Um olhar sobre o mundo Português

Em dia de aniversário, desta vez o sexto, nada melhor do que muitas mulheres maravilhosas e poderosas no seu dia especial. 

                        

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Tiago Rodrigues é o mais recente director artístico do Teatro Nacional D.Maria II, que assume com paixão a missão de manter as portas abertas para o público português, com uma programação diversificada e de qualidade, de uma instituição com 171 anos de existência e por onde passaram as maiores figuras da cultura portuguesa. Mas, o seu amor pelo teatro vai mais longe do que isso, o seu desejo é libertar as palavras muito para além das fronteiras físicas do teatro, é levar à língua portuguesa pelo mundo.

Quando assumiu à direcção do Teatro Dona Maria II(TDMII) em 2015, faz dois anos, como foi transitar de uma companhia teatral própria em que fazia toda a gestão para um universo muito diferente que é um teatro nacional? Quais foram os desafios que encontrou?
Tiago Rodrigues: Em primeiro lugar foi uma mudança radical, porque dirigi uma companhia em que fazia o meu próprio trabalho, os meus dias eram ocupados com os espectáculos que queria fazer, encontrar as condições adequadas para apresentá-los, fazer digressões e portanto fundamentalmente era um trabalho artístico de criação. Ao ir para o TNDII há toda uma dimensão que sempre me animou, porque de certa forma sempre foi um organizador de encontros, de laborátórios, mas nunca tinha sido um programador. Quando vou para um teatro nacional, um dos maiores do país e uma das mais prestigiadas instituições culturais da nação, a minha missão passa a ser mais do que do artista, que continua a ter a paixão d encenar e de trabalhar como actor, é o de programar um teatro desta dimensão, com uma identidade própria que deve promover a grande dramaturgia, a escrita de novos textos em português, que deve apoiar e divulgar o teatro que se faz não só em Lisboa, mas em todo o país. O TNDMII deve também fazer digressões, apoiar e publicar peças de teatro para a juventude, ou seja, tem uma dimensão de serviço público, na qual me revejo completamente, embora seja uma função nova para mim. Neste momento, a direcção artística ocupa todos os meus dias, há também toda uma responsabilidade de saber que se esta a contribuir para que o trabalho destes artistas seja acessível ao público e essa contribuição faz com que haja decisões que influeciam o percurso e a vida de muitas companhias. Por vezes tenho momentos difíceis, escolher entre este espectáculo em vez de outro, quando temos duas propostas na mesa e só podemos fazer uma, estámos a dizer um sim a uma, mas também um não, que é também muito importante para esses artistas e essa é uma função ainda muito nova para mim. É uma trabalho formidável porque me permite que aconteçam coisas que há muito tempo eu exigia que acontecessem, agora, estou do lado de quem tem as ferramentas para desenvolver esse trabalho. Outra grande alteração para mim foi passar de uma companhia onde erámos três, para uma de âmbito nacional onde somos de forma geral 90, por regra um teatro desta envergadura tem de 120 a 150 pessoas a trabalhar em permanência, quotidianamente, naquele edifício. São dias muito intensos e exigentes, mas ao mesmo tempo muito entusiasmantes, estar rodeado de uma grande diversidade de artistas, de profissionais, técnicos, espectadores e trabalhar arduamente para haver cada mais e melhor teatro e cada vez mais portugueses poderem fruirem dele.

Vamos abordar à programação, o TNDMII tem parceiras com companhias de teatro convidadas que tem outro tipo de postura e como é que se faz a gestão desses grupos com a companhia fixa?
TR: O teatro nacional é uma casa de criação, isto significa que deve ter e cada vez mais as ferramentas para fazerem os seus próprios espectáculos e as suas produções. Estes dois espectáculos que apresentámos no Baltazar Dias, no âmbito da rede Eunice, são exemplo disso, “Ifigénia” é uma criação do TNDMII e a “Origem das espécies” também. São produções feitas inteiramente com os nossos recursos, mas também sabemos que no panorama nacional português, o teatro nacional é fundamental para que as companhias independentes de teatro tenham casa, palcos e dinheiro para fazer o seu trabalho. Muitos deste grupos não tem espaços, mas mesmo que tenham não é na escala do D.Maria II e nesse âmbito temos toda uma equipa técnica e administrativa que cumpre o seu serviço. Por ano, temos quatro a cinco produções e mais de 30 co-produções, portanto, há espectáculos que são inteiramente criados neste teatro. Depois, temos recursos para as companhias que nos vêm visitar, para habitar a casa durante o tempo que demorar a criar e apresentar um espectáculo.

Como é que faz a selecção dessas propostas? O que tem de ter em consideração para a linha programatória do TNDMII?
TR: O modo como acontece é um diálogo constante com companhias e artistas, que tanto pode passar pela propostas desses grupos de teatro, na maior parte dos casos, são eles que tomam a iniciativa, mas também pode passar pelo eu ir ver como um grupo, um artista, ou artistas trabalham e lançar um desafio. Se por um lado, temos os “O bando” que nos próximos meses vai criar a “Divina comédia” no teatro nacional e foi um desafio que aceitámos com alegria e entusiasmo. Também vamos ter a coreográfa e encenadora Marlene Monteiro Freitas a fazer uma criação das “Bacantes” que é um desafio que lhe lançámos. Mas é verdade que recebemos muitíssimas propostas com qualidade para serem apresentadas no TNDMII, muito mais do que conseguimos acolher em termos de espaço e dinheiro. Dispomos de duas salas e um orçamento que cresceu recentemente, mas mesmo assim, coloca-nos limitações e portanto, não temos condições para dizer sim a todos os espectáculos com qualidade e pertinência para estar no teatro nacional. Felizmente há mais teatros em Portugal a apoiar os grupos de teatros e começa a haver um território mais fértil e mais sério para que as companhias tenham casas para apresentar o seu repertório. Contudo, sabemos que o TNDMII é um motor para os grupos independentes e não podemos só ter os nossos próprios espectáculos, tem de ser um espaço aberto para outros, para apresentarem os seus espectáculos, para ajudá-los na criação artística, porque esta instituição tem valências que já são raras, ou que quase não se encontram em lado nenhum, costureiras, carpinteiros, ou seja, temos trabalhadores que permitem criar um espectáculo do primeiro ao último momento. Os critérios de selecção tem a ver com a interpretação daquilo que é a nossa ambição, o D.Maria II tem uma missão que esta consagrada na lei e os critérios de selecção surgem dessa leitura. E, o que é que é isso de divulgar a dramaturgia clássica? É procurar artistas e companhias de teatro que tendo uma linguagem contemporânea, estão interessados em fazer um repertório clássico. Quem é que hoje faz Molière e torna acessível o “O impromptu de Versalhes” que foi um dos grandes sucessos da última temporada? Foi uma encenação como a de Miguel Moreira com o seu olhar do presente sobre aquele texto. Mas para quê é nos servem essas grandes obras? É pensar como é que vivemos, como é a nossa sociedade e esse é um dos critérios quando fazemos um grande clássico, não com a convenção em que foi escrito, mas com a linguagem de hoje a dialogar com esse grande texto.

Acha que esse é o seu cunho pessoal? O ano passado foi dedicado todo a Shakespeare, em 2016 há muitos dramaturgos gregos, mas não apenas falo dos textos, mas também das interpretações ou re-interpretações dessas obras.
TR: Cada director artístico tem precisamente como missão aquilo que são as obrigações de um teatro nacional e eu entendo que a única relevância de montar grandes textos sejam eles clássicos, ou de repertórios mais contemporâneo, como acontece com “O duelo” de Bernardo Santareno que esta em cena na sala Garret, a única razão para os fazer é que eles são relevantes hoje, mas tem de ser vistos com um olhar actual. Senão estámos a ver uma grande obra como se fosse uma peça de museu, como algo distante de nós, daquele tempo que é muito importante. Agora, se a razão de fazer um Molière, ou um Shakespeare, um Racine, mas também um Samuel Becket, um Eugene O'Neill, um Bernardo Santareno e um Luís de Staus-Monteiro for apenas porque é um texto importante ponto, então basta publicá-lo e dá-lo a ler as pessoas. O motivo de o montar em palco prende-se com a urgência que os nossos dias tem daquele texto, de dizer sim, é uma grande obra, mas para o vermos hoje, porque vive-lo e partilhá-lo com uma grande sala, porque coloca questões sobre a nossa vida, sobre a sociedade actual. Esses textos são como lentes, ou óculos que colocámos para ver o mundo. Como é que vemos o Funchal pelas lentes de Sofócles?

