Um olhar sobre o mundo Português

Voltei depois de um muito necessitado hiato e agora apresento uma edição recheada de experiências e multiculturalidade. Seja bem-vindo de novo

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

quinta, 12 outubro 2017 15:03

Os magnatas do incomum

 

Os Ermo que nada devem ao nome são um jovem duo musical que surgem em 2012 com um EP homónimo e cujo álbum seguinte “vem para aqui” os lança nas luzes da ribalta da música em Portugal. Com uma sonoridade electrónica com uma forte influência musical portuguesa, esta banda de Braga lançou recentemente o seu último trabalho Lo-fi Moda que se distância dos seus restantes trabalhos discográficos, mas não da sua essência tão lusa.

Gostaria de saber como o projecto dos Ermo surge com esta vertente de música portuguesa e ao mesmo tempo electrónica? Vocês são instrumental e voz.
António Costa: Conhecemo-nos há uns anos, desde 2011, ficámos amigos e não foi algo muito pensado, a parte da música portuguesa, aliás é uma sonoridade que estamos a deixar muito de fora neste novo trabalho. Mas, durante um grande período foi assim, não consigo explicar porque, simplesmente foi o que sentimos na altura e agora estamos a pensar em letras e sonoridades diferentes que não reflectem tanto sobre isso.

Quando ouvimos o álbum há sempre no fundo uma sonoridade electrónica e o que muda é a letra. Que tipo de instrumentos usaram?
Bernardo Barbosa: Chegámos a usar guitarras, mas a instrumentação é sempre no computador.


Começa por aí, ou alguns dos temas surgem primeiros nas letras?
BB: Existem algumas faixas em que temos o tema que queremos tratar e se calhar partimos disso. Pegamos num sample e vamos percorrendo a sonoridade portuguesa e só mais tarde encaixámos algum instrumento, ou usámos apenas o computador, ou alguns acordes. Trabalha-se em cima disso.


Então qual é a linha condutora do vosso trabalho?
AC: Temos um trabalho de 2012 que não tem nome. O disco de 2015 intitula-se “Amor vezes Quatro” o de 2013 chama-se “Vem por aqui” tem 8 faixas e resulta do que estamos a sentir, não há linha condutora. Mas, neste último trabalho quisemos mesmo fazer essa separação em relação aos registos anteriores, por isso, tivemos dois anos de silêncio, quisemos fazer um paragrafo.


Cantares numa sonoridade grave é propositado?
AC: Quisemos fugir também desse registo, agora, as vozes são mais leves. Em 2013 aconteceu essa entoação mais grave, não foi muito pensada, usávamos muitos sons sustenidos nas nossas canções, para fazer melodias, não te sei dizer se é algo propositado. As letras são graves no seu conteúdo e se calhar por isso surge esse som mais grave.

Disseram que vão apresentar um novo trabalho e é diferente, em que difere?
AC: Já não estamos tão dependentes da temática portuguesa, não estamos tão ligados a esse meio. É um álbum mais urbano e jovem, somos uma banda que vai crescendo a maturidade se nota no profissionalismo do que estamos a fazer e nos temas.

BB: É menos clássica, antes íamos buscar muita coisa a Zeca Afonso, Madredeus e José Mário Branco.

E em termos de sonoridade?
AC: É mais electrónico e é dirigido a um público diferente. Usámos mais o sintetizador, menos digital e houve uma tentativa de fazer arranjos mais ousados, deixámos de parte aquela centralidade poética que houve durante muitos anos e tentámos fazer algo mais coeso em termos de instrumentalidade.

A portugalidade esta subjacente de novo neste disco ou nem tanto?
AC: Nem tanto, continuámos a cantar em português, é algo que vai estar sempre presente, mesmo que vamos para outro sítio.
BB: E nunca equacionar cantar em outra língua que não português.

A electrónica é associado ao inglês, mesmo em bandas portuguesas.
AC: O nosso som natural é português e não queremos mudar.

É muito difícil escrever as letras? E quem escreve?
AC: Somos os dois.

Reflecte a vossa vida?
AC: Sim, é o que nós pensámos e sentimos. Reflecte também o que estamos a ouvir. É o que saí de nós. Trabalhamos aquilo que gostámos e é a nossa estética

Neste álbum pareceu-me que deram grande enfase as palavras e a entoação da voz.
AC: Sim, qualquer pessoa que trabalha com a voz tem de se preocupar com a entoação, a maneira como colocas a voz e existe a maneira certa e errada de cantar uma palavra. Nós esforçamo-nos nesse sentido, se calhar outra pessoa não se preocuparia com o ditongo, ou a maneira como o acento vai ser usado numa canção e por esse motivo há palavras que não devem ser usadas. A letra por melhor que seja deve ser pensada quando colocada junto com a melodia, a letra é sempre escrava da forma como a estas a cantar.

Este novo disco como o definiriam?
AC: Apesar de ser menos épico e denso é mais urbano, mais cidade e menos campo. Vivemos na cidade é mais subterrâneo nesse aspecto.
BB: É mais passível de ser apreciado por alguém que não fala português. Joga muito mais com a sonoridade da música, ou de qualquer coisa que queiras ouvir sobre Portugal é um disco que pode ser ouvido lá fora e é o primeiro passo nesse sentido.

Vão partir em tournée internacional com este novo álbum?
AC: Sim, vamos ao Brasil e experimentar à Ásia um dia destes. Os projectos para o futuro ficam lá mesmo.

Como é a recetividade de um trabalho como o vosso mesmo tão diferente, num país como o Brasil?
AC: Fomos parar a um festival de rock, encontrámos muita gente que gostou do nosso som, mas se calhar seria mais bem-recebidos se fosse em São Paulo. Mas, aprendemos imenso enquanto profissionais.

