Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

terça, 21 junho 2016 17:56

Temperaturas batem recordes

Os registos de temperatura global do Instituto Goddard da NASA arrancaram oficialmente em 1880 e, desde então, cientistas têm vindo a estudar os padrões de aquecimento da Terra.

O recente estudo da NASA à temperatura da superfície terrestre mostra que as temperaturas de Abril último são as mais quentes face às registadas nesse mesmo mês em anos anteriores e com uma diferença muito significativa. O record estabelecido no mês passado ultrapassou o anterior por 0,24 ºC, registado em 2010, o qual foi 0,87 ºC acima da média base para Abril.
O mesmo se pode afirmar do mês de Maio de 2016 que foi o mais quente já medido, ao nível global, batendo de forma fulgurante o recorde anterior, datado de 2014. A média global de temperatura do mês passado foi 0,93oC superior à média de Maio registada entre 1951 e 1980, segundo dados divulgados pela agência espacial norteamericana.
De acordo com o Observatório do Clima, Maio é o oitavo mês seguido a bater recordes globais de temperatura, o que põe 2016 no rumo quase certo de ser o ano mais quente de toda a história desde que as medições com termómetros começaram, em 1880.
E isto numa altura em que os meses mais quentes do ano, os do Verão no hemisfério Norte, ainda não chegaram. Ou seja, muito dificilmente 2016 não será mais quente que 2015, que por sua vez esmagou todos os recordes anteriores.
A média de desvio de temperatura do segundo trimestre de 2016 foi de 1,1oC em relação à média de 1951 a 1980 para o mesmo período. Como esta média já é cerca de 0,3oC superior à do período pré-industrial, provavelmente já estamos a viver, este ano, um aquecimento global próximo a 1,5oC.
A responsabilidade das altas temperaturas é, em parte, atribuída ao El Niño, que causou uma faixa de água quente oceânica no Pacífico Equatorial, a qual influencia as temperaturas globais do ar e da terra. Contudo, o calor sentido em Abril e Maio é também influenciado pelo rápido e acelerado aquecimento global que o Planeta tem vindo a sofrer.

terça, 07 junho 2016 18:38

Fui ver a primavera à berlim

 

As primeiras impressões durante uma viagem à capital da Alemanha.

Decidi visitar a capital alemã à convite de uma amiga, porque dizia-me “tens de ver a primavera a desabrochar em Berlim” e assim fiz. A capital alemã é considerada uma das cidades mais verdes de Europa pela quantidade de parques e espaços verdes que se podem usufruir de forma gratuíta. Os berlinenses mal avistam uma nesga de sol são os primeiros a invadir estes espaços e nota-se que é uma urbe vibrante e cheia de cor. É uma cidade onde se inspira calma e ao mesmo tempo é uma corrida desenfreada diária, basta ver a linha de metro que devo reconhecer foi difícil de dominar, embora as áreas estejam dividas por cores, temos de pensar nas linhas quase em 3D, porque se sobrepõe, ou seja, há carris na superfície e mal descemos umas escadas rolantes estámos já numa outra linha que se pode subdividir, entenderam ou nem por isso? Boa sorte! Adiante, existem passes para turistas que duram por vários dias, mas também podem optar pelos bilhetes diários, que usei com alguma frequência e tive a sorte de uma rapariga me ter oferecido o dela num desses dias, assim sem mais nem menos, ela não precisava mais pelo que deprendi do seu simpático discurso em alemão e eu agradeci, com o meu dankeschön recém aprendido.


O mais impressionante do metro são os túneis nos cruzamentos das linhas e posso adiantar que há toda uma outra cidade subterrânea à nossa disposição. Existe todo o tipo de pequenos restaurantes com sabores do mundo, quiosques de jornais, minimercados, floristas, pastelarias, cafetarias e tudo a preços acessíveis até para os portugueses. Trata-se de um submundo dentro da cidade, porque os berlineses não param para almoçar, compram algo para comer e seguem viagem, sempre de passagem. É fascinante assistir a todo este movimento humano, onde se ouve todo o tipo de línguas e se assiste a uma corrida diária de um lado para o outro. E é de tal forma um hábito vigente que até existem avisos dentro das carruagens a proíbir que se coma, beba ou transporte um animal sem açaime. Contudo, irão ver pessoas a comer, ou beber quase as escondidas e cães apenas pela trela, não é a maioria, acontece como em qualquer outro país, sem exageros e sem confusões.

 

À superfície uma das paragens quase obrigatórias é a ilha das museus, é uma área linda, com várias edificações neo-clássicas junto ao rio, basta atravessar a ponte que cruza o rio Alte e deparamo-nos com uma série de museus. Decidi visitar o “alte nationalgalerie” para conhecer alguns dos mais famosos pintores alemães, que devo reconhecer desconhecia quase por completo, como Fritz Von Uhde, Max Libermann, Karl Friedrich Schinkel, entre outros. No segundo piso, poderemos encontrar várias obras dos mestres europeus impressionistas. Mas, a cereja no topo do bolo foi o último andar, onde me foi dado a conhecer um dos grandes ícones do romantismo alemão e que prendeu à minha atenção pelas suas paisagens bastante trágicas, Caspar David Friedrich. Os seus quadros transmitem uma profunda solidão, com as suas paisagens desoladoras, algumas soturnas até, mas que não deixam de exaltar a beleza avassaladora da natureza. August Kopisch foi outra das descobertas verdadeiras maravilhosas deste museu, ele que criou uma cor maravilhosa chamada de “blue grotto”, azul gruta, que foi inspirada numa gruta na ilha capri, em Itália. Bem como um vermelho ocaso, que ajuda a criar paisagens verdadeiramente sumptuosas do final de tarde. Sei que utilizei muitos adjectivos, mas as palavras por vezes não são suficientes para descrever algo tão, tão belo. É como uma exilir da alma, emociona-nos até o âmago e deixa-nos esperançados quanto à humanidade, mesmo sabendo que estes artistas tiveram percursos tortuosos e personalidades sofridas, sem eles como seria possível eternizar o sublime numa pincelada?

http://www.augustkopischinberlin.de/

terça, 07 junho 2016 18:35

Bons sons 2016

 

O festival revela os nomes que enchem o seu cartaz de música portuguesa, na aldeia de Cem Soldos, em Tomar.

