Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

terça, 04 outubro 2016 14:54

O arriscar nos outros

Gil Sousa é o coordenador do serviço socio-laboral da associação Arrisca, uma instituição de solidariedade social (IPSS), na ilha de São Miguel, que visa a inserção na sociedade e no mercado de trabalho de grupos de risco, ou com deficiências.

Fale-me um pouco sobre o que é “Arrisca Experience”.
Gil Sousa: A “Arrisca experience” é uma valência de uma IPSS, uma instituição de solidariedade social, que foi criada em 2007, nos trabalhámos com um público em situação de exclusão grave, falo dos toxidependentes, perturbações mentais, com pessoas que foram deportadas dos EUA e do Canadá e temos quatro unidades formativas e produtivas onde procurámos trabalhar a vertente de inclusão social, através do trabalho. Na área da cerâmicas temos as loiças regionais, os barreiros de azulejo, as figuras tradicionais, ou seja, procurámos representar algumas das profissões que estão a cair no esquecimento e procurámos trabalhá-las. Depois temos a vertente de carpintaria onde procurámos criar mobiliário diferenciador e trabalhámos à base de encomendas, não temos uma loja com as peças expostas, mas produzimos consoante a necessidade das pessoas. Também há um outro projecto nas madeiras, que é produção de mobiliário “eco-friendly”, através do aproveitamento das paletes fazemos vários tipos de móveis e tivemos alguns projectos interessantes com o “cais da sardinha”, o “eco beach resort” e alguns alojamentos que tem aderido muito a esta moda, porque é mais apelativo e sustentável. Para finalizar temos as equipas da jardinagem, vamos as residências das pessoas e oferecemos os nossos serviços. O que procurámos fazer é uma diferenciação dentro dos serviços nestas áreas, para colmatar as necessidades que as possam.

No início referiu que são artes em desuso, por isso foi necessário dar formação.
GS: Sim, a equipa é constituida por monitores que ajudam os utentes a serem integrados nestas diferentes valências que já referi anteriormente, são profissionais que tem formação nestas áreas, procurámos incutir nos utentes essas formações Também estámos abertos à comunidade, temos muitos workshops em que as pessoas podem efectivamente participar e aprender, por exemplo, a pintura regional de loiça ou em azulejo, os presépios, aqui, em São Miguel temos uma tradição de ser feito em redoma e fazemos desde as peças em miniaturas, os bonecos da lapinha até a própria concepção da peça artesanal em si. Realizámos estas formações abertas ao público também como forma de combater o estigma do nosso público-alvo e de envolver a comunidade neste processo de inserção.

Dos diferentes tipos de utentes que possuem, vocês deixam que eles escolham a arte que pretendem desenvolver ou não?
GS: Nós procurámos fazer um “job matching”, ou seja, adequar as capacidades, as competências e a experiência que essa pessoa já teve com as áreas que já possuímos, no entanto, pode haver uma pessoa que tem o gosto pela carpintaria, sem nunca ter tido qualquer tipo de experência, e pretende aprender porque tem essa motivação, nõs proporcionámos também essa possibilidade. Depois também fazemos uma ponte com as empresas, porque o objectivo ao longo-prazo seria a integração destas pessoas no mercado de trabalho, tentámos sempre encontrar sempre uma oportunidade de emprego.

Qual destas áreas tem havido uma maior inserção de utentes no mercado de trabalho?
GS: Hoje em dia estámos num mercado cada vez mais competitivo, as empresas procuram ter do seu lado os melhores e mais competentes, infelizmente, o nosso público-alvo é caracterizado por baixas habilitações literárias, tem algumas problemáticas associadas, não podemos falar, nem quantificar uma área com taxa de sucesso. O que posso dizer é que já tivemos situações em que algumas empresas no contactaram para obter pessoas para trabalhar nas obras, o que foi muito bom na altura, estámos a falar do período em que houve um boom na construção civil e aí as empresas não se importavam se a pessoa foi deportada, ou se tinha problemas, ou um passado. Infelizmente, hoje em dia, as coisas já não são assim, estão mais complicadas, temos imensas pessoas desempregadas e cada vez mais com qualificações e costumámos dizer que os nossos utentes estão na base da pirâmide com poucas qualificações e problemáticas associadas a competir com pessoas licenciadas e com outras formações. Daí a importância destas valências, destas competências que temos nas nossa instituição com programas que nos final permitem que as pessoas possam usufruir de um salário por mês, o que acaba por ser muito benefico.

Quantas pessoas estão inseridas nesta IPSS?
GS: A associação Arrisca acompanha mais de mil utentes, não é nestas valências de que falei, esta é uma pequena parte, temos também um serviço psicossocial que é composto por assistentes sociais, psicólogos, educadoras sociais, sociológos e monitores de inserção social. Possuímos ainda um departamento clínico com médicos e enfermeiros, onde trabalhámos todas as vertentes da reabilitação social desde os mais pequenos até na prevenção juntos dos mais idosos, o objectivo é acompanhar todas as fases da vida destas pessoas.

http://www.arr1sca.pt/

terça, 04 outubro 2016 14:44

Se os pratos falassem

As artes decorativas nas casas reais portuguesas eram de elevada importância, não só por uma questão de gosto, mas porque exibiam o que de melhor se produzia em termos de peças de porcelanas, baixelas e vidro ou cristal, ao longo dos séculos XVIII e XIX e eram sobretudo um sinal de poder, como descreve a especialista do Palácio da Ajuda, Cristina Neiva Correia.

Num jantar do século XVIII as pessoas tem uma mesa simétrica, arrumada muito preenchida e a refeição desenvolve-se como uma peça de teatro, por cobertas que vão apresentando os alimentos em conjuntos em cima da mesa que são descobertos, até os guardanapos eram apresentados em várias formas de animais e possuiam muitas peças de prata, tudo isto é o teatro de comer, tem a ver com uma ideia de poder através dos objectos de una etiqueta codificada e da exposição dos artistas que trabalharam estas peças, são cerimoniais do tipo da corte de Luis XIV.

