Um olhar sobre o mundo Português

Paixão é a palavra que define e motiva os meus convidados desta semana. São os criativos que motivam os outros a ganhar coragem e também concretizar os seus sonhos. Venhas conhecer estas pessoas especiais. 

                        

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O eclético teatral

Escrito por  Yvette Vieira ft Humberto Mouco

Ricardo Neves Neves é dramaturgo e encenador que oferece ao público uma ampla visão eclética do mundo sob o prisma muito peculiar do Teatro Eléctrico, do qual também é co-fundador.

Porquê decidiste fundar o teatro eléctrico? Em que se distingue dos restantes grupos de teatro?
Ricardo Neves Neves: Fundei o teatro eléctrico em 2007, porque quando acabei o curso, em 2006, fiquei com vontade de trabalhar com alguns colegas do Conservatório de Lisboa, com quem partilhava uma visão artística e pessoal. Apercebemó-nos que pretendíamos trabalhar juntos e como só nos restava integrar novos projectos, ou outras companhias de teatro e já nos estavámos a desviar, achámos que o mais indicado era fundar o nosso próprio espaço e convidámos mais actores para entrarem. Hoje, temos muito mais gente, uma equipa mais bem formada, com mais actores e em termos de produção artística, cenográfos, etc.

Sim, mas já existem vários grupos de teatro em Portugal, o que vós distancia dos restantes?
RNN: É mais fácil para as outras pessoas de fora identificar uma estética do que nós próprios. Pelo que me tenho percebido, colocam-nos numa determinada estética construída por nós e pelos textos e encenações que temos feito. Eu não disse a mim próprio, hoje, vamos trabalhar numa estética específica, em algo novo, não foi isso, as coisas foram acontecendo. O facto é que temos trabalhado com textos originais que não são de autores muito representados, não temos muitos compromissos com ninguém, é uma construção entre amigos sem termos de agradar a uma entidade que nos contrata, são espectáculos para nós, que representam o nosso gosto e só aí há qualquer coisa que nasce, que acaba por ser independente destas coisas todas.

Podemos dizer que existe uma dicotomia no teatro eléctrico? Por um lado, encenas textos muito fracturantes e de autores pouco reconhecidos pelo público e depois há temas mais leves, como os musicais.
RNN: Não foi algo que procurámos, nunca escolho um texto por temática. Escolho-os porque sinto que os posso trabalhar com os actores. Vislumbro qualquer coisa na peça, depois acabo por trabalhar temáticas mais sérias do que outras, num tenho um ambiente mais infantil, noutros aprofundo as relações entre as pessoas e são prácticas que existem, mas que não procuro. Mas, uma coisa que busco e faço questão de levar não levar a sério é o teatro como uma missão, há quem ache que as “revistas” têm missões, eu acho que o trabalho deles tem consequências, não o vejo como missão, eu sei que uma pessoa que faz um trabalho com o público tem uma consequência, mas eu não quero ter esse objectivo. Senão, faço espectáculos por fazer e torna-se um trabalho condicionado a uma temática e não é isso que pretendo, o que me interessa é fazer teatro e não um tema, ou uma política.

Vamos abordar os teus textos. São ideias que te surgem, ou como funciona o teu processo criativo em termos das tuas dramaturgias?
RNN: Mais uma vez os textos não surgem com a ideia de fazer uma determinada temática, não surgem de formas iguais. Aparecem em situações tão simples quanto estas, quero trabalhar com determinado actor e quais as sinergias que surgem para um texto. Quando começo a desenvolver espectáculos começo por determinar o tipo de cenário, ou ambiente que uma música me sugere. Eu acho que surge como as ervas daninhas, não é algo demasiado pensado, ou seja, nunca me aconteceu sentar-me numa secretária e dizer a mim próprio, agora, algo vai sair. É algo que acontece sem ser provocado, é muito difícil descrever um dia de trabalho.

Depois da escrita, fazes alguma reescrita quando estas com os actores? Ou então já não o fazes e exiges muito mais deles noutras vertentes?
RNN: Acontece algumas vezes é que ficam cenas por escrever. É algo que não esta bem definido e acabo por trabalhar isso com os actores, acabámos por “desencalhar” a própria peça. Os actores completam as cenas com cenários, ou com uma palavra que não esta escrita, ou seja, o texto esta escrito, mas pode haver uma palavra com uma sonoridade que não te agrada e quando começo a trabalhar com eles faço pequenas correções.