Durante quatro dias, o festival toma conta de Cem Soldos com sons diversos distribuídos por 8 palcos integrados na Aldeia, uma feira de artesãos, exposições de arte e arquitectura, área de restauração e inúmeras outras actividades que animam as suas ruas, praças e largos.

A rocktrónica de João Vieira no projecto White Haus, o turbo-baile de Tocha Pestana, os jogos rítmicos das Adufeiras do Paúl, as canções tresmalhadas de Diego Armés, as quatro baterias de Tim Tim por Tim Tum e as canções dramáticas de João e a Sombra são alguns dos novos nomes para o alinhamento desta edição.
A Enchufada faz 10 anos e celebra com o BONS SONS. Branko, Rastronaut e Dotorado Pro, nomes emblemáticos da editora criada pelos fundadores de Buraka Som Sistema, vêm encher a noite de ritmos globais.
João Vieira, depois do sucesso aos comandos de X-Wife e DJ Kitten, entrou na composição e produção electrónicas com o projecto White Haus.
A dupla Tocha Pestana, percorrendo deliberadamente a estética pop-rock portuguesa dos anos 80, são os reis do turbo-baile. Pop de bola de espelhos a reflectir nos óculos escuros retro-futuristas.
As Adufeiras do Paúl misturam as palavras das suas recolhas etnográficas com os sons de adufes, peneiras e pedrinhas.
Para lá de Feromona e Chibazqui, projectos que integra, Diego Armés deixa fugir a solo as suas canções frágeis e isoladas, apoiadas no som da guitarra acústica.

As quatro baterias em palco de Tim Tim por Tim Tum (José Salgueiro, Alexandre Frazão, Bruno Pedroso e Marco Franco) comportam um universo tão vasto quanto a imaginação de quem as toca e de quem as ouve.
O actor e músico João Tempera ressuscitou o seu alter-ego musical João e a Sombra. Traz canções negras que consolam as penas e embalam os medos.
Em Agosto, a Enchufada vai levantar os decibéis em Cem Soldos com Branko, Rastronaut e Dotorado Pro.
Banko, pioneiro da editora, depois de uma residência na BBC Radio 1 e Antena 3, editou o seu álbum “Atlas” em 2015, com uma sonoridade classificada como “sonoridade sensualmente dançante”.
Rastronaut encarna na plenitude a missão da Enchufada, de azimute traçado desde o continente africano até Campo de Ourique.
Dotorado Pro, um dos mais recentes nomes lançados pelo selo português, trabalha num misto de afrohouse e sonoridade progressiva.

Jorge Palma, compositor, poeta, intérprete e exímio pianista, estará presente com banda completa. Vera Mantero apresenta “Os Serrenhos do Caldeirão, exercícios em antropologia ficcional”, peça em que a coreógrafa vai além da dança para, numa experiência também sonora, falar da sabedoria perdida dos povos.
Também toca nos projectos Roncos do Diabo e Ai!, mas é a solo que Tiago Pereira se apresenta, aos comandos dos instrumentos de percussão tradicional portuguesa.
Galardoado com o prémio para Melhor Banda Sonora de 2015 no Los Angeles Independent Film Festival, André Barros apresenta-se no seu íntimo nostálgico, com um piano emoldurado num quarteto de cordas.
Os ícones das “Noites Príncipe” da Musicbox, em Lisboa, assentam arraiais até de madrugada, a debitar os sons num apurado ritmo e balanço. São eles DJ Lilocox,NiagaraePuto Márcio.
Os clássicos revisitados pela guitarra e piano de Os Tunos prometem novas versões de temas icónicos, do fado à lambada.
Depois de muito escavar nas feiras, durante meses, por bandas duvidosas, virtuosos improváveis, versões em mandarim, artistas de variedades e discos promocionais, DJ Rubi Tocha traz tudo à baila numa só noite.
A partir de gravações de campo, Luís Antero formou um corpo constituído por 100 sons que respondem à questão, a que soa Cem Soldos? “Cem Soldos, 100 Sons” convida a mergulhar na paisagem acústica da Aldeia, projectando sensações, valorizando uma identidade e arquivando uma memória.
Quem és tu Laura Santos? É simultaneamente uma pergunta intrigante e o nome da actuação que irá receber os primeiros visitantes do BONS SONS. A festa começa com êxitos seleccionados que se estendem da radiofonia dos anos 60 aos (in)sucessos contemporâneos.

Sabendo que grandes eventos são também grandes estruturas de produção de resíduos, promovemos o respeito pelo espaço que acolhe o Festival, a aldeia de Cem Soldos, desenvolvendo estratégias de sensibilização para a reutilização de materiais, diminuição do desperdício e implementação de sistemas de recolha e tratamento mais eficientes. Estas boas práticas ambientais e a contribuição para o desenvolvimento local têm sido motivos de reconhecimento do BONS SONS como um dos melhores e mais sustentáveis eventos de música ibéricos com a melhor Contribuição para a Sustentabilidade e melhor Festival de Média Dimensão no Iberian Festival Awards 2015 e melhor Festival de Média Dimensão 2015 e Festival Mais Sustentável 2014 no Portugal Festival Awards.

terça, 07 junho 2016 18:10

As jóias da coroa

 

As histórias marcantes das jóias da casa de Bragança no século XIX são o mote para uma palestra do investigador, Eduardo Alves Marques, autor da obra “se as jóias falassem”, no âmbito das conversas de “dar a ver”, que abordou muitos dos episódios caricatos e curiosos das várias peças de ourivesaria das rainhas portuguesas.