Como se chama o novo álbum?
AC: Lo-fi moda. (risos)

Não é um título muito português, porquê?
AC: É como teres uma peça de roupa por ser “chunga”. É como teres umas calças de ganga que já as usas há 15 anos e assentam bem nas tuas pernas. (risos)

São 3 volumes didácticos lançados pela escritora Zita Cardoso que pretendem mostrar os símbolos da autonomia e independência dos arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde.

Um dos livros que escreveste aborda os 42 de independência de Cabo Verde?
Zita Cardoso: Exactamente, são 42 anos de mudança de regime político de uma ditadura para um modelo autonómico, mas curiosamente trata-se de um fenómeno transversal que se juntou e transformou num sistema administrativo paralelo, com mais ou menos conquistas. Cabo Verde teve uma etapa que queria ser autonómica como as regiões autónomas portuguesas, mas com a formação do partido PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde) que é um dissidente do partido PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde da Guiné Bissau) ao separar-se pretende ser um país independente. É preciso contextualizar esta questão o Cabo Verde e a Guiné Bissau ambas eram colónias e a Madeira e os Açores não.
No caso da autonomia açoriana o livro foca que aspectos?
ZC: É um livro pedagógico e didáctico, é patriótico e pretende aproximar as pessoas das instituições democráticas. É também uma obra sobre cidadania e é um fundamentalmente educativo. Este é um dos livros que aborda os três arquipélagos no Atlântico. Já tenho a primeira edição que se debruça sobre a Madeira, vou agora, recomeçar em breve uma segunda publicação. Sobre os Açores já é também uma segunda edição e a terceira obra é sobre a independência do Cabo Verde que é uma situação diferente, porque é uma ex-colónia africana.
Para o livro de Cabo Verde tivestes de fazer um levantamento exaustivo?
ZC: Sim, tive que me deslocar a este arquipélago e falar com as autoridades, fiz investigação no local e desloquei-me a todas as ilhas do arquipélago, percorrias de lés a lés, tirei fotografias e achei que a autonomia neste caso significa uma transformação positiva da sociedade e tinha de estar representado no livro. No caso dos Açores as obras são sobretudo na costa, a aposta açoriana foi mais no sentido de criar infraestruturas marítimas, enquanto que na Madeira as intervenções foram mais em terra, os túneis, por exemplo.
Em relação ao Cabo Verde quais são os principais símbolos da sua independência?
ZC:. Conheci a família de Amílcar Cabral, em particular a esposa e também o companheiro na independência que é o comandante Honório Chantres, que vive na ilha de Santo Antão e foi ele que me incentivou a fazer este trabalho. Ele forneceu-me todos os dados e apesar dos seus 76 anos é uma pessoa perfeitamente lúcida e o seu depoimento que esta no livro aborda os sinais da independência. Acompanhou a separação do partido da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Eu conheci à raiz da independência de Cabo Verde e este testemunho têm de ser passado para as novas gerações e para as escolas, porque a sociedade tem de saber como a democracia chegou aos países onde vivem.
Então como são os símbolos da independência de Cabo Verde?
ZC: Os escritores que através da sua escrita questionavam à independência do seu país, depois abordo os diferentes ministros de cada ilha, a assembleia como esta elaborada e as várias alterações que teve ao longo do tempo. A ilha de São Vicente, por exemplo, foi o palco de diversos comícios políticos para a liberdade de Cabo Verde. É acima de tudo um trabalho político e libertário.
E a educação é outro grande símbolo?
ZC: Muito e também os dois partidos no poder e que se tem revezado nos diferentes governos e tenho que dizer que Cabo Verde é um país virado para a modernidade. Aproxima-se muito à cultura europeia.

Então ao contrário das autonomias atlânticas cujos símbolos de autonomia são as obras, em Cabo Verde, são as pessoas?
ZC: Sim, são as pessoas que fizeram o país. As obras não são tão expressivas como nas regiões autonómicas. Também há outro factor, existiam correntes que defendiam apenas a autonomia de Cabo Verde, mas como era uma colónia portuguesa africana e a Madeira e os Açores não o eram, não aconteceu. Existe um organismo europeu para as regiões ultraperiféricas, como é o caso das Caraíbas, Guadalupe e Martinica que foram colonatos franceses, ainda são colónias “autonómicas” francesas, depois temos a ilha de Reunião e Guiana Francesa que que são francesas, não obtiveram a independência, mas são regiões autonómicas, nunca se desligaram do cordão umbilical que é o país mãe. Depois temos as ilhas Canárias, Madeira e Açores, contudo o Cabo Verde é apenas um país observador, não esta integrado no conceito de região ultraperiférica.

quinta, 12 outubro 2017 14:42

Robô que salva vidas

 

Num cenário de catástrofe porquê arriscar a vida no reconhecimento do interior de um edifício desmoronado? Um pequeno “milagre” electrónico foi desenvolvido por um grupo de estudantes de Engenharia Electrónica e Telecomunicações da Universidade de Aveiro (UA) e pretende ser uma preciosa ajuda quando todos os minutos são essenciais para salvar vidas.

Trata-se de um robô capaz de entrar nos escombros, que consegue mapear em três dimensões o espaço, detetar focos de incêndio e medir a temperatura, humidade e monóxido de carbono e, em tempo real e enviar os dados para o exterior. Pequeno e autónomo este dispositivo electrónico foi idealizado por 15 estudantes do Mestrado Integrado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações, no âmbito da unidade curricular de Projeto em Engenharia Electrotécnica lecionada pelo docente Nuno Borges Carvalho. O robô já está em fase de protótipo e à espera de todos os apoios para, no futuro, ser fundamental no trabalho da Proteção Civil. Para tal, os estudantes têm já delineado a HART (Human Aid Robotic Technologies), uma empresa que, quando nascer, vai dar suporte ao desenvolvimento e comercialização do robô.

Projeto único num mercado onde abundam soluções voltadas essencialmente para ambientes militares e que fazem uso das câmaras apenas para recolha de imagens, o robô tem também por novidade a capacidade de dispensar um operador já que, apontam os estudantes do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática, na fase final de desenvolvimento o robô vai ser capaz de se mover e adquirir informação de forma autónoma.

