Um olhar sobre o mundo Português

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A máquina cultural

Escrito por  yvette vieira fts carla bessa e vanda conceição

Luís Ferreira é o jovem director artístico e cultural do município de Ílhavo, que tem uma visão da cultura que vai para além do mero programar eventos, pretende criar um projecto que englobe todas as artes nas suas diversas formas e envolva todos os tipos de público do concelho.

Desde que é programador cultura de Ílhavo tem estado a dinamizar quatro espaços no concelho.
Luís Ferreira : Mais do que programador de espaços, sou director artístico e cultural para o município, nessa perspectiva estámos abertos na Gafanha da Nazaré, em Ílhavo e na Vista Alegre. São locais que estão direccionados para várias fases da cultura tanto criativa, como do pensamento, da perspectiva da criação e da programação mais clássica. São espaços que estão a desenvolver dimensões diferentes e envolver todo esse território. O nosso mote é a cultura do dia-a-dia, essa práctica de contacto quotidiano que queremos que a população usufrua e que haja pertinência do projecto para o local e ao mesmo tempo ao nível nacional.

Vamos abordar o 23 milhas, a própria página online refere que não pretende que estes espaços sejam dinamizados como meros centros culturais. O que quer dizer com isso?
LF: O que se fez até agora é uma forma de aburguesamento da cultura em que se criaram casas específicas para usufruto da cultura e nós acreditámos que vai para além disso, de um punhado de espectáculos. A cultura, como defendido na carta dos direitos humanos, tem de ter efeitos concretos na vida das pessoas, tem que ajudar na aprendizagem, na especialização e na promoção de encontros. É uma forma de criação de identidade e de expressão de uma determinada comunidade. É nessa perspectiva que estámos a trabalhar, muitas vezes os centros culturais legitimizam-se como centros de poder e o resto é o errado, criam posturas muito difíceis em que as pessoas não podem falar, ou comer, ou não podem, não podem e não podem. É toda esta lógica em que há uma determinada postura para cultura que tem de ser desmitificada, ela deve ser quotidiana. No passado, a cultura marcava os ritmos laborais, os momentos de encontros, as efemérides e as festividades, queremos mais momentos de inclusão e não que o público tenha de fazer uma pausa na sua vida para irem ver cultura, porque ela não se vê, ela faz-se, participa-se e envolve-se. E é nessa perspectiva que acreditámos que a lógica do centro cultural cria essa ligação estranha com o território, muitas vezes a cultura pode acontecer na periféria, pela liberdade que se dá e as expectativas mais leves que temos sobre esse processo criativo. Então, esta é uma dinâmica que tem muito de teórica, como práctica e não é fácil. É muito mais difícil, mas acreditámos que é o caminho, ou se calhar vamos notar que as crianças vão ter notas mais interessantes, haverá mais sucesso escolar, ou não se vão sentir abandonadas, todas aquelas falhas que vemos na sociedade contemporânea poderão ser minimizadas, porque temos um projecto cultural que integra e envolve e faz perceber a pertinência da cultura não como um luxo, mas como um bem essencial.

Mais do que uma vez referiu que são quatro espaços diferentes, com públicos diversificados, então como se faz uma programação interligada tendo em conta que são espaços também multidisciplinares? Como se fez essa diferenciação e junção em termos programáticos?
LF: Aqui a questão é termos em consideração que apesar de fazer parte do mesmo projecto, trabalham áreas diferentes do processo criativo e cultural. No fundo são complementares, eles não concorrem uns entre os outros, criam é um caminho entre eles. No primeiro espaço podemos ter uma junção da crítica e do pensamento, de apoio à pesquisa, pensar a cultura no seu processo embrionário. Na Fábrica de artes da Gafanha da Nazaré temos um espaço de criação, de residência e oficinal. No Cais criativo da Costa Nova, vamos ter um espaço de apoio à criação internacional, com projectos mais ligados as festividades do verão, enquanto que, no Laborátório de artes no Teatro Vista Alegre a programação é mais de inverno. Na Casa Cultural de Ílhavo há uma programção mais eclética, temos um grande auditório onde tanto temos projectos em ante-estreia, ou exclusivos, como projetos internacionais e no fundo todos eles se complementam, tendo em conta as características técnicas de cada espaço. Possuimos auditórios com 300 lugares, outros com 500, mas também áreas preparadas para à área de formação, que é um processo muito importante e que acontece no Laboratório e na Gafanha da Nazaré onde temos várias oficinas de metais, madeiras para a criação nas artes visuais, como para as associações que queiram trabalhar e fazer cenários. Tudo isto se complementa num projecto global que não faria sentido, num concelho com 40 mil pessoas, se os quatro centros trabalhassem e fizessem o mesmo.

