Um olhar sobre o mundo Português

Paixão é a palavra que define e motiva os meus convidados desta semana. São os criativos que motivam os outros a ganhar coragem e também concretizar os seus sonhos. Venhas conhecer estas pessoas especiais. 

                        

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A galvanizadora teatral

Escrito por  yvette vieira fts ana pessoa e raul pinto

Sofia Ângelo é a directora artística do Teatro Carnide. Mas, não se limita apenas dirigir este espaço teatral, ela também escreve, encena e actua em muitas das peças que sobem ao palco desta companhia que se define pela originalidade criativa das suas obras.

Tu és actriz, encenadora e escreves peças para teatro. Essas três vertentes habitam em ti, mas quem é a primeira e porquê decidiste seguir esses outros caminhos no teatro?
Sofia ângelo: Primeiro, tive aulas de interpretação para teatro como actriz, depois comecei a ter aulas de escrita e posteriormente senti a vontade criar, de escrever textos. Estive em Barcelona uns tempos e ingressei no ensino superior na Escola Superior de Teatro e Cinema e aí comecei a identificar-me mais com a produção textual e a criar pequenas peças, espectáculos. Deixei um pouco de parte o trabalho de actriz, comecei a identificar-me mais com a criação e fui tendo muitas encenações ao mesmo tempo que estava em cena, nunca fiz só uma única coisa. Por norma, tinha uma temporada em que faço uma média dois a três espectáculos, no teatro Carnide onde estou, e pelo meio, uma peça em que estou como encenadora e autora do texto que esta em palco. É quase uma metodologia, além de mais, dou aulas e tento sempre com os meus alunos alimentar essa vontade de criação a partir das próprias ferrramentas que o actor possui, também faço as suas apresentações e crio espectáculos para os meus alunos.

Quando se trata dos textos és muito dona dos teus textos? Ou seja, tu escreves, encenas e estas em palco, costumas dar as tuas peças a outros encenadores e que eles mostrem uma visão diferente das tuas ideias?
SA: Eu acho que as obras devem ser sempre reutilizadas em certa medida, para também ganhares uma visão dos outros perante aquilo que tu escreves. Acho isso muito interessante. Seja como for, eu já tive algumas situações em que alguns alunos do Conservatório pediram-me os meus textos, os meus espectáculos para os poderem trabalhar e eu gosto dessa ideia. Independentemente de serem minhas peças ou não, há sempre um aspecto que tento trabalhar com os meus actores, um texto que eu escreva pode estar longe daquilo que acho que possam ser as inquietudes que actores tenham. O que é que quero dizer com isto? Eu já escrevi várias cenas, mas há textos que vou escrevendo a medida que vou trabalhando com os actores. E portanto, não sinto que sejam única e exclusivamente meus. Claro, que sou eu que os escrevo, depois sou eu que os dirijo, mas parto sempre de inquietudes e desafios cénicos que coloco aos actores e a partir daí elaboro textos. Acontece algumas vezes que quando vou ensaiar com os actores há frases novas que surgem dos seus improvisos e pistas cénicas que eu coloco para eles colaborarem comigo.

É muito difícil escrever, encenar e ser actriz em palco e ter um certo distanciamento da tua própria obra. É uma visão muita crítica ou não?
SA: Durante a temporada estou como encenadora e escrevo os textos, depois estou numa outra peça como actriz. Fiz isso algumas vezes, espectáculos em que estive em cena e encenei, mas não é algo que goste de fazer, porque acho que é mesmo importante ter algum distanciamento, como disseste. É possível, mas é mais difícil, o encenador fica mais esclarecido quando provoca a essência do objecto artístico e se te implicas demasiado em cena, perde-se a capacidade crítica do que se esta a fazer. Não creio que no passado tivesse corrido mal, fiz essa experiência três vezes, em 12 encenações e acho que esclarece que não é algo que goste de fazer encenar um texto meu e estar a representar.

Vamos falar as peças que escrevestes, esta em cena, “Qué frô?” que é uma obra que surge de uma observação que fizeste ao longo dos anos e o elenco é practicamente masculino.
SA: Sim, é todo masculino.

