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O homem tranquilo

Escrito por 

paulo camacho

Paulo Camacho ganhou à custa de muito sacrifício pessoal o título de melhor nadador português da geração de 1970. Esteve presente nos jogos olímpicos de Seul e possui um palmarés invejável de vitórias como atleta de alta competição que em muito dignificam o desporto nacional e acima de tudo a Madeira.

Como é que chegou as olimpíadas?

Paulo Camacho: Treinando muito que é como se chega até este tipo de eventos.

No final dos anos oitenta, sentia as dificuldades inerentes de viver numa ilha?

PC: Era difícil, há um aspecto a ter em conta, no ano de 1988, estávamos mais isolados, embora houvesse um forte apoio governamental. Depois treinava sozinho, os recursos humanos não eram os adequados, apesar de ter o melhor treinador do mundo na altura, estávamos mais afastados que hoje em dia.

Isolados de que forma, o que o distinguia de um nadador do continente?

PC: Era muito mais fácil ir até Espanha ao centro de rendimento, em Madrid ou Barcelona e fazer estágios em piscinas de 50 metros. Para nós era mais difícil, porque tínhamos de deslocar-nos até Lisboa e isso dificultava os treinos.

Então como colmatava essa ineficiência nos treinos?

PC: Bem, penso que foi um bocadinho de talento, a persistência, dedicação e trabalho. Treinava cinco horas por dia, duas horas de manhã, uma de ginásio e as restantes à tarde. Sacrifiquei algumas coisas, a escola naturalmente foi passada para segundo plano, a vida social para terceiro ou quarto e era assim a natação que se fazia naquela época.

O que sentiu quando chegou aos seus primeiros olímpicos?

PC: Em primeiro lugar uma enorme alegria de ter sido o primeiro madeirense a estar nos jogos, embora tenha havido um outro nos anos vinte que esteve presente também neste evento e depois foi um alívio, era como colocar a bandeira no cume do Everest. Foi uma mistura de emoções.

Ao longo das provas sentiu que o facto de estar numa ilha de certa forma o prejudicava?

PC: Sim, eu parecia perdido, depois engordei muito, porque nos meses em que fui havia muitas máquinas de refrigerantes espalhadas pelo recinto, a aldeia olímpica tinha restaurantes abertos 24 horas por dia e eu ganhei 3 ou 4 quilos a mais, tinha 17 anos de idade, fiz 18 anos nos jogos em Agosto. Era verde e imaturo, por isso, não correu muito bem. Penso que foi um dos principais obstáculos que me impediu de obter uma melhor performance em Seul.

Mas, depois desses resultados mesmo que fracos, não houve um feedback positivo?

PC: Sim, tentou-se criar um centro de alto rendimento, porque dizia-se que o modelo anterior de treinos não era o mais adequado, com psicólogos, nutricionistas e professores, mas eu não consegui aproveitar esses recursos, não me dei bem. Na altura, o meu treinador, o professor André Escórcio era uma pessoa muito dinâmica e conseguiu uma série de coisas inovadoras para a Madeira.

Não resultou com toda a equipa é isso?

PC: Não resultou comigo, porque era o único e não conseguiram com mais ninguém, porque não havia mais nenhum atleta nesse patamar.

Não havia atletas que também se dedicavam á modalidade?

PC: Sim, eu tinha colegas que se dedicavam á natação, se calhar não tanto como eu, a diferença é que eu ganhava as provas e treinávamos todos da mesma forma. O Ronaldo com certeza tem muitos colegas que conseguem rematar, centrar e fazem o mesmo tipo de treino, mas nos jogos não marcam tantos golos.

Qual foi a diferença entre Seul e os restantes jogos?

PC: Não consegui ir nem a Barcelona, nem aos terceiros jogos em Atlanta, embora estivesse pré-selecionado. Muita coisa tinha mudado, lembro-me dos fatos de banho voadores, que entretanto foram proibidos, mas na altura houve um boom e toda a gente usava esses fatos de borracha e começaram-se a bater recordes do mundo, havia pormenores técnicos que faziam a diferença, em termos subaquáticos mudou imenso, a metodologia do treino também se alterou.

Agora passados 25 anos, o que mudou nesta modalidade? Nota uma melhoria, ou um recou, mesmo em termos nacionais?