Como é que as pessoas submetem os seus projectos? Ou é o programador que vai à procura desses grupos? Como é que tudo funciona?
LF: É um misto. Temos uma linha programática que nos interessa e vamos procurar projectos que beneficiem e contribuam para este projecto. Mas, estámos sempre abertos, recebemos uma loucura de mails para propostas tanto de residências, como de projectos e vamos avaliando e gerindo não só consoante o nosso orçamento, mas também com os espaços e a pertinência dos mesmos nesse contexto. Neste momento estámos a montar um novo sistema de residências artísticas na Gafanha da Nazaré, já esta quase lotado para este ano e em 2018 vamos lançar um modelo de concurso para haver espaço para os artistas mais emergentes poderem concorrer e beneficiar das fantásticas condições técnicas que temos para oferecer.

Quantos artistas tem inscritos para as residências e laboratórios este ano?
LF: Neste momento temos mais de 20 projectos inscritos.

E são apenas artistas nacionais ou também fora do país? Já que este projecto tem uma componente internacional.
LF: Neste momento são todos nacionais, já que estámos a aderir a uma nova rede internacional, mais vocacionada para o espaço da Costa Nova. Achámos que é pertinente criar essa dinâmica internacional e esse foco sobre esse olhar sobre Ílhavo, mas como se trata de um processo mais longo, começámos com os projectos do âmbito local e queremos também apoiar à criação nacional. Mas, brevemente teremos também os criadores internacionais para promover este encontro entre artistas nacionais e estrangeiros, o público, a comunidade local e quem nos visita.

As residências artísticas são apenas na área de criação para exposições e potencialmente teatro, ou estão aberta a outro tipo de artes?
LF: São bastante abertas, temos residências nas áreas performativas, visuais e no design, como são projectos financiados exclusivamente pelo município há sempre contrapartidas para o território. Os artistas em residência fazem actuações, ensaios abertos, ou apresentam espectáculos de forma a envolver e integrar a comunidade nesse seu processo. É muito importante que os artistas criem essa dinâmica e esse contacto com o público e com a diferença, assim todos estarão mais disponíveis para irem ao encontro uns dos outros. Neste trimestre temos cinco residências e todas elas partilham uma formação que esta aberta a um espectáculo e são quase todas nas áreas performativas, mas depois vamos ter várias oficinas a funcionar nas artes visuais e no design, é um campo bastante extenso, assim como a própria programação. Neste ano, temos cinema e visitas guiadas pelos património arquitectónico, o que queremos é que todos consigam encontrar lugar no nosso projecto.

São quatro espaços em locais diferentes e com públicos diferenciados. Qual é o tipo de pessoas que visitam esses espaços e qual tem sido o feedback?
LF: Por exemplo, ontem tivemos a ante-estreia do concerto à solo do Luís Martinho, dos Deolinda, no Teatro Vista Alegre e tivemos casa cheia, houve uma conversa posteriormente, onde as pessoas puderam fazer perguntas muito interessantes, uma vez que, ele tem uma formação académica contemporânea que é muito diferente do trabalho que desenvolve na banda, houve esse contacto em relação o que faz à solo e nos Deolinda e o resultado deu a perceber que o projecto faz muito sentido para o território. As pessoas tiveram muitas dúvidas e quiseram-se aproximar do trabalho e das disciplinas e tivemos desde programadores nacionais para perceberem essa ante-estreia, como a vizinha do lado do próprio espaço. Nós queremos desmistificar esse olhar de que isto não é para mim é para o outro, para o intelectual. Não, há lugar para todos, temos é que criar as condições certas para que as pessoas participem e para que não entrem nos projectos com a ideia que isto não é para mim. O público tem todas a capacidades para descodificar, interpretar ou usufruir da proposta artística.

