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DEças e mais dessas

Escrito por  yvette vieira fts sérgio garcia

"Diz-me mais deças" é um dia de ensaio entre duas actrizes sobre uma peça escrita e encenada por António Gomes Pereira e com textos também de Eça de Queirós e Clarence Gillis e citações de Pessoa, Camões, Aleixo, Cervantes, Einstein e muitos outros. Rosa Villa e Susana Cacela dão vida a estas duas actrizes que acabam por imitar as suas respectivas personalidades artísticas. Serão elas ou os personagens? Fomos descobrir.

Diz-me mais deças é uma conversa a duas. Vocês embirram uma com a outra porquê?
Rosa Villa: Não embirrámos.
Susana Cacela: Não se trata de embirramos muito, é uma coisinha ou outra (risos)
RV: A peça dá essa sensação que embirramos, são pequenos picanços como se costuma dizer em teatro, enquanto as actrizes estão a ensaiar. Elas se gostam, divertem-se, na peça elas são amigas, o encenador nem aparece, elas querem ficar ali a curtir vá lá.
SC: Somos nós que escolhemos os textos e estamos sempre de acordo mais ou menos.
RV: Só há um sketch que não a deixo fazer, mas faz parte.
SC: É para criar um certo entusiasmo ao público, eu peço sempre um texto que é a “ratolândia”. As tantas o público pensa que o texto não existe, mas existe e eu passo o tempo a pedir à Rosa “vamos fazer a ratolândia” e ela diz “não, vamos fazer outra coisa”. Sou sempre mais pacífica do que ela, ela é mais resmungona comigo, mas no bom sentido. No fim ela, lá me deixa fazer a “ratolândia” e é uma grande alegria que tenho, uma grande explosão, foi muito giro.

Qual é a diferença entre as personagens? Vocês na peça fazem de actrizes, o que diferem as personagens de vocês as actrizes?
RV: Pouco ou nada diferem. É evidente que há sempre um pequeno personagem escondido que se revela, mas somos nós que estámos a fazer o espectáculo e somos mais ou menos as personagens. Ela é muito divertida, passa a vida a rir, é mais calminha. Na vida real, eu sou a mais efusiva, a que rebenta. Em cena, personagens ou não, tem a ver com a nossa personalidade.
SC: É claro que fazemos personagens nas leituras de textos. O António Gomes Pereira escreveu um texto “nós não somos isto” em que dizemos no espectáculo e dizemos que vimos sem personagem, aparentemente, é só a abordagem dramática, mas, somos mais nós que personagens.

Existe alguma frase ou texto que as defina ou que gostem mais?
António Gomes Pereira: A frase que define a peça é “diz-me mais deçasW.
SC: Nós não somos isto.
AGP: Este texto foi especificamente escrito para elas e por causa desta situação. As pessoas não percebem bem muito bem se elas estão a ensaiar ou não, se estão em personagem ou não. Há partes em que assumem a personagem, mas o resto do tempo parece que elas estão a ter uma conversa e no final o público não chega a perceber que aquilo tudo estava escrito.
SC: É muito natural e a nossa conversa é toda decorada (risos). É um espectáculo muito naturalista dígamos assim.

E muito interactivo no espectáculo de ontem à noite o público participou muito e não conseguiram quase terminar a peça.
RV: Nós terminámos a peça toda, mas o nosso encenador e autor tem uma grande dificuldade em terminar peças, porque tem como quatro finais, por ele nós estávamos uma semana em palco a representar. (risos) Ontem a peça fez-se toda, o que se acabou não dizendo é uma brincadeira que fazemos com o nome do Eça. Todos os textos que fazem parte da peça de teatro foram todos ditos.
RV: Era só mais uma brincadeira.
AGP: A peça é um ensaio, tanto que ao longo do espectáculo elas vão referindo vários textos e dizem “ah esta não entra” ou “eu não vou dizer esta”. No fundo há uma diferença entre a peças que as pessoas estão a ver e de ser um suposto ensaio de um espectáculo que vai haver. Portanto, elas acabaram quando acaba a peça. Não fizeram o extra de ensaio.

António qual foi o fio condutor para todos os textos dos vários autores e os teus?
AGP: Os portugueses e os humanos. O fio condutor foi há 800 anos os portugueses a fazer os mesmos disparates. O problema maior foi conseguir que a peça ficasse com uma hora e meia, já que é a terceira fase do espectáculo, quando começámos a ensaiar os textos eram o dobro dos que ficaram, fui fazendo uma cura de emagrecimento a peça até chegarmos a este resultado da hora e meia. O Eça de Queirós tem muita coisa e nós quase não usámos quase nada, utilizámos textos de opinião e não dos romances. Depois o que é curioso é que dizemos um texto meu escrito na semana passada e um do Eça com mais de 100 anos e tem a mesma actualidade e parece que estámos a falar da mesma coisa.

