
A Associação Museu Cavaquinho não tem fins lucrativos e visa documentar, preservar e promover a história e a prática do cavaquinho O site, "cavaquinho.pt" é o único que reúne toda a informação sobre este instrumento tradicional em Portugal Continental, o Braguinha na Ilha da Madeira, o cavaquinho Brasileiro, o cavaquinho de Cabo Verde, o Ukulele no Havai e Continente Norte-Americano e o Keroncong na Indonésia.
Cavaquinho.pt vai ser um site de recolha de música portuguesa em cavaquinho?
Júlio Pereira: Não vai ser, é. Isto tudo começou há cerca de 32 anos, quando fiz um disco chamado "cavaquinho", esse álbum foi grande sucesso cá, mas houve algumas facetas desse sucesso que foram particulares, nomeadamente o ter fomentado a indústria violeira, que estava sediada muito no Minho e de repente se começou a construir muitos cavaquinhos depois desse disco. Entretanto, fiz vários outros trabalhos discográficos, ao longo destes anos, com outros instrumentos e agora fiz um disco chamado "cavaquinho.pt" onde a grande diferença é que o disco há 33 anos contemplava a música de todas as nossas regiões, que eu orquestrava a minha maneira e no actual álbum dígamos que me distanciei dos elementos etno-musicais, afastei-me de uma maneira directa daquilo que é música de raíz de determinadas regiões e cômpus livremente, cruzei culturas, podes começar com uma sonoridade do Minho, passares pelo Brasil e vários sítios da América do Sul e acabares em Cabo-Verde. Esse foi um dos aspectos. Depois, há cerca de dois anos comecei a investigar todo este universo do instrumento e paulatinamente comecei a construir um site que se chama "cavaquinhos.pt" que no fundo é a nossa sede de trabalho. Foi formada, entretanto, a associação cultural do museu do cavaquinho que é exactamente para documentar e preservar a práctica do instrumento. A apresentação do disco e do projecto foi feito no final de Janeiro de 2012, no CCB em Lisboa.
É também um projecto que envolve vários países?
JP: Por enquanto é nosso.
Mas, o site informa sobre recolhas feitas no Havai?
JP: Objectivamente o que se pretende é mostrar o nosso cavaquinho ao mundo, já que é e foi levado para vários sítios do mundo. E como sabes, hoje em dia, os derivados deste instrumento que é o Ukelele, que partiu da ilha da Madeira para o Havai, depois daí para o continente norte-americano e depois difundiu-se para o mundo todo, é este ukelele é referido em todo o mundo inteiro e na realidade refere os portugueses como estando na origem do instrumento, mas não o conhecem de facto. Este site foi feito especialmente para mostrar ao mundo a sua origem e a todos os países onde foi parar e como influenciou, como é o caso também de Cabo-Verde, do Brasil e da Indonésia.
Afirmou recentemente que não pretende apenas com este site que se faça apenas uma recolha, mas o objectivo é fazer música original de cavaquinho.
JP: Este é um conjunto, por um lado, pretende-se preservar, há que ter em atenção várias coisas, uma delas é estudar tudo o que tem a ver com o instrumento e descobrimos que o Portugal presente tem mais de duzentos grupos de cavaquinho. O que é um sinal que esta práctica cresceu e disseminou-se ao longo do território, já encontrámos grupos de cavaquinhos no Alentejo, que era uma zona onde antes não havia essa tradição, já encontrámos construtores em vários sítios do país e por isso, é necessário inventariar tudo o que existe. Por outro lado, é essencial criar, porque não há nada mais que toque culturas diferentes como é a música, que não necessita de palavras, é de facto uma expressão de arte, tão abstracta que é geradora de emoções de uma maneira simples e directa. Portanto, fazer música, sobretudo, contemporânea faz todo o sentido. A associação esta a fazer este dois tipos de acções, uma estudar o que existe em termos de publicações e práctica do instrumento, dos locais de ensino, os grupos, os constructures e por outro lado, incentivar os músicos de cavaquinho. Há três grande músicos deste instrumento, até poderá haver mais, mas que me lembre e que a associação tem estado à procura de condições para que possam gravar e fazer um disco.
Após 32 anos de ter editado um álbum sobre o cavaquinho, acabou um certo preconceito em relação à música tradicional portuguesa?
JP: Trata-se de um conjunto de coisas, muito esta a acontecer noutros campos musicais, há um trabalho fantástico, no Alentejo, sobre a campaniça, com a gaita-de-foles, sei que o homem que esta a estudar a melhor maneira de estructurar um curso sobre este instrumento, no conservatório em Chaves, alguém já voltou a pegar na viola Beiroa, uma das cinco do nosso país, neste caso da Beira baixa. A toeira já se conhece. Este é um facto paralelo, que prova que cada vez há mais juventude que também se interessa pela nossa música tradicional e é óbvio que são uma geração que mais estuda, portanto, há pela primeira vez, pessoas mais formadas e que gostam de vários tipos e géneros musicais, o que é extremamente importante. Encontrei recentemente, um miúdo de 13 anos que agarra no cavaquinho e toca música em de heavy metal misturada com a tradicional portuguesa, estas coisas estão a acontecer agora e ainda bem, porque é este conjunto de esforços que vai fazer com que se mude um pouco aquele conceito que existe em Portugal de música erudita para um lado e o popular para outro. Este abismo tem de acabar, porque enquanto assim não for, as coisas são muito lentas e sobretudo, continua a existir esta coisa dos instrumentos tradicionais estarem ao Deus dará e eu acho que estámos na altura certa para dar à volta a isto. Aliás, um dos passos que a associação esta a fazer é a criação de protocolos com escola superior, ou conservatórios, no sentido de se fazer o desenho de um curso, que será obviamente, para se estudar e ensinar o cavaquinho de uma maneira contínua.
Contudo, quando se fala do cavaquinho quase que exclusivamente vêm à baila o seu nome e pouco ou nada se houve falar desses novos grupos e músicos deste instrumento que existem um pouco por todo o país.
JP: Repare, se as pessoas se habituarem só à utilização dos meios de comunicação, tipo televisão ou rádio, e se ouvirem esses, é evidente que não tem noção nenhuma do que acontece no país. Esta é a grande questão, afinal o país esta a fazer muito mais do que imaginámos, quando digo, que eu, sozinho, descubri no ano passado, mais de duzentos grupos de cavaquinho, consegui-o através do uso da internet, porque se fosse pela televisão, ou pela rádio, nunca saberia disto. Mais, não só não saberia, como teria à noção que tudo tinha morrido. Isso não é verdade, a realidade é tudo ao contrário. Mas, isto não só é uma realidade de Portugal, esta é uma questão que a Europa esta a viver, porque os orgãos de comunicação social tendem a desenvolver e a copiar o modelo que no fundo segue uma música que é ditada pelas multinacionais discográficas e cria-se uma bola de neve onde se esta sempre a vender o mesmo.
http://www.cavaquinhos.pt/