
Severino Santos Silva é natural de Boaventura, ilha da Madeira e reside atualmente em Estrasburgo, França. Entre 2007 e 2013 frequentou vários cursos e Workshops relacionados com as artes plásticas e artes decorativas, que o levaram até os fosforimos.
Tens formação em arte ou fizestes alguns workshops para chegar até este revelar do invisível?
Severino Santos Silva: Não, eu sempre desenhei desde os cinco anos, mas depois quando o meu pai morreu quando tinha doze anos, precisei escolher entre as artes em que tinha boas notas ou biologia, matemática e física. Então escolhi as áreas científicas, fiz carreira nessas áreas e esqueci o desenho. Depois aos 37 anos, um dia acordei e quis pintar, voltei para essa mesma vocação da minha infância, nesse primeiro ano de pintura quis fazê-lo sozinho, porque nunca tive um curso de pintura. Então participei num concurso internacional em França, o objectivo era pintar um castelo à beira do rio Loire, fiquei em terceiro lugar e então inscrevi-me numa escola de artes em Estrasburgo, num curso nocturno.
Como descobres o fosforismo?
SSS: No primeiro ano da escola de arte. Fui procurar todos os pigmentos que poderiam ser interessantes, entrei numa loja de tintas industriais e encontrei este pigmento, que poucas pessoas usavam porque com certeza era para fazer marcações no solo, para obras. De repente, nesse segundo imaginei logo uma camada de fósforo por debaixo e uma mais fina por cima para deixar passar a luz. E veio-me essa ideia do fosforescente, mas não quis logo de início expor em França, porque as galeristas franceses só mostram artistas que lhes permitem vender mais telas e então como pintava de forma diferente e não queria explicar o que usava, nem quiseram saber, eu queria ver se os galeristas estavam curiosos ou não, mas se não perguntam como pinto, então é uma pessoa que não pretende sequer mostrar as minhas telas. E depois decidi vir até à Madeira.
Mas, nenhum galerista em Estrasburgo ficou sequer curioso?
SSS: Só falei com dois galeristas e achei uma terceira galeria em Nova Iorque que apresentava obras de uma artista que fazia escultura fosforescente. Mas, esperei três a quatro anos para vir até à Madeira, porque antes não conseguia vir até cá para férias.
Só quisestes vir até à ilha porque foste rejeitado noutros lugares, ou sempre foi uma ideia inicial vir até aqui expor?
SSS: É verdade que se tivesse tido uma oportunidade de expor e vender em França com certeza que o teria feito, mas eu só quis falar com os galeristas e ver como funcionavam. Dizia-lhes que pintava de forma diferente e isso era para eles um travão, porque trabalham com artistas com obras semelhantes e seus clientes nunca vão comprar algo muito diferente, porque significa perder dinheiro e tempo. Acho que é mau que não arrisquem, os americanos aceitam mais esse factor, os galeristas dos EUA gastam 10% do que ganham com novos artistas. Em França não, não fazes nada.
O que queres dizer é que só te aceitam quando ganhas fama como artista?
SSS: Não sei, devem ter medo de perder dinheiro e aceitar riscos com uma pessoa que não conhecem.
Os americanos aceitaram então arriscar?
SSS: Eu quis aguardar, depois da Madeira. Eu só tenho uma carta de uma galeria que expõe este tipo de obras, porque já mostram um trabalho parecido ao meu. Em França, não.
Há uma linha unificadora entre as telas para além dessa tinta? É que são todas diferentes.
SSS: É verdade. Eu também quis arriscar diferentes maneiras de pintar com este pigmento. O que faz a exposição de pintura é que tem todas uma unidade e eu quis também fazer isso, apesar de ser a minha primeira vez, podem vê-las durante o dia, verificam que tem estilos diferentes e depois o que gosto de fazer é apagar a luz e as pessoas ficam espantadas. Em Estrasburgo fiz essa experiência, convidei 20 amigos e mostrei-lhes apenas os trabalhos com luz, não lhes disse que tinha usado o fósforo, só quando apaguei a luz e viram as imagens que pintei ficaram espantadas e saborearam o momento. Só depois de explicar o meu trabalho é que perceberam a ligação, o tema da pintura. Todas as obras possuem o pigmento, tem essa camada fosforescente, só quando se apaga a luz é que os traços aparecem e isso é que faz a unidade das telas.
Qual foi o maior desafio que encontraste com este material?
SSS: Para fazer este tipo de pintura é necessário fazer experiências sobre o papel e achar uma mensagem para dizer, com esta técnica temos que ter duas camadas, duas mensagens diferentes que se possam completar. Uma primeira mão fosforescente e a segunda camada de tintas ditas normais. Tem algumas perguntas e mais de uma resposta, que foi preciso adaptar para que as pessoas pudessem compreender.
É o teu lado científico que transpuseste para os teus quadros? As perguntas e o lado invisível?
SSS: Sem se pensar vai ver como funciono. Eu sempre me questiono porquê? Porquê reagem da forma que o fazem? São muitas dessas perguntas que coloquei nesta exposição.
Qual é o próximo passo depois desta mostra?
SSS: Vou trabalhar ainda mais com este material, porque não descobri todas as suas capacidades e sei que vai ser diferente. As pessoas que trabalham na arte, como em tudo na vida uns vão gostar e outros não, é como no impressionismo, no princípio também não queriam mostrar as suas obras, porque para os especialistas não era pintura. Isso não me impede de pintar de maneira diferente, haverá sempre quem não vai gostar e tentarei ser ainda mais preciso e ir mais longe, puxar aos limites ao máximo.