Na escrita, tu como mulher te colocas no lugar de seis homens diferentes?
SA: Eu acho que foi um dos grandes desafios que decidi colocar a mim própria. É o que seria uma mulher dirigir seis homens? Não que seja uma tarefa difícil de todo, mas que características que estes homens podem ter em cena e como os descodifico para poder criar uma partitura dramatúrgica e que faça sentido no espectáculo? Parti muito da observação daqueles homens que chamavam de “Qué frô?”, eram vendedores que nos chamavam para vender rosas, que andavam muitas vezes no Bairro Alto e no fundo tinham um lado muito teatral. Imagina que estavas com uma pessoa a jantar e de repente esse imiscuir tem uma tensão dramática, que tem um sentido mais do que exagero, é teatral, compro ou não esta rosa? Dou não? Se der o que significa isto? E se não der significa aquilo? E na rua quando encontravas estas pessoas, havia sempre uma grande confusão, uns tentavam sempre regatear o preço e outras eram mais desagradáveis com os quem “qué frô”. Portanto, isto no fundo acontecia com alguém que era uma personagem. E como tudo isso criava uma certa instabilidade nas pessoas, eu pensei que eu própria estava a sentir saudades desta dinâmica da espontaniedade da oferta, os que apareciam junto de nós faziam-nos pensar, porquê não oferecer uma rosa? Uma coisa tão bonita, tão espontânea, num mundo em que é tudo por mensagens e whatapps. Não é? Hoje em dia ninguém oferece espontaneamente uma rosa e dá a alguém. Este saudosismo, é um termo muito português, em relação a um estrangeiro que é o “qué frô” também nos pertence, por causa da nossa memória colectiva. Fiquei a pensar durante algum tempo sobre isto e decidi reunir seis actores que conheço e que grande parte já trabalhou comigo. Eu pensei em falar sobre isto com eles, que experiências tinham tido com estes vendedores de rosas e que relembrassem algumas das histórias que tiverem com os “qué frô”. O meu desafio foi saber quem são estes seis homens, com as suas histórias individuais a cuidar de rosas. E porquê cuidar de rosas? Porque a ideia inicial do espectáculo parte de memórias de uma figura cénica que se lembra da experiência do “qué frô” e há um actor que tem uma posição dramatúrgica hierarquica claramente superior em relação aos outros e porquê? Ele semeia, planta e cuida de rosas, é o que faz neste momento e ele convoca todos os outros para cuidarem das suas flores, no fundo cuidam das suas manchas, dos seus problemas, sempre tendo um paralelismo com as rosas. São seis homens que se fragilizam ao cuidar de flores e que falam das suas vidas quase num contexto de intimidade.

Tu, tens outras peças que escrevestes, mas referes com alguma frequência “a poltrona”?
SA: É verdade, essas duas peças, “Poltrona I” e “Poltrona II” são as duas em que estou em cena. São os únicos espectáculos em que permito isso, precisamente porque é um espectáculo muito particular, quase biográfico. Eu escrevi esta peça numa altura em que pensava muito como me poderia encontrar, revelar a mim própria no teatro. É uma ideia de radiografia, como funciona e é quase uma fotografia mais íntima e com a qual não nos identificámos, parece uma coisa estranha. No entanto, é o retrato mais interno que temos e trabalhei muito sobre isso, o que era basicamente uma radiografia? Desenvolvi a dramatugia desses dois espectáculos baseados numa consulta de psicoterapia em que a pessoa falava com uma terapeuta, onde abordavam várias questões e o abrir e fechar a luz sobre as várias radiografias que estavam por detrás. Tem muito da minha forma de escrita e as duas obras estão todas construidas antes de entrar em cena e normalmente isso não acontece. Isso dá a ideia de como são importantes para mim, eu já as tinha escrito e como já tinha dito anteriormente, por norma, escrevo uma parte da peça textual e depois descubro as outras partes na criação com os actores, mas no caso das “Poltronas” foram textos que escrevi de uma vez só e que depois para a cena, só as desenvolvi a partir daí.

