Um olhar sobre o mundo Português

 

                                                                           

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A visceral

Escrito por  yvette vieira fts J.joão Silva

Paula Guedes é um dos nomes incontornáveis do cinema, da televisão e do teatro em Portugal. É uma actriz multifacetada que desempenha os seus personagens em pleno, de forma intensa, como na vida.

Recentemente terminou o filme "Benoit Brisefer: Les taxi rouges".
Paula Guedes: Essa foi uma participação com alguns actores portugueses. Não foi deste ano, é uma co-produção entre Portugal e França, onde entra também o Jean Reno. Fiz um pequeno apontamento, foi algo muito pouco para a minha carreira, mas gostei. É tudo passado no Tejo, em volta do Bugio, eu sou uma milionária num barco a fazer um cruzeiro, depois aparece uma pequena embarcação com um homem e um miúdo a pedir auxílio e digo as coisas mais disparatadas, não percebo nada do que eles me estão a pedir.

E para além desse papel?
PG: O que tenho feito ultimamente é teatro, as "8 mulheres", no Teatro Trindade em Lisboa, com a Ângela Pinto, a Inês Castel-Branco, a Victória Guerra, a Custódia Galego, a Joana Brandão e a Carmen Santos, são várias actrizes, o que é uma benção. É também filme de François Ozon com a Catherine Deneuve. Trata-se de uma peça que foi apresentada este ano e agora estámos em tournée e queremos vir até à Madeira.

Agora que há uma certa crise financeira no cinema português, a única saída para os actores portugueses poderem fazer cinema é ter este tipo de participações ou até procurar papéis fora do Portugal?
PG: Eu já comecei a actuar há muitos anos e já vi grandes produções no cinema português, trabalhei com o José Fonseca e Costa, o António Pedro e com o Fernando Lopes e mesmo com os mais novos também, como o João Canijo e outros cineastas. O que eu acho é que as gerações mais novas tem a possibilidade de efectivamente irem para fora, não sei se poderão fazer filmes ou não, sei que na minha época, sempre que houve co-produções, e agora existem muito menos, eu fui sempre escolhida. Sobre o cinema português, como não há uma política cultural definida e não é apenas para o cinema, obviamente que é muito mais difícil para as gerações mais novas de actores conseguirem mostrar aos cineastas o seu trabalho e apesar de haver também jovens realizadores muito bons, eles tem de sair-se de facto, mas não sei se conseguem vencer, bem, o Pedro Costa consegue, mas é muito complicado fazer cinema no nosso país. Houve uma época que foi fantástico depois do 25 de Abril efectivamente e de repente tudo retrocedeu, embora a crise seja europeia e é lamentável, porque eu filmei várias co-produções na Alemanha, em França e com grandes actores portugueses e estrangeiros.

Então porque acha que houve esse retrocesso pós-revolução, depois dessa óbvia evolução do cinema e retirando a palavra crise deste contexto, olhando para atrás o que falhou?
PG: Acho que é exactamente a falta de uma política cultural, não temos ninguém que defenda as artes no geral no nosso país e esse é que é o grande problema do cinema não existir como indústria. Não são as ideias, porque elas não são limitadas a ninguém, há cineastas bons e maus, assim como actores bons e maus em todo o lado.

Fala-se também da escassez de bons papéis para as actrizes. Sente isso no cinema europeu?
PG: Eu não sinto isso como actriz, confesso. Como profissional defendo quer seja num papel secundário, ou de protagonista, temos de dar sempre o melhor. Quando sou escolhida faço um papel como se fosse a protagonista. Além disso no cinema americano existem várias actrizes que fazem esses papéis secundários e ganham prémios, portanto. Percebo que haja quem o diga, porque se calhar a dramartugia tem menos personagens femininos. No entanto, acho que não há nada mais aborrecido do que uma protagonista que faz sempre uma personagem que entra sempre imensas vezes, mas não muda em termos de carácter, que não tem fissuras nenhumas. Pensando bem, acho não existem menos pápeis internacionalmente, tem a haver com a qualidade da actriz, aquilo que ela faz para o seu papel, seja ele maior ou menor.