Onde é que estão as jóias da rainhas portuguesas hoje em dia? A nossa história em concreto começa em 1834 quando D.Maria II é aclamada rainha de Portugal, a qual se seguem D.Estefânia, D.Maria Pia de Sabóia e D.Amélia já no século XX. Mas, vamos ainda abordar a Imperatriz D.Amélia de Leuchtenberg e a condessa d'Ebla que casa em segundas núpcias com o rei D.Fernando II.

Para compreenderem a história marcantes das jóias da coroa há que fazer duas distinções, por um lado existem as chamadas jóias do Estado, onde a monarquia centra uma série de rituais específicos que contam como uma representação do poder. Desde 1640 a dinastia de Bragança ofereceu a coroa de Portugal à nossa senhora da Conceição é por esse motivo que não existe a cerimónia de coroação, mas sim de aclamação. As peças de ourivesaria estatais são feitas com pedras preciosas, prata e ouro e nunca podem ser alienadas, o rei e a rainha podiam usá-las, transformá-las, mas nunca podem ser vendidas. Actualmente, as jóias estão etiquetadas, seladas e discriminadas individualmente e esta tudo devidamente guardado no Banco de Portugal.

As jóias particulares são adquisições efectuadas pela casa real, através da dotação do Estado e temos que enquadrá-las numa monarquia constitucional. Neste caso, grande parte destas peças de ourivesaria privadas estão desaparecidas, porque são devolvidas aos seus proprietários.

 

 

D.Maria II é filha de D. Pedro I imperador do Brasil. Em 700 anos de história é a primeira soberana que viaja e isso permite-lhe adquirir conhecimentos que mais nenhum rei tinha tido até a data. Entre 1834 e 1853 é o auge do romantismo, também há menos de 100 anos descobriram-se as ruínas de Pompeia e existe um grande interesse pelo antigo, onde se procura inspiração para a espiritualidade, naquilo já fomos e muitas das jóias da rainha são inspiradas nesse período. Existe um lado afectivo nas peças muito marcante, onde aparece a representação dos filhos, dos sobrinhos, dos irmãos e é neste contexto que aparecem as miniaturas, as braceletes são um ex-libris.

A rainha possui 183 jóias pessoais, uma das peças em destaque é o berloque e colar do opalas da mãe, D.Maria Leopoldina e uma tiara em diamantes com pedras de várias cores. Um Châtelaine com um relógio de bolso, de Leitão e irmãos, consta ainda do inventário.


D.Maria II estabelece, como uma das regras básicas do seu reinado, acabar com a lei do morgadio, que consistia em que apenas o primogénito é que herdasse e a restante descendência tinha de fazer bons casamentos. A partir do seu reinado cada filho passa a receber exactamente o mesmo que os outros, excepto o rei que tinha a sua ocupação régia. Quando a soberana morre as suas jóias privadas são loteadas por grupos que são colocados numa mesa. Todos os lotes são numerados e cada um dos sete filhos sobreviventes escolhe um número por sorteio.

O rei d.Fernando II sobe ao trono, por morte de D.Maria II, já que o infante ainda é menor. O soberano viúvo numa das suas idas ao teatro acaba por apaixonar-se por uma cantora de ópera, Elise Hensler, uma mulher culta e encantadora, com um pequeno senão, não pertencia à nobreza. Mesmo assim, contra tudo e todos casa com ela, é um escândalo nacional na altura, tendo em consideração que tinha a seu cargo filhos menores reais. Uma das jóias mais emblemáticas que o rei lhe oferece, no dia do casamento, é um alfinete de malmequeres em ouro do tamanho de uma mão. Cada jóia carrega consigo uma história, podemos saber os quilates ou o número de diamantes, mas cada uma destas peças é uma aventura e esta concerne a bisneta da condessa que herda uma propriedade que é o chalet da Parede, casa de verão da condessa d'Elda e o famoso alfinete. Este relato começa com a neta da condessa que era uma mulher elegantíssima, que só comprava as melhores marcas e tinha tantos sapatos Dior que amarrava fitas de seda nas caixa para saber qual era a respectiva cor do par. Por uma fatalidade, acaba por morrer num desastre de automovél e o alfinete desaparece. Quando a bisneta da condessa d'Elda volta dos EUA e regressa de vez para Portugal em 1998, ela decide vender a casa, porque tem uma proposta irrecusável de um promotor imobiliário, embora ao mesmo tempo, alimente um sentimento de culpa e perda por desfazer-se da casa onde nasceu e onde a mãe viveu. Assim, uma semana antes de entregar a casa tira todo o recheio e procura o alfinete em vão. Por esses dias a senhora começa a ter um sonho recorrente e vêm-lhe à memória as cavalariças nas traseiras da casa, onde a mãe a levava passear no pónei que ela tinha quando era criança. No último dia, em finais de Outubro, ela fica sozinha por uma última vez na sua casa de infância, estaciona nas traseiras ao pé da cavalariças, dá uma volta pela propriedade e como as cinco horas já era de noite decide partir, ao entrar no carro acende os faróis e a luz incide na cavalariça, ela repara que no seu interior meio escondido estava uma caixa dos sapatos da mãe, sai do carro e ao abri-la e pegar num dos sapatos, caí o alfinete.

A nova imperatriz do Brasil, Amélia de Leuchtenberg, madrasta da rainha D.Maria II, era tão bonita que segundo relatos da época o imperador D.Pedro I quando a vê pela primeira vez desmaia. Na primeira metade do século XIX ela possuia 500 peças de ourivesária privadas e depois morrer não se sabe ao certo o que aconteceu à maioria delas. Como a sua única filha Maria Amélia morre no Funchal com tuberculose, a soberana viúva e sem mais filhos deixa as jóias melhores à sua irmã, a rainha da Suécia em vez da enteada e soberana de Portugal, já que era do conhecimento público uma certa animosidade que existia entre ambas desde essa altura. Por vingança, ou despeito, o facto é que as peças de ourivesária foram despachadas por barco em 14 caixotes rumo ao Norte e uma das tiaras de diamantes da casa de Bragança, agora, adorna a cabeça da actual rainha sueca.