Com 1,5 quilogramas e 23 por 28 centímetros, o dispositivo electrónico pode facilmente ser usado em todos os cenários que necessitem de medir condições ambientais e em que a obtenção de um modelo tridimensional possa ser útil. Nestes cenários os estudantes incluem incêndios, colapsos parciais, grutas, demolições e operações de reconhecimento, busca e salvamento.
O robô pode ainda ser usado para ajudar na avaliação da integridade e extensão de danos num edifício afetado por um sinistro. Do interior dos escombros o autómato conseguirá informar sobre a temperatura, humidade, concentração de monóxido de carbono e presença de focos de incêndio. Será ainda possível visualizar um modelo tridimensional do espaço onde o robô se encontra.

Todos estes dados serão disponibilizados em tempo real às equipas de salvamento através de uma aplicação de computador criada para o efeito, onde a informação é apresentada de forma clara, simples e concisa, para acelerar o processo de análise e tomada de decisões.
Nesta fase de desenvolvimento, apontam os estudantes, o robô já consegue fazer a sensorização do ambiente e gerar o respetivo modelo 3D. Dentro em breve, será a vez da implementação da capacidade de adquirir e sobrepor vários modelos 3D e da instalação do movimento autónomo.

quarta, 04 outubro 2017 16:00

set In stone

 

 

Inaugurada durante o London Design Festival, e aberta ao público até 25 de Outubro, a exposição foi preparada especialmente para o Design Museum de Londres.
No âmbito da exposição Set In Stone, que faz parte do programa Primeira Pedra, organizado pela experimentadesign em parceria com a Assimagra e com curadoria de Guta Moura Guedes. O carismático designer de comunicação inglês Peter Saville, co-fundador da lendária editora discográfica independente Factory, apresenta um trabalho inédito, produzido especificamente para esta exposição.

A peça In Memoriam, de Peter Saville, autor de diversas capas de discos (New Order, Joy Division, Roxy Music, Pulp, David Byrne, entre muitos outros) é uma interpretação escultórica do gráfico que demonstra as pulsações sucessivas do CP1919 (a primeira estrela pulsar descoberta a partir de ondas de rádio, em 1967), que Saville utilizou para a icónica capa do disco Unknown Pleasures, de Joy Division, em 1979. O gráfico, que representa uma ilustração linear da frequência e simetria de um evento temporal, foi transposto para 3D por Saville e o seu colega Bill Holding dos Morph em 2002 resultando numa escultura de um momento no tempo. As associações entrópicas que habitam a história deste trabalho são amplificadas por esta reprodução em pedra monumental reflectindo sobre o que Michael Bracewell escreve sobre o trabalho de Saville para os Joy Division, vendo-o como “a prova documental de um crematório nas profundezas do espaço”.

Feito em mármore Ruivina Escuro, com 305x305x1077mm e 250kg de peso, In Memoriam é apresentado num conjunto de 20 trabalhos de 9 arquitectos e designers, reunindo as três áreas de trabalho de arquitectura, design de produto e design gráfico, no exterior e interior do The Design Museum, inaugurado em 1989.

Para além do trabalho de Peter Saville, as peças apresentadas em Londres são da autoria dos portugueses Eduardo Souto de Moura, Paulo David, Miguel Vieira Baptista e Jorge Silva, do atelier chileno Elemental, do inglês Jasper Morrison, do cipriota Michael Anastassiades e da dupla austríaca e americana Sagmeister & Walsh.

Peter Saville
Nasceu em Manchester em 1955. É um artista e designer que tem exercido uma contribuição marcadamente única na cultura. Como fundador e director de arte da editora discográfica independente britânica Factory Records, chegou a um público alargado através da música pop, nomeadamente com as capas que criou para os Joy Division e New Order entre 1979 e 1993. As suas criações radicais quebraram todas as regras, omitindo informação sobre os artistas ou os títulos, questionando de uma forma fundamental as formas de consumo e comunicação. Os seus projectos mais recentes englobam design, arte e cultura. Peter Saville vive e trabalha em Londres.

Primeira Pedra

Resultado de um projecto que implicou cerca de dois anos, onde 24 arquitectos e designers foram convidados a explorar o potencial do mármore e calcário portugueses, foi explorada a presença da pedra em espaços públicos e privados, fazendo uso da versatilidade do material em termos de sua cor e textura. No total surgiram 51 novas obras, novas perspectivas e novos métodos no decorrer do processo. A liberdade artística foi primordial neste projeto, que ampliou o potencial da pedra, expandindo a relação entre material, design e processos industriais e de fabricação.

Set In Stone

Projectos:
Eduardo de Souto Moura (PT), Conversadeira, 2017
Elemental (CL), A Thing Not An Object, 2016
Jasper Morrison (GB), Alpinina, 2017
Jorge Silva (PT), Pictorama, 2017
Michael Anastassiades (CY), Forbidden Fruit, 2017
Miguel Vieira Baptista (PT), O Peso da Pedra, 2017
Paulo David (PT), Mult, 2017
Peter Saville (GB), In Memoriam, 2017
Sagmeister & Walsh (US), Don’t Look Back, 2017

quarta, 19 julho 2017 14:51

A criatura nasce e a obra acontece

Este projecto inusitado surgiu de uma vontade de Edgar Vicente de fazer música portuguesa com outros músicos e o que começou com apenas seis elementos foi ganhando mais força e mais instrumentos e neste momento é uma banda que mais do que cantar em português faz uma ponte entre o som tradicional e uma sonoridade em camadas mais contemporânea, que resultam em canções que vão ao encontro da portugalidade e da identidade da banda como um todo.

