Um olhar sobre o mundo Português

ptenfrdees

 

h facebook h twitter h pinterest

Isaac, o rapaz que queria ser feliz

Escrito por  yvette vieira fts Bárbara Fernandes

  

“Rip 2 my youth” é um documentário que segue o percurso real de Isaac dos Santos até a mudança de sexo que o transformou na pessoa que sempre soube que era. Mais do que um retrato pessoal sobre a transsexualidade é acima tudo, como dizia uma das realizadoras deste filme, que surgiu no âmbito de um mestrado de Audiovisual e Multimédia da Escola Superior de Comunicação Social, Elisabeth Vieira, “há algo que nos une a todos que é a busca pela felicidade e o Isaac precisou de fazer esta mudança para ser feliz”.

Como é que surge este projecto “Rip 2 to my Youth” no âmbito do vosso mestrado?
Elisabeth Vieira: Isto começa por ser um projecto dividido em duas partes, primeiro tínhamos que escrever um guião e erámos avaliados por toda essa estrutura narrativa e numa segunda fase eram realizados os filmes que tinham sido escolhidos. Então é aqui que entra à Mariana Ramos que ainda tinha esta cadeira por fazer, ela escreve um guião que é selecionado e entrega-o a mim, o João Pico, ao João Figueiredo e a Susana Maciel para realizar e produzir. Desde sempre tivemos a opinião tanto dela, como do Isaac, mesmo em relação as cenas que deveriam entrar, ou não. O que fizemos foi dar uma linha mais positiva a história e mostrar como se trata mesmo de um caso de sucesso.

Fala-nos sobre o processo de filmagem e como decidiram quais as sequências a escolher para a montagem?
EV: Bem, filmámos sempre com as nossas câmaras, porque a escola tem disponibilidade para emprestar os equipamentos e se o documentário existe é porque tínhamos sempre as máquinas connosco. Era do género, o Isaac respirava e nós íamos lá filmar, estávamos sempre presentes, desde uma tatuagem, a uma ida ao médico, a andar de skate, ou ir a uma festa.

Isaac dos Santos: Às vezes acompanhavam-me desde o Rossio até a minha escola, a jogar basquete, ou a fotografar.
EV: Isto quer dizer que durante 4,5 meses acompanhámos o Isaac, desde fevereiro até junho. Quando tínhamos as filmagens todas prontas, parámos durante dois meses e quando retomámos captámos apenas uma ou outra imagem extra para pintar alguma história. A parte de edição é que foi muito complicada, porque tínhamos imensas horas de filmagem e era muito difícil tomar a decisão de “isto não vai entrar” e era uma sequência importante, mas não podia ser porque ia quebrar o fio condutor do documentário. Ele antes jogava basquete, mas agora não é possível e estuda fotografia que é também uma forma como mostra a sua visão do mundo e tudo isso era interessante, mas decidimos que não ia ser mostrado no documentário, pois tínhamos uma estratégia de multiplataformas, através das redes sociais, onde colocávamos tudo online o que ficou de fora, inclusive as entrevistas por completo para as pessoas conseguirem ver e assim ficamos com a consciência tranquila que contámos tudo o que havia para contar.

  

No entanto no documentário há filmagens de 2016 e 2017.

IdS: Isso acontece, porque eu conheço a Mariana em 2015 com o intuito de fazer um documentário. Acabámos por começar a namorar e uns meses depois eu disse-lhe para fazer algumas filmagens, porque eu sabia que havia evoluído e que havia coisas que mais tarde não iria sentir e era importante mostrar isso no documentário. Acabámos por utilizar essas filmagens que foram feitas em casa e que serviram também para ela treinar, como não tinha muita experiência com a câmara, enquanto filmávamos eu ensinava-a a utilizar o equipamento, a colocar os planos de forma correta, como ela os havia imaginado na sua cabeça. E esses dias acabaram por ter um peso enorme no documentário.