Como é que se prepara para uma personagem?
PG: Eu devo dizer que o teatro é grande escola das duas restantes artes que é a televisão e o cinema. Quando faço uma peça gosto de ensaiar porque o personagem entra de outra forma, no cinema tenho de estar a 100%, imagine que morre no final, isso quer dizer que se calhar logo no seu primeiro dia de filmagens vai filmar a sua morte, aí requer todo um estudo desde o início do roteiro para poder dar à emoção certa ao personagem. Nesse caso faço um curso intensivo do personagem como se estivesse no teatro, o cinema não se faz cronologicamente, o que interessa é que depois da montagem o seu papel seja credível. Em televisão, é quase como se fosse uma máquina, tenho de estudar todos os dias os textos e esqueço logo. Filmou, gravou e acabou. A minha preparação para esse meio passa por decorar os textos a ouvir música e outra coisa que faço é que escrevo sempre. Eu decoro umas páginas e depois quando acho que sei escrevo pela minha própria mão. Eu escrevo as minhas linhas e do outro personagem com quem contraceno. É a forma que tenho de decorar e ainda analiso imenso o texto, eu falo por mim, mas os actores somos um pouco esquizofrénicos, porque de facto o actor tem de estudar o andar da personagem, o olhar, o sentir e isso é que acho maravilhoso na minha profissão ser um ser humano como os outros, que passa por várias vidas. Não é o ser gorda, magra ou loira, o texto é que me leva a escolher um papel.

É difícil despir algumas personagens ou não?
PG: Não. Eu não tenho isso, de trazer o personagem para casa seja uma assassina, uma rebelde, uma revolucionária, ou mãe de família. Acabo as cenas, ou o espectáculo e no final sou Paula Guedes, aliás eu nem acredito muito nesses actores que dizem que levam o personagem para casa, acho que são defesas, porque todos somos inseguros, mas nunca tive isso. Eu tenho muito boa impressão e respeito por mim própria e gosto de ser eu quando chego a casa.

 

 

Há alguma personagem que gostava de representar?
PG: Há uma, embora tenha várias, gostava de ser uma cantora, de representar a vida de uma cantora.
Inclusive cantar?
PG: Tem de ser, numa peça de teatro já cantei. Mas, é muito difícil a música entrar em mim, eu tenho de ensaiar imenso. Fiz o "Ai carmela" em que tinha de cantar zarzuela sozinha e foi muito complicado, porque eu não sou de todo uma pessoa afinada. É quase uma obrigação profissional, a música entra-me na cabeça como uma espécie de gráfico do coração e para não desafinar tenho de ensaiar muitissímo. Eu gostava de fazer isso num filme. Eu gosto cada vez mais de personagens dramáticos e no sentido do conflito.

Que não sejam lineares?
PG: Sim, diferentes, o que interessa ao público estar a ver uma Paula Guedes, com 1.74 metros de altura, vestida pelo Armani, pela Olga Rêgo, ou o Diogo Miranda e não ter feito nada pelo personagem? Eu gostaria de estar assim se fosse cinema mudo, por exemplo, isso do olhar, porque o cinema tem essa vertente da imagem que expressa mais do que mil palavras, mas os personagens que não tem nada e cada vez se vem mais, é tudo muito mininalista e eu não apreciou nada disso. Para dar alguma coisa ao nosso público tem de haver alma e personalidade nas personagens, desde a tímida a furiosa, porque todos temos essas capacidades tanto rimos, como chorámos, somos bons como somos maus, isso tem de estar no texto, sou completamente dependente da direcção de actores, quer do realizador, ou encenador e depois tenho de dar de mim, se não não sai nada.

A Paula tem como muitas actrizes a dificuldade de se ver na tela?
PG: Tenho desde que me estreei, quando comecei a minha carreira detestava ver a minha imagem e até punha a mãos nos olhos quando estava a ver-me no cinema. Depois ao longo dos anos amava a minha imagem e detestava a minha voz e ultimamente adoro a minha voz e a menos imagem. Portanto, voltei ao princípio.

Agora vamos falar da televisão, aliás foi uma das actrizes que esteve quase no começo da televisão em Portugal.
PG: Estive na "Vila Faia", a original, onde fiz a primeira personagem na televisão portuguesa que era uma prostituta drogada e teve o maior sucesso, fui contratada para 15 dias e depois fiquei até o final da novela. Eu lembro-me que estava em Paris, o Nicolau Breiner foi buscar-me e adorei fazer a novela, fiz outra a seguir com o Francisco Nicholson e depois a "Residencial Tejo", com a Maria do Céu Guerra que para mim é a maior actriz portuguesa, essa série tinha um elenco fixo e teve também muito sucesso. Agora estava a passar outra vez um programa que fiz há muito tempo que é o "Código Sintra" e a RTP memória esta sempre a mostrar o "Cabaret" e a "Grande noite" do Felipe La Feria, essa época foi muito boa em termos de televisão.

