Um olhar sobre o mundo Português

Paixão é a palavra que define e motiva os meus convidados desta semana. São os criativos que motivam os outros a ganhar coragem e também concretizar os seus sonhos. Venhas conhecer estas pessoas especiais. 

                        

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Com alma de leoa

Escrito por  yvette vieira fts bárbara fernandes

Raquel Lombardi é o rosto e a força motriz por detrás do projecto solidário “Unidos” e da associação com o mesmo nome, que visa sensibilizar a sociedade madeirense para a prática da solidariedade em prol das mulheres que lutam contra o cancro da mama, através de atividades culturais e artísticas nas diversas áreas, desde as artes plásticas, as artes de palco e a literatura, entre outras.

Em que contexto surge o projecto “Unidos”?
Raquel Lombardi:Surge uma terapia que utilizei enquanto me submetia aos tratamentos de quimioterapia. Um dia fui até o atelier de Luz Henriques e disse-lhe que tinha vontade de pintar um quadro com ela e se me podia ajudar. Ela auxiliou-me a criar uma peça a quatro mãos intitulada “renascido”. Como me senti tão bem a pintar com ela e eu que não sou conhecedora de arte, sou apreciadora, mas não tenho nenhuma técnica, pensei e se tivesse um projecto que me fomentasse as artes e a solidariedade? Primeiro organizei um concerto, depois realizámos quadros a 4 mãos com personalidades conhecidas e foi assim aos poucos fomos criando outros eventos, como o de yoga, de recolha de alimentos no Natal, mas sempre com ums componente ligada as artes, como a pintura, a música e a literatura.

Voltando um pouco atrás, os fundos revertem para materiais para as mulheres que pretendem executar esse tipo de projectos a 4 mãos? Ou apenas para apoiar alguns dos medicamentos?
RL: Os primeiros fundos obtidos nos concertos solidários foram entregues à instituições, como a “liga portuguesa contra o cancro”, o dinheiro obtido no segundo evento foi para uma associação ligada à paralisia cerebral e o “Casa” e o terceiro evento teve como objectivo a “Acreditar”.

E os quadros a 4 mãos com pessoas famosas os fundos revertem também para esse tipo de instituições de solidariedade social?
RL: Sim, e ainda estão à venda no Riu palace hotel. As foram vendidas foram canalizadas para essas instituições que referi e para a associação Raquel Lombardi, que foi criada para dar continuidade ao projecto “Unidos”. Isto porquê? Porque o objectivo destes fundos é facultar uma melhor qualidade de vida as doentes oncológicas da Madeira. Havia uma lacuna muito grande no que se refere ao cancro de mama, na senologia. Por isso, temos trazido um médico especialista cá, nos financiámos as passagens e a estadia e ele dá consultas na Clínica das Madalenas com o objectivo de ajudar as mulheres da região, isto porque o único médico que existe no privado, o Pedro Ramos, é actualmente secretário regional e isso é uma grande lacuna neste âmbito. No público, no hospital existem médicos, mas não conseguem dar a resposta a todas as doentes oncológicas que temos.

Espcialmente as doentes com cancro de mama?
RL: Eu debruço-me sobre estas mulheres porque posso dar conselhos, dar directrizes, eu estou dentro do assunto, passei por isso, por todo aquele processo em que sofremos muito ao nível emocional e depois físico. Temos muito medo, até hoje o sinto, tenho medo dos exames que faço, de tudo, porque quando saí da ilha para tratar-me os médicos me haviam dito que não havia nada a fazer, que iria realizar os tratamentos e depois logo se via o que se ia acontecer. Eu recorri aos médicos e tratamentos em Lisboa porque tenho posses, mas quem não tem, como é que faz? Eu procurei por todos os meios dar a essas pessoas uma segunda opinião e por isso é que trazemos o doutor Fernando Fernandes à Madeira, apesar de ser uma consulta no privado, as pessoas podem ir sem ter de se deslocar até Lisboa. Ir até a capital não é só a consulta, é a estadia, as viagens, a alimentação, transportes e o estar fora da família, algo que a maioria das mulheres não consegue realizar em termos financeiros.

Mas, a senologia consiste em quê?
RL: É uma especialidade sobre doenças de mama, ele já tem experiência de 2o anos e já trabalhou 22 anos no IPO (Instituto Português de Oncologia), é um dos melhores ao nível nacional e nem pensava vir até à Madeira, porque em termos monetários não é igual ao que aufere em Lisboa. Mas depois de criar este projecto, o doutor foi sabendo do meu trabalho, ficou interessado em cá vir e fazer parte da associação e actualmente é ele que nos dá directrizes do que necessitámos fazer.

Então como é que a associação Raquel Lombardi funciona na práctica? De que forma as mulheres vós contactam com dúvidas e apreensões? E possuem uma sede onde são encaminhadas?
RL: A nossa sede física não existe, no entanto, temos a nossa página de facebook, que é Associação Raquel Lombardi onde por mensagem privada as pessoas contam à sua história e a partir daí nos encaminhámos. Uma mulher pretende uma segunda opinião médica é com o doutor Fernando Fernandes. Para as mulheres que passam pela quimioterapia enviámos para as aulas grátis de yoga e meditação na academia nova era, porque é muito importante para a respiração quando se embarca neste processo. Ao nível dos pilates clínico, ou outras medicinas alternativas também podem recorrer na clínica das madalenas a um preço com desconto para a associção. Não temos uma sede, porque fomos criados há pouco tempo, em Julho do ano passado, tenho-me é reunido com muitas pessoas que tem visto o nosso trabalho árduo, no entanto, o governo regional ainda não tem capacidade para nos fornecer uma sede, mas tenho fé que vou consegui.