Então como é que “Ifigénia” é um olhar sobre a sociedade contemporânea?
TR: A “Ifigénia” mais do que uma representação é uma reescrita, inspirada na peça de Eurípedes. É uma reescrição actual, uma das coisas que nos conduziu, sobretudo, depois de a termos lido em grupo e termos discutido bastante, foi a questão do inevitável. “Ifigénia” aborda um sacrifício que todos consideram inevitável a bem do país. É um espectáculo num tempo em que em Portugal, durante muitos anos, uma minoria decidiu que havia sacrifícios inevitáveis a fazer a bem de todos. Essa ideia do sacrifício em nome de uma nação e o combate que há entre o indivíduo, a história pessoal humana e o bem de todos foi algo que nos interessou muito. Mas, sem falar explicitamente de austeridade, ou sobre o que esta a acontecer hoje, isto porquê? Porque quando o criámos há um ano e meio sensivelmente Portugal era outro, hoje, vivemos num país com outro governo, com outros fenónemos e ideias a acontecer. Ao falarmos de grandes obras, como as “Bacantes”, esse texto hoje continua a valer a pena ser feito, não só porque é fenomenal, mas porque fala de nós, deste momento, também. Esperemos que abordando estes textos continuemos a falar de nós daqui a 10 ou 20 anos, essa é a definição dos clássicos, fala de nós em todos os tempos. São intemporais, não porque não tenham uma data, porque notámos que é um texto antigo, mas o que se diz viverá 400, 1000 anos, o que foca se reflecte nos dias hoje e essa é uma das ambições, julgo eu de toda a gente, que escolhe textos para montar em cena. São obras também importantes para percebermos que teatro estámos a fazer hoje e portanto, quando um encenador como o Miguel Moreira esta neste momento a encenar “O duelo” e apresenta uma versão inesperada também estámos a falar do texto de Bernardo Santareno, da sua força no nosso tempo, mas também do encontro hoje e do que foi feito em 1971 quando o TNDMII estreou esta obra com à Eunice Muñoz e o João Perry. E aquilo que o Miguel faz com a sua linguagem é questionar essa obra, pôr em causa a sua validade, afinal para que nós serve? E em última análise fez um belíssimo espectáculo que toca as pessoas e as emociona, porque a verdade é que o teatro que fazemos é o que queremos que questione, mas também que seja um lugar de festa, assim como, os teatros que visitámos. O D.Maria II tem sempre de salvaguardar essa dimensão lúdica, festiva de jogo que é o teatro.

Assim, como também é muito importante a forma como os actores interpretam, a encenação, o aspecto visual e o que se passa em palco corresponda a uma descoberta actual, a um teatro que os artistas querem fazer com urgência, porque é verdade que há uma dimensão de serviço público que temos de cumprir e é para isso um teatro nacional, mas antes de ser uma missão é algo que para os artistas é inquantificável, invisível, porque eles são animados, alimentados pela necessidade de fazer teatro e e é isso que o público procura. E pode haver aquele género, ou este autor, mas o teatro nacional exige que haja uma reflexão maior do que a de um espaço mais vocacionado para o entretenimento, acima de tudo o que o público pretende é um teatro em que aquilo que as pessoas estão em palco a expressar o desejam fazer e essa urgência e de toda a equipa de fazer aquele espectáculo esta na origem de tudo. Sem estes artistas de grande qualidade, muitas vezes enfrentando grandes dificuldades e sacrifícios pessoais que continuam apaixonadamente a fazer teatro, não havia serviço público, que são os alicerces do que fazemos no D.Maria II e em todos os teatros da rede Eunice. Em Portugal há muitos teatros e quando nos procuram espero que saiam satisfeitos e surpreendidos muitas vezes, o teatro tem de ter esse mistério, de que quando compro aquele bilhete eu não sei ao que me vai sair, acima de tudo tem de haver essa dimensão da surpresa.

 

Nessa dinâmica insere-se à rede Eunice? Como tem sido o impacto não só junto do público, como dos teatros onde levam estas peças?
TR: A rede Eunice que entrou em vigor agora, é um projecto que começámos a desenvolver desde há dois anos. Seleccionámos, através de candidaturas públicas três teatros um no Funchal, outro em Vila Real e um terceiro no Sardoal, que correspondem à nossa vontade e obrigação de estarmos mais presentes em todo o território português e não apenas no edifício do teatro nacional, que é um monumento belíssimo, mas é mais do que uma instituição física é uma ideia de teatro. O D.Maria II deve estar presente junto do maior número de portugueses possíveis, porque eles são responsáveis para que este teatro exista e tem direito a esse serviço público que prestámos. Criámos o Eunice para isso e esta primeira temporada esta a correr muitíssimo bem, a recepção nos três teatros é fenomenal, em primeiro lugar, porque temos esgotado todas as sessões e em todos os espaços. É algo absolutamente incrível, é fora de série, por outro lado, percebemos não só a hospitalidade, mas a extrema competência com que somos recebidos. Contudo, não se trata só de mais um espectáculo que vai visitar aquele palco, trata-se de uma relação cúmplice que vai durar alguns anos e de trabalhar em conjunto, ou seja, não queríamos vir apenas a uma cidade numa espécie de digressão, atropelamento e fuga que é, correu muito bem, tivemos um belo fim-de-semana e depois sabemos lá quando voltámos e podemos dizer que até fomos à Madeira, não é isso que queremos. O objectivo é criar uma relação, ser cúmplices do que se faz no Funchal e em Lisboa, queremos dialogar em permanência e inscrever-nos na história das pessoas que trabalham neste teatro, do que vêem e queremos que eles também façam parte do historial do teatro nacional e isso exige uma relação. Em Maio estámos de volta com “As criadas”, no Outono vamos apresentar um outro espectáculo que não posso revelar e no início de 2018 estaremos de volta.

Quais foram os aspectos que tiveram em consideração para a escolha desses três teatros? E porquê tão poucos para já?
TR: São poucos teatros, porque é um investimento enorme do TNDMII para conseguir estar de forma regular, ou seja, em vez de serem 9 espaços onde estámos só uma vez, são poucos onde vamos várias vezes ao ano, é essa ida regular que permite desenvolver uma relação, que pode criar um público e ajudar no percurso, por exemplo, do Baltazar Dias nos próximos anos seja diferente por ter-nos como parceiro e vice-versa. Queremos que esta relação seja de parceria e isso obriga-nos a em vez de apostar em muitos teatros, apostámos em menos espaços, mas com maior frequência e na próxima temporada seremos quatro. As candidaturas estão abertas para que mais espaço faça parte desta rede e a cada ano que passa vamos acrescentando mais teatros. E em vez de fazer o que muitas vezes, infelizmente se faz também na área da cultura que é um grande fogo-de-artifício e um grande espalhafato, durante um tempo limitado e depois quando vamos ver o que sobrou não há grandes consequências, queremos lentamente, solidamente construir uma relação e esperar que daqui a 5, 6,7,8 anos esta rede Eunice seja uma ferramenta fundamental para haver mais igualdade de acesso à cultura em Portugal. Quando fecham umas urgências, ou um tribunal há manifestações, quando se fecha um teatro não há grandes levantamentos, porque parece que não nos faz falta amanhã, não nos incomoda no dia-a-dia. Então, silenciosamente vão-se roubando oportunidades dessa comunidade que vão ao teatro, depois tem de ir-se para outra cidade e silenciosamente essa assimetria vai-se aprofundando, nós queremos que o máximo de portugueses tenha acesso ao teatro e vamos contribuir com o que nos é possível.