A criatura começa contigo, com música portuguesa de raiz tradicional e criastes uma banda gigantesca?
Edgar Vicente: A minha ideia era de ir ao encontro da minha identidade, da minha geração e com as pessoas de uma forma geral, dos mais novos aos mais velhos. Queria que fosse uma identidade em uníssono, que conseguisse juntar as pessoas, todas, numa altura em que o amor esta mais globalizado e dia após dia perdemos essa ideia de pertença. Temos de nos revisitar constantemente e comecei essa ideia em Serpa com o objectivo de gravar um disco. O que pretendia era ir até à tradição e perceber o que aquilo era, o que já não faz parte e aí surge uma necessidade, também, de precisar de mais gente, mais criativos que me ajudassem a perceber isso e começaram a surgir os convites. São pessoas com quem tinha tido muita vontade de trabalhar, mas ainda não tinha surgido essa oportunidade, como o Carlos e o Gil e outros ainda com quem ainda não tinha tocado antes e que queria levá-los nessas musicalidades.

O que achei curioso ao ouvir o álbum, “Aurora” e ouvi-los em palco há uma diferença brutal. No CD o som era menos vivaz, mais polido, muito bem acabado e masterizado, mas preferi as versões em palco.
EV: Isso tem a ver com facto do álbum ter sido feito há três anos.
Gil Dionísio: São três anos de estrada, deste revisitar para dentro, foi o ser obrigados a ter um olhar verdadeiro lá para fora e para o que esta à nossa volta e isso fez com que houvesse coisas que tivessem sido feitas na altura, eu tinha 24,25 anos e tu tinhas 19?
EV: 21 anos
GD: Agora o Edgar tem 25 anos e existe uma diferença brutal. Uma pessoa pensa de forma diferente do que pelo menos há quatro anos e eu vou fazer quase 30 anos. Ou seja, nós crescemos com esta música que fizéssemos e houve coisas que falharam, houve temas que agora tem mais força e estão mais bonitas e outras que foi o inverso, canções que acabaram por ter uma dimensão muito menos forte. Acima de tudo quando o ouço o álbum e eu crio uma relação à medida que o vou ouvindo, mais o amadureço. A própria capa é uma peça, é tudo o que queremos fazer e com o passar do tempo, em palco, criou-se uma relação muito íntima com estas músicas, com a Portugalidade, seja o que for que isto quer dizer, mas que pode querer transmitir muita coisa. Com o tempo formos criando esta relação com este olhar, com esta forma de fazer música de uma forma emocional, ou como o Edgar diz de quem “cá esta”, é uma tradição de música tradicional portuguesa, de música pimba e de toda a música do mundo que existe ao mesmo tempo e que influenciou essa mesma musicalidade. Ou seja, quando trazemos música tradicional não podemos só olhar para a “modinha”, olhámos para pessoas, para as histórias e todo um conjunto de coisas que estão em volta para que essa relação com os temas seja mais intensa, mais emocional. Quando chegámos ao palco há todo um romance que nunca mais acaba e isso é o que se nota.

Vocês são muitos, cerca de 11 músicos em palco, deve ter sido difícil conjugar isso tudo e as personalidades musicais, ou não?
EV: Isso é um dos aspectos principais deste grupo, o facto de sermos diferentes e já partimos todos para isto sabendo que erámos muito diferentes, há muita tolerância. De vez em quando existe um que avança e diz que no rock não se faz assim, não sabíamos o que estávamos à procura, nem no que estávamos a fazer, sabíamos apenas que éramos todos muito diferentes. Abrimos um grande espaço para a tolerância, para aproveitarmos o que outro vai fazer à partida, porque sabemos que vai ser diferente do que vamos trazer.
GD: Há um aspecto muito importante aqui, enquanto grupo e que estamos todos a fazer, é que não sabemos o que isto de fazer música tradicional. Na banda descobri muita coisa e quando fazemos algo distinto uns dos outros, isso abre as possibilidades todas e quando embocámos nesse poço todos juntos são muitas ideias, muitos pontos, mas no geral é vamos lá descobrir o que é esta herança muito grande, gigante.

É, por isso, que os temas são tão compridos? Porque comparando com uma melodia de música portuguesa são até bastante extensos.
EV: Nós gostámos de atingir um certo estado com as músicas, o que não quer dizer que os caminhos não atinjam certos picos, mas em alguns temas já dá para sentir uma história.
Mas, há um tema que parece contar mais do que uma história, a canção que fala da rapariga que não quer ir à missa e do jovem que embora não queria ir para universidade, não paga.
EV: Na verdade é ao contrário, ela vai à missa e eu vou para a faculdade não foi por não querer, mas porque ninguém me disse para não ir.

Achei que eram dois temas numa única canção.
EV: Exactamente, esse tema se chama “É da praxe” e acabámos por cantar que há coisas que por mais que seja tradição, ou que tem de ser assim, se pensarmos bem naquilo em que nos estamos a meter acabámos por não as fazer e isto não é mais do que fazer perguntas, é isso que sugerimos as pessoas. É bom não seguir a maré, é bom olharmos em volta e remarmos por outras rotas onde podemos chegar mais depressa até.

No concerto já cantaram um dos temas do próximo disco, “A noiva”.
GD: Cantámos cinco músicas do próximo álbum. “A noiva”, “bem bonda”, “lóbis homem”, “dá praxe” e “a gaita”.

Porque decidiram começar a apresentar estes temas em palco, para já obter feedback do público?
EV: Acho que é por essa relação que a banda tem de ser renovada constantemente. Jamais conseguiríamos a tocar o mesmo repertório por três anos seguidos, as canções vão surgindo naturalmente para nós estimular como grupo e cativarmos a nós próprios. É tão bom quando alguém chega com uma canção pela primeira vez, vamos ensaiá-la e temos um momento novo que nos traz uma magia renovada em palco. O espectáculo é muito mais do que isso.


