Um olhar sobre o mundo Português

Uma edição de pessoas fantásticas nas suas diferentes áreas, deixe-se contagiar e sonhe mais alto. 

h facebook h twitter h pinterest

O país imaginado de Leonor

Escrito por  yvette vieira fts bárbara fernandes

Leonor Areal é autora de um livro em dois volumes sobre “Portugal um país imaginado”, onde faz uma retrospectiva do percurso ao longo de três décadas do cinema português. Um olhar histórico e documentado sobre as vicissitudes da cinematografia nacional, num período de grande censura e parcos meios.

Como se define o cinema que se fazia em Portugal nos anos 40,50 e 60?
Leonor Areal: O cinema português ao longo das épocas foi evoluindo bastante. A década de 40 é uma era recheada de comédias que ainda hoje são famosas, apesar de tudo é um cinema que existe no meio de uma grande crise na Europa, que é a guerra. Portugal não entra no conflito, tenta evitá-lo e então esse cinema é chamado de escapista, as pessoas queriam escapar da realidade e aliviarem o seu sofrimento, daí as comédias.

Mas, as pessoas iam mesmo ao cinema ver esses filmes? Existe a ideia que como era um cinema do regime que era impopular.
LA: Não eram associadas ao regime, eram produções independentes de empresários de cinema, com a aprovação do regime. Não era o Estado a financiar as produções cinematográficas, isso só começa em 1948, quando é criado o fundo de cinema nacional (FCN) para apoiar as produções portuguesas. Aliás, falava-se na época de criar coproduções espanholas com vista a entrar no mercado sul americano, foi encetado, mas não teve continuidade, porque as condições económicas não permitiam, tinha havido a guerra civil em Espanha, depois houve a segunda grande guerra, contudo, houve algum apoio para apoiar filmes subsidiados. O que acontecia é que o FCN apenas financiava quatro ou cinco produções por ano, feitos com muitas dificuldades, nos anos 40. esse apoio do Estado é que acaba por ser um estrangulamento para outras produções que ficavam paralisadas. Nos anos 50 os subsídios que tinha sido criados foram suspensos. É como se faz agora, não há dinheiro e guarda-se para outras ocasiões, neste caso estou a fazer um paralelo, mas há o ano de 1955 em que nenhum filme é produzido, foi o ano zero. No entanto, há um realizador, que é o único neorrealista que apesar das limitações faz filmes sobre o povo com algum realismo e que se inspira no cinema italiano, o Manuel de Guimarães. Ele faz três filmes, “Os saltimbancos” em 1951, “Nazaré” em ’52 e “Vidas sem rumo” que vai até 1956 com muitas dificuldades de rodagem, porque não correspondia ao que o Estado Novo permitia, as expectativas dos comerciantes e a censura foi muito dura com este filme, por tudo isso e muito mais, Guimarães acaba por desistir do neorrealismo e só muitos anos depois é que retorna ao cinema de autor.

E nos anos 60?
LA: Nesta fase surge outra geração que é capaz de fazer filmes fora do sistema, mas sem se opor abertamente, como o Manuel Guimarães. É um movimento muito importante, porque é uma revolução estética e cultural, é um cinema que evolui muito até o ano de 1974, mesmo assim, com alguns filmes proibidos. Depois temos à revolução de Abril e aí o cinema passa a ser livre, após 1974 explode o cinema português, deixa de haver correntes com apenas um sentido e há grandes experiências cinematográficas com enormes condicionantes financeiras, como ainda hoje em dia existem.

Focou uma questão que se prende com os apoios financeiros públicos ao audiovisual que embora, tenha mudado diversas vezes de nome ao longo dos anos, é acusado de ter apoiado quase sempre os mesmos cineastas.
LA: Eu não concordo com essa opinião, isso é o que dizem os cineastas todos, eu não conheço nenhum realizador que não se queixe amargamente de que não teve apoios. Mas, quando temos 100 cães e 10 ossos, o que acontece? Há dez saciados e os restantes ficam à fome. É, claro, que alguns por mérito próprio tenham curriculum e sucesso e essas vantagens são contabilizadas nos concursos, é assim, porque tem de haver um método. Estes concursos tem júris reconhecidos, tem actas e período de reclamações, ou seja, são feitos de uma forma correcta, embora ultimamente tenha havido algumas alterações que desagradam os autores, porque beneficiam as televisões. Essa afirmação carece de confirmação documental, porque é dita pelos perdedores. Desde que foi criado o Instituto de Cinema e Audiovisual há mais apoio, mas mesmo assim, há pouco dinheiro, é reduzido em termos orçamentais. Hoje em dia, existem mais cineasta, com outro tipo de meios, a parte técnica e as câmaras são mais baratas, a base já não é película é digital, mas há um aspecto que se mantém que é o custo do trabalho, as pessoas continuam a necessitar de ser pagas, embora haja muitos a fazê-lo de borla, o que é uma injustiça, porque ninguém come de graça.

E nota isso em termos das tendências cinematográficos?
LA: Não tenho capacidade para efectuar essa avaliação, tenho feito esse acompanhamento com alguma distância histórica, mas noto que o cinema português tem imensa saída e sucesso internacional.

Mas, fala-se de cinema português no âmbito dos festivais e não nas salas propriamente ditas.
LA: Portugal é um país pequeno, nunca um filme poderá ser pago na bilheteira, a não ser que seja um grande sucesso e há certos projectos cinematográficos que o conseguem, porque são divertidos, tem música, canções e são cómicos. Não são filmes que reflictam o pensamento, ou as condições mais árduas da vida e as pessoas nem sempre estão dispostas de ir até o cinema para sofrer pelos males da humanidade. É, claro, que sendo um país de apenas 10 milhões de pessoas não temos salas de cinemas que façam render o custo de um filme. O cinema nacional nunca há-de ter esse constante sucesso comercial, a não ser excepcionalmente e aí só se fazia filmes para a bilheteira, daí haver um apoio à arte do cinema, porque como tem de ser feita com muita gente, precisa de mais dinheiro. Agora, se não fizermos cinema o que será de nós, em termos históricos, daqui a 50 anos? Será um vazio, como no ano de 1955 e o pouco que temos dessas épocas é muito valioso como memória de uma era, por pouco ou mau que seja é o único que temos e por isso é precioso. É isso que o cinema antigo e tudo o que temos actualmente acaba por ser importante, porque é uma memória visual de uma época, de como são os nossos problemas, as nossas ambições e de como se vivia, por isso temos de fazer cinema hoje. Esse é o papel da do cinema a arte que mais se aproxima do registo da vida humana, das suas vivências e recordações e a melhor maneira de fazer uma viagem ao passado é através desse registo. Os filmes portugueses só não tem um mercado maior, porque no Brasil eles não entendem a maneira como falámos e há esse aspecto estranho em que não há uma troca, porque nós também não vemos cinema brasileiro, não há essa relação bilateral que não se percebe.

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.

FaLang translation system by Faboba

Podcast

Eventos


loading...