Quais então foram os critérios de escolhas destes teatros?
TR: Um dos critérios foi a capacidade técnica de os espaços acolherem os espectáculos, obviamente. Outro que considerámos fundamental, o facto de investirmos neste público faria diferença para esse teatro? E que não fossemos semear num terreno árido, tinham de ser espaços que tinham de estar a fazer um trabalho excelente, com qualidade, com coragem naquilo que é a oferta cultural da cidade e identificámos três com características diferentes e também procurámos essa diversidade, também que estivessem bem espalhados pelo território nacional e é isso que se pretende na rede Eunice, queremos que esteja presente em toda a geográfia do país e esperemos que nos próximos anos consigámos atingir esse objectivo e o maior número de portugueses. O fundamental foi encontrar parceiros onde se fizesse um trabalho notável e que face aos obstáculos orçamentais, ou as condições, ou a experiência que se tem a nossa presença pudesse contribuir para que aquele teatro fosse ainda mais longe. Não houve critérios políticos, regionais ou de território, mais foi de análise das candidaturas e do que era o discurso que o próprio teatro sobre esta rede. Depois houve visitas aos espaços numa segunda fase, conheceram-se os teatros e as pessoas e na cultura do teatro é muito importante saber quem esta à frente nos projectos e isso às vezes é o factor que muda tudo, porque em Portugal durante muito anos tem sido tratado como parente muito pobre e faz-se a custa da paixão, da competência e do espírito de sacrifício das pessoas que estão ligadas à cultura. Ao contrário de outras actividades profissionais a competência não chega é preciso ser mais, porque se enfrentam obstáculos que geram muita frustração, não é um dado adquirido na sociedade portuguesa que a cultura é um motor em igualdade, como a educação. É preciso ser-se muito apaixonado pelo que se faz, dinamizar projectos e o facto humano é essencial. Na rede Eunice a paixão e a competência destas equipas que conduzem estes teatros foi fundamental para esta escolha.

No TNDMII há agora apresentação de livros, um espaço para os poetas e a literatura também ocupa um espaço essencial nesta programação. Porquê desta escolha?
TR: O teatro nacional foi fundado por um escritor em 1846, é um espaço da palavra. Esse é traço identitário daquele teatro, seja para crianças ou adultos, formação, criação ou debate tudo esta ligado a palavra. Tem-se trabalhado muito com crianças, com espectáculos sobre à questão da leitura. Temos o clube dos poetas vivos em parceria com à Casa Fernando Pessoa em que há um poeta presente e é um dos grandes sucessos da programação, temos tido salas a abarrotar, já dura há um ano e continuará, porque há cada vez mais poetas dispostos a estarem presentes, partilhar com o público à sua poesia e actores do teatro nacional disponíveis para lerem os seus poemas. Somos também uma das maiores editoras de teatro português, há outras, editámos estudos e ensaios, mas é absolutamente essencial reclamarmos e reivindicarmos até o poder das palavras na sociedade contemporânea e o TNDMII por ser um espaço que acaba por ter esse papel. Na fachada do Rossio esta escrita a frase palavras para quê? Que é um pouco o slogan deste trimestre, porque temos textos fantásticos e também novas obras que não sei se são fantásticas ou não, porque estão a ser escritas para os espectáculos, mas temos essa aposta de um teatro que nos oferece palavras sobre o mundo que nos rodeia. Como falava há pouco, num mundo onde nos roubam a capacidade de falar, em que a nossa voz é manipulada, por exemplo, por movimentos populistas e transformadas em outras coisas, em que apesar de votarmos no fundo não temos grande poder sobre o desenrolar dos acontecimentos e penso até que Portugal não é dos casos mais graves, vemos isso mais na Europa e nos EUA de onde regressei há algumas semanas, a sensação de impotência nas pessoas é enorme e acho que vale a pena perguntar-nos de que forma podemos resgatar as palavras. O teatro isso é importante confiar no poder transformador das palavras, na forma como nos permitem participar diariamente no mundo e uns com os outros, pode não ser num teatro, pode até ser numa praça, ou um jardim, mas o importante é falarmos um a um e depois abordámos uma outra pessoa e já somos três e esta é a escala humana, uma série de desconhecidos a partilhar palavras e se não mantivermos essa confiança, eu iria até mais longe, essa fé no poder transformar das palavras, então, no meu caso, mais valia apagar as luzes, fechar a porta e esperar pela próxima pessoa.

Nunca se colocou à hipótese do TNDMII deslocar-se até o estrangeiro, em digressão, um pouco como a rede Eunice, mas para o exterior?
TR: Tem acontecido. O teatro nacional tem feito muita digressão no estrangeiro e posso dizer que fez mais espectáculos nos estrangeiro, nestes dois últimos anos, do que nos 169 anos anteriores. Estámos a fazer co-produções com companhias e festivais de teatro internacionais, mas vamos ter em breve grandes notícias que não posso revelar nessa matéria. Fazemos parte de uma rede internacional de 11 países que nos vai permitir convidar artistas estrangeiros com financiamento europeu, mas também fazer circular os artistas portugueses pelo estrangeiro. Tem sido um trabalho de diplomacia cultural importantíssimo para o D.Maria II e agora estámos a desenvolver parcerias para integrar outras redes e diria que tem sido este o trabalho que tem marcado estes dois últimos anos. O D.Maria II tem de ser um um teatro nacional e europeu porque esta localizado num país da Europa, tem de ser também um mundial e nesse âmbito temos tido digressões nos EUA, no Canadá e queremos trabalhar com à América do Sul e África. Temos espectáculos de companhias estrangeiras que virão a ser apresentados no teatro nacional e esta é uma auto-estrada com muitas vias, embora tenhámos uma missão fundamental junto das companhias, dos artistas e do público português, a verdade é que estámos inseridos num continente e num mundo em que não podemos considerar que o TNDMII pertence só aos seus cidadãos, queremos que seja de todos os portugueses, que os artistas nacionais tenham melhores condições de trabalho dentro e fora do país e dos públicos do mundo.

  

Tiago Rodrigues é o mais recente director artístico do Teatro Nacional D.Maria II, que assume com paixão a missão de manter as portas abertas para o público português, com uma programação diversificada e de qualidade, de uma instituição com 171 anos de existência e por onde passaram as maiores figuras da cultura portuguesa. Mas, o seu amor pelo teatro vai mais longe do que isso, o seu desejo é libertar as palavras muito para além das fronteiras físicas do teatro, é levar à língua portuguesa pelo mundo.

Quando assumiu à direcção do Teatro Dona Maria II(TDMII) em 2015, faz dois anos, como foi transitar de uma companhia teatral própria em que fazia toda a gestão para um universo muito diferente que é um teatro nacional? Quais foram os desafios que encontrou?
Tiago Rodrigues: Em primeiro lugar foi uma mudança radical, porque dirigi uma companhia em que fazia o meu próprio trabalho, os meus dias eram ocupados com os espectáculos que queria fazer, encontrar as condições adequadas para apresentá-los, fazer digressões e portanto fundamentalmente era um trabalho artístico de criação. Ao ir para o TNDII há toda uma dimensão que sempre me animou, porque de certa forma sempre foi um organizador de encontros, de laborátórios, mas nunca tinha sido um programador. Quando vou para um teatro nacional, um dos maiores do país e uma das mais prestigiadas instituições culturais da nação, a minha missão passa a ser mais do que do artista, que continua a ter a paixão d encenar e de trabalhar como actor, é o de programar um teatro desta dimensão, com uma identidade própria que deve promover a grande dramaturgia, a escrita de novos textos em português, que deve apoiar e divulgar o teatro que se faz não só em Lisboa, mas em todo o país. O TNDMII deve também fazer digressões, apoiar e publicar peças de teatro para a juventude, ou seja, tem uma dimensão de serviço público, na qual me revejo completamente, embora seja uma função nova para mim. Neste momento, a direcção artística ocupa todos os meus dias, há também toda uma responsabilidade de saber que se esta a contribuir para que o trabalho destes artistas seja acessível ao público e essa contribuição faz com que haja decisões que influeciam o percurso e a vida de muitas companhias. Por vezes tenho momentos difíceis, escolher entre este espectáculo em vez de outro, quando temos duas propostas na mesa e só podemos fazer uma, estámos a dizer um sim a uma, mas também um não, que é também muito importante para esses artistas e essa é uma função ainda muito nova para mim. É uma trabalho formidável porque me permite que aconteçam coisas que há muito tempo eu exigia que acontecessem, agora, estou do lado de quem tem as ferramentas para desenvolver esse trabalho. Outra grande alteração para mim foi passar de uma companhia onde erámos três, para uma de âmbito nacional onde somos de forma geral 90, por regra um teatro desta envergadura tem de 120 a 150 pessoas a trabalhar em permanência, quotidianamente, naquele edifício. São dias muito intensos e exigentes, mas ao mesmo tempo muito entusiasmantes, estar rodeado de uma grande diversidade de artistas, de profissionais, técnicos, espectadores e trabalhar arduamente para haver cada mais e melhor teatro e cada vez mais portugueses poderem fruirem dele.