 
Com a subida de Napoleão ao poder surge o gosto pelos dourados, a conquista dos territórios, as guerras, obrigaram a entrega das pratas. Em Portugal temos um conjunto que é uma referência, de peças que marcariam o centro da mesa e vai-se adaptar peças em dourado, onde se colocam os candelabros e até alguns apontamento de biscuit, mas só para ilustrar, porque a prata deixa de ser utilizada. Mas, como o nosso país não andava a conquistar território, considera estas peças tão especiais que as guarda como tesouros e quase não existem baixelas francesas fora do seu país de origem. Não desaparecem, foram convertidas em dinheiro, era para isso que serviam as peças em prata para entesourar, quando a coroa francesa precisava de dinheiro para o esforço da guerra mandava os nobres contribuirem e por isso as peças derretiam-se, o trabalho artístico não é considerado relevante. Portanto, hoje em dia, para estudar ourivesária do século XVIII, que foi o que eu estudei, impõem-se uma visita aos museus portugueses, o que é interessante.
Nesses centros dourados vai haver também muita cor por via das flores e dos frutos, que são muitas vezes apresentados em pequenas pirâmides e que ficam ao longo da refeição. O Dom João VI tem serviços extraordinários no Palácio de Queluz, mas a maior parte esta no Brasil, vindos sobretudo de Inglaterra e tem alguns serviços franceses, são muito simples e vão atravessar todo o século, em círculos concêntricos todos demarcados, que vai iradiar com elementos decorativos. No século XIX os pratos começam a ser assimétricos, com motivos botânicos, de fauna sobretudo, retratos de trajes regionais, são tirados de estampas que circulam pela Europa toda e não é uma excepção, já que circulam estes estilo pelas restantes casas reais porque todos querem estar ao mesmo nível, embora a casa real inglesa tem peças mais brilhantes e maiores, mas são pequenos pormenores, na generalidade todos se abastecem nas mesmas fábricas e acompanham esses estilos.

Os serviços de Dona Carlota Joaquina eram absolutamente absolutistas, esta senhora tinha um gosto fantástico e o palácio do Ramalhão tem um recheio extraordinário e riquíssimo. Ela tem a chamada lenda negra, que já vinha da mãe e que interessava denegrir, tinha uma feitio especial, peculiar, mas tinha muitíssimo bom gosto basta ver o arrolamento do Ramalhão. No Palácio da Ajuda existem dois depósitos, o museu consegue, por vezes, comprar peças destes outros reinados, é o caso dos frescadores da copos que haviam na mesa, são peças que cairam em desuso, mas que permitiam manter os copos frescos.

Dona Maria II no palácio das necessidades, em 1840, o inventário é um infindável de conjuntos de mesa, há duas vitrines do Paço de Vila Viçosa, que serve para mostrar os pratos com flora e fauna, paisagens, com cores densas, são muito decorados, onde não se vê muita porcelana, embora seja muito apreciada pelo branco, quanto mais branco e menos defeitos tem melhor é.

 

Há alguns reinados em que as peças escasseiam e interessa-me chegar à Dona Maria Pia e Dom Luís I, porque a colecção era muito maior. Chegámos a uma certa altura em que os centros de mesa são invadidos por flores, neste período, as peças de prata suportam as flores, às vezes são de vidro, ou cerâmica, os calendrados, que tem uma colecção extraordinária, com cerca de 16 mil peças de cerâmica, de mesa e as restantes decorativas. O acervo é grande, porque é uma casa real, a rainha durante vinte anos vai fazendo compras, ela tem muita fama de ser gastadora, mas aos poucos eu noto que ela faz um esforço notável com uma economia de meios de conseguir manter a representação da corte com dignidade. A disposição da mesa é feita de acordo com João da Mata que tem uma grande importância para a corte portuguesa, uma mesa de festa privada, é sempre feita com os serviços mais simples, sem os vidros venezianos, que tinha um menu, as pessoas sempre sabiam o que iam comer, na década de oitenta, mas não depois. Temos o guardanapo colocado no prato raso, designado por prato de guardanapo, só se coloca à esquerda no que se designa serviço de hotelaria, à francesa, o chique é ao centro. Os talheres são dispostos à inglesa, em crescendo pelas laterais, ocupavam muito espaço, talvez por isso as mesas são mais espaçosas.

No final do século XIX os serviços tem nome, porque eram produzidos por artistas, mas já se vediam por catálogos, são mais económicos e D. Maria Pia acompanha o gosto europeu, temos peças Vista Alegre e Limoges. Ela anota tudo que esta partido, o que falta, para substituir nos Palácios da Pena e do Estoril, que necessitam de serviços funcionais. Esta rainha tem porcelana francesa, com peças neo-góticas, e neo-renascentista, a prata é sempre um símbolo de riqueza. O centro de mesa, é o que traz no seu enxoval de casamento, da baixela Berran, um ourives francês, são peças destinadas para frutos, ou flores, ou ainda que tem capacidade para um globo com peixinhos. O vidros que tem várias correntes,são venezianos, apelidados de Marguerita uma homenagem à sua cunhada, com cor para o vinho branco e o vinho Madeira era sempre o que usava para acompanhar a sopa, tudo esta na mesa, e quando chega a sobremesa todos os pratos são substituídos. A casa real tem porcelana oriental em quantidade extraordinária e cada produção ajuda a avalizar os reinados.
As salas de jantar nesta altura ganham um lugar fixo, até então as pessoas colocavam-na onde queriam e é nesta época que também recebe à atenção dos arquitectos e torna-se no eixo central da casa, na verdade a aristocracia e a casa real vão ter salas de gosto renascentista, que são feitas já na década de 60 e 80, a Dona Maria Pia usufrui desta sala, temos as cadeiras de couro lavrado, ao fundo de uma lareira, os grandes aparadores onde se preparam os pratos, eles são servidos empratados, o que se esperava de uma sala de jantar de qualidade?


