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A história de um vestido

Escrito por  yvette vieira fts miguel nóbrega

O nome Fernanda Nóbrega remete-nos às memórias de um passado com salpicos de modernidade, que surgem nas suas colecções sob a forma de tecidos fluídos com apontamentos de bordado Madeira, que ao longo já de décadas tem vindo a apresentar nas passarelas de todo o país e também no estrangeiro.

Sendo uma das pioneiras deste conceito de fazer moda, a estilista arrebata-nos com a sua simplicidade e simpatia, ao corrigir-me e acrescentar, que foi de facto uma das primeiras, com o Hugo Santos, também um designer madeirense que utiliza nas suas criações o bordado.

 Como dá início ao processo de criação?

Fernanda Nóbrega: Depende se é inserido dentro do espirito de uma colecção, ou se um serviço personalizado. Quando se trata de uma colecção eu sempre tenho a intenção de seguir as tendências e também há a influência do meu gosto pessoal. Se for um serviço personalizado tenho que ter em consideração o gosto do cliente, o seu corpo e a ocasião para que é destinado.

A ideia para as peças de uma colecção como surge?

FN: Ás vezes surge uma ideia do nada, anoto-a e depois concretizo, mas acabamos por ter de racionalizar as coisas e estabelecer um padrão de raciocínio, deixar fluir e passar para o papel essa ideia. O processo criativo acaba por ser difícil de explicar.

Qual dos processos lhe coloca mais desafios em termos de exigência? A colecção ou serviço personalizado?

FN: Gosto de ambos. No entanto, o serviço personalizado é sem dúvida o mais exigente, por causa das expectativas geradas. Nos casamentos há uma maior pressão, porque envolve o sonho da noiva, é um momento marcante na vida delas e querem que seja especial e como idealizaram. E isso passa pelo vestido, por esse motivo há um maior stress e toda essa pressão cria uma tensão que torna tudo mais complicado. É um processo em que é mesmo necessário um acompanhamento maior da minha parte.

Desses momentos de “tensão” recorda alguma peripécia em particular?

FN: Sim, por norma faço uma prova no atelier antes da cerimónia porque é uma peça mais estruturada, mais justa e porque podem surgir imprevistos. O caso dela foi um desses momentos, a noiva só conseguiu usar o vestido após uma terceira tentativa, porque cada vez que lhe colocava a peça o fecho rebentava inexplicavelmente. Só a terceira foi de vez. Ela nesse processo, para minha surpresa estava calma, porque segundo ela também por três vezes quase ficou sem padre. Ou seja, o primeiro clérigo que ia casa-la faleceu, o mesmo aconteceu ao que foi designado a seguir e só à terceira tentativa já houve padre para a casar de vez. Por isso, ela dizia que no casamento dela tudo acontecia em conjuntos de três.

Alguma vez teve uma branca, uma daquelas alturas em que anda sai bem?

FN: Acontece com alguma frequência, às vezes há dias maus, há ocasiões em que é mais difícil desenhar do que outros. E não me apetece fazer nada.

Qual é a parte do processo de criação de uma peça que gosta mais? E a de menos?

FN: Gosto da parte do corte do tecido, com frequência corto primeiro antes de ter sequer desenhado.

A que menos aprecio é a confecção, tem etapas do processo que eu sei fazer e até aprecio, mas no geral não. E para essa fase da concepção da peça, tenho uma equipa que trabalha comigo.

Ainda nesta temática, qual é a peça mais difícil de executar?

FN: Qualquer uma, há peças que em termos de modelagem são simples, mas que podem complicar-se devido ao tipo de tecido. O grau é o mesmo. O que é necessário é atender as características de cada peça para a tornar menos difícil de manejar.

E o tecido?

Foi a pele de porco devido a dificuldade em colocar o bordado, trata-se de um material que parece camurça e que constitui um desafio já que não é fácil de bordar.

Como surgiu esse elemento? Foi um pedido especial?

FN: Foi a pedido de uma noiva, que foi minha manequim em vários dos meus desfiles. Houve uma colecção em que desenhei um vestido de noiva que, ao desmontar-se, tinha um conjunto interior, mais informal e confortável de forma a ser usado pela noiva, depois da igreja, em pele de porco.

Ela gostou da ideia e disse-me que quando casasse gostaria de ter duas peças confeccionadas por mim dessa forma. Um vestido mais conservador para a cerimónia formal, a outra mais casual tinha franjas e era nesse tipo de couro. Reparo na sua surpresa, mas ao contrário do que possa parecer, é muito frequente a utilização desta pele em artigos como as malas e até casacos.

Como apareceu o bordado Madeira nas suas criações?

FN: Foi logo na minha primeira colecção de fim de curso que apresentei no Coliseu do Porto e depois durante um período decidi não o usar, mas após essa fase retomei a utilização do bordado até hoje.

Foi difícil a aceitação por parte dos potenciais clientes e público em geral?

FN: Aqui na Região tem fases, há períodos em que as pessoas me pedem muito, há outras em que dizem estar fartos não querem saber o que é um pena porque o bordado Madeira têm uma característica única. O que noto é um impacto maior fora da Região.

O Portugal Fashion foi importante nesse processo?

FN: Fiz quatro edições do PF e nessa altura havia as lojas da marca que comercializavam as roupas. E o feedback foi positivo, entretanto, a equipa que organizava este evento mudou, as lojas deixaram de existir e como há muita gente a fazer coisas, surgem novos valores e vamos naturalmente sendo substituídos, No entanto, graças a esse ex-grupo de trabalho do PF com quem mantenho a colaboração no Continente, foi possível também participar num evento de moda na Suíça e Alemanha.

E como foi a reacção dos clientes estrangeiros?

FN: Quando participei de um desfile em Genebra e Berlim pude verificar uma aceitação enorme. Mas, possuo já uma clientela diversificada, o site ajuda nesse sentido, já fiz vestidos para a Venezuela e tenho tido encomendas para vários países da Europa.

Como ultrapassa a dificuldade da distância, por exemplo, no caso das provas?

FN: Faço por norma tamanhos standard e insiro as medidas da cliente num manequim e a base acaba sempre sendo a mesma, depois efectuo o envio. Para a cliente da Venezuela, o vestido foi entregue a familiares que depois na viagem de retorno o levaram consigo.

O facto de residir numa ilha de alguma limitou o seu trabalho?

FN: Não limitou, mas complica. Por exemplo, as matérias primas são mais caras devido ao transporte. A manutenção dos equipamentos é outra das dificuldades que sinto. Como a Madeira não têm uma tradição de industria têxtil, surgem-me problemas no que se refere a reposição das peças nas máquinas. É tudo caro e demora algum tempo a resolver.

Depois de todos estes anos de um carreira já de si longa , tem algum projecto por realizar no futuro?

FN: Muito honestamente? Estou numa fase de balanço e não tenho nenhum projecto definido.

E já considerou a internacionalização da marca?

FN: Isso seria dar um passo maior que a perna, ao meu ver. Essa é uma decisão que depende muito da iniciativa pessoal e eu ainda não dei esse passo.

http://fernandanobrega.com.sapo.pt/

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