Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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É a terceira parte de uma viagem à ilha açoriana pelos seus aromas e paladares.

O meu períplo por São Miguel não estaria completo sem uma passagem pelos seus odores e sabores. Esta terra fértil transbordando de vida produz um dos mais icónicos frutos do território nacional, o ananás. O rei da fruta e o fruto dos reis, como é apelidado na ilha, foi introduzido em meados do século XIX como planta ornamental. Só muito mais tarde foi explorado o seu potencial comercial que se mantém até nossos dias, por isso, aconselho uma visita matinal as estufas que existem ao longo do sul da ilha, ou uma plantação no Norte, em Capelas, provem o famoso ananassa sativus lindl (nome científico) e aproveitem para fazer um tour educativo e muito agrável sobre o seu cultivo.
Para abrir mais o apetite nada melhor do que ir em direcção a uma das únicas plantações de chá da Europa e decidi visitar as instalações do Chá do Porto Formoso. Trata-se de uma das plantações mais pequena de São Miguel e devo de sublinhar que fiquei deliciada com a casa-mãe e a beleza da sua paisagem, trata-se de uma herdade de apenas seis hectares, ornamentada pelo que parecem inúmeros arbustos verdes, bem podados, alinhados na horizontal ao longo da colina com vista para o mar, sinónimos de um passado idílico, de um modo de vida mais lento, onde tudo tinha o seu tempo, o seu lugar, sem pressas e foi desta forma calma e relaxada, que me foi explicado o ciclo de cultivo da planta e como chegou até esta ilha, via Brasil, quando as primeiras sementes foram plantadas em meados do século XVIII. Tal qual os ananazes, as plantas do chá foram usadas inicialmente como ornamento nos jardins. Mais tarde, a promotora da Agricultura Micaelense trouxe até à ilha dois chineses que ensinaram aos ilhéus a forma de transformar a folha da camellia sinensis (nome científico) em chá, parece inverossímel, certo? Mas, é a mais pura das verdades. O gosto pela bebida ganhou logo inúmeros adeptos, como seria de esperar, porque embora se fale sempre muito dos britânicos em matéria de chá, o facto é que os portugueses são campeões em termos de variedade no que concerne esta bebida que aquece os corações e cura todo tipo de maleitas, se for preciso. Mas, adiante.
A Porto Formoso produz por ano seis toneladas de chá preto que é apanhado entre os meses de Abril e Setembro, o período de tempo no qual chove menos na ilha. Infelizmente não tive a oportunidade de assistir ao processo de recolha da folha, com grande pesar da minha parte, mas pelo que foi informada pelo guia, todas as etapas desde a poda até a secagem são feitas da mesma forma tradicional e natural que emprega pouca ou quase nenhuma maquinaria há vários séculos. No final, do passeio somos brindados com uma chávena de chá acompanhada de bolachinhas e valeu mesmo pena quando a estômago começa a dar horas.

A minha terceira paragem pelos paladares açorianos depois de tanto ar fresco salpicado de sal foi deliciar-me com o polvo à micaelense. São diversas porções deste molusco acompanhado de brocólos, batatas e um molho delicioso feito de massa de pimentão da ilha, a melhor de todo o país, já que as suas aplicações culinárias são tão variadas e de facto conferem um paladar delicioso a comida, só tenho pena que só se venda nos Açores.
O famoso bife à micaelense ficou para o fim (e fica já o aviso, como já devem ter notado quase todos os pratos locais tem esta mesma designação, à micaelense e acreditem que há mais, assim já sabem quando a virem no menu quer dizer que é tradicional e boa), trata-se de meu naco considerável de carne que vinha acompanhada de batatas fritas feitas na ocasião com molho, quase tive pena de o saborear para ser franca, porque de facto as vacas em São Miguel não são apenas saudáveis, como são gordinhas, fofinhas e parecem genuinamente felizes. Como é evidente a leve sensação de culpa dissipou-se de imediato perante a iguaria gastronómica e o ataque não se fez esperar, foi uma das melhores refeições que comi, bastante calórica é certo, mas tudo vale a pena quando a alma não é pequena, ou melhor o estômago. Como já devem ter notado também, não tenho por hábito falar de restaurantes ou marcas, mas neste caso, excepcionalmente vou fazê-lo de novo, o Alcides não só tem excelente carne, como a confecção e o atendimento foram de elevada qualidade, o estabelecimento fica no centro de São Miguel, mas atenção o espaço é pequeno e é imprecindível uma reserva. Bem, assim termina a minha viagem pelo paraíso verdejante com nome de santo e só esta conversa já me abriu de novo o apetite.

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