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Gonzaga, o maquetista do colossal

Escrito por  yvette vieira fts josé zyberchema, Vicentes fotografias e Evangelina Sousa

 

Manuel Gonzaga Sirgado dedicou quase toda a sua vida profissional à construção de maquetes para arquitetura, nos intervalos, nutria uma paixão pelo aeromodelismo, mais recentemente, graças a um desafio de um amigo pessoal começou a construir maquetes de navios e o seu último projecto, e por ventura, o mais ambicioso é a construção do Iate Imperial Austro-húngaro Greif que transportou à imperatriz Isabel da Áustria e Hungria, mais conhecida por Sissi, até à ilha da Madeira.

Como é que surge a paixão pelo modelismo?
Manuel Gonzaga Sirgado: UHH! Isso já vêm de longe.
E o modelismo náutico?
MGS: Esse é muito recente, porque durante muitos anos só fazia aeromodelismo, ou seja, modelos de aviões, as embarcações surgem por acaso, foi mais por causa deste navio o “SS Gavião”. Um amigo meu, pediu-me para executar um modelo, porque a mãe dele fazia viagens nesta embarcação, já que, este navio fazia a capotagem da costa sul da ilha e também ia até o Porto Santo, como ela morava na Calheta, fazia a travessia no “SS Gavião”, que funcionou entre 1913 até 1951. Ele interessou-se por este barco e perguntou-me se eu queria fazer uma maquete desta embarcação, mas eu nunca tinha feito nenhum, porque os barcos nunca me interessaram e eu disse-lhe que fazia o modelo se encontrasse os planos do navio. Eu fiz uma pesquisa e descobri que o barco tinha sido construído no sul da Inglaterra e por acaso numa revista encontrei o estaleiro onde o “SS Gavião” tinha sido construído na Cornualha, escrevi para lá a pedir os planos e eles responderam que sim e mandaram-me os desenhos. Este navio era todo feito em ferro e foi graças a este barco que comecei a fazer embarcações. Depois surgiu outra oportunidade que foi fazer para os Portos da Madeira os rebocadores antigos no Porto do Funchal e acabei esses barcos em 2005, que se encontram expostos na Pontinha. Depois, tenho estes pequenos barcos que são maquetes dos chamados “Chavelhas”, as embarcações usadas pelos pescadores de Câmara de Lobos. A escala é de 1/20 e está realizado com madeira de balsa, porque é feito em bruto e só depois é escavado, como é um modelo pequenino esta madeira é indicada, pela sua moleza.


Mas, isto é uma profissão ou um hobbie?
MGS: Agora é uma profissão, porque eu antes executava maquetes de edifícios, comecei em 1978 e trabalhei sempre nessa área até 2012, com a crise as encomendas diminuíram e desde aí tenho-me dedicado aos barcos. Outra das encomendas que recebi foi do Museu da baleia, no Caniçal, onde podem ver os modelos dos barcos que faziam a faina da caça à baleia, fiz umas cinco maquetes, as baleeiras e as embarcações de apoio. Como aparece este navio? Eu estava à procura de uma outra coisa que nem me lembro e surgiu a fotografia deste navio a vapor, fiquei a contemplá-lo, vi que era um barco com rodas e comecei a pensar que dava um modelo excecional, porque de outra forma eu não me tinha interessado.
Esta embarcação foi a que trouxe a Imperatriz Sissi à ilha Madeira pela segunda vez. Tive sorte porque tenho várias imagens tiradas pelos Vicentes fotógrafos, uma delas era uma imagem do navio no porto de Pola, que agora é na Croácia, e que na atualidade é um dos maiores estaleiros do mundo, escrevi-lhes a pedir os planos, mas eles responderam que já não os tinham e que eu devia tentar num outro sítio qualquer. Entretanto, andei a pesquisar uns livros navais que me ofereceram, são três volumes, sobre as forças navais entre 1850 até a 1ª Guerra Mundial, o Império Austro-Húngaro era a segunda maior armada do mundo, a primeira era a Inglaterra, e reparei que todas as imagens vinham identificadas com arquivo de Viena e pensei que se existissem planos eles estavam ali e enviei um email, eles responderam-me em dois dias e ficaram espantados, porque nunca ninguém tinha feito semelhante pedido e que viesse escolher o que eu quisesse, ora, acontece que a capital da Áustria era um pouco longe para mim (risos). Passado um ano, a minha mulher perguntou-me vamos para onde de férias? E a minha resposta? Vamos para Viena (risos). Um mês antes, envie-lhes um email a avisar a data da minha ida e eles responderam que no dia 13 de junho de 2012, teriam os planos. Quando lá cheguei, foi necessário identificar-me, houve todo um processo burocrático, mas ao entregar o documento para identificar o meu pedido o funcionário soube de imediato o que era e foi buscar as duas capas recheadas de planos do iate. Depois de escolher os desenhos que me convinham eles informaram-me que demorava dois meses para recebê-los em papel. Se repararem nas datas, alguns dos desenhos são de 1875. Dois anos depois os restantes documentos que pedi já não vieram em papel, mas sim num CD, porque deixaram de usar papel de impressão.