Havia quatro moços da prata, vestidos de preto que tinham de trazer e levar tudo, não havia conversa com a dona da casa, tudo era codificado, planeado e executado ao milimetro. Na clivagem do século XVIII para o seguinte é fundamental o serviço à francesa e temos os testemunhos memorialistas, entre eles, Tomas Melo e Breiner que é quase uma biblia, porque conta tudo ao pormenor o que ia acontecendo, ele fala até sobre o cozinheiro do paço que era o Custódio que enfeita os pudins com as pernas de veado, faz bolos, o que é estranho porque ele aparece a fazer tudo e a pastelaria era uma secção separada, estes pratos levavam horas a preparar e davam também a ideia de riqueza. É ele que disse que a rainha Maria Pia tinha um porte de grande elegância, nunca comia mais do que lhe punham no prato, nunca recusava o que lhe serviam e estranhamente comia fruta com a mão. O rei Luís I, por outro lado, comia dieta e ainda o que outros comiam e pão com manteiga, segundo o testemunho de Vital Fontes
No fundo os objectos da mesa, reflectem o lugar do poder, especialmente no século XIX, como marca social, distingue-se quem é quem pela forma de estar na mesa, por saber manusear também uma finita quantidade de objectos que são criados para isso mesmo, para atrapalhar aqueles que não pertencem ao grupo, mas todas as peças tem uma marca de posse, tem um monograma real, tem a heráldica, dos respectivos reis, isto permite-nos datar, registar e estudar a evolução do gosto nesse período.

 

http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosListar.aspx?TipoPesq=2&NumPag=2&RegPag=50&Modo=1&Criterio=pratos

terça, 04 outubro 2016 14:34

A última praia

A Plataforma livre de Petróleo e a Quercus lançam campanha em defesa dos da costa do Algarve.

Apesar de o mundo inteiro já se ter apercebido que as energias renováveis são o futuro, os anteriores governos de Portugal criaram condições e incentivos para a prospecção, pesquisa, e exploração de hidrocarbonetos nos mares da costa Algarvia. Por esse motivo foi criada a Plataforma Algarve Livre de Petróleo (PALP) uma organização que surge na sequência da iniciativa de um conjunto de cidadãos e entidades insatisfeitos com a perspectiva da perda irreparável de vários ecossistemas ao longo da costa desta região do sul de Portugal.
Um dos principais objectivos desta plataforma é alertar a população para os riscos inerentes à exploração de hidrocarbonetos nesta região, incentivar um debate público sobre as consequências de uma tomada de decisão desta natureza, exigir um estudo de impacto social, económico e ambiental, e ainda, pressionar o Estado para publicar toda a informação inerente à prospecção, pesquisa, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural em Portugal. Uma das suas mais recentes acções foi a entrega na Assembleia da República de uma petição que poderá salvar os interesses de todos nós, cidadãos e acima de tudo, do nosso frágil ecossistema.
Mas não chega. Daí que tenha sido essencial a parceria com a Quercus e duas agências de comunicação para a criação de uma campanha que pretende alertar a população para os riscos da perda destes ecossistemas e do que se pretende proteger de uma forma mais simples e acessível através das redes sociais. Por isso, apela-se a todos que passem a mensagem, que partilhem os vídeos que aparecem no final deste texto, utilizem as imagens, assinem a areia da praias preferidas e partilhem com o hashtag #thelastbeach.

http://www.palp.pt/

http://www.quercus.pt/

 

 

terça, 16 agosto 2016 19:09

Biquíni versus fato de banho

É mais um daqueles textos que pretende ser uma reflexão sobre os padrões de beleza actual.

Chegadas ao verão e não há nada mais refrescante do que um mergulho no mar, ou na piscina e aí começa também um dos maiores dramas femininos, biquíni ou fato de banho? Eis a questão. E embora o mercado ofereça todo o tipo de peças, padrões e feitios o facto é que o maior problema para as mulheres não é a escolha, o que pesa mesmo são os potenciais olhares condescendentes ou comentários mordazes que os outros fazem à nossa escolha. Lembrei-me deste tema por causa de uma notícia recente sobre uma mãe norte-americana que usou um biquíni, tirou uma foto para mostrar nas redes sociais e o que tinha a imagem de tão especial que gerou uma enorme discussão e inúmeros comentários preconceituosos? Qual foi o verdadeiro busílis? Apenas que o corpo dela mostrava estrias e um pouco de pele flácida resultado da gravidez e uma senhora tinha-lhe dito na piscina pública que não devia usar biquíni porque via-se tudo, ficava feio e como era mãe não era apropriado. A resposta não se fez esperar e a jovem afirmou que não sentia vergonha do seu corpo, porque foi com ele que ela gerou um milagre, a sua filha, sentia-se confortável na sua pele, até tinha orgulho do seu corpo e se o seu marido não se importava com aquelas pequenas imperfeições, quem era ela para dizer seja o que for? Devo dizer que foi uma das melhores respostas que já li e não só apoio essa mãe, como também já me deparei com esse tipo de preconceito, o usar um biquíni depois do 30. De onde surgiu a norma de que é mais adequado usar fato de banho inteiro a partir de uma certa idade? Por ventura o biquíni esta apenas reservado para uso e usufruto das jovens adolescentes e das modelos do Victoria Secrets? E se não temos o corpo ideal, porque isso nos pode impedir de usar apenas duas peças? A verdade? É que a vergonha resulta dos comentários pouco abonatórios por parte de terceiros e o pior é que na maior parte dos casos são as próprias mulheres que em muitos casos incentivam esse tipo de maldizer de forma despudorada. Mas, poderão contrapor que não se trata de dizer mal, mas sim impedir que uma amiga passe vergonha, ou seja motivo de riso, ou seja apontada pela sua escolha. Não é um argumento válido, se uma pessoa se sente bem na sua pele, mesmo com as suas imperfeições e não há corpos perfeitos, porque não há-de usar um biquíni? E se pelo vistos isso incomoda mais os outros, porquê devemos preocupar-nos tanto com que os outros pensam? Sejámos francas quando vemos as imagens das actrizes e ex-modelos na praia com os seus corpos tonificados e magníficos não se esqueçam que elas antes estiveram meses a treinar com o seus personal trainers para preparar os seus corpos para a época estival, fizeram dietas, liposucções, tratamentos para as estrias e a celulite e o resto de nós comuns mortais temos de nos contentar com as nossas idas ao ginásio duas vezes por semana e com os cremes que adquirimos na farmácia à espera da um milagre! E como não existem, temos de assumir o que temos e que a força da gravidade é igual para todas, mesmo para aquelas que não tiveram filhos, infelizmente! Por isso, um conselho de amiga, que já disse mais do que uma vez, e que não me canso de repetir, use o que acha que lhe fica bem e que a faz sentir confortável, seja biquíni ou fato de banho. O que interessa é apanhar sol, nadar e descansar, sem complexos. Boas férias.