Mas, como sabemos há sempre resistência à mudança, mesmo num novo paradigma artístico. Por isso nota quem adere mais é o público mais jovem ou é mais heterogénio?
LF: É mais heterogénio. Os jovens são mais conservadores em algumas perspectivas mais do que os mais velhos. Eles estão habituados ao imediato, ou ao fácil e passado uns segundos já não gostam disto, por isso, mudam. A nova lógica da comunicação e da informação criou uma nova incapacidade a resistência e ao esforço de tentar perceber o que é isto. Somos pouco tolerantes ao que não nos interessa logo nos primeiros segundos, isso é mais difícil, claro que há resistência e estranheza, mas como diz Fernado Pessoa primeiro estranha-se, depois entranha-se. Não temos projectos de fogo-de-artifício que passado cinco anos terminam, é um processo que irá conquistando as pessoas pouco a pouco e elas irão entrando e percebendo a pertinência deste ou outro projecto e vão aderindo. Não há perspectivas dentro da equipa de que de repente existe mudança e que é tudo fantástico, mas como temos eventos bem planeados sabemos que estámos no caminho certo e que vai demorar algum tempo até tudo estar a funcionar no seu pleno, até porque é um projecto muito ambicioso, quase a roçar a utopia e achámos que vamos precisar de tempo até para nos ir adaptando ao retorno da população.

Em relação ainda a essa questão achas que a programação ajuda a que as pessoas se habituem a ideia de se dirigir aos espaços? Ou apenas resulta da mudança do paradigma cultural?
LF: Eu acho que a vantagem deste projecto é que vai ao encontro das pessoas, onde elas estão. É mais fácil transportar um projecto onde elas se encontram do que criar novos espaços públicos, e não se trata apenas de um espaço acessível, mas também onde as pessoas se possam reunir, pensar e aí é mais fácil de criar essa realidade de discussão. A vantagem deste projecto é que móvel, tem várias vertentes, se as pessoas estão na praia, na praça, ou na igreja vamos até lá. Existe essa facilidade. Depois temos outros eventos que carecem de espaços e condições técnicas e isso faz com que estejámos a multiplicar as oportunidades de encontro e isso poderá ajudar bastante. A programação é essencial, mas passa mais por fazer uma residência, uma conversa, um espectáculo, há várias formas de criar uma ciclo cultural que não se limita apenas a programar dez concertos e três ou quatro peças de teatro e esta feito. Se as pessoas não vieram é porque não ligam à cultura e assim temos um rol de desculpas para o insucesso da nossa acção. E o contrário também não se justifica pelo número de pessoas, porque se eu quisesse organizava um concerto com uma figura pública mais comercial, tenho mais de 10 mil pessoas e cumpri à minha missão. Não, este projecto não é à primeira vista avaliado pela acção do público, mas é pelo efeito que criou em quem aderiu, pela comunicação do território e dos índices de desenvolvimento que pode criar.