Vamos abordar à programação, o TNDMII tem parceiras com companhias de teatro convidadas que tem outro tipo de postura e como é que se faz a gestão desses grupos com a companhia fixa?
TR: O teatro nacional é uma casa de criação, isto significa que deve ter e cada vez mais as ferramentas para fazerem os seus próprios espectáculos e as suas produções. Estes dois espectáculos que apresentámos no Baltazar Dias, no âmbito da rede Eunice, são exemplo disso, “Ifigénia” é uma criação do TNDMII e a “Origem das espécies” também. São produções feitas inteiramente com os nossos recursos, mas também sabemos que no panorama nacional português, o teatro nacional é fundamental para que as companhias independentes de teatro tenham casa, palcos e dinheiro para fazer o seu trabalho. Muitos deste grupos não tem espaços, mas mesmo que tenham não é na escala do D.Maria II e nesse âmbito temos toda uma equipa técnica e administrativa que cumpre o seu serviço. Por ano, temos quatro a cinco produções e mais de 30 co-produções, portanto, há espectáculos que são inteiramente criados neste teatro. Depois, temos recursos para as companhias que nos vêm visitar, para habitar a casa durante o tempo que demorar a criar e apresentar um espectáculo.

Como é que faz a selecção dessas propostas? O que tem de ter em consideração para a linha programatória do TNDMII?
TR: O modo como acontece é um diálogo constante com companhias e artistas, que tanto pode passar pela propostas desses grupos de teatro, na maior parte dos casos, são eles que tomam a iniciativa, mas também pode passar pelo eu ir ver como um grupo, um artista, ou artistas trabalham e lançar um desafio. Se por um lado, temos os “O bando” que nos próximos meses vai criar a “Divina comédia” no teatro nacional e foi um desafio que aceitámos com alegria e entusiasmo. Também vamos ter a coreográfa e encenadora Marlene Monteiro Freitas a fazer uma criação das “Bacantes” que é um desafio que lhe lançámos. Mas é verdade que recebemos muitíssimas propostas com qualidade para serem apresentadas no TNDMII, muito mais do que conseguimos acolher em termos de espaço e dinheiro. Dispomos de duas salas e um orçamento que cresceu recentemente, mas mesmo assim, coloca-nos limitações e portanto, não temos condições para dizer sim a todos os espectáculos com qualidade e pertinência para estar no teatro nacional. Felizmente há mais teatros em Portugal a apoiar os grupos de teatros e começa a haver um território mais fértil e mais sério para que as companhias tenham casas para apresentar o seu repertório. Contudo, sabemos que o TNDMII é um motor para os grupos independentes e não podemos só ter os nossos próprios espectáculos, tem de ser um espaço aberto para outros, para apresentarem os seus espectáculos, para ajudá-los na criação artística, porque esta instituição tem valências que já são raras, ou que quase não se encontram em lado nenhum, costureiras, carpinteiros, ou seja, temos trabalhadores que permitem criar um espectáculo do primeiro ao último momento. Os critérios de selecção tem a ver com a interpretação daquilo que é a nossa ambição, o D.Maria II tem uma missão que esta consagrada na lei e os critérios de selecção surgem dessa leitura. E, o que é que é isso de divulgar a dramaturgia clássica? É procurar artistas e companhias de teatro que tendo uma linguagem contemporânea, estão interessados em fazer um repertório clássico. Quem é que hoje faz Molière e torna acessível o “O impromptu de Versalhes” que foi um dos grandes sucessos da última temporada? Foi uma encenação como a de Miguel Moreira com o seu olhar do presente sobre aquele texto. Mas para quê é nos servem essas grandes obras? É pensar como é que vivemos, como é a nossa sociedade e esse é um dos critérios quando fazemos um grande clássico, não com a convenção em que foi escrito, mas com a linguagem de hoje a dialogar com esse grande texto.

Acha que esse é o seu cunho pessoal? O ano passado foi dedicado todo a Shakespeare, em 2016 há muitos dramaturgos gregos, mas não apenas falo dos textos, mas também das interpretações ou re-interpretações dessas obras.
TR: Cada director artístico tem precisamente como missão aquilo que são as obrigações de um teatro nacional e eu entendo que a única relevância de montar grandes textos sejam eles clássicos, ou de repertórios mais contemporâneo, como acontece com “O duelo” de Bernardo Santareno que esta em cena na sala Garret, a única razão para os fazer é que eles são relevantes hoje, mas tem de ser vistos com um olhar actual. Senão estámos a ver uma grande obra como se fosse uma peça de museu, como algo distante de nós, daquele tempo que é muito importante. Agora, se a razão de fazer um Molière, ou um Shakespeare, um Racine, mas também um Samuel Becket, um Eugene O'Neill, um Bernardo Santareno e um Luís de Staus-Monteiro for apenas porque é um texto importante ponto, então basta publicá-lo e dá-lo a ler as pessoas. O motivo de o montar em palco prende-se com a urgência que os nossos dias tem daquele texto, de dizer sim, é uma grande obra, mas para o vermos hoje, porque vive-lo e partilhá-lo com uma grande sala, porque coloca questões sobre a nossa vida, sobre a sociedade actual. Esses textos são como lentes, ou óculos que colocámos para ver o mundo. Como é que vemos o Funchal pelas lentes de Sofócles?

Então como é que “Ifigénia” é um olhar sobre a sociedade contemporânea?
TR: A “Ifigénia” mais do que uma representação é uma reescrita, inspirada na peça de Eurípedes. É uma reescrição actual, uma das coisas que nos conduziu, sobretudo, depois de a termos lido em grupo e termos discutido bastante, foi a questão do inevitável. “Ifigénia” aborda um sacrifício que todos consideram inevitável a bem do país. É um espectáculo num tempo em que em Portugal, durante muitos anos, uma minoria decidiu que havia sacrifícios inevitáveis a fazer a bem de todos. Essa ideia do sacrifício em nome de uma nação e o combate que há entre o indivíduo, a história pessoal humana e o bem de todos foi algo que nos interessou muito. Mas, sem falar explicitamente de austeridade, ou sobre o que esta a acontecer hoje, isto porquê? Porque quando o criámos há um ano e meio sensivelmente Portugal era outro, hoje, vivemos num país com outro governo, com outros fenónemos e ideias a acontecer. Ao falarmos de grandes obras, como as “Bacantes”, esse texto hoje continua a valer a pena ser feito, não só porque é fenomenal, mas porque fala de nós, deste momento, também. Esperemos que abordando estes textos continuemos a falar de nós daqui a 10 ou 20 anos, essa é a definição dos clássicos, fala de nós em todos os tempos. São intemporais, não porque não tenham uma data, porque notámos que é um texto antigo, mas o que se diz viverá 400, 1000 anos, o que foca se reflecte nos dias hoje e essa é uma das ambições, julgo eu de toda a gente, que escolhe textos para montar em cena. São obras também importantes para percebermos que teatro estámos a fazer hoje e portanto, quando um encenador como o Miguel Moreira esta neste momento a encenar “O duelo” e apresenta uma versão inesperada também estámos a falar do texto de Bernardo Santareno, da sua força no nosso tempo, mas também do encontro hoje e do que foi feito em 1971 quando o TNDMII estreou esta obra com à Eunice Muñoz e o João Perry. E aquilo que o Miguel faz com a sua linguagem é questionar essa obra, pôr em causa a sua validade, afinal para que nós serve? E em última análise fez um belíssimo espectáculo que toca as pessoas e as emociona, porque a verdade é que o teatro que fazemos é o que queremos que questione, mas também que seja um lugar de festa, assim como, os teatros que visitámos. O D.Maria II tem sempre de salvaguardar essa dimensão lúdica, festiva de jogo que é o teatro.