terça, 16 agosto 2016 19:08

52 anos de história

A biblioteca Municipal de Santa Cruz comemorou o seu aniversário. Uma efeméride que serviu de mote para um períplo de memória.

Um dos meus grandes amores são os livros e nem sempre ao longo da minha vida à minha família teve disponibilidade financeira para adquiri-los, mas graças à Fundação Calouste de Gulbenkian tive acesso as maiores obras e clássicos da literatura nacional e internacional, atlas, banda desenhada, livros de ficção científica e outro tipo de publicações que inundaram o meu imaginário e foram fonte não só conhecimento, como de deslumbramento. Tudo isto para falar de quê? Dos 52 de existência da biblioteca municipal de Santa Cruz, o meu local de eleição. Um aniversário singelo que serviu não só para assinalar a efeméride, como também para recordar um pouco a história deste espaço que foi inaugurado no dia 16 de Julho de 1964 com alguma pompa e circunstância, já que era a segunda biblioteca ao nível regional. Se antes do 25 de Abril de 1974 a afluência era escassa devido a um elevado analfabetismo da população, no pós-revolução tudo mudou como conta uma das suas ex-funcionárias, Maria Belita Abreu, que esteve ao serviço desta biblioteca durante 42 anos e recorda, “ no pós 25 de Abril começámos a ter uma influência incrível, houve uma grande necessidade por parte das pessoas de ler, era uma dificuldade encontrar lugar numa das três salas, estavam sempre cheias e as pessoas esperavam pela sua vez. Por vezes queríamos senta-las e os lugares já estavam todos ocupados, pediam todo o tipo de livros para sentar-se, tirar apontamentos e para estudar, era algo diferente”.
Ao longo do tempo a biblioteca foi ganhando o seu espaço, graças a uma outra revolução que se deu no ensino escolar, como sublinha a ex-bibliotecária “algumas professoras da escola primárias tinham o cuidado de quando começava o ano lectivo de apresentar a biblioteca aos seus alunos. Até nos intervalos das aulas, como as escolas eram próximas havia alunos que depois vinham levantar livros, com o passar do tempo os establecimentos de ensino foram ficando mais distantes e os hábitos mudaram”.
No ano 2000 há uma novo marco quando à Fundação Calouste de Gulbenkian decidiu doar todas as suas bibliotecas e os livros as autarquias portuguesas, nessa década, como sublinha “o fluxo de leitores foi decrescendo, primeiro porque as escolas abriram as suas próprias bibliotecas e posteriormente, os jovens começaram a estar mais ligados à informática e usavam mais os computadores para pesquisa e aí notou-se uma quebra”.
Mas, o que se lia há vinte anos? Maria Belita Abreu refere que “os mais pequenos liam a literatura mais tradicional, como o “Capuchimho Vermelho”, “Os três porquinhos”, mas também autores mais contemporâneos como “a Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada já que sempre tivemos os livros dessas autoras e elas sempre tiveram o cuidado no final do livro de abordar a questão histórica e isso prendia os leitores que queriam ver outro livro. Depois passou a ser uma leitura mais selectiva, porque passou a haver obras obrigatórias lidas pelos alunos nas escolas. Por parte dos adultos havia alguns que vinham procurar os filosófos, mas a maioria escolhia os escritores portugueses e estrangeiros, a partir de uma certa altura notou-se que as pessoas tinham uma sede de literatura que não só os clássicos. Liam uma citação e vinham procurar a obra, despois sugeríamos e até encaminhavámos esses leitores para outro autor, ou leitura. Um dos autores mais requisitados foi desde sempre “o Eça de Queirós, que passou a ser mais tarde a ser obrigatório nos estabelecimentos de ensino, através da sua obra, “Os Maias” que ainda o é hoje em dia. O nobel de José Saramago entusiasmou as pessoas para quem não o conhecia e isso também trouxe leitores”.
Em 2016, há um entusiasmo renovado pela biblioteca municipal de Santa Cruz, através de uma agenda de eventos cujo objectivo é tentar atrair mais jovens leitores a este espaço, contudo, o futuro das bibliotecas necessita de ser repensado, já que com advento das novas tecnologias, dos gadgets que permintem o download de várias obras literárias em poucos minutos e das consultas de informação especializada disponíveis online, a existência destas instituições guardiãs do conhecimento humano e da sua capacidade ilimitada de imaginação poderá ter os seus dias contados.

terça, 16 agosto 2016 19:02

A balada de Leonor

Leonor Teles é a joven cineasta portuguesa que ganhou o prémio pela melhor curta-metragem no Festival de Cinema de Berlim com o filme a “balada dos batráquios”. Um objecto de cinema que visa fazer reflectir e ao mesmo tempo é um testemunho sobre como é olhada a comunidade cigana por parte da sociedade.

