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Entubados

Escrito por  yvette vieira ft carina mendonça

  

Carina Mendonça criou tubos de ensaio sob a forma de personagens a partir de estereótipos sociais que nascem da sua vivência, ou do mundo que observa com atenção e que pode ver na Casa da Cultura de Santana até dia 11 de Novembro.

Fala-me sobre o conceito desta exposição “entubados”.
Carina Mendonça: A exposição aborda no seu geral a degradação social na sociedade onde vivemos. É uma metáfora, é um simbolismo, porque vivemos entubados, comprimidos. É um sub-sistema que orienta e direcciona e condiciona muito os nossos actos supostamente livres, às vezes ofusca o nosso verdadeiro eu, nossa verdadeira identidade. São também jogos psíquicos que cada um faz se quer seguir modas, ou não, mas de uma forma ou outra somos muitos orientados e aqui os temos isolados. Eu fiz as pinturas em tubos e as personagens que nós também somos representam um simbolismo, estão dentro de frascos, como se uma experiência in vitro, como cobaias.

Vamos falar dos bonecos dentro dos frascos, cada um deles é uma personagem, mas de que tipo? Como é surgem? Crias a partir de pessoas que vês?
CM: Não sei, depende, pode ser a ver um filme, pode ser por compaixão, é indiferente, eu sou muito aberta aos estímulos exteriores e tudo me interessa, tenho estes personagens e os tubos foram pintados numa fase posterior, primeiro surgiram os bonecos.

São estereótipos em que sentido?
CM: Vão buscar comportamentos sociais, inibições, estou a lembrar-me da miss Bruna, é uma boneca de corda, ela sabe que tem de ir trabalhar, porque isso se enquadra onde ela nasceu, cresceu e isso lhe foi incutido, ela sabe que para pertencer e se enquadrar é assim que tem de ser. Às vezes, crescemos com estas mensagens que nos são passadas e temó-las como reais sem sequer nos questionar, sem sequer pensarmos que existem outras possiblidades, ou outras formas de viva. O passarinho “yellow piu-piu” olha os humanos de cima e diz, “oh, meu deus, que loucura, que criaturas tão estranhas” porque ele não pertence à nossa espécie e isso é engraçado.

Como fazes os bonecos? Sei que és auto-didacta.
CM: Os bonecos são de tecido e pinto-os com acrílico, o enchimento dos bonecos é também em tecido, é tudo em material reciclado, como os cadernos que já faço há algum tempo.

Mas, eles são muito estilizados.
CM: Sim, não é o típico boneco de trapo fofinho, existe bastante compressão. Eu passo oito a dez horas a fazer um boneco, desde o cortar os quadradinhos até o encher com tecido leva tempo, mas é gratificante, eu gosto o processo final.

Como aparece então o CM art work?
CM: O nome aparece em Londres quando comecei a fazer feiras, eles exigiam um logótipo, com uma certa estética, mas eu costumo dizer que o meu logo é parte menos criativa do meu trabalho. Comecei a trabalhar com os bonecos e os cadernos, mas diferencio a pintura, não sei se fiz bem ou mal, são trabalhos diferentes, as telas são trabalhos artísiticos com um design muito próprio, mas é assim desde 2010.

E também nos mercados?
CM: Sim, em Greenwhich.

De artesanato?
CM: E de arte. Quando me perguntam se sou artesã eu sinto-me pouco à vontade, porque temos a ideia do artesanto de ser uma arte repetitiva, embora as peças não sejam bem idênticas, não vão ser iguais, mas vão ser bastante semelhantes. Os meus trabalhos são peças únicas, tenho bastante carinho em fazê-las assim.

Então os personagens não os fazes nem repetidos, nem iguais.
CM: Sim, repara, eu posso fazer dois personagens que tem um coração grande, que adorem estar vivos, mas todas as mensagens vão ser diferentes, o estímulo nunca vai ser igual. Eu acho que o mais difícil era fazer dois iguais, o “Ink John” é um personagem que ama a arte e não tem jeito nenhum para criar e a maneira que encontrou para lidar com isso é ter o corpo todo tatuado, ele leva a arte com ele, não é certo ou errado, é a maneira dele.

Tu descreves os teu bonecos como estereótipos, contudo eu não acho que o sejam curiosamente. São até pessoas que são alvo de preconceito.
CM: A Bruna é uma workaolic, é um estereótipo, mas isso de rotular também é difícil, eu consigo encontrar pessoas que são compulsivas com a sua rotina e não é que as faça sentir bem, mas fá-las sentir melhor ver que os outros estão a vê-los corresponder com as expectativas.

Tens alguma personagem que guardes bem perto do teu coração?
CM: Deixa-me pensar, tenho muitas que já não as tenho comigo. Eu gostava muito do Maurice era françês e por alguma razão ele não tinha um braço e numa outra mão tinha uma flôr e a sua mensagem dizia “ para que necessito de dois braços se só preciso de uma mão para te dar uma flôr”. Na exposição tenho a Lana, é homossexual e ela diz que esta nesta vida a procurar o seu mundo verdadeiro, “o que enche meu coração é a vida, se estas a achar difícil de entender vou-te dizer algo que explique o que sinto, nem todos os chineses gostam de arroz”. Eles são todos muitos naturais.

Tens dificuldade em desfazer-te deles?
CM: Sim muita, mas já estou melhor, porque antes as pessoas diziam que os bonecos eram tão giros, mas tu nunca acreditas muito que alguém os vai comprar e às vezes dou por mim triste, fi-lo ontem à noite, tinha acabo de encher e preencher a mensagem e já fiquei sem ele, nem brinquei um bocadinho com o meu personagem. Eu ainda tenho esta criança interior muito forte, gosto de brincar com os meus bonecos.

www.facebook.com/artCMwork

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