Os artistas com espectáculos em itenerância, nomeadamente as companhias de teatro já implementadas ao nível nacional, queixam-se muitas vezes que os programas são muito fechados e que eles não chegam a esses espaços. E tu não vens propriamente da área de programação cultural, tens uma longa carreira na área do design. Então como lidas com essas críticas?
LF: Em primeiro lugar acho que em Portugal há poucos programadores culturais e considero que essa é a verdadeira dificuldade. Existem muitos espaços pelo país fora, com poucas equipas e directores artísticos que criam identidades e projectos para os espaços. Temos muitos elefantes brancos, com salas vazias, ou espectáculos a vulso que dependem da bilheteira e isso é um grande problema. Depois, programar é escolher e isso é óbvio, é necessário saber dizer não, as pessoas não tem a noção da escala das dezenas de propostas que recebo por dia, temos que seleccionar aquelas que são mais pertinentes para os nossos projectos e que são mais uma peça na engrenagem do que estámos aqui a fabricar. Eu não sou um programador de artistas, nem me interessa ter esse vínculo do que é certo ou errado, o que temos é um projecto mais alargado onde cabe muito mais coisas, é eclético, mas mesmo assim, tem vindo até nós projectos que vão ao encontro do que estámos a trabalhar. Programar tudo é programar nada, basicamente para mim. Trata-se de um acto de escolha e estámos cá para assumir essa postura, há uma grande diferença entre uma casa cultural e uma sala para eventos, são coisas completamente diferentes. Compreendo que haja desconforto, mas também existe uma dificuldade dos artistas perceberem o todo de um projecto desta envergadura e como podem encontrar o seu lugar nele. Eu, por exemplo, em Ílhavo não posso programar os projectos mais emergentes em artes performativas, não há contexto, não há entendimento, poderá haver no futuro, mas não é porque tenho uma peça que temos que utilizar esse espaço, posso ter outros. Não posso apostar num projecto comercial por si só e que não se insere nos objectivos que temos estipulados para o nosso conceito cultural e isso é que é a diferença. No fundo temos um briefing nesse momento e olhando para isso, verificámos se o grupo, ou peça vai ao encontro, ou se enquadra para o território. É também um projecto que é político, que tem uma ideologia e temos de perceber se se encaixa. Agora, pode-se ser contra ou não, podemos estar de acordo ou não, mas a ideia é sempre a liberdade de escolha inerente a responsabilidade, há sempre debate e uma discussão sobre isso.

Da programação para este ano já levantaste um pouco a ponta do véu, mas quais são as grandes apostas neste momento?
LF: Já começámos a lançar as grandes áreas, o projecto esta a criar um ritmo na criação e formação que estão mais encaminhadas. Para a programação deste ano queremos atrair nomes internacionais, estámos a estudar esse ponto, porque temos um território peculiar, ao nível nacional, num raio de 30 km temos sete centros culturais a trabalhar bem e no fundo temos de nos diferenciar uns dos outros, para não estar a canalizar a acção de cada um. Até porque temos muito público, com boas acessibilidades e as pessoas vão até Aveiro, Ílhavo, Ovar, Estarreja e Águeda com espaços a funcionar em pleno e de uma forma até invulgar para Portugal. Queremos também incluir mais áreas, que o processo criativo esteja exposto no território e temos programado para este primeiro trimestre, Ricardo Ribeiro, no fado, depois “Uma empregada dos diabos”, na revista. Não é um projecto para já com um pré-discurso, novo, que só selecciona a fina flor cultural, porque depois temos o “Acorda à tarde” que apresenta cantautores e instrumentistas no Teatro Vista Alegre, como também vamos ter a cantora Lula Pena e o André Barros, no piano. O teatro Praga vai fazer a sua ante-estreia cá e na primavera e teremos a apresentação do jovem criador Tiago Correia, na Gafanha da Nazaré. Há sempre este equilíbrio entre o existe de mais comercial na escolha e o que é mais emergente também com muita qualidade, como é óbvio. Para que as pessoas estejam dispostas e disponíveis para receber tem de haver também este equilíbrio com outros teatros nacionais de forma a ter vários projectos em simultâneo. Mesmo quem tem residência cá, ao ser apoiado nos locais de apresentação, estámos a contribuir criando uma máquina para potenciar conceitos que não se fiquem pelo caminho, que só existam naquele momento e depois morrem, temos parcerias com festivais nas artes performativas de forma a que os projectos que forem criados tenham pernas para ir pelo país fora e até para o estrangeiro.

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