Quando escreveste "balada dos batráquios” já era uma ideia inicial do guião entrar nas lojas e partir os sapos?
Leonor Teles: Sim, começou com essa ideia e depois todo o resto foi construído em torno dos sapos.

Depois da exibição do filme as pessoas abordam-te sobre essa questão, o desconhecimento sobre a simbologia dos sapos?
LT: Sim.
Que desconheciam?
LT: Sim, que não faziam a miníma ideia.
E achas que alguns dos sapos estavam lá, mas sem essa intenção?
LT: Sim, eu acho que os sapos não estão lá com esse intuito, mas muitos dos outros estão. A ideia do filme é tentar perceber se os sapos estavam com lá com essa intenção ou não, foi isso que tentámos fazer e os sapos que estavámos a partir tinham esse propósito.
E como descobriste que os sapos que estavam nessas lojas tinham esse intuito?
LT: Isso faz parte do processo do filme.
Como assim?
LT: Faz parte da minha maneira de fazer os filmes e toda a preparação.

Tu filmaste a curta-metragem com uma câmara especial, porquê?
LT: Porque a super 8 era o formato apropriado para contar esta história, não só por ter aquele granulado e colorido, um aspecto tosco e parvo, tinha a ver também com a temática do filme por se tratar de uma situação parva. O filme também acaba por ser um conto e esta relacionado com um imaginário com esse tipo de imagens antigas e coloridas que nos remetem para outro tempo que não agora.

Depois de ter ganho o prémio em Berlim e quando te deparaste com os teus familiares e amigos, entre as raparigas, as tuas amigas na comunidade, elas olharam para ti de forma diferente?
LT: Não tenho amigas na comunidade cigana.
Mas, um dos teus pais é de etnia cigana?
LT: Sim, o meu pai é, a minha mãe não, mas ele só mantém uma relação com os familiares directos, portanto, as nossas relações embora próximas não eram muitas.
E não tens primas?
LT: Eu acho que ficaram contentes.
Sim e as raparigas ciganas no geral tem uma tendência de sair da escola mais cedo. Tu, transcendes tudo isso.
LT: Sim, mas eu sou meia cigana, portanto, não dá para tomar-me como um exemplo tão abrangente, eu acho.

Agora que tens um prémio pesa-te muito para o teu próximo projecto? Em termo de expectativas?
LT: Não, acho que os prémios são bons e tem um aspecto positivo que é ajudam em termos de obter financiamento de uma forma mais fácil, mas temos que relativizar e não deixar que essa pressão nos afecte no trabalho seguinte.

E qual a tua perspectiva sobre o cinema português? De álguem que esta a chegar ao meio.
LT: Como assim?
Trata-se de um meio difícil para obter apoios, para alguém tão jovem como tu?
LT: É difícil, mas o cinema é algo muito difícil para os jovens que começam. Se as pessoas trabalharem e tentarem criar as suas próprias oportunidades aos poucos e poucos as portas vão-se abrindo e há novas perspectivas para os mais jovens. As pessoas tem de trabalhar, continuar a lutar e se tiverem poucos meios tentarem compensar de outras maneiras, mas tem de fazer filmes e levar adiante as coisas.

E como espectadora como vês o cinema português?
LT: Acho que às vezes os realizadores são bons e não são conhecidos por causa do preconceito em relação ao cinema português, porque é chato e aborrecido e por isso ninguém tem interesse em ver, mas essas pessoas tem de ser mais flexíveis, abrir mais e estarem mais predispostas a ver coisas novas. Se calhar assim iam gostar mais do que os portugueses fazem, porque há muito bom cinema que se faz e depois não tem lugares para serem vistos.

Tens algum cineasta de referência?
LT: Gosto do Miguel Gomes.

E a tua geração olha para o cinema nacional como algo menos chato e que se pode ver?
LT: Eu acho que na minha geração depende, as pessoas que trabalham no cinema da minha idade olham-no com outros olhos, vão ver os filmes e tentar compreender. Também temos uma formação que faz com que vejamos os filmes como é algo para pensar e não apenas como entretenimento. Os meus colegas não tem essa perspectiva, para eles, cinema é algo para os entreter, não o vêem como forma de arte para pensar e reflexionar as coisas.

Tu no teu próximo projecto vais continuar a usar a câmara super oito?
LT: Não.
Vais usar outro formato?
LT: Sim.
E vais continuar a fazer o circuito de festivais porque é a única forma de ser reconhecida?
LT: Não sei se as coisas podem ser postas dessa forma. As pessoas quando concorrem aos festivais lá fora é bom para algum reconhecimento e se houver esse sucesso no circuito de festivais internacionais, certamente abrem-se as portas para se estrearem o filme comercialmente.

Vais continuar no formato de curta?
LT: Acho que sim.
Mas, tens o objectivo de fazer um dia uma longa-metragem?
LT: Não, o meu objectivo é fazer um projecto de cada vez, trabalhando nas coisas a pouco e pouco e o melhor possível.

E sempre neste registo de espécie de documental?
LT: Sim, acho que o tenho para mostrar é mais nesta parte documental, mas ao mesmo tempo misturando um pouco outros registos, se olharmos para “balada dos bátraquios” não é um filme propriamente fácil de caracterizar.

terça, 16 agosto 2016 18:56

Portraits of a chaotic mind

 

Andé Gonçalves é um jovem artista de fotográfia conceptual que nos faz mergulhar em cenários surrealistas, profundos e personagens que quase nos murmuram segredos e transportam para outros mundos.

Porquê desta exposição?
André Gonçalves: Eu já fiz outras duas exposições anteriormente, mas uma delas foi inserida num colectivo. Na Madeira temos que basicamente promover-nos, eu decidi enviar emails a várias instituições, museus e espaços culturais e obtive uma resposta do teatro Baltazar Dias.