Quando a peça esta montada e esta em palco tu gostas que haja que certa margem para a improvisação? Ou és muito rígido com as palavras escritas, ou algumas partes dos textos? Eu digo isto, porque em palco há situações imprevisíveis e existem actores que gostam de improvisar em certas cenas.
RNN: Eu quando enceno um espetáculo e esta em cena, quero saber exactamente o que vou ver. Não há espaço para improvisação, por vezes correm bem, mas na maioria dos casos correm mesmo mal, são diferentes e não servem para nada. Se eu achar que é indiferente uma palavra ou outra, isso significa que a minha escolha é irrelevante, ou seja, fiz um texto ao calhas, mas se não o fiz não deve ser representado com uma palavra ou outra. Então o que acontece? E já aconteceu por diversas vezes, os actores em algumas partes da peça, quando não tem o texto totalmente decorado e estámos a fazer um ensaio, substituem uma palavra por outra, eu gosto mais da palavra que utilizam e isso fica no texto.

Ricardo fizeste uma pausa e decidiste fazer uma formação e um workshop, porquê? Estavas cansado? Ou querias estar “fora da caixa”?
RNN: Quando fui para Barcelona não decidi fazer uma pausa, tinha 25 e agora tenho 31 anos, não tinha formação específica de escrita em termos de método, foi mais uma experiência. Estudei no Conservatório para teatro, depois fiz uma pós-graduação em estudos de teatro na faculdade de letras, mas era muito teórico. Nunca tirei um curso de dramaturgia e encenação, porque não existe e então aconteceu um encontro de dramaturgos em Barcelona, eu fui convidado para representar Portugal, foi aí que surgiu o texto da “Mary Poppins, a mulher que salvou o mundo” e isso abriu muitas possibilidades.

Achaste que necessitavas disso porque eras muito jovem e não te iam levar a sério?
RNN: Eu já tinha feito algumas coisas antes dessa formação, foi mais uma experiência. Eu não preciso de ser levado a sério, eu fui para aprender qualquer coisa nova.

E a peça “Encontrar o sol”?
RNN: Foi uma peça que li em 2012 e fiquei logo com muita vontade de encenar esse texto. Tive nessa altura um convite de Aida Tavares que é directora-programadora do Teatro Municipal São Luís, com um palco adequado para este espectáculo, porque tinha todas as condições logísticas e cinco anos depois foi possível estrear esse texto com o elenco que achei adequado. Para além do São luís em Lisboa, tivemos uma co-produção com o Teatro Circo de Braga e agora gostava muito fazer uma digressão com esse espectáculo.

Para este espéctaculo fostes muito exigente com os actores. Aprofundaste muito o seu trabalho interior, porquê? Por causa da temática da peça?
RNN: Não, eu não sinto que foi exagerado. Eu sou sempre exigente com os actores e eles também o esperam de mim, não sinto que o tenha sido particularmente mais nesta peça. Há tempos diferentes de espectáculo para espectáculo, porque há coisas novas que vou aprendendo, ainda sinto que estou no género de início e apesar de estar a fazer a vigésima encenação ainda me sinto a principiar, sinto que estou a aprender com as peças e que há qualquer coisa que se transforma. Em termos de exigência com os actores, eu acho que assim é que faz sentido e se vamos ocupar um determinado tempo a fazer um determinado trabalho, já agora que saia bem e que nos orgulhemos do espectáculo. Quero que todos se sintam orgulhosos, desde actores, cenógrafos, técnicos e músicos e que não o façam contrariados.

E quais foram os principais desafios para ti nesta peça?
RNN: É uma peça bastante rápida, tem apenas uma hora, mas para a quantidade de coisas que acontecem, ou que são faladas no espectáculo é um tempo muito curto e gerir isso em tão pouco tempo, foi um desafio. Havia cenas de 6,7 segundos, eram mesmo rápidas e antes disso acontecia muita coisa. Isso para mim e os actores foi o desafio, a rapidez do texto. Ao mesmo tempo que se trabalhava esse aspecto, estávamos a trabalhar num cenário de praia, num certo dilatar no tempo, uma certa preguiça, aquele descanso, aquela velocidade também teve de ser desenvolvida. Foi a gestão de tempo para esta peça que foi também um grande repto.

“A noite da Dona Luciana”, é um espectáculo com um elenco numeroso? Isso foi algo que tiveste de ter em conta, o elenco como desafio?
RNN: Esta peça tem apenas seis actores e é um dos meus espectáculos mais curtos. Já tive elencos muito maiores, na peça que vou estrear em Abril, somos mais de cinquenta, 15 actores, 15 músicos, ainda tenho uma banda em cena e alguns cantores convidados, no total tenho 38 artistas. O “Menos emergências”, em 2014, tinha 80 pessoas, na versão de 2015 havia 104 se não me engano. Neste espectáculo, o desafio foi encenar um autor muito peculiar, que tem um humor muito particular e específico. Ao mesmo tempo que eleva, é ácido e corrosivo, colorido e venenoso e eu gosto de trabalhar esse tipo de textos. É é muito terra-terra e belíssimo, porque nunca sabemos o que é verdade e o que é mentira naquela peça e isso foi muto divertido de trabalhar e acho que essa peça foi muito bem recebida. Ao todo teve duas nomeações para os prémios da Sociedade de Autores Portugueses, pela melhor encenação e a melhor actriz e isso surgiu do prazer que tivemos em abordar um texto tão esquisito, por ser tão estranho é que é divertido, ao mesmo tempo é parvo e perturbador.