E fazendo uma outra retrospectiva, desta feita sobre a televisão, o que nota?
PG: Noto que houve uma evolução em termos das telenovelas portuguesas, mas acho que se tem de trabalhar muito. Há belissímos actores, mas nota-se que estão completamente desgarrados. Acho que se tem de fazer como os brasileiros, uma maior procura no texto, no figurino e na direcção de actores, apesar de tudo vi o "Vila Faia" o remake e gosto mais do original. Nessa época havia um maior estudo das personagens, acho que por ser a primeira a equipa e todos os envolvidos estavam interessados que vingasse, acredito que no remake também havia essa intenção, contudo ao nível de luzes achei péssimo. Acho também que tem de haver pesquisa, uma aristocrata pode estar vestida de seda, depois passasse para outro plano e outra personagem também esta vestida da mesma forma, isso não pode acontecer. Seja nos figurinos, ou nos cabelos, as pessoas não podem estar penteadas da mesma forma, a nossa sociedade não é assim, eu acho que as televisões tem de ir ao povo, ir até nós, os portugueses, para perceberem a diferença. Senão fica tudo igual, eles falam todos da mesma forma, também não é assim, uma pessoa que tem uma educação, ou teve a sorte de não ser analfabeta, expressasse de uma determinada forma e isso tem valor, é cultura. Acho que a novela tem de ter qualquer coisa de pedagógico, é por isso, que digo que gosto das novelas brasileiras, as nossas não, um personagem é o parvo, o outro é o mais bonzinho, não é assim, o ser humano evoluiu imenso, nós os portugueses também e as novelas tem de mostrar isso mais, em todos os campos.

Essa falha é apenas da direcção de actores, ou é também do argumento?
PG: É também do texto, acho que podiam estar melhor.

Fala-se muito também desta nova geração de actores que sem preparação são lançados e depois são jogados fora.
PG: Essa juventude não tem culpa, todos nos começámos com mais ou menos preparação, se eles entrassem num núcleo onde essas coisas que acabei de dizer estivessem bem estructuradas estes jovens evoluíam, mas não podem porque tudo é chapa cinco, vestem-se pela loja tal que fornece a produção e pronto, é terrível o que estou a dizer, mas é verdade. É até dramático, porque entram num projecto e depois são jogados ao lixo, se vir uma novela todas as pessoas tem quase a mesma voz, falam da mesma forma, é tudo igual, isso não é interpretar e eu adoro televisão. Quando digo que nos primeiros programas era tudo maravilhoso é porque havia essa preocupação, na residencial Tejo, a Maria do Céu dava a volta aos textos todos, mesmo na "Vila Faia" original, porque havia essa pesquisa e era a primeira, não se esqueça que essa novela foi estreada nos anos oitenta. Toda a gente parava para ver, porque se identificavam com algo, agora é tudo igual, mostram uma imagem do Tejo, da natureza e já esta, quando tem de mostrar os portugueses com o nosso mau e bom feitio, com defeitos e qualidades, a minha profissão tem de enaltecer essa faceta do ser humano, temos de mostrar essas vidas diferentes que tem de ser respeitadas.

Não há um certo complexo em mostrar esse lado mais português?
PG: Quer dizer preconceito.

Não, complexo por sermos um país pequeno, com as nossas idiossincrasias.
PG: Sim, o português tem esse aspecto ou é oito ou é oitenta. Mas, acho que enquanto estámos vivos e por aqui temos de mostrar o que somos e o que queremos da vida. Nesse aspecto acho que os portugueses melhoraram mesmo em termos de televisão, mas consegue-se trabalhar mais, porque há séries óptimas. É necessário evoluir e isso aplica-se também à minha classe, não basta debitar o papel, não se pode, porque na vida passámos por paixões, amor, ódio e sofrimento e fazemos tudo isso de forma diferente, os actores tem essa obrigação.

