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O duende da floresta

Escrito por  yvette vieira ft juan adam

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), através da sua delegação da Madeira, levou ao cabo um projecto científico inédito, com duração de quatro anos, sobre o fura-bardos. Trata-se de uma subespécie predatória da Macaronésia que só pode ser avistada na ilha da Madeira e em cinco ilhas do arquipélago das Canárias. O estudo permitiu descobrir muito sobre o habitat desta ave de rapina misteriosa e estima-se que só na ilha da Madeira existam entre 50 a 100 pares reprodutores. Ainda no âmbito deste programa foram reintroduzidas 60 mil plantas indígenas da floresta Laurissilva, numa área total de 82 hectates que foram alvo de intervenção, devido a proliferação de espécies invasoras e aos fogos florestais que assolam todos os anos à ilha. A terceira parte do projecto Life consistiu na promoção de várias sessões de esclarecimento sobre a importância do fura-bardos junto da comunidade local, agricultores, escolas e turistas.

Qual é a importância deste estudo não só ao nível regional, como nacional?
Cátia Gouveia: O projecto life fura-bardos surgiu, porque identificámos uma série de ameaças a esta sub-espécie. Trata-se de uma ave da floresta Laurissilva que tem sofrido com o avanço de espécies invasoras, com cada vez mais incêndios florestais e isso tudo conjugado com a falta de informação que existia sobre esta ave que é endémica da Macaronésia, nomeadamente da Madeira e Canárias, considerámos que era prioritário desenvolver este programa de conservação.


Quero voltar um pouco atrás, como é que chegaram a esta conclusão para dar início a este projecto científico? Houve um levantamento, um estudo?
CG: Já havia um censo da sub-espécie efectuado entre 2009/10 e também existem Atlas onde descobrimos que esta é uma das espécies menos conhecidas. A falta de informação sobre esta ave fez com que estivéssemos alertas sobre os problemas de conservação que o fura-bardos poderia estar a atingir, porque não conseguimos ter informação de base sobre a sua distribuição. Daí que essa escassez de dados, conjugada com a ameaças do habitat e o facto desta espécie estar no anexo 1 da directiva aves faz com que apresentássemos este projecto à União Europeia para o podermos apresentar no âmbito do Life.

Foram identificados 98 ninhos ao longo destes quatro anos e é uma população que não sabem se aumentou ou diminui, porque o censo anterior só identificava dois.
CG: Os dados que tínhamos só identificam 2 ninhos, porque nunca tinha sido feito um estudo que identificasse esta espécie e neste projecto, de quatro anos, tivemos no terreno pessoas qualificadas, com experiência e metodologias adequadas. Contudo, não significa que a população aumentou, mas sim que temos uma informação mais sólida. Os 98 ninhos não significam que hajam 98 casais a reproduzir-se todos os anos, porque alguns estão em desuso. No total, a população de fura-bardos varia entre 50 e 100 pares reprodutores, que são já os dados de que dispomos no final do estudo.
Uma das fases deste projecto foi o semear de plantas autóctones e retirar as invasoras da floresta Laurissilva, devido a sua característica única que sofre também graves problemas com os incêndios que assolam à ilha todos os anos.


CG: De facto houve duas fases neste projecto, primeiro o controle de espécies invasoras e uma acção de limpeza após os incêndios. Na área das invasoras, foram retiradas plantas que foram identificadas como sendo prejudiciais à floresta Laurissilva, as coroas de Henrique, as hortênsias, a giesta e carqueja, mais nos concelhos de Porto Moniz, São Vicente e Santana. Posteriormente essas mesmas zonas foram repovoadas com plantas nativas, estas espécies foram propagadas em viveiros florestais, através de sementes recolhidas em plantas naturais da ilha e depois foram sendo reintroduzidas nos locais onde foram retiradas as plantas invasoras de modo a que o solo continue a ser ocupado e que não deixe espaço para que essas invasoras voltem a atacar, já que, estas espécies são muito resistentes, resilientes e tem uma grande capacidade de propagação. É preciso combate-las constantemente, fazemos monitorizações de controlo e não fazemos apenas uma remoção. É necessário, também, um trabalho continuado ao longo do tempo, não só no âmbito do projecto, mas numa pós-acção para garantir desta forma que estas três áreas continuarão controladas ao nível das invasoras.


