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O navegador

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Henrique Afonso nasceu para o mar. É o seu grande amor de sempre. Ele é um aventureiro destemido que cruzou o Atlântico pelo prazer de navegar. É um espírito livre que, embora viva em terra, anseia com todas as fibras do seu corpo pelo azul do oceano.

Como é que começou a sua vida dedicada ao mar?

Henrique Afonso: Na pontinha, vendo os barcos com carvão que eu acompanhava na minha infância com o meu avô. Desde criança que tive sempre essa necessidade de ir para o mar. Mais tarde, foi trabalhar para a marina do Funchal e gostei de lá estar. Entretanto, surgiu-me a oportunidade através de um casal de ingleses, de ajuda-los a levar um barco daqui até Argelés-sur-mer, em França. Decidi ir. Deixei o meu trabalho e fui. O mundo do mar e da vela é fantástico. A partir dessa experiência, comecei a ter barcos, ainda hoje tenho uma embarcação que adquiri em Puerta de la Duquesa no Mediterrâneo, com o qual parti para o Caribe com a minha companheira da altura. Passei por Canárias, Cabo Verde, Barbados, Martinica e deixei o barco na ilha de Santa Lúcia e aí parou por momentos essa aventura, voltámos de avião.

O que foi o pior dessa travessia?

HA: Eu não sei o que isso de pior da viagem. Acompanhado, tens sempre alguém ao teu lado. Há perigo, mas ao mesmo tempo não há. Existe uma segurança quando navegas com alguém, um vigia enquanto o outro está a dormir, pesca-se, joga-se às cartas, é diferente.

Na volta, como foi a travessia do Atlântico?

HA: Quando voltei a Barbados para buscar o meu barco, encontrei um amigo de longa data, que é o pai do dono da embarcação Santa Maria, um homem com uma certa idade e marinheiro experiente, que me encorajou para fazer a travessia, porque nunca o tinha feito e sempre teve essa vontade. Eu, como ainda tinha dúvidas, telefonei a outro amigo meu, o João, o ilhéu, que já fez 50 travessias do Atlântico e tem uma experiência fantástica no mar, ele disse o mesmo, também me animou e eu parti num Domingo e na verdade não foi nada fácil.

Porque é uma solidão imensa? Não se tem com quem conversar?

HA: Foram trinta dias, sozinho, era terrível. É duro. Num certo ponto da travessia não havia vento, fiquei à deriva. Tive envolvido num situação com piratas, parecia que ia morrer. Tive a sensação de ter morrido. Estava a navegar de noite e noto uma luz que se aproxima e vai-se aproximando, mais e mais, parecia que ia colidir contra mim, eu chamava pela rádio e não havia qualquer tipo de resposta. Num certo momento ansiei que fosse a polícia marítima americana que andava a patrulhar. Eu ia a vela tão devagarinho e aproximei-me de tal forma que já sentia as pessoas. E pensei, agora o que faço? Pronto, acabou. São piratas, vão-me roubar e matar. Não interessa, já está assumido, a minha vida terminou aqui. De repente, vejo um farol muito forte apontado na minha direcção, foi aí que pensei, terminou. Todo o teu sistema parece que se volta ao contrário, pensas naqueles que estão à tua espera e nunca mais vão saber de mim, vem-te tudo ao pensamento. Olho então para o lado, vejo uma bóia a passar e afinal o que era? Comecei logo a respirar de alívio, era uma embarcação pesqueira que deita uma espécie de palanque ao mar, são uma série de bóias para marcar as redes. Eu estava entre uma delas e o barco deles.

Então porque não responderam ao seu pedido de identificação?

HA: Elas não responderam, porque eram chineses ou coreanos.

Mas, há piratas nessas zonas?

HA: Sim, claro que existem. Na Mauritânia e na Venezuela, são muito maus. Pilham e matam.

Eu falo disto, porque só se ouve falar dos piratas em África.

