Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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Borda d'água

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O almanaque mais vendido e antigo de Portugal.

No segundo dia de cada ano que começava o meu avô materno tinha um ritual que se repetia escrupulosamente e como ele havia milhares pessoas que se juntavam nesta massa de fiéis anónimos, saia de casa de propósito para comprar um exemplar do Borda d'água. Trata-se de uma pequena publicação com o tipo de repertório útil para toda a gente como publicitam e bem na sua capa e ainda, contendo todos os dados astronômicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral. Mas, o que tem de tão especial este almanaque que mais parece um folhetim? Exactamente o que afirmam, informações preciosas para alguém como o meu avô, agricultor de profissão, que necessitava de saber as fases da lua para determinar o melhor mês para a sementeira de determinadas plantas e a melhor época para as podas das árvores de fruto e creiam-me que resultava sempre e ainda deve funcionar, porque o Borda d'água continua a ser publicado no mesmo formato simples e despretensioso há 88 anos, portanto alguma coisa devem estar a fazer bem.
Eu pessoalmente chamou-lhe a bíblia do agricultor por esse motivo, era a única publicação que via o meu avô consultar religiosamente todos os anos da vida que lhe conheci...Imaginem uma versão moderna de um Van Gogh, algo tão inusitado que parecia demasiado incrível para ser verdade, um homem de chápeu e roupas de trabalho salpicadas de manchas castanhas profundamente absorto na leitura desse pequeno folheto, no meio de um terreno pronto para cultivar, enquanto se apoiava na sua enxada. Era algo digno de se ver, o cenário campestre mudando de tonalidades e formatos consoante as sementeiras iam brotando e da terra surgiam feijões, o milho, o trigo, as batatas, as cebolas, os tomates e nada, mas mesmo nada faltava em casa.
Mas não creia que este pequeno compêndio de conselhos úteis serve apenas para os chamados “jardineiros do ambiente”, qualquer pessoa que queira começar a sua pequena horta deve adquirir o seu exemplar anual, porque não só indica as luas, como também o que deve plantar em cada mês do ano, desde os vegetais às flores e é muito completo e de fácil de leitura.
Outra característica muito engraçada deste almanaque são as suas previsões astrológicas para quem aprecia esse tipo de informações, bem como estão assinalados os feriados do ano todo, religiosos ou não e os dias em que se celebram determinadas efémerides, tais como, o dia do ambiente, ou da criança. E como se não bastasse possui conselhos práticos para a vida e anedotas. Como vêem existe um manancial de informações para todo o tipo de públicos, daí a sua popularidade ininterrupta. Eu mantenho a tradição e compro o meu exemplar, não porque me dedique à agricultura, mas pelo simples prazer de ler este pequeno tesourinho secular a preto e branco que se mantém basicamente na mesma, mas para quê melhorar algo que sempre resulta? Boa leitura.

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