E como surge a parceria com o José António Tenente?
RNN: Eu já conhecia o trabalho deste estilista há muitos anos, desde que lembro e um dia ele viu o meu trabalho e ofereceu-se para colaborar comigo. Já fizemos vários espectáculos juntos e mais virão, concerteza, ele fez já os figurinos para uma peça que se vai estrear em Setembro, para o público infantil e idealizou os figurinos de “Encontrar o Sol”.

Qual é o próximo espectáculo que estas a encenar neste momento?
RNN: É um espectáculo de grande dimensões, com um grande elenco. E pela primeira vez vou trabalhar com um cenário digital, vai ser desenhado ao vivo, vai ser sempre diferente e é uma encomenda da Câmara Municipal de Loulé. A sua estreia esta marcada para o dia 13 de Abril para comemorar os 100 anos da cidade e foi feita a partir de uma grande investigação e dos testemunhos das pessoas do Algarve. É uma homenagem as suas gentes e para comemorar também os 150 anos de Raul Brandão, com a reposição de alguns excertos dos “Pescadores”.

Foste tu a escrever o texto e vais encena-lo?
RNN:Fiz a dramaturgia e não posso dizer que tenha escrito o texto, porque também há muita recolha dos testemunhos das pessoas. Fiz apenas uma pequena escrita para ligar umas coisas com outras, havia frases que se repetiam e outras que não eram claras por causa da oralidade, é uma intervenção muito pontual, porque são as palavras de outras pessoas e não as minhas. Fiz uma gestão desses discursos.

Das peças que escreveste achas que alguma reflecte o teu universo mental?
RNN: Não sinto isso e acho que isso nunca irá acontecer, porque em cada uma das peças há aspectos muito específicos e há um bocado de mim em todas. Não acho que nenhuma seja um símbolo da minha pessoa, ou da minha escrita, ou como artista. Claro, que há peças que gosto mais do que outras, existem textos que gostava muito de reeditar daqui há alguns anos, gostava de pegar em algumas coisas que fiz porque senti que gostava de ir mais longe e ter uma abordagem diferente.

E das que gostavas de reescrever, podes dar um exemplo?
RNN: “A batalha de não sei quê” escrevi-a em 2015 e gostava de levar este texto mais longe. Queria ter mais tempo para reescrever e encená-lo com os mesmos actores e não outros, se for daqui há 3 anos posso convidar os mesmos, após 20 anos, claro que já não se adequa a mesma equipa de trabalho. Houve um potencial que não consegui concretizar na altura e gostava de levar mais longe.

E o futuro do teatro eléctrico? Tens uma visão para os próximos anos?
RNN: Essa é uma coisa difícil de abordar, porque em 2017 estámos num sítio completamente diferente do que em 2014 e só passaram três anos. Não sei se nos próximos tempos será melhor ou pior. Sei que as coisas transformam-se, evoluem e modificam-se de uma forma rápida. Temos muitos planos que queremos concretizar, outros projectos estão confirmados para 2017 e no próximo ano, uns que escrevi, outros que vou encenar e ainda tenho textos de outros autores que vou adaptar. Agora há uma outra prespectiva que o Teatro Eléctrico tem, que não conseguimos concretizar e não sei se vai ser possível ou não e tem a ver com questões muito prácticas que passam por ter um produtor. Quem o faz actualmente sou eu e a Mafalda Simões e ela já acumula a parte comunicação e divulgação da nossa companhia de teatro, não é a nossa profissão ser produtores. Também gostávamos de ter um espaço para os nossos espectáculos, esse é um dos objectivos que temos, até porque as programações dos teatros tem um tique que passa por apresentar um grupo num dia, ou numa semana e acho que isso é mortal para as peças. Gostava de estar, por exemplo, uma semana no Funchal, nunca fiz mais do que duas apresentações em contexto de digressão, mas a mais usual é uma. Em Lisboa, que é capital, e que tem mais público em termos percentuais, porque tem mais população, apenas fazemos cinco ou seis apresentações e nesse aspecto gostava de ter um espaço onde pudessemos estar em cena pelo menos 3 meses sem problema nenhum.

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