EV: Sim, porque numa primeira fase pensamos que haveria umas partes do documentário que seriam simuladas, ou fingidas e essas imagens acabaram por ser muito mais do que isso e não precisámos em momento algum fingir algum sentimento, do género, “lembras-te do que aconteceu e o que sentistes na altura” e essas imagens foram mesmo complementares, porque realmente são muito nuas e cruas e as filmagens mostram mesmo isso.

IdS: A ideia inicial da Mariana era mostrar as consequências, falar sobre a transsexualidade em termos sociais, era numa perspectivas muito mais forte que pretendia ilustrar situações em que as pessoas são postas na rua, em que se suicidam, inclusive abordar uma mãe que tivesse perdido um filho, ou filha por causa desta situação, todos esses aspetos eram muito importantes quando se falava sobre o tema. O que aconteceu é que o tempo passou, eu cresci, desenvolvi-me física e mentalmente e acabei por sarar muitas feridas e quando começámos a filmar com o grupo, eu já não conseguia expressar nada disso e aí eles viram que seria muito bom apresentar uma visão de esperança tanto à comunidade LGBT, como mostrar ao mundo que sou um rapaz completamente normal e que apesar de ter passado por coisas más, eu tenho uma vida normal e sou cada vez mais feliz. A visão deles nesse aspeto, foi crucial.

EV: Nós pretendíamos inicialmente que este filme não passasse de um trabalho para faculdade, com o tempo fomo-nos apercebendo que iria ter um especto pedagógico muito importante, não só para a comunidade LGBT, mas para toda a sociedade e até pensámos que em alguns anos não vai ser necessário falar sobre isto, todas as pessoas já saberão o que isto é, a transsexualidade sem termos de estar a distinguir nada, nem ninguém, quisemos mostrar tudo de uma forma positiva para valorizar essas pessoas pela sua coragem, pela sua força e não olharmos para eles e discriminá-los, o objetivo final é compreender e apoiar tudo o que conseguiram.

IdS: Também em termos de linguagem usámos um discurso simples, concreto e muito acessível. A forma como eu olho para mim próprio, como eles olham para mim e a forma como transmitimos a minha vida é muito positiva. A comunidade LGBT não há muito tempo era posta de parte, houve uma fase que erámos os coitadinhos. O documentário é positivo e isso que faz com que haja tanta aderência e gostem no final de vir até nós e dizer-nos que afinal tudo isso é normal e que não é nada como se pinta nos noticiários, nos programas da tarde, ou como se mostra ao nível dos media. O documentário de certa forma vem revolucionar como as pessoas são vistas em termos sociais e para mim isso foi o mais importante.

EV: Até porque os próprios profissionais de saúde que incluímos no nosso documentário, tanto a psicóloga, como o médico, conseguiram falar sobre este tema de uma forma acessível e fácil para as pessoas entenderem. É uma história na primeira pessoa, não aprofundámos toda a técnica e o que esta por detrás disso, não, é só a história do Isaac e assim falámos da transsexualidade para um público que o compreende melhor para que houvesse uma maior aceitação.

 

Isaac qual foi a tua primeira reação quando a Mariana te abordou por causa do guião? Ao princípio não sabias que iria ser um filme, mas trata-se da tua vida, era sobre ti e a tua intimidade.
IdS: Claro, a minha resposta foi logo sim. Não sabia como ia acontecer, mas ela transmitiu-me muita confiança, ela foi das primeiras pessoas que não me olhava com pena, ou passava-me a mão nas costas. Isso foi muito importante, porque ela tratava-me como uma pessoa normal e isso era difícil para muita gente. Ela queria fazer este documentário há dez anos, desde os seus 14, 15 anos que queria abordar o tema da transsexualidade. A Mariana já lidava com pessoas transsexuais de outros países, personalidades que são bastante influentes na comunidade ao nível mundial. Ela já sabia como utilizar determinados termos e tinha muitos conhecimentos sobre a matéria, isso fazia-me sentir muito confiante e ela acabou por construir não um guião sozinha, mas comigo. Eu aceitei o projecto, confiei bastante nela e o facto de termos começado a namorar ajudou, mas também criou alguns atritos em determinadas coisas (risos), o que é normal. Reclamávamos muito um com outro de como devíamos fazer as filmagens, porque ambos somos muito cabeça dura, mas sublinho, eu sou um dos privilegiados por ter uma família, uma faculdade e amigos que me apoiam e isso é estranho. Talvez por isso tudo senti esse peso nas minhas costas, que estava nas minhas mãos mostrar essa vida melhor a quem não a tem, isso esta sempre na minha cabeça quando faço um vídeo novo, ou falo sempre em prol de quebrar estereótipos e preconceitos.