“A noiva” não é um nome definitivo para o álbum?
EV: Ainda não sabemos bem qual será o nome do disco.
GD: Não consigo fazer essa projecção.
EV: Eu sei como que se vai chamar (risos)
GD: É “bem bonda”, mas ainda não há uma certeza. É curioso nos gostámos de saber o que realmente andámos a fazer, gostámos de olhar para o que estamos a fazer. Vamos gravar ainda neste final do ano e início do próximo, não temos datas projectadas, nem nomes ainda, embora não tenha algum problema em tocar as músicas antes. Não consigo adiantar o que o álbum vai ser, porque parte desse percurso é descobrir o que vai ser esse disco. Esta banda é isso, até nos concertos não sabemos como vai ser. Curiosamente quanto as canções não acho que sejam longas, são narrativas por camadas que vamos descobrindo cada vez que as tocámos. “A noiva”, ou “A gaita” não sabemos como vai soar. Provavelmente vai ser como o que viste em palco e até nem sei o que será, obviamente já pensámos sobre isso, mas se calhar nessa altura vão aparecer outras coisas e seja o tempo a dar-nos essa resposta. Vamos vivendo, tocando e quando chegar ao álbum vai ser um cabaz, mas não sei é como vai soar.

https://www.youtube.com/watch?v=uOo4ymyWZ2I

quarta, 19 julho 2017 14:48

Sou eu mais livre, então

Trata-se de um diário sobre um preso político angolano, Luaty Beirão. Um relato, na primeira pessoa, que servem como testemunho do quotidiano dos 13 dias que esteve preso numa cadeia de Angola e que ainda inclui uma entrevista a Carlos Vaz Marques onde aborda os 36 dias de uma greve de fome que o deixou em perigo de vida.

Este é um diário sobre o período em que esteve preso?
Luaty Beirão: Na verdade são 13 dias em que tive acesso a um caderninho e uma caneta no ano que lá cheguei. Depois é compensado com uma entrevista mais aprofundada do Carlos Vaz Matos em que se aborda o que não esta registado no diário. São basicamente pensamentos, letras de música, coisas da próxima visita que tinham de me trazer, tem de tudo um pouco, é muito misturado.
É o relato de um ano?
LB: Tem um hiato de 3 meses de prisão domiciliária, depois da condenação voltámos para a prisão onde ficámos desde o dia 20 de junho 2015 até que fomos soltos no dia 29, um um ano e nove dias depois.
O que mudou em Angola?
LB: Tem vindo a mudar, houve um salto desde este período em que estivemos presos. Existe um lento despertar de consciência, um tímido calar do medo, há uma inversão em como as pessoas se relacionam com o seu próprio medo, elas começam a falar mais e protestar mesmo que seja em espaços mais reduzidos como as redes sociais, ainda não se transporta para a rua, mas sente-se que esta a desaparecer aos poucos. O caminho faz-se caminhando e um passo de cada vez, também não sei se seria muito bom que tudo fosse tão repentino, não sei se saberíamos gerir uma mudança do dia para a noite, esta a ser como tem de ser e esta a correr bem. Não consigo quantificar um tempo para que essa mudança aconteça, sei que já não será para nós, somos os agentes de mudança, mas não sei se será imediato, temos é que provocá-la.
E Portugal deve ser agente nessa mudança?
LB: Se Portugal não fosse conivente seria bom, não pode fazer mais do que isso por questões de soberania. Não calar processos que existem aqui, por causa de crimes que foram cometidos lá. Gostam de dizer que os poderes são separados, mas nem sempre é assim, lá como cá, mas o papel de não ajudar os que lá estão já é alguma coisa. É bastante.
Tem uma vida normal em Angola?
LB: Não existe uma vida normal em Angola. Nem estas pessoas que se vêem a esbanjar milhares de euros em relógios vivem normalmente. Uns vivem em redomas, atrás de muros, saem com carros blindados o que não é normal e os outros vivem num outro extremo à procura de água, luz e comida, coisas básicas para a dia-a-dia. Nada disto é normal. Mas, percebo o que me quer perguntar, se sou incomodado, ou seguido, acho que o sou de uma maneira mais discreta, antes via quando saia para a rua quem me ia seguir, mas tenho a noção que eu e os outros somos monitorizados, aprende-se a viver com isso também, não é normal, é a vida que temos.