Assim, como também é muito importante a forma como os actores interpretam, a encenação, o aspecto visual e o que se passa em palco corresponda a uma descoberta actual, a um teatro que os artistas querem fazer com urgência, porque é verdade que há uma dimensão de serviço público que temos de cumprir e é para isso um teatro nacional, mas antes de ser uma missão é algo que para os artistas é inquantificável, invisível, porque eles são animados, alimentados pela necessidade de fazer teatro e e é isso que o público procura. E pode haver aquele género, ou este autor, mas o teatro nacional exige que haja uma reflexão maior do que a de um espaço mais vocacionado para o entretenimento, acima de tudo o que o público pretende é um teatro em que aquilo que as pessoas estão em palco a expressar o desejam fazer e essa urgência e de toda a equipa de fazer aquele espectáculo esta na origem de tudo. Sem estes artistas de grande qualidade, muitas vezes enfrentando grandes dificuldades e sacrifícios pessoais que continuam apaixonadamente a fazer teatro, não havia serviço público, que são os alicerces do que fazemos no D.Maria II e em todos os teatros da rede Eunice. Em Portugal há muitos teatros e quando nos procuram espero que saiam satisfeitos e surpreendidos muitas vezes, o teatro tem de ter esse mistério, de que quando compro aquele bilhete eu não sei ao que me vai sair, acima de tudo tem de haver essa dimensão da surpresa.

 

Nessa dinâmica insere-se à rede Eunice? Como tem sido o impacto não só junto do público, como dos teatros onde levam estas peças?
TR: A rede Eunice que entrou em vigor agora, é um projecto que começámos a desenvolver desde há dois anos. Seleccionámos, através de candidaturas públicas três teatros um no Funchal, outro em Vila Real e um terceiro no Sardoal, que correspondem à nossa vontade e obrigação de estarmos mais presentes em todo o território português e não apenas no edifício do teatro nacional, que é um monumento belíssimo, mas é mais do que uma instituição física é uma ideia de teatro. O D.Maria II deve estar presente junto do maior número de portugueses possíveis, porque eles são responsáveis para que este teatro exista e tem direito a esse serviço público que prestámos. Criámos o Eunice para isso e esta primeira temporada esta a correr muitíssimo bem, a recepção nos três teatros é fenomenal, em primeiro lugar, porque temos esgotado todas as sessões e em todos os espaços. É algo absolutamente incrível, é fora de série, por outro lado, percebemos não só a hospitalidade, mas a extrema competência com que somos recebidos. Contudo, não se trata só de mais um espectáculo que vai visitar aquele palco, trata-se de uma relação cúmplice que vai durar alguns anos e de trabalhar em conjunto, ou seja, não queríamos vir apenas a uma cidade numa espécie de digressão, atropelamento e fuga que é, correu muito bem, tivemos um belo fim-de-semana e depois sabemos lá quando voltámos e podemos dizer que até fomos à Madeira, não é isso que queremos. O objectivo é criar uma relação, ser cúmplices do que se faz no Funchal e em Lisboa, queremos dialogar em permanência e inscrever-nos na história das pessoas que trabalham neste teatro, do que vêem e queremos que eles também façam parte do historial do teatro nacional e isso exige uma relação. Em Maio estámos de volta com “As criadas”, no Outono vamos apresentar um outro espectáculo que não posso revelar e no início de 2018 estaremos de volta.

Quais foram os aspectos que tiveram em consideração para a escolha desses três teatros? E porquê tão poucos para já?
TR: São poucos teatros, porque é um investimento enorme do TNDMII para conseguir estar de forma regular, ou seja, em vez de serem 9 espaços onde estámos só uma vez, são poucos onde vamos várias vezes ao ano, é essa ida regular que permite desenvolver uma relação, que pode criar um público e ajudar no percurso, por exemplo, do Baltazar Dias nos próximos anos seja diferente por ter-nos como parceiro e vice-versa. Queremos que esta relação seja de parceria e isso obriga-nos a em vez de apostar em muitos teatros, apostámos em menos espaços, mas com maior frequência e na próxima temporada seremos quatro. As candidaturas estão abertas para que mais espaço faça parte desta rede e a cada ano que passa vamos acrescentando mais teatros. E em vez de fazer o que muitas vezes, infelizmente se faz também na área da cultura que é um grande fogo-de-artifício e um grande espalhafato, durante um tempo limitado e depois quando vamos ver o que sobrou não há grandes consequências, queremos lentamente, solidamente construir uma relação e esperar que daqui a 5, 6,7,8 anos esta rede Eunice seja uma ferramenta fundamental para haver mais igualdade de acesso à cultura em Portugal. Quando fecham umas urgências, ou um tribunal há manifestações, quando se fecha um teatro não há grandes levantamentos, porque parece que não nos faz falta amanhã, não nos incomoda no dia-a-dia. Então, silenciosamente vão-se roubando oportunidades dessa comunidade que vão ao teatro, depois tem de ir-se para outra cidade e silenciosamente essa assimetria vai-se aprofundando, nós queremos que o máximo de portugueses tenha acesso ao teatro e vamos contribuir com o que nos é possível.

Quais então foram os critérios de escolhas destes teatros?
TR: Um dos critérios foi a capacidade técnica de os espaços acolherem os espectáculos, obviamente. Outro que considerámos fundamental, o facto de investirmos neste público faria diferença para esse teatro? E que não fossemos semear num terreno árido, tinham de ser espaços que tinham de estar a fazer um trabalho excelente, com qualidade, com coragem naquilo que é a oferta cultural da cidade e identificámos três com características diferentes e também procurámos essa diversidade, também que estivessem bem espalhados pelo território nacional e é isso que se pretende na rede Eunice, queremos que esteja presente em toda a geográfia do país e esperemos que nos próximos anos consigámos atingir esse objectivo e o maior número de portugueses. O fundamental foi encontrar parceiros onde se fizesse um trabalho notável e que face aos obstáculos orçamentais, ou as condições, ou a experiência que se tem a nossa presença pudesse contribuir para que aquele teatro fosse ainda mais longe. Não houve critérios políticos, regionais ou de território, mais foi de análise das candidaturas e do que era o discurso que o próprio teatro sobre esta rede. Depois houve visitas aos espaços numa segunda fase, conheceram-se os teatros e as pessoas e na cultura do teatro é muito importante saber quem esta à frente nos projectos e isso às vezes é o factor que muda tudo, porque em Portugal durante muito anos tem sido tratado como parente muito pobre e faz-se a custa da paixão, da competência e do espírito de sacrifício das pessoas que estão ligadas à cultura. Ao contrário de outras actividades profissionais a competência não chega é preciso ser mais, porque se enfrentam obstáculos que geram muita frustração, não é um dado adquirido na sociedade portuguesa que a cultura é um motor em igualdade, como a educação. É preciso ser-se muito apaixonado pelo que se faz, dinamizar projectos e o facto humano é essencial. Na rede Eunice a paixão e a competência destas equipas que conduzem estes teatros foi fundamental para esta escolha.

No TNDMII há agora apresentação de livros, um espaço para os poetas e a literatura também ocupa um espaço essencial nesta programação. Porquê desta escolha?
TR: O teatro nacional foi fundado por um escritor em 1846, é um espaço da palavra. Esse é traço identitário daquele teatro, seja para crianças ou adultos, formação, criação ou debate tudo esta ligado a palavra. Tem-se trabalhado muito com crianças, com espectáculos sobre à questão da leitura. Temos o clube dos poetas vivos em parceria com à Casa Fernando Pessoa em que há um poeta presente e é um dos grandes sucessos da programação, temos tido salas a abarrotar, já dura há um ano e continuará, porque há cada vez mais poetas dispostos a estarem presentes, partilhar com o público à sua poesia e actores do teatro nacional disponíveis para lerem os seus poemas. Somos também uma das maiores editoras de teatro português, há outras, editámos estudos e ensaios, mas é absolutamente essencial reclamarmos e reivindicarmos até o poder das palavras na sociedade contemporânea e o TNDMII por ser um espaço que acaba por ter esse papel. Na fachada do Rossio esta escrita a frase palavras para quê? Que é um pouco o slogan deste trimestre, porque temos textos fantásticos e também novas obras que não sei se são fantásticas ou não, porque estão a ser escritas para os espectáculos, mas temos essa aposta de um teatro que nos oferece palavras sobre o mundo que nos rodeia. Como falava há pouco, num mundo onde nos roubam a capacidade de falar, em que a nossa voz é manipulada, por exemplo, por movimentos populistas e transformadas em outras coisas, em que apesar de votarmos no fundo não temos grande poder sobre o desenrolar dos acontecimentos e penso até que Portugal não é dos casos mais graves, vemos isso mais na Europa e nos EUA de onde regressei há algumas semanas, a sensação de impotência nas pessoas é enorme e acho que vale a pena perguntar-nos de que forma podemos resgatar as palavras. O teatro isso é importante confiar no poder transformador das palavras, na forma como nos permitem participar diariamente no mundo e uns com os outros, pode não ser num teatro, pode até ser numa praça, ou um jardim, mas o importante é falarmos um a um e depois abordámos uma outra pessoa e já somos três e esta é a escala humana, uma série de desconhecidos a partilhar palavras e se não mantivermos essa confiança, eu iria até mais longe, essa fé no poder transformar das palavras, então, no meu caso, mais valia apagar as luzes, fechar a porta e esperar pela próxima pessoa.

