Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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A criatura nasce e a obra acontece

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Este projecto inusitado surgiu de uma vontade de Edgar Vicente de fazer música portuguesa com outros músicos e o que começou com apenas seis elementos foi ganhando mais força e mais instrumentos e neste momento é uma banda que mais do que cantar em português faz uma ponte entre o som tradicional e uma sonoridade em camadas mais contemporânea, que resultam em canções que vão ao encontro da portugalidade e da identidade da banda como um todo.

A criatura começa contigo, com música portuguesa de raiz tradicional e criastes uma banda gigantesca?
Edgar Vicente: A minha ideia era de ir ao encontro da minha identidade, da minha geração e com as pessoas de uma forma geral, dos mais novos aos mais velhos. Queria que fosse uma identidade em uníssono, que conseguisse juntar as pessoas, todas, numa altura em que o amor esta mais globalizado e dia após dia perdemos essa ideia de pertença. Temos de nos revisitar constantemente e comecei essa ideia em Serpa com o objectivo de gravar um disco. O que pretendia era ir até à tradição e perceber o que aquilo era, o que já não faz parte e aí surge uma necessidade, também, de precisar de mais gente, mais criativos que me ajudassem a perceber isso e começaram a surgir os convites. São pessoas com quem tinha tido muita vontade de trabalhar, mas ainda não tinha surgido essa oportunidade, como o Carlos e o Gil e outros ainda com quem ainda não tinha tocado antes e que queria levá-los nessas musicalidades.

O que achei curioso ao ouvir o álbum, “Aurora” e ouvi-los em palco há uma diferença brutal. No CD o som era menos vivaz, mais polido, muito bem acabado e masterizado, mas preferi as versões em palco.
EV: Isso tem a ver com facto do álbum ter sido feito há três anos.
Gil Dionísio: São três anos de estrada, deste revisitar para dentro, foi o ser obrigados a ter um olhar verdadeiro lá para fora e para o que esta à nossa volta e isso fez com que houvesse coisas que tivessem sido feitas na altura, eu tinha 24,25 anos e tu tinhas 19?
EV: 21 anos
GD: Agora o Edgar tem 25 anos e existe uma diferença brutal. Uma pessoa pensa de forma diferente do que pelo menos há quatro anos e eu vou fazer quase 30 anos. Ou seja, nós crescemos com esta música que fizéssemos e houve coisas que falharam, houve temas que agora tem mais força e estão mais bonitas e outras que foi o inverso, canções que acabaram por ter uma dimensão muito menos forte. Acima de tudo quando o ouço o álbum e eu crio uma relação à medida que o vou ouvindo, mais o amadureço. A própria capa é uma peça, é tudo o que queremos fazer e com o passar do tempo, em palco, criou-se uma relação muito íntima com estas músicas, com a Portugalidade, seja o que for que isto quer dizer, mas que pode querer transmitir muita coisa. Com o tempo formos criando esta relação com este olhar, com esta forma de fazer música de uma forma emocional, ou como o Edgar diz de quem “cá esta”, é uma tradição de música tradicional portuguesa, de música pimba e de toda a música do mundo que existe ao mesmo tempo e que influenciou essa mesma musicalidade. Ou seja, quando trazemos música tradicional não podemos só olhar para a “modinha”, olhámos para pessoas, para as histórias e todo um conjunto de coisas que estão em volta para que essa relação com os temas seja mais intensa, mais emocional. Quando chegámos ao palco há todo um romance que nunca mais acaba e isso é o que se nota.

Vocês são muitos, cerca de 11 músicos em palco, deve ter sido difícil conjugar isso tudo e as personalidades musicais, ou não?
EV: Isso é um dos aspectos principais deste grupo, o facto de sermos diferentes e já partimos todos para isto sabendo que erámos muito diferentes, há muita tolerância. De vez em quando existe um que avança e diz que no rock não se faz assim, não sabíamos o que estávamos à procura, nem no que estávamos a fazer, sabíamos apenas que éramos todos muito diferentes. Abrimos um grande espaço para a tolerância, para aproveitarmos o que outro vai fazer à partida, porque sabemos que vai ser diferente do que vamos trazer.
GD: Há um aspecto muito importante aqui, enquanto grupo e que estamos todos a fazer, é que não sabemos o que isto de fazer música tradicional. Na banda descobri muita coisa e quando fazemos algo distinto uns dos outros, isso abre as possibilidades todas e quando embocámos nesse poço todos juntos são muitas ideias, muitos pontos, mas no geral é vamos lá descobrir o que é esta herança muito grande, gigante.

É, por isso, que os temas são tão compridos? Porque comparando com uma melodia de música portuguesa são até bastante extensos.
EV: Nós gostámos de atingir um certo estado com as músicas, o que não quer dizer que os caminhos não atinjam certos picos, mas em alguns temas já dá para sentir uma história.
Mas, há um tema que parece contar mais do que uma história, a canção que fala da rapariga que não quer ir à missa e do jovem que embora não queria ir para universidade, não paga.
EV: Na verdade é ao contrário, ela vai à missa e eu vou para a faculdade não foi por não querer, mas porque ninguém me disse para não ir.

Achei que eram dois temas numa única canção.
EV: Exactamente, esse tema se chama “É da praxe” e acabámos por cantar que há coisas que por mais que seja tradição, ou que tem de ser assim, se pensarmos bem naquilo em que nos estamos a meter acabámos por não as fazer e isto não é mais do que fazer perguntas, é isso que sugerimos as pessoas. É bom não seguir a maré, é bom olharmos em volta e remarmos por outras rotas onde podemos chegar mais depressa até.

No concerto já cantaram um dos temas do próximo disco, “A noiva”.
GD: Cantámos cinco músicas do próximo álbum. “A noiva”, “bem bonda”, “lóbis homem”, “dá praxe” e “a gaita”.

Porque decidiram começar a apresentar estes temas em palco, para já obter feedback do público?
EV: Acho que é por essa relação que a banda tem de ser renovada constantemente. Jamais conseguiríamos a tocar o mesmo repertório por três anos seguidos, as canções vão surgindo naturalmente para nós estimular como grupo e cativarmos a nós próprios. É tão bom quando alguém chega com uma canção pela primeira vez, vamos ensaiá-la e temos um momento novo que nos traz uma magia renovada em palco. O espectáculo é muito mais do que isso.


“A noiva” não é um nome definitivo para o álbum?
EV: Ainda não sabemos bem qual será o nome do disco.
GD: Não consigo fazer essa projecção.
EV: Eu sei como que se vai chamar (risos)
GD: É “bem bonda”, mas ainda não há uma certeza. É curioso nos gostámos de saber o que realmente andámos a fazer, gostámos de olhar para o que estamos a fazer. Vamos gravar ainda neste final do ano e início do próximo, não temos datas projectadas, nem nomes ainda, embora não tenha algum problema em tocar as músicas antes. Não consigo adiantar o que o álbum vai ser, porque parte desse percurso é descobrir o que vai ser esse disco. Esta banda é isso, até nos concertos não sabemos como vai ser. Curiosamente quanto as canções não acho que sejam longas, são narrativas por camadas que vamos descobrindo cada vez que as tocámos. “A noiva”, ou “A gaita” não sabemos como vai soar. Provavelmente vai ser como o que viste em palco e até nem sei o que será, obviamente já pensámos sobre isso, mas se calhar nessa altura vão aparecer outras coisas e seja o tempo a dar-nos essa resposta. Vamos vivendo, tocando e quando chegar ao álbum vai ser um cabaz, mas não sei é como vai soar.

https://www.youtube.com/watch?v=uOo4ymyWZ2I

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