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Os mensageiros

Escrito por  yvette vieira fts proestúdio

Nos primórdios dos anos 80, o grupo de mímica e teatro oficina versus era uma trupe de expressão dramática. A partir de 2001 assumiu-se com uma linguagem mais artística, procurando singrar através de uma vertente mais teatral, num universo inclusivo onde todos são iguais e ninguém é marginalizado pela diferença, onde todos com a deficiência e sem ela tem o seu espaço que conquistaram com muita dedicação e trabalho ao longo dos anos. Um grupo pioneiro ao nível nacional, que pretende despertar as pessoas do torpor dos seus casulos, com temas fortes que os estimulem para uma maior consciência social, como é o caso da peça violências, encenada por Duarte Rodrigues, sobre o tema da violência doméstica na infância, no estado adulto e na terceira idade e que acaba com uma mensagem de esperança através de uma história criada no âmbito da Campanha só bem-me-quer, que foi apresentada pelo seu autor Francisco Fernandes, no encerramento das actividades do plano regional contra a violência doméstica.

A peça de teatro intitula-se violências, porque a escolha deste tema em particular?

Duarte Rodrigues: Preferia falar um pouco antes do nosso grupo de teatro. Somos diferentes, porque somos um grupo que é composto de jovens com necessidades especiais, mas não só. Nós trabalhamos num universo de inclusão social, através da arte por jovens que querem manifestar-se artisticamente. Pertencemos à direcção regional de educação através do núcleo inclusão pela arte, do qual também faz parte uma orquestra. Este tema “violências” foi proposto pela segurança social, através da campanha “só bem-me-quer”, liderado pela Teresa Carvalho, no combate à violência. Foi uma campanha que decorreu ao longo do ano, em diferentes concelhos da ilha e que encerrou no Funchal. Foi-me lançado este desafio, esta sugestão e aproveitámos para apresentar uma peça de teatro com este tema ao longo da semana regional da pessoa com necessidades especiais, que decorreu entre os dias 2 a 9 de Dezembro. Fiz então uma investigação de textos e o tema surgiu praticamente assim, apesar de ser um assunto que nos toca a todos, quer individualmente, quer socialmente. Acontece à nossa volta e por isso, achámos que era muito interessante e positivo para ser trabalhado com estes jovens e para o restante público.

Qual foi a reacção do grupo, quando abordaram este texto pela primeira vez?

DR: Houve uma escolha cuidada dos textos. Deparei-me com vários, uns mais agressivos, outros menos. Como nós queríamos que a mensagem chegasse a maioria do público em geral, classificámos a peça para maior de 12 anos. Logo tentei ser comedido na linguagem, quer na escrita, quer em termos expressivos e nas primeiras leituras houve uns arrepios, devido a sua dureza explícita. O meu cuidado foi amenizar tudo isso de forma poética. Não queria mostrar a violência, por violência. Essa já existe em grandes doses nos telejornais e nas campanhas nacionais. Então decidimos nesta tradução para o teatro, que fosse harmoniosamente poético, abordando esta questão que é dramática, que é crua e dura. Queríamos que as pessoas tivessem tempo de assimilar e reflectir sobretudo, não pretendíamos apenas promover o choque.

Em termos de público?

DR: Foi variada a reacção. Embora muito coesa, como tive este cuidado com o texto, não choquei ninguém. Há, no entanto, um monólogo de uma mulher que é violentada pelo marido e que teve um filho cego. A criança é abandonada pelo pai, como se a culpa fosse da mãe. Apesar de todo o cuidado que tive, trata-se de uma realidade muito dura, difícil e nesses momentos, sentia-se a inquietação na plateia. O tossir, o estar desconfortável, porque esse segmento em particular, é muito agressivo. Teve toda essa massa dramática porque necessitava fazer-se uma leitura coerente com todo o espectáculo. Senti esse incomodar ao ouvirem a história desta mulher que passou um mau momento com o filho, por causa do marido e pela sua condição social. Ela chega a dizer que acabou por estar presa em casa e as pessoas não faziam nada, não perguntavam por ela, apesar de saberem o que estava a acontecer. Este tipo de relato acontece, nós sabemos que é assim.

Decidistes excluir textos mais duros, porque achastes que era demasiado violento para os artistas e para o público em geral, mas não deturpastes a mensagem? A violência doméstica é uma realidade dura e mortal em muitos casos.

DR: Não. Se fecharmos os olhos e pensarmos nas imagens que aparecem á nossa volta, nós já temos isso, o esbofetear, o sangue e a morte. Há muita coisa a acontecer assim, já não se liga. Esta peça tem um formato mais amenizado, porque pensei que estamos num tempo de receber, de reflectir a informação, através do cuidado que tive de ter com a linguagem, porque se tratava de um público para maiores de 12 anos. Nós queríamos abranger as escolas, a partir do secundo ciclo.

Achastes que era importante começar pelas camadas mais jovens?

DR: Sim, e sobretudo porque fiquei muito chocado, durante o lançamento da campanha do “ só bem-me-quer”, com uma pequena exposição com trabalhos feitos pelos alunos das escolas de vários concelhos da ilha. Eles declaravam em mensagens que viam e ouviam os pais, o bater das portas, o esbofetear e soquear a mãe, o partir da loiça e eles escondidos nas camas debaixo dos lençóis. É uma realidade que sabemos que existe, mas pensámos que é algo muito distante de todos nós, no entanto, as crianças assistem a todo este drama. Apesar desta ideia que ainda subsiste de que somos uma geração mais informada, que cresceu, afinal a violência doméstica ainda continua a acontecer.

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