Pedro V casa com D.Estefânia, uma mulher muito cândida, religiosa e beata e ela trazia algumas jóias particulares, há duas peças no Palácio Nacional da Ajuda, uma pulseira de outro oferecida pela rainha Victória, com a palavra “remember” com diamantes encrustados e outra em alemão que lhe ofereceu o irmão.

 

Uma das histórias mais curiosas e dramáticas da monarquia portuguesa tem lugar antes do casamento do rei, Dom Pedro decide oferecer uma das jóias mais caras que há memória, uma tiara com 4 mil diamantes, a peça custou 86.953,645 reis e tudo isto faz parte do inventário real. Acontece algo inusitado, depois do casamento, o diadema desaparece, nunca mais ninguém a viu, mas existe uma ilustração do dia do casamento, por isso sabemos que a jovem soberana a usou. Outras das curiosidades sobre esta jóia é que para a época não era bom tom levar diamantes no dia do casamento, estas pedras preciosas só deviam ser usadas por mulheres casadas e não por virgens. Existe uma dama camaristas, a duquesa de Rio Maior que escreveu nas suas memórias, tendo sido publicadas em livro por Gonta Colaço, que a princesa era tão bonita que todo o povo a queira ver e ao diadema, mas a peça era tão pesada que lhe corta a testa, a rainha sangra e quando ela sai da igreja o povo diz “ ai coitadinha, vai morrer, vai amortalhada” e a verdade é que a rainha passado um ano morreu com tifo. De acordo com o relato da duquesa do Rio Maior, no dia do funeral, a joven soberana estava vestida com uma seda de prata pálida e Dona Estefânia, por ordem do rei, trazia na cabeça o diadema do seu casamento que logo que chegou ao paço foi retirado e substituído por coroa de flores de laranjeira e partir desse momento perde-se o rasto da peça de ourivesaria. Mas a história não acaba aqui, há um contrato nupcial que estabelece que quando um princípe, ou uma princesa se casa, morre e não deixa descendência, a coroa tem de devolver todo o dote, ou seja, a rainha como não teve filhos, todas as suas jóias particulares tinham de ser devolvidas, tal não acontece, já que o espólio alegam desaparece e a outra parte do dote em dinheiro da rainha acaba por ser usado para construir o hospital D.Estefânia em Lisboa.

 

D.Maria Pia de Sabóia casa com rei D.Luís I no dia 6 de Outubro 1962. Ela traz consigo peças de inspiração romana, executadas por Castellani. Para além disso, possui tiaras, pentes de cabelo, travessas, pulseiras, alfinetes e brincos com trabalho de cinzel magnífico. A rainha quando chega à Portugal manda fazer um inventário de todas as peças de ourivesária do Estado e usa-as com frequência. A tiara e um colar com diamantes em estrela, muito em voga naquele período, foram executadas com diamantes a vulso que pertenciam a coroa real. Existe também uma travessa em laça de esmeraldas com fios de diamantes, que é do tamanho de uma mão dessa época.

Com a implantação da República nada desaparece em termos de jóias do Estado, mas Dona Maria Pia, como era muito vaidosa, gastava muito dinheiro em jóias e vivia acima das suas possiblidades. Naquela época tinha pedido dinheiro emprestado ao conde de Burnay, o homem mais rico no fim da monarquia, e como caução deixou-lhe jóias, que recuperaria assim que saldasse a dívida, o banqueiro acumulou 369 peças de ourivesaria da Rainha-mãe, que foram leiloadas pelo Banco de Portugal em 1912 para recuperar o dinheiro emprestado.

 

D.Amélia, filha dos conde de Paris, casa com D.Carlos I e é uma das rainhas mais presentes e estimadas pelos portugueses, foi a fundadora das Misericórdias. É também uma soberana que não ostenta muitas jóias, porque é muito religiosa e piedosa, quando fica viúva decide dividir as jóias privadas de forma salomónica, as que trouxe de França vão para os herdeiros franceses, as que recebeu em Portugal ficam para os herdeiros da casa real nacional.

 

A sua tiara de diamantes que agora pertence a D. Isabel de Herédia, a actual Duquesa de Bragança foi usada no dia do seu casamento, herdou ainda um “collier de chien”, a coleira de cão também em diamantes, bem como um pregadeira em esmeraldas e diamantes de 60 cm, onde no meio esta escrito “por seu bem”.

http://www.matriznet.dgpc.pt/matriznet/home.aspx

http://www.monarquicos.com/

terça, 07 junho 2016 18:08

Alentejo prometido

Um livro que foi lançado sobre forte polémica cujo autor é Henrique Raposo.

Devo confessar que a minha curiosidade levou a melhor no que concerne este pequeno livro, apenas o li por causa da celeuma e polémica que envolveu o seu lançamento. Fiquei deverás perplexa perante o movimento de ódio e de verdadeira censura, ao qual nunca tinha assistido em Portugal, que visava impedir o seu lançamento e pensei, mas afinal o que contém este volume de 107 páginas de tão terrível ao ponto de ameçarem o autor? E o que descobri? Que as pessoas que pretendiam boicotar “Alentejo prometido” concerteza não o leram com atenção. Henrique Raposo não denegriu, ou tentou destruir a imagem bucólica para além do Tejo, apenas faz um retrato pessoal, baseado nas origens da sua família, que utiliza como alicerce para abordar a história das gentes alentejanas e tenta explicar o porquê da sua maneira de ser e de estar na vida sem branquear o seu passado e isso é deveras corajoso e inovador. Li de forma obsessiva este livro, porque achei a escrita deste autor interessante, não há desperdício de palavras, o seu raciocínio é claro e conciso, ele até assenta algumas das suas conclusões em dados publicados pelo censos ou de estudos cientificos e não pude deixar de regozijar-me pelo facto de que finalmente alguém tem uma explicação, deverás lógica, para as altas taxas de suícidio que sempre assolaram esta parte do país e que não se baseia apenas na dita solidão quase endémica dos alentejanos. Outro aspecto que apreciei nesta obra foi o me ter sido dado a conhecer a maneira de ser e estar das mulheres alentejanas, foi uma verdadeira descoberta, a sua liberdade no que concerne o casamento e os filhos, depois a comparação que Henrique Raposo estabelece com o Norte do país, diria que foi extremamente elucidativa e fez-me ver com outros olhos as alentejanas no geral, mas no bom sentido. Gostei muito deste “Alentejo prometido” não por causa da polémica que o envolve, mas porque o autor dá-nos a conhecer uma parte de Portugal, através do seu testemunho pessoal sem complexos e não é por causa do livro que vou deixar de amar o Alentejo, muito pelo contrário, o meu amor ainda é maior se porventura tal é possível, a diferença é que é mais real. Boa leitura.