Nunca te ocorreu escrever, encenar um monólogo e colocares-te nessa posição em palco?
SA: Eu acho que seria mais interessante que alguém escrevesse uma monólogo para mim. Precisamente que eu acredito que o teatro, não é só por si um lugar onde se vê, mas é um local de revelação sobre si próprio e quando abordo isto, falo do actor em palco e do criador nessa mesma posição. E volto a referir que quando escrevi as duas peças “Poltronas” eu descubri coisas novas sobre mim, que acho que podem chegar ao público e que eles podem entende-las. Acho até que conseguem empatizar com algumas das cenas, porque é inevitável em teatro não haver uma empatia com o que esta a acontecer, conseguimos ver o que aquilo siginfica nem que seja por via da emoção. É muito interessante quando acho que já tinha escrito tudo e estando eu em cena apercebo-me o que esta a revelar, lá esta como uma radiografia, e não no sentido estou aqui para me encontrar, não, eu estou aqui porque acredito que as pessoas também vão encontrar algo sobre si próprias quando estão a visionar este espectáculo. Então, aquilo em que acredito é muito parecido com o que alguém escreveu para mim e isso faria com que eu fosse escrever muito mais coisas, algo que nunca descubri ainda, que vou encontrar e considero isso mais desafiador. Eu acho que escrever sobre mim própria também seria interessante, mas não sei se seria assim tanto do ponto de vista criativo, seria para quem escreve e sem dúvida nenhuma um grande desafio para quem o faz.

É isso que trouxeste contigo quando fostes actriz na peça “Catch my soul”?
SA: Eu já conhecia o encenador, o Rui Neto e como sou responsável pela direcçção artística do Teatro Carnide prefiro uma colaboração, porque já tínhamos trabalhado juntos. Em “Catch my soul” o que me atraiu foi o texto, porque ele já o tinha elaborado, eu já o conhecia e os próprios desafios que aparecem em cena foram muito motivadores em termos de crescimento, houve zonas de trabalho que para mim foram importantes, mesmo como criadora. O Rui Neto deu-me algum espaço para poder criar uma ideia que ele já tinha e às vezes isso é difícil, não conseguimos fazer sempre isso, mas eu senti que não estava presa a nada e que podíamos experimentar muitas formas do dizer, estar em cena com aqueles textos e achei isso importante.

E para ti como actriz o que aprendeste com o personagem?
SA: O que eu aprendi se é que podemos dizê-lo com esse termo, acho que desenvolvi uma espécie de maturidade cénica que não tenho e que não consigo classificar em cena. A personagem era um pouco maléfica, era densa, o texto era mesmo sarcástico e descobri formas de torná-la sarcástica sem ser demasiado evidente, como se tivesse havido uma espécie de humanização e portanto, como é que alguém com uma certa humanidade pode ser tão má? E foi isso que descubri, como tornar este texto que poderia parecer claro, sem o tornar óbvio por via da representação. Descobri ao nível da interpretação coisas importantes em relação ao texto, nomeadamente, ganhar um peso e uma forma que fossem esbatidas.

