Um olhar sobre o mundo Português

Uma edição de pessoas fantásticas nas suas diferentes áreas, deixe-se contagiar e sonhe mais alto. 

h facebook h twitter h pinterest

Volta ao mundo em caixas de açúcar

Escrito por  yvette vieira fts bárbara fernandes

O museu da Quinta das Cruzes (MQC), na ilha da Madeira, possui um espólio de móveis utilitários feito em madeiras endémicas e outras exóticas vindas do Brasil, ao longo do século XV até o primeiro quartel do século XVI. Um conjunto museológico relacionado com a importância do ciclo económico do açúcar inicialmente produzido na ilha, que mereceu uma visita guiada, no âmbito das conferências de “Dar a ver”, desta feita apresentado por Teresa Cupertino da Câmara,também como salientou o director regional de serviços de Museus e Património da direcção regional da cultura, Francisco Clode, se estendeu ao mobiliário “é uma característica madeirense quando não conhecemos determinada coisa damos-lhe um nome alternativo, móvel caixa açúcar, ninguém sabe ao certo o que é, mas temos esta capacidade na ignorância, ou na dificuldade de encontrar esta designação que é a melhor forma de caracterizar um conjunto de madeiras que vieram do Brasil e que desconhecíamos”.

 A arca é o móvel primordial para os restantes que partem dessa tipologia, executada em caixa de açúcar, é um móvel de conter, servia de banco, de mesa, de cama quando tinha um tamanho bastante comprimido, servia também para colocar a enxerga ou pequeno colchão de palha ou folhas secas, no seu interior. É um móvel de transporte porque tem duas quilhares laterais, em forma de V em ferro forjado. Esta arca não é dos móveis mais antigos, porque é do século XVIII, que foi feita com madeira que vinha do Brasil e que era utilizada pelos mestres locais.

A construção dos móveis é feita, por norma, por ensamblagem com a junção das ilhargas, sem pregos, tanto da parte de atrás como da frente. Este móvel tem uma cauda de andorinha que é o fecho. Nesta época até 1670 fala-se em carpinteiros, só depois surgem os marceneiros, devido ao aparecimento dos regimentos que necessitavam de construir móveis.
Uma das maiores dificuldades nas caixas de açúcar é determinar os tipos de madeira usadas, porque existe pouca literatura sobre o assunto, são muito variadas e confundidas umas com as outras, porque enquanto não se retirar uma lamina transversal para ser estudado no instituto de engenharia civil para saber o tipo de madeira, é impossível determinar a sua origem exacta.
As pessoas que se tem debruçado sobre o estudo das caixas de açúcar afirmam que pode ser Jequitibá (cariniana spp) e só esta madeira tem 800 variedades e todas com cores diferentes, ou Tapinhoá (Mezilaurus navalium), ou inbuia (ocotea sp.) mas esta é uma madeira muito escura e não posso afirmar a origem. Um estudo realizado por Lília Esteves, sobre as peças desta sala, chegou à conclusão que não se poderia verificar quais as madeiras em que os móveis foram construídos, porque precisava de tirar uma lâmina transversal e como não conseguiu tirou uma secção de uma das gavetas e descobriu que foram feitas com restos de madeira. Poupava-se, assim, a madeira boa para o exterior que não se usava no interior, por exemplo, as partes laterais dos móveis muitas vezes eram feitas com diversos tipos de madeiras.

Este móvel paralelipipédico é do século XVII, com um certo gosto e com requinte para subir para móvel de aparato tem uma moldura saliente em pau santo que é jacarandá, mas também existem 90 variedades só desta espécie vegetal. Portanto, tudo o que sabemos é que veio cá ter, é uma madeira exótica e de grandes dimensões. Este móvel tinha muitas funcionalidades e foi mudando de tipologia, foram criadas duas gavetas em baixo, tem pés periformes.

Os contadores são feitos com madeira de til, trata-se de uma arca que vai abrir com um batente para baixo, é um móvel também de transporte. O homem, desta época, com uma vida menos sedentária, tinha de deslocar-se de um lado para outro e apareciam as asas de um lado e outro para facilitar o seu transporte. Tem uma trempe em forma de cruzeta que se considera que é original. É uma porta com dobra de linho que tem um fechador em forma de tesoura. As gavetas eram para guardar joias, dinheiro, ou outras coisas pequenas.

Os embutidos têm uma técnica muito especial diferente de Itália onde se foram buscar essas influências, que não podia ser recortado e encaixado, usava-se como madeiras o til, o vinhático e o freixo que posteriormente foram proibidos de ser cortados, porque se estavam extinguindo, é preciso notar que para se fazer 15 quilos de açúcar eram necessários 15 quilos de lenha que era apanhada para poder produzir este bem essencial.

 

Os móveis dos Açores, arcas de decoração esgrafitadas, que se pensavam que eram de Itália, são afinal provenientes da ilha Terceira, que eram um porto de escala para a América e para a Índia e uma das coisas que Gaspar Frutuoso, aborda em “Saudades da terra” é que se faziam umas arcas mais bonitas que as de Nuremberga. Depois chegou-se à conclusão que há uma grande quantidade de cedro nestas arcas, porque era uma madeira muito comum nas ilhas açorianas. A gramática decorativa não é gravitada como era feita em Itália, o desenho é escavado, introduzindo um betum judaico para escurecer o desenho.


O escabelo tem origem na arca, possui gavetas, com um tampo que serve de banco, onde esta um jogo de xadrez, no século XVI. Possui uma gramática decorativa que se repete em outras peças.


A mesa filipina tem uma perna em forma de lira que acabou por servir de trempe (tripé) para este móvel, porque o museu não foi só criado com doações, este móvel não esta exposto, foi adquirido no ano passado, o MQC é uma coleção aberta de um colecionar César Gomes e mais tarde por parte do governo regional com grande esforço financeiro.


É uma peça estava à venda num antiquário em Lisboa e embora tenha sofrido algumas alterações tem uma tipologia muito rara ligada ao mobiliário açoriano, em cedro, é um contador. Não é contador-escritório, quando só é contador não tem porta, tem uma influência francesa e dos móveis flamengos, porque é um móvel de aparato, com uma característica muito renascentista, com arabescos, os motivos são retirados da gramática decorativa espano-mourisca, que aparece no século XVI e se prolonga até o XVII, mas que tem de ser estudada melhor. Os puxadores são em forma de tesoura, com um tipo de verdugo em volta da fachada da gaveta para embelezar.


Estes móveis se chamam-se pela sua tipologia móveis separados por dois corpos, por gavetas, que também vem da arca, surgiram por necessidade de guardar os utensílios, ou as pratas, ou cerâmicas, ou ainda, a faiança das companhias das Índias. Tem origem na influência flamenga e foram adaptado pelos marceneiros à sua maneira, por isso, não há dois iguais. Tem bocas de diamante, mostram o conhecimento do que se fazia na Europa, os ferrolhos são de ferro forjado. Os lemes das portas são floreados, é um fecho em forma de T, é um móvel de aparato, é um móvel de pé, não é para colocar copos, é da copa, onde se guardavam coisas das casas, as loiças.

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.

FaLang translation system by Faboba

Podcast

Eventos


loading...