EV: Isso é interessante, porque quando nos foi entregue o projecto não conhecíamos a Mariana, o nosso professor é que a indicou e eu escrevi-lhe a dizer que o guião dela tinha sido escolhido e que nós o queríamos realizá-lo e ela disse-nos que não estava nada à espera. Umas semanas depois conhecemos o Isaac, ele estava na porta da escola com uma cara completamente fechada e perguntou-nos porque queríamos fazer isto (risos).

IdS: Eu era assim porque estava escaldado com coisas que me tinham acontecido. Foram os processos naturais da adolescência, afinal de contas faltava uma semana para fazer 19 anos e no final da adolescência as pessoas acabam por afastar-se e no meu caso a transsexualidade acelerou ainda mais esse processo.

EV: Mas, rapidamente criou-se um bom ambiente e uma amizade. Ao princípio foi difícil quebrar o gelo, para que ele falasse connosco. Um mês depois já íamos ao café, ou saímos à noite.
IDS: Eu costumo dizer que a comunidade LGBT tem uma grande capacidade de transformar ofensas em piadas e eu sou esse tipo de pessoa, porque é assim que levo as coisas.

 

Porquê o título em inglês? Achei curioso porque estávamos a falar de ti e de todo o teu processo de transformação para a pessoa que querias realmente ser.
IdS: “Rip 2 to my youth” é o título de uma música dos “The Neighbourhood”, esse tema saiu numa altura em que estava extremamente depressivo e foi quando tudo descambou, eu sabia que estava na recta final de todo o processo de transformação e lá esta tu sabes que estas mais perto do fim só que parece mais longínquo. A música aborda a morte da adolescência e isso tinha tudo a ver comigo e a fase em que encontrava, fazia todo o sentido esse título, porque a Mariana diz no documentário que “isto até aqui foi tudo um inferno, vamos fazer um funeral e a partir de agora eu quero viver”. Também tem tudo a ver com o meu pseudónimo como fotógrafo “Orpheu”, que provém da revista de Fernando Pessoa e a própria história deste personagem que é muito futurista, é o eu querer andar para frente e nunca olhar para atrás.

EV: E também porque o primeiro dia de filmagens foi dedicado a tatuagem que ele tem no braço e isso acabou por ser o fio contínuo que vai interligando toda a história. A primeira imagem é dele a tatuar o braço esta frase e logo para nós isso é que fez sentido e por isso nem traduzimos a frase e quisemos esse título, porque ele carrega essa frase para sempre.

No documentário focaste o processo de dor que sofrestes antes de tirar as mamas e como te transformaste quando já não as tinhas. Porque deixaste que te filmassem ainda com os peitos?
IdS: Essa filmagem foi a primeira e eu por acaso estava em casa e tinha estado muitas horas com o binder e a Mariana obrigou-me a tirar aquilo.

