

Niassa foi o romance de estreia de Francisco Camacho, jornalista de profissão, que aborda o confronto entre o imaginário africano português e a sua realidade actual, através de uma história com contornos misteriosos.
O Livro Niassa surge de uma reportagem que fizeste?
Francisco Camacho: Sim, o Niassa surge de uma reportagem que fiz em Moçambique em 1997, nessa altura não foi até lá, mas falava-se que era um sítio mágico, um lugar que correspondia à nossa ideia romântica de África, com muitos animais, isolada e longe de tudo. E nessa primeira viagem retive essa imagem e essa ideia. Passado uns tempos ainda na "grande reportagem" tive a oportunidade de ir até lá, mas era sobre viagens, então foi de carro de Nampula até ao lago Niassa e de facto as expectativas que tinha sobre aquele lugar foram superadas em termos de beleza paisagística e pelo meio foi conhecendo histórias que me parecerem muito interessantes.
E algumas dessas histórias abordava o tráfego de órgãos, a personagem principal desaparece. Isso teve a ver com a reportagem que fizeste?
FC: Não, isso foi uma questão que inclui no livro, porque nessa altura falava-se desse tipo de problemas na zona e não com a dimensão que falo no livro, mas que havia o trâfego de órgãos. É um livro que fala sobretudo do passado português em África, sobre a guerra colonial, a guerra civil moçambicana e sobre os portugueses que escolheram ficar por lá, ou seja, que acreditaram na revolução e na libertação do país.
E fizeste muita pesquisa, porque tu no livro abordas muito essa questão histórica.
FC: Sim fiz alguma investigação, embora já estivesse feita para as reportagens que fiz e neste segundo livro "a última canção da noite" acontece o mesmo, falo sobre a guerra dos balcãs onde estive e abordo novamente essa questão histórica, tanto num caso como noutro. Embora sejam romances, eu ainda não me despi completamente da minha pele de jornalista. É o meu jeito de escrever.
Temos uma família dilacerada pela guerra, são vários irmãos e pensei se haveria alguma analogia com a tua própria família, já que dedicaste este livro aos teus próprios irmãos.
FC: Eu acho que se calhar no subconsciente, não sei, mas se calhar por ser o mais novo dos quatro irmãos, os mais velhos são muito chegados em termos de idades, senti alguma necessidade de manifestar o meu afecto por eles. A história fala de dois irmãos separados e um terceiro que morreu, acho que sim, que foi uma forma de manifestar essa ligação que tenho com eles.
Na escrita, qual foi o processo mais difícil?
FC: Dígamos que este livro saiu facilmente. Não foi um parto difícil, claro que, me empenho muito na escrita para torná-la mais possível do que eu considero ser o ideal e isso dá muito trabalho, ter as palavras, os frases e o ritmo certo. Essa parte mais formal dá muito mais trabalho, mas eu tinha uma história para contar pela qual estava muito apaixonado e isso facilitou muito depois na escrita. Foi vivendo uma realidade paralela, enquanto escrevia, por aí não foi o difícil, o mais complicado é começar e encontrar uma história que me apaixone, porque só assim consigo escrever. Tanto que o meu ultimo romance só saiu o ano passado e depois deste Niassa, porque foi o tempo de encontrar uma história.
A personagem tem uma doença incurável, a SIDA, introduziste esse aspecto, porque se tratava de um estigma social nessa altura?
FC: Não, eu introduzi o tema por causa do flagelo que é esta doença em África, que atinge de acordo com números oficiais de 18% a 20% da população, mas podem ser muito mais pessoas e Moçambique é um país muito atingido por esta doença. Há também uma coisa trágica que é a dificuldade de implementar programas de prevenção nesses sítios. Por exemplo, no Niassa ouvi que uma pessoa tinha SIDA por ter mantido relações sexuais com uma mulher menstruada, portanto, era por isso que tinha ficado infectado. Creio que continua a não haver muita informação que defenda as pessoas da ignorância, é uma tragédia enorme, daí o ter referido no livro.
Qual é o teu personagem preferido neste livro?
FC: Eu diria que é o Fred Roque, porque eu conheci essa pessoa. É alguém, dígamos, que de todas as personagens do livro é a que esta mais próxima da realidade.