HA: Na Somália? Sempre houve piratas, agora são diferentes. Tem óculos de sol, vestem-se melhor, são mais bandidos. Os antigos roubavam ouro e carga. Estes estão agarrados ao crack. Eles disfarçam-se de pescadores, aparecem em pequenas canoas, aparentam ser inofensivos e engraçados, mas em vez de peixe, apontam-te uma arma. Alguns marinheiros morrem e outros desaparecem. Só para roubar o barco e algum dinheiro. Quem anda no mar, não tem muito mais.

Mas, não voltas para a Madeira depois de terminada a travessia atlântica. Quando decides retornar a ilha?

HA: Em Canárias foi onde me estabeleci. Tive um bar, uma companheira e organizei a minha vida, como qualquer ser humano. Passados uns quinze anos, essa relação terminou. Eu queria voltar a navegar e estar seis meses no mar, deixe-lhe tudo. Encontrei um amigo surfista, que vinha até a Madeira. Convidou-me para vir com ele, eu não queria voltar. O Domingos, o Jorge e o Carlos insistiam em vir até o Jardim do Mar surfar. Parou aí! É que não vou mesmo. Tinha saído da ilha, quase a fugir do Jardim do Mar. Em criança, não havia acessos por terra, vínhamos de barco. Quando finalmente construíram uma estrada, durante as viagens de autocarro vomitava sempre. Eu lembrava-me de todo aquele sofrimento e disse, não vou para aquele buraco. Eu agora sou livre. Decidi então retornar, com uma condição, eu regressava, mas nada de Jardim do Mar. Ancorei em Machico, mas eles insistiam. Um dia acordo, já no Jardim do Mar, em terra vejo vacas soltas a pastar e no mar ondas perfeitas para surfar. Eu disse então ao meu pai, quero comprar uma casa, tenho de voltar para Canárias resolver uns assuntos, mas volto para viver cá. A verdade é que depois de regressar, não consegues sair. Este lugar prende-te aqui. É como deitares âncora num sítio e não consegues iça-la, quanto mais puxas a corrente, mais ficas preso.

Não tens saudades do mar? De voltar?

HA: Vou contar-te um segredo. Daqui a nada vou até as Canárias. Foi um desafio de um grupo de amigos que estão ancorados no Paul do Mar. Amanhã, tenho tudo preparado para a minha fugida. Só necessito de uns calções, umas chinelas e umas camisolas e volto uns dias a seguir. É só para matar o vício.

Andreia como foi a experiencia de velejar com teu pai?

Andreia Afonso: Foi um castigo. Tinha perdido alguns anos da escola, por alguma preguiça, queria sair com os amigos e divertir-me, em vez de estudar. A minha mãe farta com a situação avisou-me que iria com o meu pai no barco até Canárias. Ao principio chorei muito, porque deixava os meus amigos e a minha vida para atrás. Mas, passado pouco tempo adorei fazer essa viagem. Conheci as ilhas todas e tirei um curso de espanhol na Universidade de Tenerife. Navegámos rumo ao Brasil, tinha eu dezassete anos. Foi à Suécia, com as minhas colegas do curso, conheci novas culturas e fiz grandes amizades. Um dia o meu pai apareceu com uma caixa com alicates e contas e comecei a fazer brincos e pulseiras, que durante o fim-de-semana, vendia nos portos. Depois, estive cinco anos em França a estudar e tirei um diploma na área de estética. Abri uma microempresa, só que não consegui viver lá por mais tempo, porque gosto de lugares com calor, sol e oceano. Estava farta de viver longe do mar. Era como se tivessem arrancado uma parte de mim e não consegui resistir mais. Tenho agora a Maktub estética, onde faço limpezas faciais, massagens e todo o tipo de serviços associados á beleza feminina.

O pior de tudo que ficou desta viagem?

AA: Nada! Porque esse castigo foi muito bom! Foi diferente dos outros. (risos). Talvez, regressar as origens.

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