Este estudo levou a descobertas sobre esta sub-espécie que surpreenderam.
CG: De facto a informação que tínhamos sobre esta ave era escassa e este projecto tem sido sempre uma descoberta ao nível da ecologia do fura-bardos. Percebemos melhor como constroem os ninhos, sobre o seu comportamento, como o macho alimenta as crias e estas foram todas descobertas possíveis nesse âmbito. Também ao nível da sensibilização da população foi um trabalho muito gratificante, sensibilizámos os agricultores, os turistas, a comunidade e as escolas e verificámos que foi muito estimulante ao nível da informação sobre o fura-bardos, tornando-o uma ave cada vez mais presente e mais reconhecida pela população local.


Outro aspecto focado foi o facto da fêmea ser 1/3 maior do que o macho.
CG: No mundo das aves de rapina, por vezes isto acontece. A fêmea é maior do que o macho e faz com que a sua exploração ao nível da alimentação lhes permita predar outras espécies, como o pombo torcaz. O macho como é mais pequeno tem dificuldade em caçar este tipo de aves e prefere as mais pequenas, porque é mais ágil. Há outra diferença que se destaca que diz respeito à coloração, que acaba por ser uma característica muito interessante e as pessoas ficam muito mais despertas para esta particularidade fisiológica.


Mas, há uma explicação cientifica para isso?
CG: Não é sabido, por curiosidade fomos buscar essa informação, sabemos que em outras aves existe estas características, mas não há uma explicação muito detalhada sobre isso.

No final do projecto houve uma campanha de crowdfunding e não atingiram o valor pretendido. Quais eram os principais objectivos para este pedido de financiamento?
CG: Este projecto Life, através da União Europeia, permitiu capacitar uma equipa durante quatro anos e tivemos esse apoio para estas acções específicas, mas no pós-projecto pretendemos mantê-las, ou seja, o trabalho feito neste período de tempo tem de ser continuado, não com a mesma intensidade, mas temos de manter essas acções. O facto da SPEA ser uma organização não governamental implica que a continuidade destas acções necessitem de financiamento, somos uma associação que vive das quotas dos sócios, também depende os projectos europeus e no termo deste estudo tivemos algumas dificuldades financeiras para assegurar estas iniciativas. Activámos a campanha de crowdfunding para bloquear algumas lacunas a esse nível para podermos fazer mais. Após o final deste projecto e apesar de não termos atingido a quantia pretendia continuaremos à nossa missão, com outros fundos, programas de conservação da natureza, até privados ou empresas que quiserem contribuir para preservar o fura-bardos.


E o que pretendiam fazer caso tivesse obtido o financiamento completo?
CG: Nestes três dias, estámos a trabalhar no plano fura-bardos e da conservação da floresta Laurissilva. Estámos a analisar as prioridades do projecto e onde é que devem ser investidos os recursos disponíveis. Um dos objectivos essenciais é priorizar esta sub-espécie, todos os anos existem incêndios e portanto estámos sempre a mapear um novo território, isto porque o fura-bardos construi sempre um novo ninho, num sítio diferente, ou seja, todos os anos temos de identificar o local onde a ave se esta a reproduzir. Esta permanente localização é importante, porque quando forem emitidas licenças de cortes de árvores haja sempre informação detalhada para que os ninhos não sejam atingidos. Ao nível dos incêndios, estes são dados relevantes, porque necessitámos de ter uma noção se os incêndios estão ou não a limitar à distribuição da espécie. Depois obviamente temos as acções de controle das invasoras, é necessário um trabalho contínuo ao longo de 10 a 15 anos e também na divulgação. Sei que parece tudo prioritário, mas a nossa vontade é continuar porque tudo isto é interessante e a SPEA esta estudar linhas de financiamento para continuar com este projecto.

http://life-furabardos.spea.pt/pt/

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