O que é um binder? Para quem não sabe.
IdS: É uma espécie de camisola feito de neopreno que tem como função tapar o peito e é menos prejudicial à saúde. No entanto, é bastante caro, eu só tive dinheiro para um e usava-o todos os dias, a toda a hora, porque o meu nível de disforia, de desconforto, era muito alto. E como tinha os peitos, pensei que as pessoas, de certa forma, têm de ver isto, especialmente as transsexuais para perceberem que é possível, Agora, quando olho para a pessoa que estava no documentário, sim, eu vejo-me, mas parece que é o meu irmão mais novo, a quem tenho vontade ajudar. Eu sei que sou eu, a história é a minha, mas a pessoa física dessa altura já não sou eu, porque mudei tanto fisicamente que é estranho pensar que já fui assim.
Essa maturação, essa transformação nota-se até no documentário, quando a medida que vemos o documentário vê-se que és cada vez mais masculino. Isso também foi propositado na montagem?
EV: No documentário há duas questões, a primeira era o relacionamento deles, o Isaac foi sempre um rapaz e toda gente conseguia ver isso em termos físicos, para a Mariana estar lá um par de mamas não era nada, elas não existiam.
IdS: Eu despia-me à frente da Mariana, mesmo antes da mastectomia e ela dizia-me que eu não sabia o que era ser mulher e ter o período.

EV: É como se não existissem, há aqui uma quebra visual por parte da Mariana, isso foi muito importante e admiro-a muito por isso. Em segundo lugar, acho que tivemos um timing perfeito, porque basicamente o processo decorreu em pouco tempo, em dezembro ele retirou as mamas e em janeiro, e fevereiro começámos a filmar quando a testosterona começa a fazer efeito.

IdS: Em dezembro quando fui operado o meu cirurgião chamou-me à atenção e avisou-me que os meus níveis de testosterona iam ser diferentes. Tendo em conta o período de tempo em que estava a levar injeções, acabo por perceber que no hospital público não estou a receber as doses que o meu corpo necessitava. Fui a uma consulta privada com o doutor Pedro Freitas, que aparece no documentário, que é especialista em disforia do género e com ele levo umas doses de testosterona diferentes que começam a fazer toda a diferença. Nessa altura, já se notavam diferenças em termos da voz e algumas características físicas, mas a partir do momento em que sou seguido pelo doutor Pedro Freitas, eu começo a notar uma maior distribuição de gordura pelo corpo, o maxilar a alargar, também na zona dos olhos, a testa, tudo e foi incrível. O tirar as mamas ajudou muito, porque deixa de haver uma certa concentração de estrogénio no corpo, numa transição de rapaz para rapariga nota-se logo essa transformação por causa disso.

No documentário tu abordaste as diversas vezes que consideraste o suicido, contudo fostes muito forte ao longo de todo esse processo. Conta-me como foi sentir tudo isso.
IdS: É difícil agora conseguir lembrar-me, o documentário ajudou-me bastante a fazer o funeral. Ainda há coisas que me lembro, eu sentia-me tão em baixo e estava tão sem esperança, porque eu me questionava, o que estou eu aqui a fazer? Será que algum dia vou conseguir ser feliz? Porque insisto? Eu, naquela época tinha muito poucas pessoas para desabafar e algumas que eram da comunidade LGBT, nenhuma delas conhecia uma pessoa trans, então não podiam dar um voto de esperança, porque nem sabiam muito bem o que dizer. Nessa altura, tudo era um sufoco, uma ânsia e eu passava a vida a contar os dias, as horas e parecia que a data da cirurgia nunca mais chegava. Era como se estivesse a viver o mesmo dia, vezes sem conta. Ia para escola, depois ia para casa estudar e vivia assim a mesma coisa todos os dias.

Eu gostaria de falar sobre algumas das questões que foram colocadas pelo público depois da exibição do documentário, no Baltazar Dias, que achei deveras pertinentes.
EV: Isso foi a primeira vez que o público colocou questões depois de uma exibição. Nós decidimos chamar o Emanuel da rede Ex Aequo, porque até agora nunca o público tinha tido a coragem de colocar perguntas e nós pensámos “vamos traze-lo para ele colocasse as questões mais previsíveis” e o que se verificou é que ele mal fez a primeira pergunta, logo depois havia imensas mãos no ar com mais questões. Foi muito importante para nós essa reação, não poderíamos ter ficado mais satisfeitos, foi mesmo bonito.

Uma das perguntas que mais gostei que te colocassem foi sobre o sistema de saúde nacional nesta matéria. Então, qual é a tua opinião depois de todo esse processo? Porque na conversa com o público elogiaste o Sistema Nacional de Saúde (SNS), no entanto recorreste a um médico no privado.

