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Melodies of a mute life

Escrito por  yvette vieira ft tânia ornelas

 

André Moniz Vieira é um jovem cineasta que gosta de explorar diversos universos mais obscuros, através do seu olhar acrítico e artístico. Este é o seu segundo filme, que considera que a sua maior produção, porque foi pensado e idealizado ao pormenor.

O que levou a fazer uma curta-metragem sobre o tema da depressão?
André Moniz Vieira: O que me levou a fazer este projecto foi algo muito espontâneo, foi uma ideia que me surgiu de uma área artística que gosto de explorar que é o obscuro, principalmente, os sentimentos das pessoas. Gosto de dizer que sou um astronauta, no sentido, em que exploro o meu universo interior e gosto de compará-lo com o universo das outras pessoas. Eu sei que nestes mundos existem muitos sentimentos que não foram acordados, como sou um ser humano curioso quis saber mais sobre este assunto, visto que não posso avaliar a minha perspectiva, vejo-o através do ponto de vista de outras pessoas e tento explorar esse caminho. Li sobre a depressão, sobre o suicídio e vi alguns exemplos de artistas, desde músicos a pessoas famosas, sobre o porquê que as levou a tirar a sua própria vida, que é um dos sentimentos mais macabro que um ser humano pode ter.

De que forma decorreu o teu processo criativo?
AMV: Decidi desafiar-me e até pensava que era algo que não se tinha feito, mas afinal existem muitos realizadores de Hollywood que o fazem que é filmar, filmar e filmar. Claro, que tenho o conceito base e o que fiz, essencialmente, foi ligar à câmara todos os dias durante três meses. Por vezes deambulei por ruas onde nunca passava e decidi arriscar, vi coisas que antes nunca tinha notado, algum recanto, ou sítio que acabou por ser apropriado para o filme. Montava o tripé e a câmara, interpretava em frente da lente, ou então gravava simplesmente o acontecer das coisas, ao todo cheguei a ter 100 filmagens diferentes. Fiz também algumas colagens com recortes de jornais e de revistas, como alguns artistas fazem, retirando o que me interessava, colando-o numa folha de papel e depois usava-o conjugando-o de forma artística com tudo o que tinha filmado. Depois peguei no que filmei, foi editando o que funcionava, foi montando e dei-me de conta que criava uma narrativa para o que eu queria. Cheguei a conclusão que podia explicar o mesmo tema de 6,7 maneiras diferentes, ou seja, é uma mensagem muito aberta e teórica o que permite as pessoas de avaliarem à sua maneira.

Não houve um guião propriamente dito?
AMV: Não existe um guião.

E foi propositado? Porque há apenas uma partes onde surge texto. Qual foi o porquê dessa escolha?
AMV: Eu optei propositadamente por colocar pouco texto, eram frases que o personagem principal ia absorvendo, são palavras proferidas em volta dele, que depois guardava na sua mente. Muito lhe é dito, ao personagem, mas como ele estava já se encontrava num estado mais fragilizado, ele guarda algumas dessas frases, como, “chorarias se eu não estivesse aqui?”, ou “quero mostrar-te uma coisa”, o personagem é quem capta estas mensagens e ele é sempre o receptor e não o emissor.

Também quisestes mostrar que a pessoa que esta em depressão não exterioriza nada?
AMV: Sim e principalmente à introspecção. A pessoa aos poucos vai-se fechando, absorve tudo e chega a um ponto que se fecha de tal forma, que depois só ouve aquilo que lhe convém, que de uma forma geral não devia absorver.

Na tua narrativa em termos de imagens, há pouca cor no início, alguns planos em contraluz e depois aparece a cor. Porquê?
AMV: Em termos visuais, não só o som contamos a história, a imagem tem um grande impacto por si só e depois é responsável pela narrativa completa. O filme começa com algumas cores, porque no início da curta-metragem o personagem consegue ainda viver e socializar com algumas pessoas. À medida que a narrativa se desenvolve as cores ficam mais saturadas e contrastadas, ficam mais fortes, tanto que no final, a última cena é a preto e branco. Foi um processo gradual e pensado nessa perspectiva, é a ideia de uma mente que vai decaindo.

A banda sonora chama muito à atenção.
AVM: Tem temas que reflectem o meu gosto ao nível pessoal, contudo, há duas canções que nos remetem para a temática abordada. Uma delas é bastante recorrente na curta-metragem, aparece quatro vezes, é o “Ave Maria” de Alessandro Moreschi que foi o último castrato da história, embora, na época em que nasceu já não se fizesse isso, fizeram-no sem o seu consentimento, porque Alessandro era um órfão que tinha sido deixado na porta de uma igreja. Reparei ao ler sobre a sua vida que o canto era a sua única escapatória e como já não havia mais castratos, senão ele, Moreschi teve sempre esse peso sobre as suas costas. Daí que fui inspirado na depressão que certamente teve e quis usar o “Ave Maria” que foi um dos poucos temas que gravou. Depois temos uma canção de Rezső Seress, um pianista húngaro, que compôs um tema que ficou conhecido como a música do suicídio, “"Szomorú Vasárnap"” que em português traduz-se para “Domingo sombrio”, a letra aborda um domingo que nunca mais acaba e que também pode ser interpretada como o final de uma semana, a sonoridade é em decrescendo, é muito sombria e esta canção tem essa conotação, porque o cantor e autor se suicidou e muitos dizem que foi a sua arte que o matou.

Porquê o título em inglês? Vais inscrever esta curta-metragem em festivais de cinema?
AMV: Em inglês porque o conceito que pretendo apresentar não tem nacionalidade, nem identificação, ou fronteiras quando se fala sobre depressão. Este é um problema que existe em todas as culturas e povos e usei o inglês por ser uma língua universal e sim, esta curta-metragem esta inscrita em 12 festivais por todo o mundo.

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