terça, 07 junho 2016 17:50

71 praias com poluição zero

 

Vila Nova de Gaia e Vila do Bispo são os concelhos com maior número de praias sem poluição.


A Zero (Associação Sistema Terrestre Sustentável) identificou 71 praias sem poluição em Portugal. Este número significa que não foi detetada qualquer contaminação nas análises efetuadas ao longo das três últimas épocas balneares. Este valor representa 12% do total das 579 zonas balneares existentes em 2016.
Esta análise inédita da Associação Zero teve em conta os parâmetros da legislação em vigor e concluiu que existem 67 zonas balneares costeiras, 3 interiores e 1 de transição (estuário) com zero poluição. Os concelhos com maior número de praias em excelentes condições ambientais são Vila Nova de Gaia e Vila do Bispo ambas com seis e Aljezur com 5 praias. As ilhas apenas foram representadas por Santa Cruz, com apenas uma praia, o Garajau, que é uma área protegida.

Apesar de ser extremamente difícil conseguir um registo incólume ao longo de 3 anos nas zonas balneares interiores, muito mais suscetíveis à poluição microbiológica, há 3 praias nessa situação: Vale do Rossim, em Gouveia, Fraga da Pegada, em Macedo de Cavaleiros, e Zaboeira, na albufeira de Castelo do Bode, em Vila de Rei.
A partir de dados solicitados à Agência Portuguesa do Ambiente, a Associação Zero identificou as praias que, ao longo das três últimas épocas balneares, não só tiveram sempre classificação “excelente” como apresentaram valores zero ou inferiores ao limite de deteção em todas as análises efetuadas aos dois parâmetros microbiológicos controlados e previstos na legislação (Escherichia coli e Enterococosintestinais). Isto é, em todas as análises efetuadas não houve sequer a deteção de qualquer unidade formadora de colónias.

Três alertas para o início de época balnear

A Zero selecionou três comportamentos cruciais para os banhistas, ou frequentadores das praias selecionadas, para este início de época balnear 2016
. Em primeiro lugar, por razões ambientais e de segurança, só devem ser frequentadas praias classificadas como zonas balneares, onde há vigilância e onde se conhece a qualidade da água. Em segundo, não devem ser deixados quaisquer resíduos na praia e, de preferência, devemos encaminhá-los através da recolha seletiva. Mais de 80 por cento dos 12,2 milhões de toneladas de plástico que entram no ambiente marinho em cada ano vêm de fontes terrestres, sendo o maior contribuinte o lixo de plástico, incluindo itens como garrafas de bebidas e outros tipos de embalagens. Por último, deve-se preservar a paisagem e os ecossistemas envolventes das zonas balneares, evitando o pisoteio de dunas ou outras áreas sensíveis.

Se pretender ver a tabela poderá consultá-la no link em baixo:

http://zero.ong/portugal-tem-71-praias-com-zero-poluicao-2/

terça, 24 maio 2016 20:30

A semana em que fiz o interrail

Fazer uma viagem pelas linhas férreas da Europa exige uma certa planificação.

Sempre quis fazer o interrail e comecei a acalentar o sonho de uma viagem de mochila a costas pela Europa fora, desde que ouvi os primeiros relatos de amigos meus que ao longo dos anos enveredaram por este tipo de aventura, em grupos ou sozinhos, pelos caminhos-de-ferro europeus. Depois a entrada de Portugal na União Europeia e mais tarde a abertura do espaço Schengen viajar tornou-se ainda mais fácil e o interrail acompanhou essa mudança. Actualmente em vez de grupos de países que podíamos visitar com um único bilhete, podemos até percorrer 30 nações depedendo do número de dias que pretendemos usufurir do serviço e foi o que decidi fazer, visitar vários países com um único bilhete de cinco dias, na segunda classe.

Sensatamente o site do interrail pede aos viajantes que programem as suas viagens com uma certa antecedência, devido aos constragimentos decorrente das vagas em alguns dos comboios e ainda ter em conta certas despesas extras que provém da obrigatoriedade de reservar lugar em alguns dos percursos mais concorridos. O que eu pretendia? Viajar sem programar nada e ir visitando países ao sabor da aventura. O que aconteceu? Aprendi que vivemos num mundo em que mesmo que não queirámos exige uma certa organização, com isto falo da Europa, e não é que a experiência tenha sido decepcionante, foi bem mais diferente do que tinha imaginado.

Passo a explicar, se pretendem usufruir do interrail da melhor forma possível tem de programar e saber gerir as linhas férreas dos países que pretendem visitar e deixar um pouco de parte a noção romântica da aventura pelo desconhecido.
No meu caso concreto decidi viajar pela Holanda, Alemanha e Bélgica e o que aprendi foi o seguinte:

Para ganhar dias extras, para além dos cinco previamente adquiridos, tem-se que de viajar de noite, porque o dia é para visitar as cidades que escolhemos, mas atenção só devem embarcar nos comboios a partir da meia-noite no respectivo país que pretendemos visitar e nunca antes, porquê? Porque se tiverem de atravessar duas nações como foi o meu caso da Holanda para a Alemanha em já não existem comboios directos, como no passado, o que contava como apenas um dia de viagem, como vão ter de mudar de companhias-de-ferro, significa dois dias no vosso passe do interrail. Se pretendem ganhar esse dia extra devem fazê-lo desta forma, viajar entre essas duas nações ao longo da madrugada, deste modo, mesmo que tenham de mudar de linha férrea chegam ao vosso destino pela manhã e ainda podem usufruir do passe do interrail ao final desse mesmo dia.