IdS: Eu não elogiei o SNS, o que eu disse é que há falhas para nós, como existe para todos. O sistema nacional de saúde português tem de ser melhorado para as pessoas transsexuais, porque o que que acontece? Nós, os trans tocámos nessas fragilidades e somos o culminar de muitas coisas. Daí que tem sido um problema que ficou bem lá no fundo. Eu não tive problemas com os meus médicos, mesmo com a situação com o endocrinologista fui eu que senti que tinha de ter um acompanhamento melhor e iniciei um seguro de saúde para poder ter esse acesso. A minha médica no SNS foi excelente, sempre que alguém me pergunta a onde se devem dirigir, eu digo para irem até o centro hospitalar psiquiátrico Júlio de Matos. Eu fiz a minha cirurgia, no privado, porque tive uma dermatite grave e isso acabou por acelerar o processo.

EV: Não há assim tantos espaços como deveriam para ajudar as pessoas.
IdS: Sim, é isso, não existem equipas especializadas formadas corretamente e muitas vezes o SNS não aceita ajuda exterior, no entanto, sei que no Porto se tem estado a operar e tem corrido muito bem.

 

Uma das coisas que referiste nesta matéria é que achavas que os médicos deviam ter mais formação e as equipas deviam ter maior especialização.
IdS: Digo isso por dois motivos, nós temos duas formas para iniciar o processo, uma delas é dirigir-se ao médico de família, ou médico de clínica geral e pedir para encaminhar o processo para um hospital que tenha um profissional especializado em sexologia clínica, que consta numa lista de médicos, e que pode passar o atestado de disforia do género. Portanto, não são todos os profissionais que podem passar esse tipo de relatório. E logo aí, temos um grave problema, porque há situações em que o médico de família enrola, enrola mais seis meses a um ano e não transfere ninguém para lado nenhum e isso acontece, porque muitas vezes esses profissionais de saúde colocam à frente os seus valores em prol do bem-estar do seu paciente. Outro aspeto muito importante é o que concerne a formação de médicos e outros técnicos de saúde, muitas vezes temos o relatório de disforia do género, mas não temos o cartão de cidadão e precisamos de ir entregar uma carta qualquer e obviamente ninguém vai estar numa sala de espera à espera de que quando chegue a sua vez acaba por ser tratado pelo nome antigo, no hospital em que estive isso não acontece, mas sei que em outros locais isso não ocorre. Daí essa necessidade tão grande de formar os profissionais, não esquecendo que existem pais que levam as suas crianças as consultas, com vontade de ajudá-las nessa matéria, querem entender o que é a transsexualidade e também eles precisam de acompanhamento e os médicos não tem respostas, alguns até dizem, quando crescer isso passa e muitas das vezes não é assim.

EV: Eu sugeri a alguns amigos a estudar medicina que vissem o documentário e alguns responderam porque haveriam de ver isso? Como é que um estudante, futuro médico, tem essa atitude? E em conversa com profissional de saúde, ele referia que na faculdade não são ensinados e responder a esse tipo de situação.

Abordaste também a questão legal da disforia do género que tal só é atribuída aos 25 anos.
IdS: Essa questão surgiu porque na Madeira os médicos na maioria dos casos vão protelando durante anos em vez de encaminhar essas pessoas trans e a questão é a seguinte, se aos cinco anos temos de explicar a uma criança e ela entende que vai ter de sofrer até os 18 anos para poder ser quem é, se as pessoas já passam tanto tempo em agonia e desespero, sendo até vitimas de ostracismo, então, porque estar a adiar mais por valores pessoais?

Então querem isso inscrito na lei?
IdS: Não, neste momento a transição só pode ser feita a partir dos 18 anos e o que esta acontecer é que há uma proposta de lei para que passe a ser a partir dos 16 anos. *

Para aqueles casos, como tu, já sabia desde pequeno sabia que não era aquele o seu corpo?
IdS: Que acaba por ser a maioria. Os transsexuais quando contam as suas histórias tem esse reconhecimento de viverem no corpo errado que remonta à infância e a maior parte das pessoas sabe disso desde tenra idade e os próprios pais admitem que notam esses comportamentos.