Agora, vamos falar do projecto que tens para o Teatro Carnide. És a directora artística e estas já há algum tempo a frente deste espaço e qual é a tua visão para estes próximos tempos?
SA: O que eu pretendo para o Teatro Carnide é que eu consiga um espaço de tecido cultural português, que faça com que o identifiquem com uma companhia, uma forma e uma gestão artística concreta, que seja facilmente identificada e isso é importante para uma estructura teatral. Eu como fruidora de cultura, sei como espectadora que vou encontrar estas respostas, ideias ou estéticas, mesmo que a companhia possa fazer um programa de acolhimento, independemente disso, esse teatro tem a sua própria linguagem cénica e acho que isso é importante. Por outro lado, era bom que o Teatro Carnide conseguisse expandir-se ainda mais, temos um serviço educativo bastante amplo, damos aulas a crianças, joven e adultos e temos uma série de trabalhos comunitários em vários bairros de Lisboa. Trabalhámos várias valências do ponto de vista das práticas artísticas e da cidadania e gostava que daqui a uns anos fossemos mais reconhecidos ainda por esse trabalho que desenvolvemos quer juntos de novos públicos, quer de grupos emergentes em outras formações e da comunidade em geral onde trabalhámos. É a minha visão e acho que temos conseguido dar respostas positivas em função dessa ideia de criar de forma emergente, de dar espaço para os novos criadores, é muito importante do ponto de vista cultural e isto de que estou a falar cabe para todas as companhias de teatro. Nós trabalhámos com poucos recursos, mas muita exigência e acho que isso faz com que os próprios objectos artísticos tenham um valor ao meu ver gigante. Temos excelentes criativos, designers de cena, cenográfos e actores, em Portugal existe uma malha cultural que esta sempre a criar com os poucos e escassos apoios que há neste momento. Eu pretendo que o Teatro Carnide tenha mais recursos, mais apoios para além que já dispõe para poder suportar os novos criadores.

E como possuem essa vertente educativa, notas que as novas gerações gostam de teatro e se interessam?
SA: Eu acho na verdade, no meu tempo quando era adolescente havia mais procura e menos oferta. Hoje em dia tudo esta disponível depois temos uma tendência de minimizar, porque se torna mais comum e actualmente há muita oferta mesmo e os adolescentes que procuram o teatro são os que já estão sensibilizados, os que de alguma forma procuram uma experiência, uns ao longo prazo e outros uma dinâmica mais intensiva ao nível artístico. Há interesse por parte dos jovens tiveram um workshop, ou um professor que se mostrou mais disponível e atento a dar estímulos criativos aos alunos, ou escolas que vão regularmente ao teatro, as exposições, ou mesmo viagens de estudo culturais, se isto tudo não acontecer dificilmente a juventude nos procura. Eu posso falar, por exemplo, no caso dos adolescentes no teatro eles observam outras reações artísticas, outras áreas perfomativas para melhor compreenderem o seu papel no teatro e na sociedade em geral. O teatro consegue aglutinar todas as outras áreas artísticas, desde a dança, a música, a pintura e escultura. Acho que os jovens tem vontade, mas precisam de um professor, de um monitor, de uma escola ou uma família que os estimule para lhes mostrar o que o seu país tem em termos de oferta.

E o restante público? Já que tens uma oferta estética muito específica no Teatro Carnide, notas essa especificidade ou não?
SA:Sim, já se nota um público especifíco que vai ver as produções de Teatro Carnide. Embora, tenhámos o cuidado de não convidar apenas um único encenador por temporada, um desses sou eu que dirijo, mas os restantes dois são muito diferentes de mim, mesmo assim há uma linguagem de dramaturgia que esta assente. Portanto, as pessoas sabem que vão ver espectáculos que abrem várias portas para a interpretação. No teatro Carnide à partida o público tem consciência que não vai ver uma peça fechada, com início, meio e fim, não é nossa práctica fazer isso e reconhecemos já pessoas que vão regularmente ver os espectáculos.

E achas que o público português gosta do seu teatro no geral?
SA: Acho que existe um grande respeito por parte do público português. Eu acho que gostam, porque quem vêm ver teatro é porque aprecia e o quero dizer com isto? Independemente das linguagens serem diferentes as pessoas gostam de ver teatro, por mais que não seja pelo sentir do respirar de algo ao vivo, acho que é um momento único. Os espectadores de teatro, na sua essência, mais do que estarem à procura de uma linguagem vão em busca dessa grande experiência muito simples de ver algo que esta a ser feito para mim e eu estou a ser testemunha desse momento. Por outro lado, há os espectadores que podem não gostar de determinada linguagem teatral, mas reconhecem a qualidade cénica que esta a ser desenvolvida.

Existem muito poucas mulheres a encenar em teatros portugueses?
SA: Eu até acho que existem muitas até, normalmente são pouco divulgadas o que é pena.

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