Qual é o fio condutor desta mostra? As fotografias remetem para um cenário gótico.
AG: Não tenho um estilo, tenho uma identidade criada obviamente, tenho várias temáticas desde o surreal, o conceptual e ainda tem retratos. Não tenho um estilo definido, mas abordo vários temas da fotográfia e tento explorá-los ao máximo.

Em relação as fotográfias, tu montas um cenário e só depois inseres as personagens? Ou há uma história e depois constroís a foto?
AG: Não, apesar das minhas imagens transmitirem essa ideia nunca é assim. Quando estou a fotografar nunca tenho uma ideia base, simplesmente deixo-me ir, mas tenho um baú e quando vou fotografar levo tudo atrás de mim e depois uso o que achar mais adequado ao cenário, ou tenho uma ideia muito básica do que quero fazer. Eu não sou fotográfo e não me considero como tal, o que gosto mais de fazer é manipulação de imagem e é onde entra quase todo o meu trabalho, onde aparece a composição da imagem, tentar transmitir uma mensagem através da fotográfia.

É curioso que referiras essa questão, porque nota-se que há uma técnica por detrás de algumas imagens quase tenebrosas.
AG: Sim, como disse não me considero fotográfo, mas tenho de tirar as fotos porque é o ponto inicial do meu trabalho, uso photoshop, a imagem é quase toda alterada, mas não fugindo muito da realidade dos cenários, mas se vir o antes e depois não distorço a paisagem fica um efeito quase cinematográfico, mas na minha opinião real.

Também tens muitos auto-retratos, porquê? Recordei que algns artistas faziam este tipo de trabalho, primeiro por falta de objecto para pintar, mas também para apurar a técnica, foi o caso?
AG: Sim, começou com os auto-retratos, mas não é por falta de trabalho, gosto de mim e de fazê-los.

Consideraste um designer? Ou artista?
AG: Artista sim, fotográfo não, designer não, porque sou auto-didacta, sinceramente não tenho uma definição, talvez manipulador de imagens.

E qual é o teu próximo passo depois desta mostra?
AG: Agendado tenho uma exposição no início do próximo ano na Fnac, vou lá estar três meses.

terça, 16 agosto 2016 18:48

Incêndios destroem Portugal

 

O combate as chamas mais uma vez mobiliza milhares de profissionais e as próprias populações.

Mais 4, 000 profissionais estiveram até o momento no terreno um pouco por todo o país, inclusive na ilha da Madeira, no combate aos fogos que assolam o território nacional, desde o início do mês de Agosto. Ao todo mais de 180 focos de incêndio varreram milhares de hectares de floresta e só para terem uma ideia, na ilha da Madeira, na cidade do Funchal, 150 habitações foram consumidas pelas chamas, existe 3,078 mil hectares(ha) de terreno queimado e há infelizmente três vítimas a lamentar, na Calheta ardeu 28% do seu território num total de 3,200 ha. No Continente, à Norte, um total de 16,660 ha de terreno foram consumidos pelas chamas nas localidades de Caminha, Arcos de Valdevez e Viana do Castelo. Ao centro, em Águeda e Anadia 10,328 hectares foram queimados, o incêndio de São Pedro do Sul lavrou aproxidamente um terço, ou um quarto dos seus 250 quilométros quadrados do seu território e em Arouca, no distrito de Aveiro, foram já mobilizados 831 profissionais e 256 meios terrestres e no total arderam 17 mil hectares de terreno.
O sistema Europeu de informação de fogos florestais (EFFIS) ao analisar as imagens satélite que contabiliza os fogos em tempo real, desde o início do ano até sexta-feira, dia 12 de Agosto, refere que só em Portugal já arderam mais de 101 mil hectares de floresta, o equivalente a 101 mil campos de futebol. Só o nosso país é responsável por metade da área ardida em todos os 28 países europeus que foram fustigados por incêndios florestais este ano. O observatório europeu sublinha ainda que esta média de 2016 ultrapassa as zonas queimadas de 2008 e 2015 que rondaram os 25 mil hectares ardidos, dados que vão ao encontro da tese de doutoramento de Ricardo Ribeiro, que defendeu na Universidade Europeia, em Madrid, na qual avaliou o resultado de dez anos de aplicação do Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios como sendo negativo e ineficaz.
"A desertificação é um fator de risco crítico que nunca é abordado. Mas há uma relação direta entre a densidade populacional e a área ardida, os grandes incêndios ocorrem em zonas do interior onde houve um êxodo para o litoral", em declarações à Lusa o responsável, que também é o presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (Asprocivil). E avisou, "o paradigma dos incêndios vai alterar-se dramaticamente, do ponto geográfico e cronológico. É que, esclareceu, com as alterações climáticas, os incêndios vão deixar de ser um problema do verão e vão estender-se também a outras zonas do país, até agora mais poupadas".
No estudo, de mais de 600 páginas, que admite possa vir a ser publicado, defende, como fundamentais, políticas de prevenção e lembra que, em 2013, ardeu em Portugal metade de toda a área consumida pelas chamas na Europa. Uma das causas, adianta, é a "precariedade da conservação das matas", aliada ao êxodo rural, à construção de habitações em locais de risco, aos efeitos das alterações climáticas e à negligência das pessoas. Ricardo Ribeiro propõe que as boas práticas da população seja matéria do sistema de ensino e que deve haver campanhas publicitárias. Os bombeiros devem ter também mais formação e deve criar-se um sistema de incentivos públicos para o ordenamento do território e para limpeza do biocombustível, para a qual deviam ser criadas equipas de intervenção. Apostar na criação de um mercado ibérico de biocombustível, aprofundar a "atuação punitiva", implementar meios permanentes de combate a fogos a partir de março, criar medidas sociais para pessoas até 50 anos, para combater a desertificação, criar incentivos fiscais para fixação de jovens no campo ou apostar na videovigilância são algumas das propostas de Ricardo Ribeiro.
O responsável defende especificamente que sejam criadas equipas de intervenção idênticas às dos combates a incêndios para que atuem no fim do inverno, a criação de medidas de intervenção e prevenção, e que os terrenos junto de estradas e casas sejam efetivamente limpos. "Nesta problemática, há a prevenção, a resposta ao fogo, e a reposição da normalidade. Mas, em Portugal, incide-se especialmente na resposta, esquecendo-se a prevenção e a reposição da floresta", disse Ricardo Ribeiro à Lusa, acrescentando: "Portugal foi o país europeu que menos reflorestou nos últimos 20 anos".
Nem parece que ardem em média cada ano 150 mil hectares de floresta, ou que, em 2013, ardeu quase meio milhão de hectares, lembrou, acrescentando que, entre 2002 e 2013, morreram, devido aos incêndios, 97 pessoas, 51 delas bombeiros. E nem assim, disse à Lusa, há mudanças de comportamento ou há um planeamento eficaz, esquecendo os políticos que, quando "fecham um centro de saúde, estão a estimular as pessoas a irem embora". Os incêndios, como os dos últimos dias, provocam um prejuízo médio anual "superior a duas centenas de milhões de euros", mais outros 200 milhões em prejuízos ambientais e materiais, disse o responsável.