Em relação ao cartão de cidadão, é difícil fazer também essa transição, mesmo quando foi concluído todo o processo.
IdS: Gostam de complicar, já depois ter passado por uma loja do cidadão e me terem chamado de louco, levantavam sempre obstáculos, estavam sempre criando cenários para cortar, adiar, que essa transição oficial tivesse lugar. E inclusive um amigo do Algarve pediu-me para ficar na minha casa, porque o processo iria levar dois meses. Ele ligou ao médico e este remeteu-o para Lisboa para fazer o cartão de cidadão. *

Mas, esse tipo de situações resulta do facto de sermos um país burocrático, ou da má vontade dos funcionários públicos?
IdS: Os funcionários criam sempre entraves ao estranho e estão sempre a encontrar defeitos, para tentar testar-nos de certa forma. Eu não percebo o porquê. No final, a mim, no cartório fizeram esperar para pagar, para que conste o valor é de 215 euros, 200 euros para alterar o nome na certidão de nascimento e 15 para o cartão de cidadão e isso não há como não pagar.

Também deve ter sido muito importante sair de lá com o teu novo cartão de cidadão(CC)?
IdS: Obviamente, porque ao nível legal, se por exemplo, me parassem quando estava a conduzir, eu não era o Isaac. Para termos voz na sociedade, para podermos ter esse reconhecimento é necessário esse documento, por exemplo, no dia em que me chamaram louco na loja do cidadão, eu não pude pedir o livro de reclamações porque não era legalmente o Isaac.

EV: Acho até que nas questões mais básicas isso também é importante, o nome que esta inscrito na escola. Por mais que lhes seja pedido, por vezes, os professores não o fazem.
IdS: Isso nem foi o meu caso, porque os meus professores sempre me aceitaram tão bem e não tive problemas quase nenhuns nessa matéria. No entanto, na faculdade tive de pagar mais 200 euros a mais na matrícula, porque o meu CC só chegou um mês depois. E paguei, porque para mim isso era importante, esse era o nome que queria que constasse nos documentos e no final no meu diploma. É a nossa identidade perante o país, perante a Lei.

O que acho curioso é que tu Isaac, apesar de seres o objeto do documentário estavas sempre a desviar o olhar da câmara.
IdS: De certa forma dependia da posição da câmara, onde estavam posicionados e eu estava a conversar com eles. Outras vezes tinha que puxar muito pelas minhas memórias, ir até o baú mais profundo para me lembrar.

Foi catártico para ti.
IdS: Sim, muito.

Disseste que foi um funeral, isso quer dizer que tudo acabou mesmo, este enterrado finalmente?
IdS: Exato. Houve situações que me eram problemáticas e o documentário enterrou tudo.
EV: No início das entrevistas eu notava que ainda havia uma certa tensão, mas ele era genuíno e real e mesmo quando entrevistei à sua avó foi muito giro, porque se notou que ela queria “entregar-se” e o que pretendíamos era contar uma história com todo o respeito.

Já mostraram este documentário em diversas cidades de Portugal, houve reações muito dispares?
EV: Eu costumo dizer que ainda não tivemos ninguém que nos quisesse crucificar, que nos odiasse, ou com uma mensagem mais negativa. Até agora, temos tido muito apoio e as pessoas até admitem a sua ignorância e falhas em termos sociais quando acabam por verificar o quão difícil é todo esse processo. Toda a gente sai da sala com um grande respeito pelo Isaac, eu costumo dizer, há algo que nos une a todos que é a busca pela felicidade e o Isaac precisou de fazer esta mudança para ser feliz.

IdS: Eu acho que o sucesso do documentário se deve a forma pedagógica, clara e concisa, sem show e sem essa conotação de coitadinho como é mostrado, porque o que vemos é uma pessoa normal à procura da felicidade.