E pagou pela impressão dos planos do iate imperial Greif?
MGS: Não, não me cobraram absolutamente nada, porque eu penso que eles já deviam ter os desenhos demarcados no arquivo, por norma, eles levam por hora para procurar documentos, mas como se tratam de desenhos eu acho que eles deviam ter já tudo catalogado e não foi necessária uma busca intensa, o único que me cobraram foram pelas cópias em papel que era ao mesmo preço que em Portugal. Os que vieram no CD foram um pouco mais caros, mas este tipo de suporte digital não é tão bom para mim, porque enquanto com o papel eu pego e mando ampliar as partes que me interessam, no CD tenho que fazer uma cópia, para depois ampliar e é mais complicado.

 


Em 2012 fez o pedido e começou logo depois a maquete?
MGS: Eu fiz o pedido em 2012 e como levavam dois meses a enviar os primeiros planos e pelo meio se meteu o mês de Agosto, férias para muitas pessoas, só me chegaram os desenhos em Setembro e vinham com uma nota curiosa, se não estivessem bem que os devolvesse e só depois de ter recebido tudo corretamente é que pagava. Eu comecei a trabalhar no iate imperial só em final de 2012, porque, entretanto, quando recebe os planos é preciso fazer uma ampliação e eu ainda não sabia bem de que tamanho ia fazer a embarcação. Depois fiz as minhas contas a escala 1/30, eu não gosto de fazer os barcos pequenos, porque é difícil fazer certas peças e só não fiz maior este iate, porque tem de levar uma caixa de acrílico para proteger a maquete por causa da poeira, quando o pó se infiltra é impossível de tirar e passado uns anos estraga-se completamente. As placas vão ter 3,2 metros e eu não podia ultrapassar essa altura, senão o teria feito maior, o meu objetivo era que o iate real tivesse a altura de 3,40 metros.

Então, quais são os principais desafios de fazer uma maquete naval desta natureza?
MGS: Quando recebemos os planos é necessário fazer o casco, eu próprio tenho de fazer um desenho, porque as ampliações dos desenhos não me especificam essas dimensões, eu tenho que executar uma base em que se note as diferenças e com medidas exatas. Entre setembro e novembro de 2012 fiz o desenho e só depois é que construi o casco. O desafio é trabalhar e ir fazendo e quando as coisas não funcionam fazem-se uma e outra vez, se for necessário.

   

Mas, onde neste processo de construção se depara com mais dificuldades?
MGS: Olhe, há sempre dificuldades, temos de ir fazendo muitas vezes, temos de aprender a fazer a peça e aí reside a maior dificuldade. As pessoas ao olhar para este modelo não fazem ideia de existem peças que não saem à primeira, às vezes, é a terceira, quarta ou quinta tentativa. Há umas peças mais fáceis de executar, existem outras porque são mais pequeninas, ou complicadas levam mais tempo a executar.

Nesta embarcação, por exemplo?
MGS: Eu estou a fazer estas peças que correspondem as grades do topo das chaminés que eu penso tinha duas funções, uma, não deixar que as aves caíssem pela conduta e a outra, que algum marinheiro que tivesse que realizar alguma limpeza não caísse. Esta grelha não esta muito má, mas em muitas das peças tenho de fazer primeiro um molde antes de reproduzir a peça. Neste caso, vou fazer três grades e depois escolho as duas melhores.