PC: Estamos servidos de muito boas condições, temos muitas piscinas, mas só do Clube Nava e a olímpica da Penteada é que estão a funcionar. O conceito de uma piscina por concelho não esta a resultar. A maioria está fechada e não há dinheiro para mante-las, por isso é difícil falar de ciclos olímpicos na natação. Por muitas razões, primeiro, somos um meio pequeno, a população-alvo é muita reduzida, vamos falar no caso concreto do Funchal, somos cerca de 150 mil pessoas é um universo muito pequeno e com tantas modalidade a funcionar. Depois temos o fenómeno do Cristiano Ronaldo que induz muita gente, muitos pais, a colocar os filhos a praticar futebol, o que limita esta modalidade, porque se não temos muitos praticantes não conseguimos "produzir" um campeão ou dois. É esperar para ver. A natação é mais ou menos como o vinho, há anos em que tem qualidade e outros em que não, na natação passasse o mesmo, é por ciclos, estamos a ver quando é que aparece mais um campeão.

Mas, actualmente com todas estas inovações e novas técnicas, eles não deveriam ser melhores?

PC: Se calhar estão pior, porque as piscinas estão todas fechadas.

Sim, mas antes não havia uma piscina olímpica e o Paulo treinava com água fria.

PC: Sim, é verdade, na saudosa piscina da Matur em que a água não era aquecida e até tenho de sublinhar que até o Natal passado só a piscina do Clube naval estava aberta, porque é uma instituição privada, apesar de ser de utilidade pública. Portanto, o marítimo e o nacional estiveram dois, ou três meses a não treinar. Na minha época, havia mesmo assim algumas piscinas, sim, a água era fria, mas nunca interrompíamos a nossa actividade. Há cerca de 4 meses atrás a natação estava pior do que nos anos em que só se praticava na água do mar. Eu recordo que no ano passado, tivemos um atleta o Luís Pinto que também estava a lutar para entrar nos jogos olímpicos de Londres e que teve de ir para as Canárias, tanto ele como o treinador tiveram de pagar do seu próprio bolso para treinar com vista a atingir os mínimos nos jogos olímpicos. É uma situação caricata, na minha época isso nunca aconteceu.

Acha que isso acontece, porque embora tivesse havido um boom na sua época, a natação é um parente pobre do desporto?

PC: Em Portugal temos a infelicidade de olhar para os nossos futebolistas como heróis nacionais, ainda no último europeu eram apelidados dessa forma, de levarem o nome de Portugal além-fronteiras, o que eu chamo de tretas. Esquecessem-se que temos muitos heróis, muitas pessoas com grandes capacidades tanto no desporto, como nas artes e nunca se ouve os ministros, ou os políticos chamarem de heróis a essas personalidades. Lembro o Souto Moura que ganhou um prémio internacional na arquitectura, o nosso nobel da literatura, José Saramago, aí sim somos não o parente pobre do desporto, mas da nação. Só se fala do Cristiano Ronaldo e da selecção nacional. Esquecem o desporto amador, isto para dizer, que somos todos parentes pobres, porque só o futebol interessa.

Qual é então o futuro da natação, ou qualquer outra modalidade que não o futebol?

PC: Digamos que vamos seguindo o nosso caminho e temos campeões, temos é um grande handicap que é quando os atletas chegam a idade em que tem de escolher, 95% optam por sorte/azar de irem para o continente estudar. Isto para dizer que fazemos um trabalho continuado, de cerca de 7 a 8 anos, com um jovem atleta, e depois é interrompido, porque preferem estudar naturalmente. Normalmente os nadadores escolhem cursos difíceis e é complicado conciliar os estudos com a natação, uma actividade que não é profissional e ainda, numa modalidade em que até o atleta para ir a um estágio paga para ir treinar de manhã até a noite. A nossa única fonte de rendimento continua a ser as aulas de natação para os mais jovens, nas escolas e também os idosos, já que, a natação tem um grande potencial nessas idades, toda a gente pode pratica-la, desde a pessoa com deficiência até com pouca mobilidade, o que nos dá manobra para criar fundos para tentar ajudar os nadadores para se deslocarem até Lisboa em estágios. O nosso caminho é longo e é feito devagar. É uma travessia no deserto.

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