Nunca se colocou à hipótese do TNDMII deslocar-se até o estrangeiro, em digressão, um pouco como a rede Eunice, mas para o exterior?
TR: Tem acontecido. O teatro nacional tem feito muita digressão no estrangeiro e posso dizer que fez mais espectáculos nos estrangeiro, nestes dois últimos anos, do que nos 169 anos anteriores. Estámos a fazer co-produções com companhias e festivais de teatro internacionais, mas vamos ter em breve grandes notícias que não posso revelar nessa matéria. Fazemos parte de uma rede internacional de 11 países que nos vai permitir convidar artistas estrangeiros com financiamento europeu, mas também fazer circular os artistas portugueses pelo estrangeiro. Tem sido um trabalho de diplomacia cultural importantíssimo para o D.Maria II e agora estámos a desenvolver parcerias para integrar outras redes e diria que tem sido este o trabalho que tem marcado estes dois últimos anos. O D.Maria II tem de ser um um teatro nacional e europeu porque esta localizado num país da Europa, tem de ser também um mundial e nesse âmbito temos tido digressões nos EUA, no Canadá e queremos trabalhar com à América do Sul e África. Temos espectáculos de companhias estrangeiras que virão a ser apresentados no teatro nacional e esta é uma auto-estrada com muitas vias, embora tenhámos uma missão fundamental junto das companhias, dos artistas e do público português, a verdade é que estámos inseridos num continente e num mundo em que não podemos considerar que o TNDMII pertence só aos seus cidadãos, queremos que seja de todos os portugueses, que os artistas nacionais tenham melhores condições de trabalho dentro e fora do país e dos públicos do mundo.

  

Tiago Rodrigues é o mais recente director artístico do Teatro Nacional D.Maria II, que assume com paixão a missão de manter as portas abertas para o público português, com uma programação diversificada e de qualidade, de uma instituição com 171 anos de existência e por onde passaram as maiores figuras da cultura portuguesa. Mas, o seu amor pelo teatro vai mais longe do que isso, o seu desejo é libertar as palavras muito para além das fronteiras físicas do teatro, é levar à língua portuguesa pelo mundo.

Quando assumiu à direcção do Teatro Dona Maria II(TDMII) em 2015, faz dois anos, como foi transitar de uma companhia teatral própria em que fazia toda a gestão para um universo muito diferente que é um teatro nacional? Quais foram os desafios que encontrou?
Tiago Rodrigues: Em primeiro lugar foi uma mudança radical, porque dirigi uma companhia em que fazia o meu próprio trabalho, os meus dias eram ocupados com os espectáculos que queria fazer, encontrar as condições adequadas para apresentá-los, fazer digressões e portanto fundamentalmente era um trabalho artístico de criação. Ao ir para o TNDII há toda uma dimensão que sempre me animou, porque de certa forma sempre foi um organizador de encontros, de laborátórios, mas nunca tinha sido um programador. Quando vou para um teatro nacional, um dos maiores do país e uma das mais prestigiadas instituições culturais da nação, a minha missão passa a ser mais do que do artista, que continua a ter a paixão d encenar e de trabalhar como actor, é o de programar um teatro desta dimensão, com uma identidade própria que deve promover a grande dramaturgia, a escrita de novos textos em português, que deve apoiar e divulgar o teatro que se faz não só em Lisboa, mas em todo o país. O TNDMII deve também fazer digressões, apoiar e publicar peças de teatro para a juventude, ou seja, tem uma dimensão de serviço público, na qual me revejo completamente, embora seja uma função nova para mim. Neste momento, a direcção artística ocupa todos os meus dias, há também toda uma responsabilidade de saber que se esta a contribuir para que o trabalho destes artistas seja acessível ao público e essa contribuição faz com que haja decisões que influeciam o percurso e a vida de muitas companhias. Por vezes tenho momentos difíceis, escolher entre este espectáculo em vez de outro, quando temos duas propostas na mesa e só podemos fazer uma, estámos a dizer um sim a uma, mas também um não, que é também muito importante para esses artistas e essa é uma função ainda muito nova para mim. É uma trabalho formidável porque me permite que aconteçam coisas que há muito tempo eu exigia que acontecessem, agora, estou do lado de quem tem as ferramentas para desenvolver esse trabalho. Outra grande alteração para mim foi passar de uma companhia onde erámos três, para uma de âmbito nacional onde somos de forma geral 90, por regra um teatro desta envergadura tem de 120 a 150 pessoas a trabalhar em permanência, quotidianamente, naquele edifício. São dias muito intensos e exigentes, mas ao mesmo tempo muito entusiasmantes, estar rodeado de uma grande diversidade de artistas, de profissionais, técnicos, espectadores e trabalhar arduamente para haver cada mais e melhor teatro e cada vez mais portugueses poderem fruirem dele.

Vamos abordar à programação, o TNDMII tem parceiras com companhias de teatro convidadas que tem outro tipo de postura e como é que se faz a gestão desses grupos com a companhia fixa?
TR: O teatro nacional é uma casa de criação, isto significa que deve ter e cada vez mais as ferramentas para fazerem os seus próprios espectáculos e as suas produções. Estes dois espectáculos que apresentámos no Baltazar Dias, no âmbito da rede Eunice, são exemplo disso, “Ifigénia” é uma criação do TNDMII e a “Origem das espécies” também. São produções feitas inteiramente com os nossos recursos, mas também sabemos que no panorama nacional português, o teatro nacional é fundamental para que as companhias independentes de teatro tenham casa, palcos e dinheiro para fazer o seu trabalho. Muitos deste grupos não tem espaços, mas mesmo que tenham não é na escala do D.Maria II e nesse âmbito temos toda uma equipa técnica e administrativa que cumpre o seu serviço. Por ano, temos quatro a cinco produções e mais de 30 co-produções, portanto, há espectáculos que são inteiramente criados neste teatro. Depois, temos recursos para as companhias que nos vêm visitar, para habitar a casa durante o tempo que demorar a criar e apresentar um espectáculo.

