
A música de Frankie Chavez é uma fusão de genéros musicais inspirados na versatilidade das diferentes guitarras com uma forte componente blues. Heart & Spine é o seu mais recente álbum mais esfuziante e eléctrico que os anteriores, que define como rock hipnótico.
O teu último trabalho é o “ heart&Spine” que defines como um hipnótico blues rock. O que é isso?
Frankie Chavez: Eu não sei bem, mas li isso algures e este disco é mais eléctrico que outros trabalhos que eram mais acústicos e quis dar neste disco mais ênfase as guitarras eléctricas com um blues que não é puro, como ouvimos, por exemplo, com o Tab Benoit, que considero que se insere nessa categoria. Temos também um blues mais antigo, como o de Robert Johnson e Skip James e eu vou beber muito a este genéro musical, mas que misturo com várias coisas, com rock, folk e muita música instrumental. Depois passo isso para a guitarra eléctrica, com esse estilo mais hipnótico, com muita repetição de notas e no caso de instrumentos, temos a guitarra portuguesa. É uma fusão de genéros, daí que o tema que seja mais hipnótico, o primeiro single, que é o “fight”, que possui uma malha muito repetitiva. Acho que foi daí que saiu esse termo, não existe um termo só para a música que faço, é uma conjugação de genéros que passa pelo blues, pelo folk, pelo rock, por sons célticos e pela guitarra portuguesa.
Já referiste que este álbum teve um parto difícil e foi fruto de dois anos de tournée e de estares com a tua família. Achas que é um disco mais amadurecido por tudo isto que referiste?
FC: Sim, sem dúvida. É mais maduro em dois sentidos, como disseste tive dois anos de estrada a tocar intensivamente com o baterista João Correia e as músicas foram escritas ao longo do tempo e amadurecidas ao vivo. Começámos dessa forma para alguns dos temas e por tanto as melodias cresceram para esta sonoridade mais rock. Por outro lado, desde o último disco que saiu em 2011 e este trabalho de 2014 houve uma maior e melhor preparação antes de ir para estúdio. No “family tree”, na altura tocava sozinho, fui para estúdio e tinha as ideias bem pensadas, mas sem uma grande pré-produção, por um lado, isso é bom, mas por outro, havia temas que mereciam mais atenção. Neste álbum fiz uma pré-produção mais cuidada, já havia gravado as músicas quase todas em casa antes de ir para estúdio, trabalhei e partilhei as minhas ideias com o João e vice-versa. Houve já um maior cuidado, mas deixei espaço para que o acaso funcionasse. Eu gosto do súbito em estúdio, mesmo assim, ia tudo mais pré-definido e mais maduro. Em terceiro lugar, preparei tudo com o João Correia, gravei tudo com ele e a base foi sempre guitarra e bateria. Nós temos muita química a tocar e isso ganhou-se nos dois anos de estrada que fizemos juntos. As melodias soaram mais coesas depois de gravar, por isso acho que este disco evoluiu de uma forma mais cuidada e madura.
Nas tuas músicas usas vários tipos de guitarras, entre elas a guitarra portuguesa, isso acontece pela tua vontade em experimentar?
FC: É. Eu gosto muito da sonoridade da guitarra portuguesa e como já referi gosto de folk, rock e blues. Tento num disco misturar tudo um pouco sem nunca fugir destes três géneros, mas como estava a dizer os meus primeiros trabalhos eram com guitarras mais acústicas e deixei que o som respira-se bastante. Nestes últimos álbuns quis experimentar mais sonoridades e acho que senti mais falta foi desse som mais eléctrico que está tão presente em algumas coisas que continuo a ouvir como o Jimmy Hendrix e AC/DC que são músicos que oiço desde miúdo. Agora, tenho este projecto onde tudo começou de uma forma mais acústica, quis neste disco dar espaço as guitarras eléctricas e dar azo a uma sonoridade mais electrizante.
Tem também o inglês, já referiste as tuas influências anglo-saxónicas.