www.lusa.pt
http://forest.jrc.ec.europa.eu/effis/

terça, 26 julho 2016 19:36

Memórias de Martha

 

O Mudas, Museu de Arte Contemporânea da Madeira apresenta, na antiga casa principal, no novo espaço de exposições temporárias, a obra de artista plástica Martha Cohen da Cunha Telles.

Trata-se de um expólio de 31 obras, entre pintura, aguarela, gravura e serigrafia, que segundo o director Regional de Serviços de Museus e Património da Direcção Regional da Cultura, Francisco Clode são “uma homenagem a uma artista nascida na Madeira que fez o seu percurso profissional no Porto, em Paris e posteriormente no Canadá”.

O conjunto de trabalhos da artista plástica foi cedido pela sua filha Teresa Cunha Telles Hall no seguimento de um protocolo de cedência por 10 anos à Região, prorrogado por mais 5 anos, um acordo de suma importância porque, como refere o responsável, Martha Telles para além de ter sido “uma professora, uma pedagoga, viveu toda a vida na memória da sua infância. A sua obra reflecte isso, não no sentido de uma pintura naif, mas um trabalho que ressuscita à sua infância e ela própria vive nessa melancolia, vê-se como uma criança a reflectir sobre a sua condição de adulta. Toda a sua vida viveu esse drama, a criança grande que era, a vida que deixou e que ela efabulou. A Agustina Beça Luís escreveu sobre ela e as suas narrativas da memória que não são a realidade, mas uma ficção, porque toda a memória é isso mesmo e no fundo o trabalho da Martha Telles é assim, ficcionar aquilo que somos para sermos algo diferente. É uma homenagem a esse profundo amor que ela tinha sobre a sua terra natal”.
Nascida no Funchal, a 19 de agosto de 1930, filha de um advogado madeirense e de uma cantora lírica dinamarquesa, Martha Cohen da Cunha Telles, após uma breve iniciação com o pintor paisagista Max Römer na sua terra natal, cursou Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, obtendo o diploma do Curso Especial e do Curso Superior. Entre 1963 a 1965 foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, onde estudou pintura sob a orientação de Maria Helena Vieira da Silva e Sociologia da Arte na Sorbonne.
Após uma breve passagem pelo ensino secundário foi para Copenhaga em 1961, onde fez a sua primeira exposição individual. Nesta cidade, a par da pintura, trabalhou também como desenhadora técnica, atividade que já tinha praticado no Porto. Em 1968 mudou para Montreal e aí prosseguiu estudos. Obteve o Bacharelato em Artes Plásticas na Universidade do Quebeque, frequentou o Curso de Gravura na Universidade McGill e foi bolseira do Conselho das Artes do Canadá. Naturalizou-se canadiana em 1974 e, após dezasseis anos neste país, regressou a Portugal em 1983. Viveu ainda uma temporada na Bélgica tendo falecido a 21 de fevereiro de 2001, em Lisboa.
A exposição de Martha Teles representa a segunda fase da transformação do espaço Mudas que tem vindo a ganhar cada vez mais visitantes desde à sua inauguração em Outubro do ano passado, em particular, pelos estrangeiros que visitam à ilha da Madeira, neste âmbito Francisco Clode refere que, “às vezes temos a ideia que os turistas tem pouca informação e não sabem nada sobre património, mas sabem, só que fazem opções. Temos uma média superior a mais de 1000 visitantes mês. Há dias durante a semana em que o museu é visitado por mais de 150 pessoas, uma média que esperámos atinja os 25 a 30 mil visitantes ano. Só este ano podemos olhar para os números já que anteriormente o Mudas era apenas um centro de exposições, não tinha propriamente uma colecção em permanência. Há uma renovado interesse pela oferta cultural, as pessoas vêem pela natureza e pelo mar, mas cada vez mais se interessam pelo património”.

http://aprenderamadeira.net/telles-martha-1930-2001/

terça, 26 julho 2016 15:51

O trapezista da comédia

César Mourão é um actor que assume várias peles, mas é na comédia que se sente mais à vontade. Considera-se uma espécie de artista sem rede, quer no tipo de comédia que exercita, quer em termos do percurso da sua carreira, como mostrou no Forum Madeira  Humor Fest. 

Começaste com o Herman José e agora tens um filme no cinema achaste que seria esta a carreira que pretendias?
César Mourão: Esta tudo certo, mas sete anos antes do Herman eu já tinha a minha carreira. Eu não começo com ele, muito longe disso, ele foi uma parte importante do meu percurso obviamente, tanto que sou um fã incondicional e sempre fui. Hoje em dia eu não penso muito no percurso, gosto de fazer coisas em que me sinta bem, teatro acima de tudo, depois cinema e no fim televisão, só que são trabalhos e formas completamente diferentes.

