
Sónia Santos é uma artista plástica que explora momentos de confrontação e uma aceitação para o exterior, consigo e com o seu trabalho e as relações entre a pintura e o desenho, numa estreita relação entre os procedimentos e formulação intrínseca a cada uma destas áreas de produção.
Esta exposição mostra três etapas do teu percurso artístico podes explica-las?
Sónia Santos: Eu tenho mais etapas, alguém um dia perguntou-me qual é o teu estilo? Eu não tenho estilos. Sou eu, o meu dia-a-dia, as pessoas, as notícias, a natureza, em suma tudo o que me rodeia no meu quotidiano. Portanto, eu escolhi estas três etapas, porque eram três salas independentes, mas todas no mesmo espaço. São obras que têm a ver com a arquitectura mecanizada nesta primeira fase, a outra tem a ver com a mancha, com a cor, com os carimbos com que és bombardeada todos os dias. A terceira etapa é a mulher, é a mais evidente, é pintura figurativa, é a entrada, a saída, a terra. São apenas três, porque trazer a colecção toda era impossível.
A palete de cores também é diferente. Isso tem alguma influência?
SS: Sim, a cor é a minha base de comunicação.
Como é que começas um trabalho, pensas em primeiro lugar na cor, ou tens uma ideia para a pintura e as tonalidades aparecem depois?
SS: Não consigo explicar o processo. Eu tenho um atelier com os meus materiais, os que eu gosto de trabalhar, desde pastel de óleo, seco, grafite, canetas de filtros e acrílico, tenho tudo em exposição. Quando vou trabalhar para esse espaço tenho uma necessidade de me limpar, é como ir à máquina de lavar roupa, tu despes a roupa porque esta suja, metes na máquina, esta lá por um período e sai, é a tua roupa na mesma, mas cheira bem, esta limpa, é o que sinto quando vou para o estúdio, não vou a pensar naquela linha, ou determina cor, eu sento-me, respiro e deixo sair. É diferente de uma encomenda, aí tenho que pôr-me um pouco de parte e concentrar no material escolhido, é mais uma etapa. Mas, esta tudo interligado, quando me sento tudo vai surgindo naturalmente. O que quero é a minha liberdade
Também se aplica na cor. Noto que nos quadros abstractos as tonalidades são muitos fortes, escuras, mas por oposição as pinturas figurativas estão carregadas de amarelos.
SS: Amarelo é o sol, é a energia, o quente e eu sou uma lagartixa. (risos)
Também utilizas vários tipos de papel. São diferentes suportes.
SS: Alguns são em papel cenário, porque era o que tinha. Infelizmente o material é muito caro, eu gosto de trabalhar em tela, mas adoro papel. Eu fiz uma pesquisa exaustiva sobre este tema, estudei todos os papéis que possas imaginar, desenvolvi essa investigação para saber que tipo de papel aguentava com o meu gesto, com a minha força. O papel cenário diz-se que é pobre, mas aguenta comigo perfeitamente, portanto, eu tinha é que sair. Era o que tinha à mão, comprei dez metros, um euro cada metro, um rolo de tela por oposição é 130 euros, mas estou tranquila, eu não me preocupo se é um material pobre ou rico, não interessa, o que importa é que me sinta bem e que tenha material para poder passar o que estou a sentir. As obras figurativas foram feitas com papel de arroz, é caro, foi uma colecção feita na Alemanha, quando estive com um artista Peter Fricke que tinha uma hora por dia para trabalhar comigo e como é muito dado ofereceu-me este papel. O amarelo era a minha busca pelo sol de Portugal, é a mulher, tu vens e vais, mas és sempre tu, sejas magra ou gorda, alta ou baixa, és energia.
E estes pequenos apontamentos?
SS: É lixo. Eu tinha um senhor que possuía uma casa de molduras que fazia passe-partout e os restos são enviados para o lixo, eu utilizo-s, porque é um papel rijo e aguenta comigo.
Porque fizestes essa pesquisa sobre o papel?
SS: Porque o papel é natural, é da terra, vêm da árvore, faz parte da semente. Esta tudo interligado. A tela também é boa, mas tem limites, quando estas a pintar há um fosso, porque a tela tem uma base que é grade de 4 cm e se continuares tu cais. Eu não fico em pânico, mas entro em conflito com essa queda. O papel não, é natural, não tem limites.
Tens então uma necessidade intrínseca de um movimento contínuo?
SS: Sim, aquele cm de tela é um fosso, a mão cai e tu cais, é horrível. Eu caio muitas vezes e levanto-me. Mas, a minha mão é impedida, há um corte obrigatório, então na faculdade fiz essa pesquisa e foi muito importante, porque descobri muitas coisas.
Se não tens um estilo demarcado, então como te defines como artista?
SS: Alguém me disse que era arte contemporânea.
E tu sentes-te inserida nessa vertente?
SS: Acho que sim, porque não sou impressionista, ou hiper-realista, ou abstracta, acho que a realidade já me basta, esta à mostra, eu não consigo reproduzir uma árvore real, porque já a vejo assim, então vou pinta-la como ela fala comigo. Há pouco tempo soube que a Paula Rego apanhou da professora primária porque pintou uma chávena de outra cor, sem ser da cor padrão, então porquê? Porque todos temos de ser iguais? E isso acontece na minha pintura, na minha escultura. Eu tenho de fazer o que estou a sentir, ao menos isso. (risos)