Escreveste um texto especificamente só para elas. Porquê?
AGP: Desta vez no processo de ensaio saiu de inspiração em um minuto e meio, mas durante os ensaios desta vez senti essa necessidade de brincar um bocadinho com este facto de serem elas próprias, quando na realidade estão numa versão delas próprias, mas também não estão em personagem. Então decidi fazer um texto a brincar com isso, porque tem muito a ver com elas.

Vocês sentem-se muito expostas porque de certa forma se presentam a si próprias?
SC: Não me sinto nada exposta.
RV: Nem eu.

Nem porque estão a falar de vocês próprias?
SC: Não estámos a falar de nós próprias. Estámos a ser naturalistas na forma de falar uma com a outra como aqui, falámos assim em palco. A ler e interpretar os textos é diferente, fazemos uma entrevista eu faço de jornalista e depois pedimos opinião uma a outra. “Como é que achas que faça isto? Faz assim e assim”.Combinámos como fazer as coisas entre as duas que é o fazemos geralmente nos ensaios.
AGP: E o público esta supostamente a assistir a esse processo que normalmente lhes é vedado.
SC: Há uma altura em que decido fazer um texto em manifestação e começo a visualizar toda a encenação e o cenário e ela vai para o meio público e eles são os manifestantes, ela é a rapariga do megafone e o público grita e participa e continuam a gritar, é maravilhoso (risos)
AGP: Temos essas surpresas, a Susana vai sugerindo, vai exigindo, quase suplicando para se fazer a “ratolândia”, este é o único texto que esteve nas três fases por um pedido da Susana que andou a “martelar-me” a cabeça e decidi transpôr isso para a peça, em vez de ser a mim, ela “chateia” a Rosa.
SC: Eu só olhei para a público, eles sabiam que era o que eu queria e disse “é agora que tem de ser” e no meio da manifestação eles começaram a gritar “Ratolândia! Ratolândia!”. Achei maravilhoso e ia dando-me uma explosão de alegria no palco.

Qual foi o desafio maior como actrizes nesta peça?
AGP: Aturar o encenador! (risos)
SC: Exactamente! (risos)
R:V Para mim foi aturar o António. (risos)
AGP: O que vale é que é recíproco. (risos)
SC: Para mim foi aturar os dois (risos)

Como encenador sei que tivestes de retirar muitos textos, mas para além disso o que retiras desta experiência?
AGP: Eu gosto muito da palavra desafio e o maior é pegar em barro e construir alguma coisa. Neste caso ao nível das actrizes foi muito bom barro, dos textos retirando os meus são absolutamente fantásticos e o maior desafio é falar de coisas tão sérias e pesadas e graves de uma forma ligeira e descontraída. No fundo nós passámos hora e meia a chamar estúpidas as pessoas, a nós próprios, aos humanos. O que normalmente faço no meu dia-a-dia, por participação social, com maus resultados, porque as pessoas não gostam, na peça o público ri do princípio ao fim, porque pensam que estámos a brincar com isso.

O teatro esta de boa saúde em Portugal e recomenda-se?
AGP: Depende do prisma. A primeira vontade é logo dizer não!
SC: Eu acho que já esteve pior.
AGP: Se estivermos a falar de matéria humana e espaços, não esta nada mau. Se estivermos a falar de alguém que faça algo pela cultura estámos muito mal.
RV: Os espaços também são um problema, tu tens teatros onde nem sequer pões um pé, porque há lobbies. Existem muito bons grupos a trabalhar só que não sabem onde apresentar a peça, porque complicam. Nós contiuámos a lutar para fazer aquilo de que gostámos.
SC: Eu já estive em salas com muito público.

E o público? Diz-se que não existe?
AGP: Depende. Não falemos artisticamente, mas em termos técnicos temos um Felipe La Feria que ouviu esse argumento a vida inteira, é certo é que tem de funcionar de uma forma esquisita, cada peça é uma nova empresa, isso é lá com ele, mas o certo é que enche salas há 30 anos todos os dias e traz camionetas do país inteiro para ver as suas peças.
RV: Quando se fala de teatro de texto é mais complicado.
SC: Temos o teatro vilaret com o Fernando Mendes que esta sempre cheio.
AGP: É comédia a la carte, não é um espectáculo que enche. É como na política, as pessoas vão em rebanhos, se for uma telenovela milhares assistem, se for um programa de debate com três pessoas inteligentes, veem eles e as respectivas famílias.

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