FC: Sim, sempre ouvi mais música anglo-saxónica do que em portuguesa e se calhar na construção da própria métrica das canções sempre senti que era mais fácil explicar algumas coisas em inglês, apesar de não ser a minha língua-materna. As canções em português para soarem bem tem de ser bem escritas e falar de amor pode ser arriscado, pode soar foleiro e há bons músicos portugueses. Eu gosto do Tiago Bettencourt e do Samuel Úria, ambos conseguem e sabem escrever bem letras. Por exemplo, no último disco do Samuel há um tema em dueto que é o “lenço enxuto” para mim é um som brutal e uma das suas músicas mais bonitas que conheço, trata-se de uma balada entre dois homens sobre um terceiro a chorar, ou isso é muito bem escrito, ou pode soar muito mal.
É curioso que a tua música é associada com grupos de desportos radicais, os teus temas servem de alguma forma como pano de fundo para ilustrar as façanhas destes desportistas. O que achas disto tudo? Tu escreves músicas tão profundas e com uma certa nostalgia.
FC: Eu também faço desporto, pratico surf e já fiz skate e portanto são linguagens que são intrínsecas em mim e fazem parte do meu ser e a música que faço é uma extensão daquilo que sou e de alguma forma pode estar tudo interligado, a métrica e o ritmo podem levar a isso. Ajuda também, eu ter começado a tocar no meio do surf e quando o Gustavo Neves, que foi o realizador do filme do McNamara, precisou de uma banda sonora recorreu a mim, porque eu estava no seu imaginário. Além disso, propôs-me fazer um trabalho daqueles, porque sabia que eu ia aceitar e ele também é surfista.
Essa projecção do filme catapultou-te para o grande público de alguma forma?
FC: Sim, houve uma grande comunidade que passou a conhecer-me.
E para quem não te conhecia de todo?
FC: Sim, havia de facto muita gente que não me conhecia e que passou a ouvir a minha música por causa do documentário. O filme do McNamara teve uma grande projecção e é mais uma maneira de promoção da minha música. Se calhar as pessoas que viram estes “malucos” a galgar ondas gigantes na Nazaré, que sempre foram vistas pelos locais como amaldiçoadas e que fazem com que muitos pescadores não consigam ir até mar pescar, fez com que se interessassem, viram o filme por curiosidade e pelo meio ouviram a minha música.
E ficam surpresos quando ficam a saber que és português?
FC: Sim, acham piada e de ter usado a guitarra portuguesa, porque é o instrumento base dessa banda sonora. Eu fiz questão que assim fosse, porque era a história de uma aldeia portuguesa e para mim fez todo o sentido, apesar de entrarem música mais electrificantes para terminar o filme, mas a trilha sonora é toda embalada nas ondas e na guitarra portuguesa. Acho que essa ligação é curiosa e foi mesmo intencional, porque estamos a contar a história de Portugal.
E agora, estas em tournée com este último álbum, mas já estas a preparar alguns novos temas, como costumas apresentá-los nos teus concertos?
FC: Há um tema que já escrevi há algum tempo e que não foi editado, que costumo tocá-lo intitulado “non friends” e escrevi-o quando que soube que ia tocar com uma guitarrista norte-americana, chamada Kathy King. Na altura não a conhecia, mas de imediato soube que tínhamos algo em comum, ela é uma guitarrista brilhante e tem uma abordagem super-diferente da guitarra e eu também tenho a minha própria visão, isso nos tornava de alguma forma próximos e compus esse tema a pensar nisso, as pessoas não conhecemos que estão espalhadas pelo mundo e que eventualmente poderão ser nossas amigas. Daí o nome e até o toquei com ela nos três concertos que tivemos e tem sido um tema recorrente em palco. Quando estou em casa vou tendo algumas ideias, registo umas, outras não, mas estão só lá na gaveta. Eu agora estou mais interessado em misturar os temas novos com mais antigos e não entrei numa de tocar as composições mais recentes e como as pessoas já conhecem algum do meu trabalho tento dar-lhes isso. Procuro mostrar os três últimos trabalhos discográficos, mas também os meus concertos tem certa uma forte parcela, no alinhamento, de improvisação, de fazer com que cada concerto seja único e possivelmente se me vires em palco hoje a estrutura será diferente quando tocar noutro lado e é para não ser igual ao disco. Até já surgiram ideias em palco que achámos giras tocadas ao vivo e que vamos explorar posteriormente.
Há um tema recorrente nos concertos? Aquele que o público pede sempre?
FC: Acho que não, nunca tive grandes pedidos. Tive num concerto uma pessoa que estava a frente e gritava o “don´t leave tonight” que é um tema que esta numa telenovela.
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