Quando termina a apresentação vem ter contigo pessoas que também estão a passar por esse mesmo processo?
IdS: Sim, mas já vinham antes ter comigo, porque eu nunca me ocultei, sou ativo nas redes sociais, não numa de “olhem para mim que sou trans”, mas sim, de mostrar as coisas pelas quais estava a passar, porque sentia que fazia falta e desde que fiz o documentário cada vez mais as pessoas vêm ter comigo, nem que seja só para agradecer o ter feito o filme, ou de se eu algum dia precisar de alguma coisa, elas estarão também para mim, porque há um sentimento de grande interajuda na comunidade. Sempre que alguém esta a ver o documentário, seja dentro ou fora comunidade, essa pessoa também me esta ajudar a partilhar a minha missão de ajudar os trans. Com o documentário as pessoas são educadas e a mensagem passa e se algum dia alguém transsexual se cruzar na sua vida, não o discrimine.

Neste momento que já tem um certo distanciamento do documentário, depois de várias exibições, acham que havia algo que devia ser mudado, ou acrescentado?
EV: Eu sou estupidamente perfeccionista e cada vez que o vejo penso que precisava mais ar, no fundo alguns cortes são muito bruscos. Ao nível de estrutura não alterava nada, mas há alguns cortes, entre cenas, que não gosto, recebemos uma critica que já vinha de atrás e que é onde devia acabar o documentário? Porque terminamos de uma forma, mas ainda acrescentámos umas considerações finais que achamos muito importantes e, por vezes, as pessoas pensam que já devia ter acabado, mas não terminou. Mas, são apenas alguns pormenores.

Então, há alguma questão que lhes deviam ter colocado e que ainda não fizeram?
IdS: O que eu gosto de fazer.

Muito bem Isaac, o que gostas de fazer?
IdS: Gosto de fotografar e fotografar a Mariana (risos). Quero seguir a fotografia ao nível profissional.

EV: Por norma, as perguntas que são dirigidas à produção e realização é sobre o nosso percurso e o que estudou e não estudou, ou, como descobriu que queria fazer cinema?

Então e para ti, qual é a pergunta ainda por fazer?
EV: Eu acho que no fundo conto a história dele e ele dar a cara já é difícil.

E qual a pergunta que não gostam de responder?
EV: Sobre o seu nome antes e o Isaac responde sempre “não comecemos por aí”.

IdS: Porque não é isso que eu sou, que o documentário mostra.

Então uma última pergunta, quem é o Isaac? Como te defines como ser humano?
IdS: Eu sou muito romântico e apaixonado pelas coisas que amo e a verdade é essa. Não sou um bad boy. Sou apaixonado pelas artes, vivo e respiro para a fotografia e sou maluco por modificação corporal, gosto de tatuagens. Sou muito amigo dos meus amigos, mas como sou ao mesmo tempo muito satírico e sarcástico muitas vezes eles não têm muito ânimo para isso. Sou envergonhado, por vezes, mas depois passa e só faço asneira, atrás de asneira.

E o teu maior defeito?
IdS: Sou demasiado independente para umas coisas e dependente para outras.

*A lei de bases, entretanto foi alterada depois desta entrevista ter sido efetuada. “O Presidente da República promulgou o Decreto da Assembleia da República nº 228/XIII relativo ao direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa". A nova lei vai permitir que as pessoas transexuais possam mudar de nome e género no registo civil sem terem de apresentar um atestado médico. Os menores com 16 e 17 anos passam também a poder fazê-lo, porém têm de apresentar um relatório clínico. O diploma prevê ainda o fim das cirurgias a bebés intersexo e que nas escolas as crianças sejam tratadas pelo nome do género com o qual se identificam.

Para mais informações sobre o Isaac podem aceder ao
Canal youtube isaac dorpheu
Instagram dorpheu
Instagram doc doc.rip2myyouth

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.

FaLang translation system by Faboba

Podcast

Eventos


loading...