Como é que faz a selecção dessas propostas? O que tem de ter em consideração para a linha programatória do TNDMII?
TR: O modo como acontece é um diálogo constante com companhias e artistas, que tanto pode passar pela propostas desses grupos de teatro, na maior parte dos casos, são eles que tomam a iniciativa, mas também pode passar pelo eu ir ver como um grupo, um artista, ou artistas trabalham e lançar um desafio. Se por um lado, temos os “O bando” que nos próximos meses vai criar a “Divina comédia” no teatro nacional e foi um desafio que aceitámos com alegria e entusiasmo. Também vamos ter a coreográfa e encenadora Marlene Monteiro Freitas a fazer uma criação das “Bacantes” que é um desafio que lhe lançámos. Mas é verdade que recebemos muitíssimas propostas com qualidade para serem apresentadas no TNDMII, muito mais do que conseguimos acolher em termos de espaço e dinheiro. Dispomos de duas salas e um orçamento que cresceu recentemente, mas mesmo assim, coloca-nos limitações e portanto, não temos condições para dizer sim a todos os espectáculos com qualidade e pertinência para estar no teatro nacional. Felizmente há mais teatros em Portugal a apoiar os grupos de teatros e começa a haver um território mais fértil e mais sério para que as companhias tenham casas para apresentar o seu repertório. Contudo, sabemos que o TNDMII é um motor para os grupos independentes e não podemos só ter os nossos próprios espectáculos, tem de ser um espaço aberto para outros, para apresentarem os seus espectáculos, para ajudá-los na criação artística, porque esta instituição tem valências que já são raras, ou que quase não se encontram em lado nenhum, costureiras, carpinteiros, ou seja, temos trabalhadores que permitem criar um espectáculo do primeiro ao último momento. Os critérios de selecção tem a ver com a interpretação daquilo que é a nossa ambição, o D.Maria II tem uma missão que esta consagrada na lei e os critérios de selecção surgem dessa leitura. E, o que é que é isso de divulgar a dramaturgia clássica? É procurar artistas e companhias de teatro que tendo uma linguagem contemporânea, estão interessados em fazer um repertório clássico. Quem é que hoje faz Molière e torna acessível o “O impromptu de Versalhes” que foi um dos grandes sucessos da última temporada? Foi uma encenação como a de Miguel Moreira com o seu olhar do presente sobre aquele texto. Mas para quê é nos servem essas grandes obras? É pensar como é que vivemos, como é a nossa sociedade e esse é um dos critérios quando fazemos um grande clássico, não com a convenção em que foi escrito, mas com a linguagem de hoje a dialogar com esse grande texto.

Acha que esse é o seu cunho pessoal? O ano passado foi dedicado todo a Shakespeare, em 2016 há muitos dramaturgos gregos, mas não apenas falo dos textos, mas também das interpretações ou re-interpretações dessas obras.
TR: Cada director artístico tem precisamente como missão aquilo que são as obrigações de um teatro nacional e eu entendo que a única relevância de montar grandes textos sejam eles clássicos, ou de repertórios mais contemporâneo, como acontece com “O duelo” de Bernardo Santareno que esta em cena na sala Garret, a única razão para os fazer é que eles são relevantes hoje, mas tem de ser vistos com um olhar actual. Senão estámos a ver uma grande obra como se fosse uma peça de museu, como algo distante de nós, daquele tempo que é muito importante. Agora, se a razão de fazer um Molière, ou um Shakespeare, um Racine, mas também um Samuel Becket, um Eugene O'Neill, um Bernardo Santareno e um Luís de Staus-Monteiro for apenas porque é um texto importante ponto, então basta publicá-lo e dá-lo a ler as pessoas. O motivo de o montar em palco prende-se com a urgência que os nossos dias tem daquele texto, de dizer sim, é uma grande obra, mas para o vermos hoje, porque vive-lo e partilhá-lo com uma grande sala, porque coloca questões sobre a nossa vida, sobre a sociedade actual. Esses textos são como lentes, ou óculos que colocámos para ver o mundo. Como é que vemos o Funchal pelas lentes de Sofócles?

Então como é que “Ifigénia” é um olhar sobre a sociedade contemporânea?
TR: A “Ifigénia” mais do que uma representação é uma reescrita, inspirada na peça de Eurípedes. É uma reescrição actual, uma das coisas que nos conduziu, sobretudo, depois de a termos lido em grupo e termos discutido bastante, foi a questão do inevitável. “Ifigénia” aborda um sacrifício que todos consideram inevitável a bem do país. É um espectáculo num tempo em que em Portugal, durante muitos anos, uma minoria decidiu que havia sacrifícios inevitáveis a fazer a bem de todos. Essa ideia do sacrifício em nome de uma nação e o combate que há entre o indivíduo, a história pessoal humana e o bem de todos foi algo que nos interessou muito. Mas, sem falar explicitamente de austeridade, ou sobre o que esta a acontecer hoje, isto porquê? Porque quando o criámos há um ano e meio sensivelmente Portugal era outro, hoje, vivemos num país com outro governo, com outros fenónemos e ideias a acontecer. Ao falarmos de grandes obras, como as “Bacantes”, esse texto hoje continua a valer a pena ser feito, não só porque é fenomenal, mas porque fala de nós, deste momento, também. Esperemos que abordando estes textos continuemos a falar de nós daqui a 10 ou 20 anos, essa é a definição dos clássicos, fala de nós em todos os tempos. São intemporais, não porque não tenham uma data, porque notámos que é um texto antigo, mas o que se diz viverá 400, 1000 anos, o que foca se reflecte nos dias hoje e essa é uma das ambições, julgo eu de toda a gente, que escolhe textos para montar em cena. São obras também importantes para percebermos que teatro estámos a fazer hoje e portanto, quando um encenador como o Miguel Moreira esta neste momento a encenar “O duelo” e apresenta uma versão inesperada também estámos a falar do texto de Bernardo Santareno, da sua força no nosso tempo, mas também do encontro hoje e do que foi feito em 1971 quando o TNDMII estreou esta obra com à Eunice Muñoz e o João Perry. E aquilo que o Miguel faz com a sua linguagem é questionar essa obra, pôr em causa a sua validade, afinal para que nós serve? E em última análise fez um belíssimo espectáculo que toca as pessoas e as emociona, porque a verdade é que o teatro que fazemos é o que queremos que questione, mas também que seja um lugar de festa, assim como, os teatros que visitámos. O D.Maria II tem sempre de salvaguardar essa dimensão lúdica, festiva de jogo que é o teatro.

Assim, como também é muito importante a forma como os actores interpretam, a encenação, o aspecto visual e o que se passa em palco corresponda a uma descoberta actual, a um teatro que os artistas querem fazer com urgência, porque é verdade que há uma dimensão de serviço público que temos de cumprir e é para isso um teatro nacional, mas antes de ser uma missão é algo que para os artistas é inquantificável, invisível, porque eles são animados, alimentados pela necessidade de fazer teatro e e é isso que o público procura. E pode haver aquele género, ou este autor, mas o teatro nacional exige que haja uma reflexão maior do que a de um espaço mais vocacionado para o entretenimento, acima de tudo o que o público pretende é um teatro em que aquilo que as pessoas estão em palco a expressar o desejam fazer e essa urgência e de toda a equipa de fazer aquele espectáculo esta na origem de tudo. Sem estes artistas de grande qualidade, muitas vezes enfrentando grandes dificuldades e sacrifícios pessoais que continuam apaixonadamente a fazer teatro, não havia serviço público, que são os alicerces do que fazemos no D.Maria II e em todos os teatros da rede Eunice. Em Portugal há muitos teatros e quando nos procuram espero que saiam satisfeitos e surpreendidos muitas vezes, o teatro tem de ter esse mistério, de que quando compro aquele bilhete eu não sei ao que me vai sair, acima de tudo tem de haver essa dimensão da surpresa.

 

Nessa dinâmica insere-se à rede Eunice? Como tem sido o impacto não só junto do público, como dos teatros onde levam estas peças?
TR: A rede Eunice que entrou em vigor agora, é um projecto que começámos a desenvolver desde há dois anos. Seleccionámos, através de candidaturas públicas três teatros um no Funchal, outro em Vila Real e um terceiro no Sardoal, que correspondem à nossa vontade e obrigação de estarmos mais presentes em todo o território português e não apenas no edifício do teatro nacional, que é um monumento belíssimo, mas é mais do que uma instituição física é uma ideia de teatro. O D.Maria II deve estar presente junto do maior número de portugueses possíveis, porque eles são responsáveis para que este teatro exista e tem direito a esse serviço público que prestámos. Criámos o Eunice para isso e esta primeira temporada esta a correr muitíssimo bem, a recepção nos três teatros é fenomenal, em primeiro lugar, porque temos esgotado todas as sessões e em todos os espaços. É algo absolutamente incrível, é fora de série, por outro lado, percebemos não só a hospitalidade, mas a extrema competência com que somos recebidos. Contudo, não se trata só de mais um espectáculo que vai visitar aquele palco, trata-se de uma relação cúmplice que vai durar alguns anos e de trabalhar em conjunto, ou seja, não queríamos vir apenas a uma cidade numa espécie de digressão, atropelamento e fuga que é, correu muito bem, tivemos um belo fim-de-semana e depois sabemos lá quando voltámos e podemos dizer que até fomos à Madeira, não é isso que queremos. O objectivo é criar uma relação, ser cúmplices do que se faz no Funchal e em Lisboa, queremos dialogar em permanência e inscrever-nos na história das pessoas que trabalham neste teatro, do que vêem e queremos que eles também façam parte do historial do teatro nacional e isso exige uma relação. Em Maio estámos de volta com “As criadas”, no Outono vamos apresentar um outro espectáculo que não posso revelar e no início de 2018 estaremos de volta.