Voltando um pouco ao diário, trata-se de um registo de 13 dias em que também refere escreveu para não enlouquecer.
LB: Eu estava confinado a uma solitária, não sei se foi bem para não enlouquecer, não sei o que teria acontecido se não tivéssemos acesso a livros e a escrita, não sei como teria lidado com uma cela durante 3 meses, iria haver algum impacto ao nível do meu estado psicossomático. Bom, felizmente ao fim de três dias tivemos livros, cadernos e canetas, que depois foram sendo retirados quando invadiam as celas e às vezes levavam os cadernos e as canetas. Chegou um ponto em que não tinha mais vontade de escrever, porque não sabia se voltaria a ver os meus escritos. Esse caderno que saiu foi uma sorte, alguém que já tinha a experiência de estar preso em Angola sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde e conseguiu camuflar o caderno numa coisa saiu e que foi para a cidade. Eu estava a 100 quilómetros da cidade.
Acha que o seu grito acabou por inspirar mais pessoas não só em Angola, mas em outros países?
LB: Não sei se poderia dizer que inspirou outras pessoas um pouco por todo o mundo, ou em Angola e que isso esta a transformar alguma coisa. Não estou muito preocupado com o ego, a vaidade, esta coisa do eu, não gosto muito de falar disso. Não estou sozinho, mas se o que estámos a fazer esta a transformar, isso seria óptimo, não por uma questão de vaidade, espero não me contagiar com isso. O que se esta a conseguir é a transformação social num ambiente político que é hostil, acho que isso é muito superior, seja por acção individual, ou seja de quem for.
Mas, ajudou dar a conhecer o seu caso.
LB: Lá esta a estupidez dos regimes totalitários de não se darem de conta dos limites e a visibilidade que se pode dar a um grupo de pessoas que até é pequeno e insignificante e que passam a ter um palco e um espaço. Foi sem dúvida o grande holofote mediático mundial que acabou por reverter a nossa situação, senão fosse isso, estaríamos na cadeia até hoje.
Foram 36 dias de uma greve de fome, quais foram as sequelas físicas e psicológicas que ficam? As crónicas ajudaram nesse sentido?
LB: Não, porque o escrevi antes. Aquilo foi escrito no primeiro mês, a greve de fome acontece no terceiro mês de carcere, felizmente quando fui fazer uma série de exames a seguir não apareceu nada que me tivesse afectado, foi milagroso. O médico avisou-me ao 30º dia que estava tudo aparentemente bem, mas a partir daí tudo conta, podia ter falência de órgãos em cascata.
E a nível psicológico ficaste com receio de espaços fechados? Ou de estar sozinho?
LB: Não, gosto de estar sozinho, se calhar foi por causa disso que a solitária não me afectou tanto, tive muitas coisas positivas no meio deste transtorno. Foi sobretudo à minha família que sentiu mais. Eu fui “bem tratado” na prisão, a minha mulher até me levava salmão. Parece até que estou a minimizar a gravidade da situação, mas eu prefiro olhar para o que houve de positivo, tive tempo para ler e estive informado sobre a revolta que houve na sociedade e como a começou a transformar. O pior para mim foi estar afastado da minha filha.
Acha que as condições que teve na cadeia que acabou de referir surgiram porque o seu pai foi uma figura pública em Angola?
LB: O meu já faleceu em 2006 e os meus colegas também estavam em celas solitárias, privados de ver-nos, eu até fui adicionalmente privado de ter visitas depois e houve um episódio de revolta pela forma como nos estavam a tratar. Mas, nesses 3 primeiros meses todos os que tiveram na mesma prisão do que eu, sofreram o mesmo tratamento, não houve nada diferenciado.
Então o que notou é que graças a uma campanha internacional houve um tratamento diferente? Porque outro tipo de presos que não tiveram os holofotes mediáticos e as acções de organizações não governamentais por detrás teriam recebido o mesmo tratamento?
LB: Eu tenho a certeza quase absoluta que sim, não o posso comprovar, teria sido diferente senão fossem os holofotes mediáticos. Eu conheço pessoas que neste momento são presos políticos que não estão a ter o mesmo tratamento. E quanto mais eles podem torturar as pessoas, ao priva-los dos seus direitos plasmados na lei prisional, eles fazem-no sem hesitar. Só quando as pessoas conseguem passar a mensagem cá para fora é que eles acabam por ceder. Tenho a noção com toda à atenção que tivemos eles tiveram mais cuidado, mais ou menos.
E as pessoas que referiu que estão presas e a sofrerem todo o tipo de tortura, o Luaty é a sua voz cá fora agora?
LB: Não gosto de me arvorar da voz. Eu sou mais um, é o que tenho tentado ser e não ser singularizado dessa forma. Portanto, continuo a fazer o que fazia antes de ser preso e colocar o foco nas injustiças que acontecem em Angola, mas de maneira nenhuma me considero representante dessas pessoas. Se me considerarem um deles já me considero reconhecido.

O palmarés da 25ª edição do Curtas Vila do Conde foi entregue a um filme português de Marta Mateus.

O júri do festival internacional considerou o filme “Farpões baldios” "uma obra tão luminosa quanto exigente" que "revivifica uma linhagem de obras onde a infância desbloqueia os sofrimentos, os erros e a virtualidades do passado, tradição que devemos, entre outros, a Manoel de Oliveira, a António Reis e Margarida Cordeiro, a Teresa Villaverde". A curta-metragem venceu ainda o grande prémio DCN Beers da Competição Internacional.
Na mesma competição, "My Burden" de Niki Lindroth von Bahr foi o vencedor do prémio para Melhor Animação; "O Peixe" do brasileiro Jonathas de Andrade foi considerado o Melhor Documentário e "Les Îles" de Yann Gonzalez foi premiado com o troféu para Melhor Ficção. O Prémio do Público Niepoort foi atribuído pelos espetadores a "Retouch" do iraniano Kaveh Mazaheri.
A espanhola Laura Ferrés venceu o Prémio de Melhor Curta-Metragem Europeia com "Los Desheredados". O filme ficou, assim, nomeado para os European Film Awards da European Film Academy.
Na Competição Nacional, que contou com 16 filmes portugueses a concurso, o vencedor do Prémio BPI e Pixel Bunker foi "Où En Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues?", de João Pedro Rodrigues, um filme que, segundo o júri, é "capaz de fazer explodir tudo, e o mais depressa possível", debatendo-se com o auto-retrato da humanidade por ela própria, empreendimento geral que é o cinema, ao mesmo tempo que desloca os princípios da autobiografia."

Gabriel Abrantes venceu, pelo segundo ano consecutivo, o Prémio Blit para Melhor Realizador Português, desta vez com "Os Humores Artificiais". Nas palavras do júri, o prémio foi atribuído ao realizador "pela sua fantasia romântico-tecnológica, por ter inventado o primeiro robot multigénero, por ironizar energicamente um mundo onde não queremos viver".

O Prémio do Público SPA, destinado ao melhor filme português com melhor média de votação atribuída pelo público, foi atribuído à animação "Surpresa" de Paulo Patrício.

Também pelo segundo ano consecutivo, a realizadora Rosa Barba venceu a Competição Experimental, com o seu novo filme "From Source to Poem". O Prémio Grupo Jorge Oculista foi atribuído "pela inteligência da sua proposta visual e sonora, a criação de uma constelação não-linear de imagens e sons do maior arquivo multimédia do mundo, onde a presença de texto e tipografia aparecem em constante transformação, refletindo os interesses da artista relativos à permanente perda de informação essencial". Ainda na Competição Experimental, foi atribuída uma Menção Honrosa a Lois Patiño pelo filme "FAJR".