O que nos leva à segunda questão, os imprevistos com os quais no contava (embora, o manual do interrail aborde esta questão). Muitos destes comboios nocturnos exigem reservas de lugar e há extras a pagar que podem ir dos 7 até os 40 euros. Passo a explicar, se pretendem ir num vagão de seis lugares que aconselho vivamente, porque com sorte são os únicos ocupantes, podem dormir à vontade nos lugares vazios e pagam a taxa mínima, se pretendem uma espécie de cama, nos vagões-dormitórios, pagam mais, daí os 40 euros e se tiverem muito azar e não arranjam nada disso tem de ir nos lugares ditos normais, pela módica quantia de 7 euros na mesma, como foi o meu caso e aí dormir torna-se um desafio. Conselho de amiga, levem máscaras de dormir por causa da luz forte, tampões para os ouvidos por causa do ruído, repousos para os ombros, comida e muita água e ainda, esqueçam a vergonha e toca a tirar os sapatos para poder esticar as pernas como for, toda a gente o faz ao contrário do que possam pensar.

Segundo conselho que tenho para dar, procurem sempre nas estações de comboios os balcões das viagens internacionais, porque sem excepção são atendidos por funcionárias muito simpáticas que vós ajudam a “navegar” pelo sistema de transportes do respectivo país que visitam, a escolher os melhores horários e reservar lugares. Em todos os países que visitei toda a gente falava inglês e é particularmente muito importante que o façam na Holanda, porque todo o sistema de caminhos-de-ferro funciona digitalmente e quando se tem um bilhete em papel torna-se tudo um pouco mais confuso, porque não se sabe onde e como validar uma viagem. Afinal, não é necessário para quem usufrui do interrail, apenas tem de ter preenchidas as datas das respectivas viagens que são validadas pelos revisores já dentro do comboio. Muito importante, nunca esquecer de preencher as datas antes da viagem ou cometer o erro de rasurar o bilhete, isso pode custar caro, a multa pode rondar os 100 euros e perdem um dia de viagem, porque tem de voltar a preencher tudo de novo , não foi o meu caso, mas estes avisos também aparecem no manual que vem junto com o bilhete de interrail e que aconselho a lerem vivamente com atenção.

Terceiro aviso de amiga, façam o download da app que a interrail disponibiliza, porque é muito útil, com ela podemos pesquisar os percursos, os horários e ainda mostra as paragens até à estação de destino. Foi uma ferramenta muito importante, tendo em conta, que as localidades tem o que nos parecem nomes estranhos e assim evitam-se potenciais saídas precipitadas dos comboios na paragem errada.

Um último conselho, se decidirem viajar pela Europa façam-no a partir da primavera, os dias são maiores e embora viajem de noite, há sempre um lusco-fusco que nos ajuda a apreciar a paisagem que em outra altura seria impossível.

Por último, faria este tipo de viagem de novo? Não. Foi uma experiência deveras maravilhosa, porque os percursos são lindos em termos paísagisticos durante o dia, os comboios são cómodos e os funcionários são sempre prestáveis e cordais, mas quando se tem vinte anos é muitíssimo mais fácil lidar com as dores corporais, a falta de sono e a escassez de higiene, o que não quer dizer que esteja arrependida, muito pelo contrário, pelo menos já posso dizer que o fiz e já posso pensar na minha próxima aventura.

terça, 24 maio 2016 20:29

A minha vida numa mala

É mais um texto sobre uma das minhas grandes paixões.

Recentemente li uma notícia sobre uma turista inglesa que se atirou ao mar, na ilha da Madeira, alegadamente para ir atrás a nado de um navio cruzeiro onde estaria o marido, a mulher foi resgata das águas do mar por três jovens que decidiram ir à pesca nessa mesma noite e um dos pormenores que me chamou à atenção em toda esta história rocambolesca foi que a senhora em questão conseguiu-se manter a tona, nas águas frias do Atlântico, graças à sua mala. E esse último facto não me surpreendeu, porque seja em que circunstância for uma mulher nunca larga a sua carteira. O que me leva ao tema que pretendo explorar, as mulheres e as suas malas. Neste mundo existem dois tipos de apreciadoras de carteiras, as que usam malas de grande porte, tipo XL e as mulheres que preferem os tamanhos S.
Eu pertenço ao primeiro grupo, porque toda a minha vida esta concentrada na minha carteira. Sou daquele tipo de mulher que nunca emergência consegue tirar da mala, como se trata-se de uma cartola de mágico, todo o tipo de coisas, desde pensos rápidos, pomadas, papel para escrever, água, comprimidos para uma dor de sabeça, etc, etc, pensem seja no que for e provavelmente esse objecto consta do conteúdo da minha mala. Mais, tenho uma amiga que possuiu entre os seus pertences pessoais uma chave de fendas que tinha sido esquecida na mala e que a acompanhou durante quase um ano. E não estou a brincar! Isto sem falar das malas das mamas que são verdadeiros armazéns de perafernálias que vós deixariam de queixo caído. Mas, porquê uma mulher sente necessidade de ter tudo na sua carteira? Não sei. Gostaria de ter uma explicação lógica para tal comportamento quase insano, que implica quilos de pertences transportados diariamente com consequências a longo prazo para a nossa estructura óssea, no meu caso só posso dizer que não gosto de ser apanhada desprevenida, tenho de ter tudo ao alcance da minha mão. O meu quotidiano é uma corrida entre o ponto a até b,c e d e isso implica que possa aceder rapidamente, no conteúdo da minha carteira, a todo o tipo de coisas que necessito nessa lufa-lufa diária. Sinceramente, admiro as mulheres que concentram tudo numa pequena mala, não sei como conseguem. Quando tenho de ir a uma festa e levo uma clutch, fico ansiosa só de olhar para o espaço tão exíguo que não me permite levar quase nada. E penso, o que faço com isto? No fundo, a minha carteira é uma espécie de salva-vidas para todas as ocasiões e voltámos de novo a turista que se atirou ao mar, se não fosse a sua mala, teria sobrevivido? Dúvido!

terça, 24 maio 2016 20:26

As estórias abesonhadas

Abordei um dos livros do escritor moçambicano Mia Couto.

