Nuno& The End é o projecto artístico alternativo eclético do músico Nuno Felipe que que flutua entre o electrónico e o post rock, embora, vá para além dessas influências, é um estado de alma traduzido em sonoridades complexas e multilinguísticas que se entrecruzam e que valem a pena descobrir no seu último álbum “Light Ahead”.
O teu universo musical resulta de uma mistura de sonoridades e línguas, essa tua assinatura pessoal em termos musicais foi algo que foi construído ao longo do tempo, ou foi sempre uma necessidade tua de te afirmar como músico?
Nuno Filipe: Foram ambas. Tudo resulta do trajeto efetuado, das vivências em vários países, da atenção no caminho realizado. Ao mesmo tempo, a regra do “tem de ser em inglês, porque vende mais, ou tem de ser em Português porque é o teu país” é-me completamente indiferente. Para já, por ser só por si é uma regra. Um dia apetece-me em romeno, outro, em japonês, outro em português. É como sinto, mas nada premeditado.
Na construção de um álbum as ideias surgem primeiro e só depois gravas? Ou gravas os sons e as vozes em paralelo e depois é que crias um fio condutor para o disco?
NF: As ideias surgem antes. Basta uma frase, um mote, um conceito, um estado de alma, uma cabeçada acidental. Raramente uma melodia. Essas vêm logo a seguir. Depois de um estado de alma vem a ideia. Depois a melodia, a produção das músicas, a ideia aprofundada nos textos e a êxtase da criação. Seguem-se as gravações e as misturas. Terminada essa longa fase, o repouso imprescindível dos ouvidos e os últimos retoques na masterização. O design e a edição vêm logo a seguir. Resta-nos no final o impasse do “e agora”?
O conceito dos álbuns reflectem um ambiente específico? Ou é um reflexo de um dos momentos da tua vida?
NF: Cada álbum é sem dúvida o reflexo da minha experiência de vida. A inspiração está no que me rodeia, no que me faz bem, no que me faz mal, no que me revolta, no que me frustra, no que me dá felicidade.
Por exemplo, o tema “Bébé” do 2º álbum “Nowhere” , é a imagem do nascimento da minha filha e toda a felicidade implícita nesse acontecimento.
O tema “We Came In Peace” do 3º disco “Light Ahead” foi na altura do governo de Pedro Passos Coelho como Primeiro Ministro. É alusivo ao senhor em questão e à sua política de manipulação social.
O tema “A Spider Love” também do terceiro trabalho discográfico cuja personagem é uma aranha que vive na sua toca num recanto da floresta, nunca saiu da toca, mas sonha descobrir o mundo através da sua pequena janela, é alusivo à ilusão do “Um dia quando tiver dinheiro, um dia quando me sair o euro milhões, um dia quando chegar à reforma, aí farei isto e aquilo.” E as pessoas não compreendem que estão simplesmente adormecidas, que a vida lhes passa ao lado.
Quando escreves os temas pensas neles quase num formato 3D? Ou seja, já os consegues idealizar em termos imagens para os futuros vídeos?
NF: Sim, as ideias surgem-me em imagens. A música é muito cinematográfica. No entanto as ideias dos videoclips, só mais tarde é que realmente penso nelas. Atualmente idealizo os clips com a Cristina Vieira, a atual realizadora dos vídeos de Nuno & The End.
Vamos falar do teu último disco, “light ahead”. Este trabalho é uma nova etapa sonora mais amadurecida depois do “seance” e “nowhere?
NF: Sem dúvida. É um álbum de canções. Mais negro que os anteriores. O “Séance” foi um bom início, mas a verdade é que o “Nowhere” é que foi concebido primeiro, mas editado como 2º álbum. Porquê ? Nem sei bem…
Este terceiro é muito mais fiel a mim, pois abri o canal completamente e deixei fluir contra tudo e todos. É costume muita gente aconselhar-me a “ faz assim”, “segue este estilo”, “faz um tema assim que é pra teres sucesso”, “ canta”, “não cantes”, “não faças música”, “arranja um emprego”, “isso não vai dar em nada”, “faz pimba, kizomba, musica pra filmes, jazz, chillout, musica clássica, rock, alternativo”. Pff! Muito pouca gente disse-me “mostra o que te vai na alma”. E é aí que se é músico, quando se é fiel a si próprio. Aí é que ganhamos uma assinatura própria.
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Porquê esperar tanto tempo para gravar um novo trabalho discográfico?
NF: Por não ter uma logística de editora. A edição de autor é gratificante em termos de criação, porque ninguém controla, nem deturpa o teu trabalho, mas enquanto uma editora constitui uma equipa de pessoas que em simultâneo tratam da gravação, misturas, masterização, design, edição, promoção, agenciamento, videoclip, assessoria de empresa, redes sociais, etc. Uma pessoa sozinha perde-se neste mar de “tarefas importantes”. Se eu só fizesse a parte musical, e não me dedicasse ao resto, tudo iria pra dentro de uma gaveta. É sem dúvida o grande objetivo, dedicar-se só à criação musical. Neste momento, seria bom ter agenciamento dedicado. Ainda não surgiu a oportunidade.
O que “light ahead” acrescenta em termos da tua evolução musical?
NF:A maturidade estética que tem vindo a desenvolver-se ao longo dos álbuns anteriores. A sonoridade continua eclética, mas muito mais assumida. Deixei de me preocupar com a crítica pseudo-musical.
Existe neste disco um tema emblemático?
NF: Sim. O tema “Light Ahead” que dá o nome ao álbum tem uma mensagem poderosíssima. Mas é preciso “estar sintonizado” para realmente compreendê-la. O texto foi escrito pela Moun Pinz e é um manual de sobrevivência do que nós julgamos entender por “relações humanas”.
Consideras que há espaço para um músico como tu, no cenário nacional?
NF: Existe espaço para qualquer músico. Há sempre um público-alvo para qualquer tipo de música. Estou a tentar alcançar o meu. Não é uma música para grandes massas. Mas antes de pensar num público, tenho eu de gostar muito do que faço.
https://nunoandtheend.bandcamp.com/