No Curtinhas, secção para os mais novos onde o júri é composto por crianças, o Prémio Curtinhas MAR Shopping foi entregue a "Revolting Rhymes, Part One" de Jakob Schuh e Jan Lachauer. Nesta competição foram ainda distinguidos com menções honrosas os filmes "Jubilee" de Coralie Soudet, Charlotte Piogé, Marion Duvert, Marion El Kadiri e Agathe Marmion; "Lost In Spring" de Fred Leao Prado Wall e "Mindenki", de Kristof Deak.
João Nicolau venceu a Competição de Vídeos Musicais com "Old Habits" de Minta & The Brook Trout.
Na Competição Take One!, dedicada a filmes de escola, foram entregues à curta-metragem "De Gente Se Fez História", de Inês Pinto Vila Cova, o Prémio IPDJ, o Prémio Smiling, o Prémio Agência da Curta Metragem e o Prémio Restart. Ricardo Pinto de Magalhães venceu o Prémio Kino Sound Studio para Melhor Realizador pelo filme de escola "Delphine Aprisionada".
Os filmes premiados repetem, este domingo, no Teatro Municipal de Vila do Conde, em várias sessões. Os premiados serão também apresentados, em diferentes cidades do país, através das extensões do festival que arrancam já amanhã.
Gabriel Abrantes won, for the second consecutive year, the Blit Award for Best Portuguese Director, this time with "The Humores Artificiais". In the words of the jury, the award was attributed to the director "for his romantic-technological fantasy, for having invented the first multigeneric robot, for ironically energetically a world where we do not want to live."
The Público SPA Award, for the best Portuguese film with the best voting average attributed by the public, was attributed to the animation "Surprise" by Paulo Patrício.

Um estudo inédito que surgiu de um repto lançado aos estudantes de terceiro ano de biotecnologia, pela investigadora principal do Centro de Estudos do Ambiente e do Ar, do departamento de química da Universidade de Aveiro (UA), Teresa Rocha Santos, acabou por dar frutos e descobriu-se graças a tenacidade de uma jovem estudante, Ana Paços, que o Zalerion maritimus, um fungo muito comum na costa portuguesa, consegue num ambiente em tudo semelhante ao do mar poluído com microplásticos, em apenas sete dias reduzir 77% daquele material tóxico. Para os três investigadores envolvidos nesta pesquisa “este é sem dúvida o primeiro estudo a apresentar estratégias de biorremediação, processo que utiliza organismos vivos para reduzir ou remover contaminações no ambiente, neste caso específico de microplásticos. Portanto, este trabalho pode ser considerado um primeiro passo e uma contribuição para a resolução deste problema”. Esta é também primeira solução ecológica alguma vez descoberta para combater os plásticos nos oceanos, já que, ao otimizar-se o raro apetite do fungo recorre-se a uma solução oferecida pelo próprio mar. Um achado científico que segundo o editor da revista “Sciene of The Total Environment,” onde o estudo foi publicado, abriu as portas para “um verdadeiramente novo campo de investigação”.

Como é que descobriram as qualidades deste fungo que absorve microplásticos no oceano?
Teresa Rocha Santos: É um fungo que se chama Zalerion marítimo e que tem capacidade de degradar a celulose. Portanto, é encontrado na madeira no oceano. Atendendo a que a celulose é um polímero bastante complicado, nós achámos que seria capaz de degradar plástico que é constituído por polietileno e foi o caso que testámos. Outro dos aspectos que nos levou a escolher este fungo é que existe na costa portuguesa. Era uma proposta possível interessante se quisessemos avançar com o sistema de tratamentos de plásticos na nossa costa. É uma espécie que já existia e não haveria problemas de introduzir algo novo.

Se existe na costa portuguesa, o fungo tem de ser usado em áreas controladas, porquê? Se deixarmos que este fungo actue de forma aberta ele espalha-se de forma descontrolada, como acontece nos rios e albufeiras, quando aparecem manchas de algas?
TRS: Exactamente, todo o organismo tem tendência para fazer isso. Não o podemos introduzi-lo em grandes quantidades, porque senão pode induzir a um desequilíbrio no ecossistema. Portanto, o que temos de fazer é ter locais controlados para introduzir maior ou menor quantidade de fungo e não deixar para o resto do oceano.
Como podem controlar isso com redes?
TRS: Da mesma maneira que se faz produção de algas e peixe em aquacultura, também se pode produzir um fungo nas mesmas condições. Estámos ainda a pensar o que vamos fazer na fase seguinte, antes estivemos a fazer um estudo com aluminais, depois passámos para os aquários onde nos encontrámos actualmente. Como estámos na zona de Aveiro e temos salinas abandonadas vamos criar as condições necessárias para fazer aí um género de estação de tratamento. Isto sempre será um ensaio, deverá estar afastado de aquaculturas e outro tipo de actividades deste género, porque temos de ter a certeza que não iremos produzir nenhuns danos, temos de estudar devidamente o fungo a degradar o microplásticos e ter de ter a certeza de que a água não contém componentes tóxicos.

Outra questão que tenho é se este fungo tem algum predador natural? Ou seja, há sempre organismos vivos que comem outros, essa questão se pode colocar futuramente quando coloquem o Zmaritímo em redes no oceano?
TRS: Não sabemos, porque este fungo esta muito pouco estudado, também foi um dos motivos porque achámos que também era interessante estudá-lo na altura. Efectivamente existem predadores, mas se o tivermos numa estação fechada essa questão não se coloca, à partida não temos esse problema. Temos colecções deste e outros organismos que podem ser comprados para serem reproduzidos em laboratórios, portanto não há o problema de se esgotar no oceano.

