de uma pétala, neste caso em concreto a fêmea é vermelha e mais chamativa, ao contrário do que acontece na natureza onde os machos são mais exuberantes, aqui são cinza-acastanhado e não tem piada nenhuma. Também gosto do bodião porque tem uma escama longa, que dá a sensação de folhas pequenas, existe ainda a tainha que cá se trabalha imenso, mas eu não gosto muito.

Quais são os desafios que enfrenta utilizando esta técnica ancestral para a confecção de brincos, alfinetes e outras peças de bijutaria?
ISM: Eu tive uma formação promovida pelo centro de artesanato e pelo museu, era um workshop de escamas de peixe onde aprendi a trabalhar a forma tradicional com o canutilho, mas depois cheguei a casa começei a “brincar” com o material e tive a sorte de gostar muito da escama do ponto de vista plástico, elástico, de flexibilidade e começei a trabalhá-lo à minha maneira. Eu tenho tenho de vergonha de dizer, mas é fácil, eu dobro, redrobo e faço o que quero, vou inventando e as peças vão saindo.

Qual é a peça que as mulheres gostam mais?
ISM: Talvez os brincos inspirados nas bungavílias, tudo aconteceu num dia que estava a chover imenso, eu tenho uma planta enorme em frente de casa e depois decidi transpor isso para a escama. O primeiro que fiz tinha quatro pétalas, depois apanhei uma flor e vi que tinham apenas três e agora os brincos são executados com esse número de escamas.

E qual é a peça mais emblemática que produz? Que diga logo que é Isabel Silva Melo?
ISM: Eu não sei dizer.

Ou o que distingue o seu trabalho de uma outra designer de jóias que use escamas de peixes?
ISM: Não sei explicar, isso vai ter de perguntar as minhas clientes.
(risos). Eu estou sempre a variar as peças, não as faço da mesma forma como no início, foi cerca há ano e meio que dei início ao projecto, gosto de introduzir outros materiais, desde o acrílico, a renda, o bordado, vidro murano, gosto de ir misturando e conjugando materiais inusitados que não fariam parte deste contexto. Tenho agora um artesão da ilha da Santa Maria que me vai trazer pedras polidas e quero ver como isso funciona. Adoro “brincar”, faço a conjugação das cores consoante a época do ano, tenho agora uma colecção de inverno, para além da de verão.

terça, 04 outubro 2016 14:59

A ode de antero de quental

Este acoriano nascido na ilha de São Miguel é um dos nomes incontornáveis da poesia moderna portuguesa e não só, foi também filosófo e uma das vozes mais activas na revolução social que culminaria com a implantação da República. Este é apenas uma singela homenagem a um dos grandes vultos da cultura portuguesa, no ano em que o 5 de Outubro de 1910 voltou a ser feriado.

Panteísmo

I

Aspiração... desejo aberto todo
Numa ânsia insofrida e misteriosa...
A isto chamo eu vida: e, deste modo,
Que mais importa a forma? silenciosa
Uma mesma alma aspira à luz e ao espaço
Um homem igualmente astro e rosa!
A própria fera, cujo incerto passo
Lá vaga nos algares da devesa,
Por certo entrevê Deus – seu olho baço
Foi feito para ver brilho e beleza...
E se ruge, é que a agita surdamente
Tua alma turva, ó grande natureza!
Sim, no rugido há vida ardente,
Uma energia íntima, tão santa
Como a que faz trinar a ave inocente...

A obra de Antero Quental rompe definitivamente com o ultra-romantismo vigente da época e Odes Modernas, que é o seu primeiro livro de poesia, é o exemplo perfeito da nova literatura moderna portuguesa que emergia no final do século XIX. Este livro assume particular relevo já foi editado no ano da famosa questão Coimbrã, uma polémica literária, encabeçado por um grupo de jovens escritores do qual Antero era uma das vozes mais activas, que defendia que a visão literária ultra-romântica da época estava ultrapassada em relação aos novos ventos da modernidade que se estendiam por toda a Europa. Odes Modernas acaba por ser uma obra que reflete um novo estilo de literatura mais realista, com um certo tom revolucionário, que aborda as realidades sociais do Portugal de então fazendo o contraponto com o homem moderno dilacerado pela sua própria luta interna entre a fé e a razão. Esta ainda subjacente neste livro o ideal socialista que traria progresso à nação e o conceito de um mundo novo mais justo e equalitário. Mais do que um escritor, Antero de Quental é a personificação do novo homem moderno português, que rompe definitivamente, através da sua militância política, para além da sua escrita acutilante e provocatória em jornais e revistas, com o “status quo” vigente, num país à beira da ruptura ideológica, económica e social que mais tarde se traduziu numa jovem República. Infelizmente, este grande vulto da cultura portuguesa, não chegou a viver o suficiente para ver essa nova nação já que se suicidou em Setembro de 1891 aos 49 anos de idade, se tivesse resistido aos seu demónios internos 19 anos mais tarde teria provavelmente visto com o seus próprios olhos, a implantação do Portugal republicano.

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