Voltando um pouco ao princípio, ao teatro, no qual tem um longo percurso, há quem defenda que esta forma de arte não esta extinta, porque não se pode copiar, acha que é por isso que muita gente jovem vai ao teatro?
PG: Eu percebo isso, porque nesta última peça das "8 mulheres" havia muita gente jovem a ver a peça. Sou das actrizes que defendem que a grande escola é o teatro, porque é onde sei onde estou, eu não faço rewind, quando estou a filmar aquilo pode correr ou não mal e eles escolhem o meu plano, na televisão podemos desgravar, no teatro não, abre-se o pano, aquilo é você e o público, estamos em lugares iguais, são eles e eu. Percebo essa apetência da juventude que é toda tecnológica, de verem algo ao vivo e nesta peça tivemos gente muito jovem mesmo, o teatro da Trindade esteve sempre cheio, isso acho bestial.

E outros actores ainda referem que o teatro não esteve, ou esta em crise.
PG: Não concordo, acho que há uma crise no teatro no sentido cultural. Existem actores que estejam a fazer teatro pela primeira vez e digam isso, mas antes havia muito mais espectáculos em cena do que actualmente e repare agora, existe um problema que não se colocava antes, qual é o local de trabalho dos actores? É o palco. E actualmente não o temos, porque agora há os chamados gestores culturais que tem o seu cachet ao final do mês e que quando você esta a fazer uma peça que esta a ter sucesso eles tiram para dar lugar a outros grupos, porque o programaram esses espectáculos com a antecedência de um ano, acho isso péssimo, as peças tem de respirar quer para os actores, quer para o público. Há quem faça peças por um dia e acham o máximo, eu penso que é terrível, eu gosto de estar em palco, estive seis meses no teatro da "barraca" e sempre com público. Mas, isso são estes tempos, que acho lamentável, porque se me perguntar onde é o seu local de trabalho? Antes tínhamos imensos teatros e agora tudo esta programado e é grave, não concordo com essa ideia.

Então não concorda com que uma mesma entidade faça a gestão dos dois grandes teatros nacionais, o D.Maria II em Lisboa e o São João, no Porto.
PG: Acho é que não podem estar sempre as mesmas pessoas, tem de haver um belíssimo director artístico e convidá-los como fazem agora, que convidam outras companhias, isso é uma abertura é bom. Agora não sei responder se isso é bom ou não o ser mesma entidade. O que acho que tem muita gente que esta à frente dos teatros que não entende nada do assunto, é essas pessoas que chamam de gestores culturais que andam pelo mundo a ver espectáculos, se calhar não vão ver os nossos, não sei e depois apesar de termos o teatro sempre cheio, mandam-nos embora porque tem de estar em palco outras pessoas, antes não era assim, a peça ficava em cartaz enquanto houvesse publico, um actor não pode estar a ensaiar um mês, dois meses para estar em palco um dia, somos polivalentes, mas é uma grande frustração, o teatro evolui, porque é uma arte viva e dependemos muito do público.

Então o que se acha que é necessário para recuperar o teatro e atrair mais público aos espectáculos?
PG: Acho que esta coisa da economia, do dinheiro e a gestão nas artes é terrível, porque há coisas fantásticas que se podem fazer com pouco dinheiro. Acho que os teatros deviam ter um director artístico que explorasse uma peça e depois outra. Agora, tirarem os nossos locais de trabalho acho péssimo, se eu quiser fazer uma peça neste momento não posso, porque não tenho um palco, nem eu nem as minhas colegas e tem de haver co-produções entre os vários espaços espalhados pelo país, porque ninguém compra os nossos espectáculos. A arte e a qualidade tem de ser paga, claro que sim, tem de haver pessoas que se aventurem, acho que esta gente, que tem os seus ordenados no final do mês, não arriscam. Continuo a dizer que o que falta é uma política cultural, até para os mais novos, porque eles são o futuro e é grave porque agora estão todos conectados as novas tecnologias e tudo bem, mas tem de ser educados. O lado lúdico existe em todo o ser humano e tem de ser estímulado, senão as pessoas estão em crise e nunca pensei que o meu país chegasse a isto. Estou muito triste e nós, os actores, vivemos muito mal e não é só em Portugal, o enveredar por este caminho é muito doloroso e este é um governo faz-de-conta que não tem respeito pela cidadania. Sou contra o que se tem passado no nosso país, espero que haja uma luz, que venha para todos nós e que se dê a volta.

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