Consideraste um cómico?
CM: Não, considero-me um actor. Um humorista, ou cómico não tem de ser um actor, o meu trabalho e formação na arte da representação e se tiver de fazer um filme com uma personagem com carga dramática faço. O humor surgiu sem querer é uma praia onde me sinto muito bem e dá-me muito gozo, faço isso mais hoje em dia.

Achas que por teres tido tanto sucesso nessa área humorística que ficas catalogado nessa vertente e só te oferecem trabalhos cómicos?
CM: Sim, neste filme da “Canção de Lisboa” o meu personagem tem muito de cómico, poém possui um arco dramático que também acontece e não é só um registo de humor, há um lado sério e ainda canto e isso é engraçado. No “Pátio das cantigas” pelo contrário não havia muito humor, talvez era o personagem com menos graça de todo o elenco que lá estava. Portanto, fico catalogado com muito orgulho como cómico e gosto de ser humorista, apenas também sou actor e com o tal posso fazer outras coisas que não essas.

Então consideras como muitos artistas sublinham que fazer humor é muito mais exigente ao actor, porque é mais difícil fazer as pessoas rir?
CM: Eu não sei se é mais difícil o que eu acho é que depende da forma como cada um o encara. Ao fazer uma cena com ar dramático se as pessoas estiverem caladas numa sala nós interpretámos como estão a gostar imenso, porque não se ouve um pio, se vamos ao cinema e vemos um filme dramático as pessoas também estão caladas, deduzimos que estão a gostar imenso. Na comédia é imediato, as pessoas riem-se se estão a gostar, se não se riem não estão a gostam, é mais fácil avaliar se resulta ou não. Eu, por exemplo, sou um espectador de comédia em que nunca me consigo rir, não sou uma pessoa de sair de um espectáculo e rir-me, às vezes acho espectacular e até digo que é das melhores coisas que já vi e há muitas pessoas que são assim. Agora, se tivermos muita gente assim num espectáculo de comédia, pelo menos duzentas pessoas, eu sei que é horrível. Não tem a ver com o facto de gostar, ou não gostar, mas com o facto de ficarmos admirados e não nos conseguimos rir, a comédia é mais imediata a pessoa gostou ou não gostou, no drama se estão caladas depreendemos que gostaram da cena dramática, mas pode não ser o que acontece.

Onde então é que entra o stand-up?
CM: Não entra. Deixa-me corrigir, eu não faço stand-up nem nunca fiz. Esta forma de comédia é um texto que se escreve em casa com piadas já preparadas e subimos a um palco com todo esse material sobre determinados assuntos. O que faço é improvisão, eu chego, não tenho nada absolutamente preparado, faço uma improvisão ou outra, chamo uma pessoa faço uma música sobre a sua vida e nada daquilo é preparado, é improve comedy, uma improvisão teatral, não no absoluto do termo, porque não é um espectáculo, porém não é stand-up, porque não o faço e nem tenho jeito.

Como é um espéctaculo sem rede, já aconteceu as pessoas não gostarem?
CM: Nunca me aconteceu, felizmente. O desafio é esse, quando vamos a um circo dámos mais valor a um trapezista, e não sabemos bem porquê, que faça o seu número sem rede, sem nada, do que um artista que tenha uma rede em baixo. Tem ambos valor, porque as manobras são igualmente difícieis, só que um tem rede e o outro esta sem segurança nenhuma e não há diferença. O que eu não faço não é diferente do que os meus colegas fazem, é um trabalho complicado, é outro tipo, porque o deles tem um texto e estão safos porque sabem do que vão falar, eu faço exactamente o contrário, são as mesmas manobras, mas sem a rede.

E nunca tens brancas?
CM: É impossível ter uma branca quando não tenho nada para dizer. Portanto, eu não me posso esquecer daquilo que não tenho para me lembrar. Como eu não tenho nada para recordar, não há branca, apenas podem haver silêncios, mas esses existem, porque a arte da comédia é o timing e não a piada que lá esta escrita. Se eu der um texto a um segurança de um shoppping e der o mesmo ao Raúl Solnado, as mesmas palavras com as mesmas vírgulas não vão ter piada na voz do segurança, à partida, por outro lado, vão ter imensa graça com o comediante. Não é o que esta escrito é o timing em que é feito, a destreza com que nos queremos levar o público e não com aquilo que o público pensa que vai sozinho.

Em todas estas áreas por onde te moves o teatro é o teu espaço preferido?
CM: Sim, a minha área preferida é o teatro. É incrível ter essa capacidade de levar o público ao riso como quero e por onde quero e não pelo que eles acham que vão rir e isso é incrível. A magia da televisão e do cinema são incríveis, prefiro a última, é mais mágica e uma manobra.

Vamos falar da “Canção de Lisboa”, quais foram os desafios de uma personagem tão emblemática, perpetuada pelo Vasco Santana?
CM: Na verdade o desafio não era muito grande, porque não é uma imitação do Vasco Santana, eu não tenho peso nenhum e o actor tinha muito. Tenho apenas orgulho e respeito, porque ele a interpretou. Agora, o filme não é uma imitação, quer ser outra coisa e tem capacidade para ser outro filme, mas tem a mesma permissa, ou seja, é uma pessoa que estuda medicina e não estuda nada, as tias julgam que é médico e ele não é. O desafio é o mesmo, porém é feito de outra maneira, é a mesma coisa que eu lhe pedisse para desenhar um girassol e a uma menina do Bangladesh, vão ser duas flores diferentes.

Sim, mas como todos os portugueses de várias gerações, concerteza que viste este filme mais do que uma vez, acabas por ter sempre no fundo da tua cabeça a personagem que é inesquecível.
CM: Sim e é inesquecível e tem algumas partes do filme que faço “ipsis verbis” de próposito, a parte do exame é exactamente transcrita do filme, é uma homenagem e logo aí estou mais calmo por não ter que imitar.

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