O Mia Couto na sua trajectória gosta muito de escrever contos. E muitas vezes este estilo literário é considerado por muitos menos válido, em oposição ao grande romance.
Mia Couto: Isso é um conceito não criado por um escritor certamente. Não são os autores que pensam assim. É o mercado, são as editoras. Criar uma hierarquia entre genéros literários é uma ofensa para a literatura.

Utiliza também os contos, porque tem a ver com a cultura africana, uma tradição oral de se contarem histórias como estas abessonhadas.
MC: Isso é verdade, mas não é determinante. Eu acho que em todo o lado se fazem contos, todos os povos produzem histórias e portanto se eu tivesse nascido no Alasca, ou na América do Sul eu seria movido com a mesma intensidade para escrever contos.

Este livro é também sobre a esperança? Porque foi escrito após a guerra colonial e civil em Moçambique.
MC: Sim, por isso se chama abessonhado, porque é uma obra que congrega o sonho e a benção, era isso que a gente sonhava que ia acontecer. De facto nos vinte anos seguintes, em 1992 foi quando acabou a guerra civil, houve um período muito feliz, de paz efectiva. Agora, infelizmente, voltaram as nuvens negras, mas acho que vamos ser capazes de superar isso.

Outra das características dos seus livros é a linguagem são as palavras novas que inventa. Sei que faz parte do universo africano, mas quando começou a escrever deve ter havido um impacto, porque inventar palavras não é algo fácil junto de editoras, ou de algum público?
MC: Em Moçambique houve alguma reação, sim. Mas, não foi algo feito novo, não fui eu que iniciei esse processo, esta lá, se os escritores não inventam palavras, inventam uma forma de contar uma história que é só deles e a sua própria linguagem. Acho que não sou tão pioneiro asssim, o Claudino Vieira tinha feito o mesmo em Angola, ou o Ascênsio de Freitas em Moçambique, eu tive muitos mestres.

As palavras que inventam são muito musicais, é propositado ou não?
MC: Não, eu acho que tem a ver com a poesia que quer ser música.

Nestas histórias há muita magia, acontecimentos extraordinários, existe quase uma paralelo com a literatura sul americana, porque por norma, a literatura europeia, em particular em Portugal, não possui muitos autores que abordem estas temáticas.
MC: Não sei se isso é completamente assim, mas a América Latina, a África e a Ásia provavelmente estão mais próximas, são zonas onde não se esmagaram essas culturas da oralidade em que as pessas falam por metafóras e em que as pessoas contam histórias tão facilmente como se fosse um argumento escrito. Não tem a ver com a falência da imaginação do escritor europeu, tem a ver com um certo predomínio de um tipo de linguagem sobre outro.

Destas estórias abesonhadas tem alguma preferida?
MC: Não me lembro, é muito difícil dizer isto, mas acho que o “cego estrelinho” toca-me muito, porque mais do que vez gente cega falou como este conto os comoveu, uma vez, foi a um centro dos deficientes de guerra, não sei se chama assim hoje em dia, e para eles o “cego estrelinho” era um dos colegas, é uma história que me comove muito, porque é como um cego pode “ver” muitas coisas, não é sobre deficiência, é muita coisa que se pode ser compensada.

terça, 24 maio 2016 20:23

A loucura entre nós

Quais os limites da nossa sanidade? O que nos define como normais? “A loucura entre nós” lança um olhar sobre os corredores e grades de um hospital psiquiátrico, buscando personagens e histórias que revelem as fronteiras do que é considerado loucura. Através, principalmente, de personagens femininas, o documentário de Fernanda Vereilles exala as contradições da razão, nos fazendo refletir nossos próprios conflitos, desejos e erros.

Porquê escolhestes este tema? Porquê falar de uma instituição mental na Bahia?
Fernanda Vareilles: Na verdade eu fui apresentada ao livro de Marcelo Veras, um psicanalista de Salvador. Ele escreveu um livro sobre a experiência dele como director de um hospital Juliano Moreira Eu li esse livro que me falou, fiz uma sugestão para visitar o hospital e estive aí. Fui lá pela primeira vez e falei com algumas pessoas e vi que tinha material muito rico para se fazer um documentário. A ideia surgiu depois de bastante conversa com o director e a partir daí começámos a rodar a película.

No documentário lentamente começam a surgir duas pessoas, duas mulheres que de facto fazem parte da narração e que tu acompanhas ao longo do seu processo de entrada na instituição, pelo menos de uma delas. Esssa escolha aconteceu naturalmente?
FV: Sim, eu comecei a frequentar a instituição, fomos com uma equipe bem reduzida e começámos a nos integrar no Criamundo, que é do grupo que falo no hospital. Toda a equipe fazia artesanato com eles, às vezes desligavam os equipamentos e partiam para as suas actividades, foi uma espécie de teste para a gente poder criar essa intimidade com a câmara. A ligação da Rosângela e da Leonor foi construída nesse processo, eu também criei ligações com outras pessoas do Criamundo que eu filmei, mas na rodagem final a gente já só filmava elas duas. Nós fizemos entrevistas com muitos dos pacientes, a gente tem 250 horas de filme para transformá-las em 76 minutos de documentário. Com elas as duas a gente foi criando essa intimidade, houve uma transferência entre eu e elas e daí e elas foram escolhidas como as personagens príncipais, mas não foi uma ideia inicial fazer um documentário sobre elas, foi construído realmente na montagem.