A reconstrução mamária que ainda é uma área com lacunas ao nível regional?
RL: Não temos especialista de reconstrução na Madeira. Sei que existe um especialista que vêm cá fazer cirurgias desse género na Clínica da Sé. No meu caso não tive de reconstruir, porque foi aconselhada a não operar ainda, estão a ver ainda o meu progresso e como as células se vão desenvolver. Depois é também a escolha da doente e eu não me sinto preparada para fazer novas operações de reconstrução.

As mulheres também procuram a vossa associação para apoiar em termos de soutiens especiais?
RL: Elas tem vindo perguntar onde encontram esse tipo de peças. Nós temos um protocolo com a Amoena, então, dámos a morada, se não puder ir até Lisboa medimos a pessoa e mandámos buscar por correio. No entanto, já propus ao estilista Hugo Santos para criar uma linha de soutiens para mulheres que perderam uma mama, como é o meu caso, e eu serei de certeza uma as primeiras a adquirir uma dessas peças.

Quando as mulheres te contactam via facebook o que te perguntam mais?
RL: A maioria das pessoas que me contactam querem saber do médico, querem uma segunda opinião.

Porquê há essa necessidade de uma segunda consulta? É o medo do diagnóstico?
RL: Uma segunda opinião é muito importante, não porque desconfiemos do primeiro diagnóstico, é porque nos dá uma certa segurança. Quando ouvimos a palavra cancro pela primeira vez pensámos logo vamos morrer? Onde estará localizado? Será que esta em outro órgão? Porque é uma doença que pode ser silenciosa, no meu caso eu nunca estive doente em 46 anos de idade. O meu diagnóstico chegou porque recebi a carta para fazer o rasteio na mama e eu fui, não sentia nada, não tinha nódulos e 3 dias depois de fazer exame foi contactada para apresentar-me urgentemente no hospital e deram-me essa notícia, que era um cancro grande na mama esquerda.

E a arte ajudou-te nesse sentido?
RL: Muito ao nível psicológico, porque para já com o projecto “Unidos” eu sentia-me muito útil e transmitia a minha palavral. Achei que era importante partilhar a minha experiência e isso podia servir de exemplo para outras pessoas que estivessem a sofrer, principalmente, mulheres que foram abandonadas pelos maridos, numa altura em que elas mais precisavam. Mas, não era só nestes casos, existem mulheres que depois da mastectomia não gostam do seu corpo, de se ver ao espelho, a vida intíma só é reiniciada depois da quimioterapia, porque antes é muito difícil manter uma vida sexual activa e mesmo assim, a sexualidade é feita com um soutien, porque há muita vergonha e isso é um dos aspectos que mexem com a auto-estima de uma mulher, que a deixam muito em baixo, não é que a beleza seja importante, mas o teu corpo mudou, a tua mente, a tua vida e não sabes mesmo assim quanto tempo tens.

Alguma vez algum homem vós contactou?
RL: Não, nunca. Houve um senhor que me contactou para dar os parabéns porque a esposa passou pela mesma situação, eles seguiam todo o meu trabalho e estavam felizes pelo facto de alguém encarar o cancro dessa forma. A senhora é saudável há vinte anos, está muito bem e até foram ao concerto.

És contactada por mulheres do continente?
RL: Eu fui contactada pelo menos por três, ou quatro mulheres fora da ilha e ainda, pelas mulheres que fizeram tratamento comigo. Mas, é muito triste, às vezes, eu fico muito feliz de ser um exemplo para elas e elas estarem ainda comigo nesta luta, que vão ultrapassando dia-a-dia, mas depois há o outro lado, algumas delas perderam-se pelo caminho, nesta caminhada duas faleceram e fico muito abatida. Eu antes quando ouvia falar de cancro sentia muita pena dessas pessoas. Hoje não é só isso, mas sinto que é também comigo, porque me revejo nessas pessoas e é muito complicado administrar essas emoções.

Quais são os novos eventos para este ano?
RL: O meu novo projecto para este ano é levar o “Unidos” para fora da Madeira.

De quê forma?
RL: Vamos, para dar o exemplo, fazer uma obra a 4 mãos, mas os fundos revertem para uma instituição no continente. No passado dia 8 lancei um livro infantil, chamado “uma história colorida” com a participação como ilustrador do pintor Fiuliano Giuggioli que depois veio expôr até à Madeira, por altura da lançamento desta publicação, é uma obra que fala da cor e da luz e isto porquê? Sou educadora de infância e este é um tema muito trabalhado nesta fase nas crianças. Também trabalho muito com a arte, eu tenho um outro projecto chamado “mundo colorido”, que levo até todos meninos da região, onde criámos uma tela com pintura e explorámos as cores. Agora vou lançar um outro livro, em Lisboa, para ser distribuído directamente na Itália, é dedicado às mães, porque uma mãe é sempre uma mulher, é ponto de referência das crianças, que pode sofrer de cancro de mama, no livro eu digo que “a minha mãe é careca, faz quimioterapia, mas é forte como leão”, porque é importante para as crianças terem essa percepção que a quimioterapia tira o cabelo, mas depois ele cresce e tudo fica normal.

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