Há uma madeira que prefira para estes modelos em detrimento de outras?
MGS: Sim, o casco é sempre feito em tola. Esta é uma madeira que é sempre usada em construção naval.

É fácil de encontrar este tipo de madeira?
MGS: Sim, em qualquer serragem se pode mandar cortar as tábuas.

A tola é boa porquê? É maleável?
MGS: Primeiro não tem nós, é bastante densa e quase não tem veios duros, o ideal é que seja assim, porque dificultam o trabalho. A tola além de ter poucos nós, é uma placa que no seu todo é toda igual, depois tem uma dureza média. É a minha madeira preferida, sempre foi.

Em média quantas horas despende nesta maquete do “Greif”?
MGS: Não tenho um horário rígido, como trabalho em casa, mas penso que pelo menos seis horas por dia despendo neste iate real.

Esta maquete tem uma data definida para ser terminada?
MGS: Não.
Também não tem comprador para esta maquete?
MGS: Não, não, isso vai ser a última coisa que vou fazer, encontrar comprador. Para já tenho de começar a amealhar para a caixa que irá proteger a embarcação. Só para ter uma ideia uma placa de acrílico pode custar 500 euros ou até mais, porque o material necessita de ter pelo menos 8 ml de espessura e isso custa à volta de 50 a 60 euros ao metro quadrado.

Mas, as restantes maquetes que realizou foram sempre encomendas?
MGS: Sim, esta do “Greif” é só para mim e ainda não sei onde a vou colocar, porque a minha mulher já me disse que dentro de casa não fica, ela avisou-me se este barco entrar, ela sai (risos). 

 

E as rodas vão funcionar?
MGS: Sim, eu vou mostrar como é que isso vai funcionar, tenho as partes centrais das rodas e aqui funciona o eixo. Tenho o berço do motor e toda a parte interior onde vão funcionar os comandos. Este iate pelo tamanho que tem precisa de muito lastro, se eu puder esta embarcação na água e me sentar em cima, o barco aguenta o meu peso. Qualquer barco necessita de lastro para ser estável na água, a única hipótese que tinha para colocá-lo na água primeiro e depois colocar o lastro foi construir tanques de água nos extremos, á água entra por uns orifícios e é retirada por outros. Mas, porque tenho de colocá-lo na água? Porque de outra forma a embarcação fica muito pesada, ficava com mais de oitenta quilos. Na água eu coloco a barco com os tanques vazios e só depois os vou enchendo para atingir a altura necessária e quando quiser retirar a embarcação da água, tenho que esvaziar os tanques primeiro, por causa do seu tamanho.

Já o testou depois disso na água?
MGS: Sim, mas ainda não tinha os mastros e equilibrou-se bastante bem, porque já tem no fundo o lastro de chumbo, o iate deve ter uns 12 quilos placas de chumbo desde a proa até a popa. Mas, pelas minhas contas deverá ter de levar uns 50 quilos de lastro para poder descer abaixo do nível da água.

Já tem uma ideia para o tipo de tecido que vai usar nas velas?
MGS: Olhe o problema da construção do “Greif” é que eu só penso nas coisas quando me encontro nessa fase e como estou a trabalhar nos mastros já sabia a madeira que iria utilizar. Quando chegar o momento de construir as velas penso no tipo de tecido que pretendo usar, mas normalmente se usa um tecido que é o mais próximo das velas, não é o pano cru, não sei o nome, quando chegar à loja eu procuro e compro.

E quando terminar o Iate imperial Greif o que pretende fazer?
MGS: A minha ideia é fazer uma exposição com o modelo enquadrado historicamente, ou seja, a imperatriz Sissi visitou pela segunda vez à ilha da Madeira nesta embarcação e ficaram ancorados no Porto do Funchal durante dois meses, chegaram no dia 23 de dezembro de 1893 e partiram no dia 5 de fevereiro de 1894. Mais tarde, quando este navio foi desmantelado foi usado pela marinha Austro-húngara como caserna da escola naval.

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