Este é um estudo pioneiro, foi publicado numa revista científica, mas há quantos anos estão centrados neste estudo?
TRS: Este estudo começado há um ano atrás, no seguimento de um convite que recebi para escrever um livro com outros autores sobre microplásticos. Na altura achámos interessante tentar procurar, toda a gente o esta a tentar, uma solução para a sua monitorização no oceano, porque é muito importante e não temos a noção de onde é que existem e em que quantidade. Por isso, é necessário fazer uma monitorização exaustiva, por outro lado, também achámos que era necessário lançar uma solução e decidi lançar o tema ao terceiro ano do curso de biotecnologia e departamento de química da UA. Uma aluna, Ana Paços, escolheu este tema, porque o achou interessante e veio trabalhar connosco. Ela era muito interessada e uma excelente aluna e com as parcerias que obtivemos no laboratório para executar estes trabalhos acabámos por obter estes resultados. O trabalho de lá para cá já evoluiu de outra forma e como ela se interessou tanto, este ano quis continuar a trabalhar connosco em regime de voluntariado, apesar de termos outras pessoas envolvidas neste assunto e ainda resolveu fazer a tese de mestrado connosco sobre este mesmo tema. Temos, neste momento, uma equipa de três pessoas para conseguir os resultados mais rapidamente.

Esta segunda fase, de testar este fungo num ambiente controlado vai ser de quanto tempo?
TRS: Não sabemos ainda, porque estámos a fazer o estudo com aquários, estámos nesta fase aquática desde fevereiro. Mediante os resultados que obtivermos, que será entre setembro, ou outubro voltámos a publicar esses resultados e tomámos uma decisão do que vamos fazer a seguir. Nessa altura, decidimos se avançámos mais ou só daqui a algum tempo e como é que vamos avançar, porque ainda não conseguimos ter essa noção.

A Fundação para a Economia Circular (FEC) organiza um novo encontro ibérico, no próximo dia 22 de junho, no círculo das Belas Artes, em Madrid.

O debate visa dar a conhecer à actual situação da península ibérica no âmbito do novo pacote de Economia Circular. Um dos oradores confirmados, na comitiva portuguesa, é Fernando Leite, administrador-delegado da LIPOR.
Desde que o novo pacote de Economia Circular foi apresentado pela Comissão Europeia em dezembro de 2015, Portugal e Espanha, tal como outros países europeus, começaram a efetuar a migração para um novo modelo económico. No entanto, durante esta transição, as duas nações vizinhas ainda apresentam determinadas questões por resolver, que acrescem a outras mais recentes que são um verdadeiro desafio e estão no centro do debate atual europeu no domínio da economia circular.
Nesta quinta edição do Meeting Point, a FEC pretende demonstrar com a ajuda de algumas administrações locais espanholas, que é possível implementar políticas locais adequadas em termos de recursos materiais, produtos e resíduos que aumentam a participação social e conseguem aumentar as taxas de reutilização e material reciclado. Bem como, aplicar um imposto, coerente, transparente e proporcional aos objetivos ambientais pretendidos, destinado a incentivar a cooperação dos cidadãos e pequenas empresas, não penalizando aqueles que contribuem adequadamente para a gestão de resíduos produzidos pela administração local.

A Fundação de Economia Circular pretende ainda abordar outro dos assuntos pendentes tanto em Portugal como em Espanha, a questão do desenvolvimento de estatísticas de resíduos. Como interpretar as estatísticas anuais sobre a gestão de resíduos publicadas pelo Eurostat? Quais são os pontos de divergência e por que motivo? Como poderiam ser corrigidos?

No âmbito da economia circular, há outros três temas que neste momento merecem ser alvo de um debate essencial. O primeiro está relacionado com as interações entre as políticas da UE em termos de substâncias químicas, produtos e resíduos. Como conciliar objetivos ambientais da reciclagem cada vez mais exigentes com o desenvolvimento da legislação “REACH”? O regulamento “REACH” deve ser utilizado para proibir determinadas substâncias químicas em materiais secundários? Que medidas podem ser contempladas para garantir uma economia circular "não tóxica"?
O segundo tópico, concerne à comunicação da Comissão Europeia sobre o papel de transformação de resíduos em energia no âmbito da economia circular, datada de 26 de janeiro de 2017. Que conclusões podem ser tiradas? Qual a forma de recuperação energética que atualmente deveria ser prioritária em Espanha e Portugal? E qual para os territórios insulares?

Por fim, a luta contra o “littering”, ou os chamados resíduos de varredura. O que pode ser feito para parar o fluxo de resíduos de origem terrestre que chegam ao mar? Como actuar para cobrir os custos ambientais e económicos da luta contra o littering? Qual é o regime de responsabilidade aplicável? Até onde chegou a inovação relativamente à correção do problema? O que pode ser feito em termos da educação e cidadania?

A Fundação para a Economia Circular é uma organização privada, de âmbito ibérico e projeção supranacional, formada por um patronato composto por antigos altos cargos de administrações autonómicas com um grande equilíbrio territorial e político. Colaboram com esta instituição personalidades experientes ao nível mundial, administrações públicas, entidades privadas e agentes sociais. A FEC trabalha em tarefas relacionadas com a economia circular, a sustentabilidade, o uso dos recursos e o meio ambiente. Actualmente é líder indiscutível em conhecimento a respeito destes sectores de actividade, prolongando seu trabalho de excelência pelo meio ambiente em Portugal, Espanha, o resto da Europa, a bacia mediterrânica, a Latino-América e aos territórios insulares do planeta.

http://economiacircular.org/

sexta, 09 junho 2017 15:24

Jornadas de Teatro´17

Fórum de Artes Performativas Independentes

Teatro Nacional São João
12-13 de Junho de 2017

As artes performativas em Portugal encontram-se numa encruzilhada: há novos modelos de apoios às artes em preparação; as condições de acesso, apresentação e circulação das artes sofrem alterações significativas; há novos artistas que surgem no panorama português, mas também muitas indefinições quanto ao seu estatuto e condições de trabalho.

No seguimento das Jornadas de Teatro que aconteceram em 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, as principais organizações representativas do setor das artes performativas realizam novas jornadas no âmbito do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, nos dias 12 e 13 de Junho, no Teatro Nacional São João, a fim de proporcionar um fórum onde todos os artistas, criadores e envolvidos nos campos das Artes Performativas se possam encontrar e debater estes e outros problemas que afetam o setor.

 

 

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