Quais foram os principais desafios ao filmar dentro de uma instituição como aquela?
FV: Bom, foi um processo um pouco burocrático.Desde conseguir a autorização para entrar no hospital, a gente teve apoio todo do director que na época deu apoio para esse mergulho de todos os níveis com as pessoas que trabalham lá, foi uma conquista diária da nossa equipe, da produção, porque filmar num hospital psiquiátrico é uma ideia bem louca. Eles tinham uma psicóloga que perguntava, porquê eu escolhia para entrevistar aquela pessoa e não a outra? Porquê aquela pessoa tem tudo e você esta interessada num certo personagem? São também questões que você se coloca. Entre as dificuldades próprias de se fazer cinema, como conseguir autorização, como obter verba, como conseguir captação para estar lá até como se processa o briefing do director, todo esse processo é difícil e moroso, mas vale bem a pena, porque o prazer de fazer cinema e poder emocionar as pessoas é bem legal e prazeroso.

Referiste que tiveste de pedir autorizações, os directores exigiram-te algo enquanto filmavas os pacientes?
FV: Eles tentaram entender primeiro o meu propósito, eu não queria fazer um documentário sensacionalista, mas um que fala-se sobre a subjectividade daquele mundo e tudo foi mais uma questão de confiança, conseguir que eles entendem-se o meu trabalho, o que eu queria fazer e as minhas intuições. Eles viram os meu trabalho anterior e depois de obter essa confiança, a partir daí, não houve mesmo exigências, mas a gente também pediu autorização para todas as pessoas que estão no filme, era necessário para filmar.

Achas que por seres mulher foi mais fácil ou não?
FV: Na verdade eu estava bem interessada em outros personagens, em Israel que esta no filme, eu adoro ele, mas aí ele passou por umas questões pessoais. Eu não sei se não fosse mulher seria diferente, seria um outro filme feito por uma outra pessoa, homem ou mulher, mas não consigo identificar isso, se existe uma questão de género realmente. Eu tinha uma produtora que era mulher e outras pessoas que eram homens, mas sinceramente não sei responder essa pergunta.

Quando mostraste o filme pela primeira vez foi no Brasil.
FV: A gente mostrou alguns enxertos aqui, em França. A estreia mundial foi em Curitiba.

Qual foi o feeback no Brasil ao teu documentário?
FV: Foi bem positivo, ele teve no cinema em algumas salas. Eu fiquei bem contente com a reação das pessoas principalmente da área de psicologia que se interessam do tema da loucura e da psicánalise. É um filme que pode servir muito de base para esse tema que tem de ser discutido, porque é bem importante. Mas, eu estou contente com a crítica que foi feita que foi bem positiva.

Por outro lado, com este documentário expuseste um sistema de saúde mental com muitas fragilidades, que não é muito apoiado pelo governo brasileiro ou é?
VF: Eu não fiz o documentário nesse sentido. É um sistema que não passa pelos partidos políticos, acho que é uma coisa muito mais forte no Brasil que é saúde mental. Eu sei que retrata um sistema de saúde precário, mas o objectivo dele não era fazer uma denúnica, mas sim, mostrar as fragilidades dos personagens, o mundo em que eles vivem e essa realidade, no hospital que frequentei, eu encontrei pessoas muito engajadas com essa causa.

Quando começaste a filmar tinhas noção do que era ter doenças mentais e quando terminaste o documentário o teu conceito mudou?
FV: Eu tinha uma ideia bastante ingénua. Eu tinha uma noção bastante superficial como todo o mundo conhece sobre a doença mental. A primeira vez que entrei no hospital eu fiquei intimidada com aquela loucura toda e uma certa liberdade. Aos poucos o documentário vai mostrando a complexidade do que é esse tema. Como filmei durante quatro anos esse tema e entrei na vida dessas pessoas, isso me permitiu aprofundar e conhecer melhor aquele mundo, durante o filme eu toquei a doença e eu perguntei para eles sobre a doença, mas isso não me interessava, eu pretendia era mostrar como eles me conseguiam ver apesar de ter aquele sofrimento psiquíco e como eles conseguiam lidar com isso, nas diferentes épocas da sua vida, entre a loucura e a humanidade.

Uma das tuas personagens acabou por suicidar-se no final. Que impacto é que isso teve?
FV: A gente lembrou que ela já tinha tido muitos encontros com a morte, teve várias tentativas de suícidio e viveu sempre tentando evitar isso, mas era algo muito presente na vida dela. Essa questão da morte me emocionou, para mim foi um momento difícil na minha vida. Quanto ao impacto que teve no filme, eu dedici terminar o filme aí, se calhar teria continuado a filmar, porque a decisão de terminar a filmagem ainda não tinha sido tomada. A morte dela não me influenciou, eu prefiro acreditar que não, eu acho que o últimos anos dela, pelo depoimentos das pessoas próximas dela me disseram, ela se apegou um pouco àquela filmagem, mas a verdade do que aconteceu ninguém sabe.

Mudando de assunto, tu vives em Paris e agora estas a preparar outro documentário ou filme?
FV: Eu estou com três projectos. Um no Brasil, outro na França sobre a crise de identidade francesa e uma ficção que estão andamento.

É mais fácil fazer cinema fora ou dentro do Brasil, não tendo em conta o financiamento?
FV: Depende. No Brasil há pessoas bastante abertas a ideias, já trabalhei fora do país, sobre o conflito israelo-palestiniano sobre as pessoas que viviam ao redor do muro, mas depende. Eu acho que no Brasil, não sei como vai ser daqui para a frente, tem havido um movimento muito dinâmico em termos de cinema, muita coisa a ser produzida, com verbas para você filmar.

E o público brasileiro gosta de ir ao cinema ver documentários?
FV: Isso é uma coisa que se esta implementando aos poucos, o filme nacional não é tradição, mas eu acredito que com o tempo a gente vai implementar a nossa cultura cinematográfica, isso vai acontecer, mas ainda é um processo que se esta iniciando, porque ainda não tem muito público.

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