Quais foram os aspectos que tiveram em consideração para a escolha desses três teatros? E porquê tão poucos para já?
TR: São poucos teatros, porque é um investimento enorme do TNDMII para conseguir estar de forma regular, ou seja, em vez de serem 9 espaços onde estámos só uma vez, são poucos onde vamos várias vezes ao ano, é essa ida regular que permite desenvolver uma relação, que pode criar um público e ajudar no percurso, por exemplo, do Baltazar Dias nos próximos anos seja diferente por ter-nos como parceiro e vice-versa. Queremos que esta relação seja de parceria e isso obriga-nos a em vez de apostar em muitos teatros, apostámos em menos espaços, mas com maior frequência e na próxima temporada seremos quatro. As candidaturas estão abertas para que mais espaço faça parte desta rede e a cada ano que passa vamos acrescentando mais teatros. E em vez de fazer o que muitas vezes, infelizmente se faz também na área da cultura que é um grande fogo-de-artifício e um grande espalhafato, durante um tempo limitado e depois quando vamos ver o que sobrou não há grandes consequências, queremos lentamente, solidamente construir uma relação e esperar que daqui a 5, 6,7,8 anos esta rede Eunice seja uma ferramenta fundamental para haver mais igualdade de acesso à cultura em Portugal. Quando fecham umas urgências, ou um tribunal há manifestações, quando se fecha um teatro não há grandes levantamentos, porque parece que não nos faz falta amanhã, não nos incomoda no dia-a-dia. Então, silenciosamente vão-se roubando oportunidades dessa comunidade que vão ao teatro, depois tem de ir-se para outra cidade e silenciosamente essa assimetria vai-se aprofundando, nós queremos que o máximo de portugueses tenha acesso ao teatro e vamos contribuir com o que nos é possível.

Quais então foram os critérios de escolhas destes teatros?
TR: Um dos critérios foi a capacidade técnica de os espaços acolherem os espectáculos, obviamente. Outro que considerámos fundamental, o facto de investirmos neste público faria diferença para esse teatro? E que não fossemos semear num terreno árido, tinham de ser espaços que tinham de estar a fazer um trabalho excelente, com qualidade, com coragem naquilo que é a oferta cultural da cidade e identificámos três com características diferentes e também procurámos essa diversidade, também que estivessem bem espalhados pelo território nacional e é isso que se pretende na rede Eunice, queremos que esteja presente em toda a geográfia do país e esperemos que nos próximos anos consigámos atingir esse objectivo e o maior número de portugueses. O fundamental foi encontrar parceiros onde se fizesse um trabalho notável e que face aos obstáculos orçamentais, ou as condições, ou a experiência que se tem a nossa presença pudesse contribuir para que aquele teatro fosse ainda mais longe. Não houve critérios políticos, regionais ou de território, mais foi de análise das candidaturas e do que era o discurso que o próprio teatro sobre esta rede. Depois houve visitas aos espaços numa segunda fase, conheceram-se os teatros e as pessoas e na cultura do teatro é muito importante saber quem esta à frente nos projectos e isso às vezes é o factor que muda tudo, porque em Portugal durante muito anos tem sido tratado como parente muito pobre e faz-se a custa da paixão, da competência e do espírito de sacrifício das pessoas que estão ligadas à cultura. Ao contrário de outras actividades profissionais a competência não chega é preciso ser mais, porque se enfrentam obstáculos que geram muita frustração, não é um dado adquirido na sociedade portuguesa que a cultura é um motor em igualdade, como a educação. É preciso ser-se muito apaixonado pelo que se faz, dinamizar projectos e o facto humano é essencial. Na rede Eunice a paixão e a competência destas equipas que conduzem estes teatros foi fundamental para esta escolha.

No TNDMII há agora apresentação de livros, um espaço para os poetas e a literatura também ocupa um espaço essencial nesta programação. Porquê desta escolha?
TR: O teatro nacional foi fundado por um escritor em 1846, é um espaço da palavra. Esse é traço identitário daquele teatro, seja para crianças ou adultos, formação, criação ou debate tudo esta ligado a palavra. Tem-se trabalhado muito com crianças, com espectáculos sobre à questão da leitura. Temos o clube dos poetas vivos em parceria com à Casa Fernando Pessoa em que há um poeta presente e é um dos grandes sucessos da programação, temos tido salas a abarrotar, já dura há um ano e continuará, porque há cada vez mais poetas dispostos a estarem presentes, partilhar com o público à sua poesia e actores do teatro nacional disponíveis para lerem os seus poemas. Somos também uma das maiores editoras de teatro português, há outras, editámos estudos e ensaios, mas é absolutamente essencial reclamarmos e reivindicarmos até o poder das palavras na sociedade contemporânea e o TNDMII por ser um espaço que acaba por ter esse papel. Na fachada do Rossio esta escrita a frase palavras para quê? Que é um pouco o slogan deste trimestre, porque temos textos fantásticos e também novas obras que não sei se são fantásticas ou não, porque estão a ser escritas para os espectáculos, mas temos essa aposta de um teatro que nos oferece palavras sobre o mundo que nos rodeia. Como falava há pouco, num mundo onde nos roubam a capacidade de falar, em que a nossa voz é manipulada, por exemplo, por movimentos populistas e transformadas em outras coisas, em que apesar de votarmos no fundo não temos grande poder sobre o desenrolar dos acontecimentos e penso até que Portugal não é dos casos mais graves, vemos isso mais na Europa e nos EUA de onde regressei há algumas semanas, a sensação de impotência nas pessoas é enorme e acho que vale a pena perguntar-nos de que forma podemos resgatar as palavras. O teatro isso é importante confiar no poder transformador das palavras, na forma como nos permitem participar diariamente no mundo e uns com os outros, pode não ser num teatro, pode até ser numa praça, ou um jardim, mas o importante é falarmos um a um e depois abordámos uma outra pessoa e já somos três e esta é a escala humana, uma série de desconhecidos a partilhar palavras e se não mantivermos essa confiança, eu iria até mais longe, essa fé no poder transformar das palavras, então, no meu caso, mais valia apagar as luzes, fechar a porta e esperar pela próxima pessoa.

Nunca se colocou à hipótese do TNDMII deslocar-se até o estrangeiro, em digressão, um pouco como a rede Eunice, mas para o exterior?
TR: Tem acontecido. O teatro nacional tem feito muita digressão no estrangeiro e posso dizer que fez mais espectáculos nos estrangeiro, nestes dois últimos anos, do que nos 169 anos anteriores. Estámos a fazer co-produções com companhias e festivais de teatro internacionais, mas vamos ter em breve grandes notícias que não posso revelar nessa matéria. Fazemos parte de uma rede internacional de 11 países que nos vai permitir convidar artistas estrangeiros com financiamento europeu, mas também fazer circular os artistas portugueses pelo estrangeiro. Tem sido um trabalho de diplomacia cultural importantíssimo para o D.Maria II e agora estámos a desenvolver parcerias para integrar outras redes e diria que tem sido este o trabalho que tem marcado estes dois últimos anos. O D.Maria II tem de ser um um teatro nacional e europeu porque esta localizado num país da Europa, tem de ser também um mundial e nesse âmbito temos tido digressões nos EUA, no Canadá e queremos trabalhar com à América do Sul e África. Temos espectáculos de companhias estrangeiras que virão a ser apresentados no teatro nacional e esta é uma auto-estrada com muitas vias, embora tenhámos uma missão fundamental junto das companhias, dos artistas e do público português, a verdade é que estámos inseridos num continente e num mundo em que não podemos considerar que o TNDMII pertence só aos seus cidadãos, queremos que seja de todos os portugueses, que os artistas nacionais tenham melhores condições de trabalho dentro e fora do país e dos públicos do mundo.

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