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Terras sem sombras em Serpa

Escrito por  Ana Abrantes fts direitos reservados

Aprender a cantar Cante Alentejano, ouvir pássaros em concerto e raças autóctones.

Serpa é o próximo destino do Terras sem Sombra, uma região que se destaca tanto pelos valores patrimoniais e naturais como pelas tradições musicais. Aprender a entoar o Cante, Património Material da Humanidade desde 2014, ouvir as vozes das aves na natureza e, logo a seguir, escutá-las em obras de grandes compositores, preservar as raças de gado do Alentejo e conhecer o genoma do sobreiro, árvore nacional de Portugal, eis alguns dos desafios para os dias 9 e 10 de fevereiro.

Oficina de Cante Alentejano em Washington, janeiro 2019.


O Terras sem Sombra tem a preocupação de revelar o que há de mais interessante na herança cultural alentejana e o Cante – inscrito pela UNESCO na lista do Património Imaterial da Humanidade – constitui, por motivos bem compreensíveis, uma das suas prioridades. De facto, não se pode descansar à sombra da classificação: o legado tradicional tem que ser constantemente transmitido e reinventado para se manter vivo.
A Casa do Cante, em Serpa, é o espaço escolhido para receber, no dia 9 de fevereiro, às 15h00, uma “Oficina de Cante”, orientada pelo Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, sob a orientação do seu ensaiador, Pedro Mestre. A actividade introduz os participantes no âmago desta tradição musical e fá-los partilhar do seu rico universo artístico e cultural. Torna-se possível a qualquer um, assim, aprender os princípios desta riquíssima tradição musical.

Pela noite, o Cineteatro Municipal recebe o concerto “À Vol d’Oiseau” – Aves e Biodiversidade no Repertório Pianístico – Do Barroco ao Presente, às 21h30. Trata-se de uma inédita aproximação entre os cantos das aves e a sua interpretação musical, em obras de mestres europeus, do século XVIII ao século XX – de Rameau e Couperin a Messiaen e Gubaidulina, sem esquecer o português Francisco de Lacerda. Um concerto que assenta como uma luva ao Terras sem Sombra, um evento preocupado em associar, de modo pioneiro, música (clássica ou contemporânea), biodiversidade e património.

Os protagonistas vão ser as aves cujas vozes se escutam nos campos serpenses. Isto requereu uma preparação muito especial por parte das personalidades em palco, Ana Telles, uma pianista com enorme paixão pela natureza, e o biólogo João Eduardo Rabaça. Este apresentará, através da imagem e do som, as espécies em questão, de modo a que se identifiquem os seus cantos – e os contextos, nupciais e outros, em que elas ocorrem. Pouco a pouco, num diálogo entre ciência e arte, escutar-se-ão, ao piano, peças inspiradas nesses gorjeios e trinados.

“Arca de Noé”: A preservação das raças autóctones e o genoma do sobreiro
O Centro de Experimentação do Baixo Alentejo (CEBA), em Vila Nova de S. Bento desenvolve um notável trabalho de estudo, preservação e valorização dos recursos genéticos autóctones, tanto animais como vegetais.
No dia 10, domingo, a partir das 9h30, a manhã é consagrada à Herdade da Abóbada, num périplo guiado pelo médico veterinário Carlos Bettencourt e pelo zootécnico Marcos Ramos. Objectivo: conhecer o trabalho aqui realizado na conservação das raças bovinas (mertolenga e garvonesa), ovinas (campaniça, merinas preta e branca), caprina (serpentina) e suína (alentejana) e o Banco Português de Germoplasma Animal.
Em pareceria com o Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (CEBAL) a Herdade da Abóbada acolhe também a única população de sobreiros onde os progenitores de cada árvore são conhecidos, além de se destacarem enquanto produtores de cortiça de boa qualidade.

Todas as actividades, organizadas em parceria com o Município de Serpa, são de acesso livre, partindo o Terras sem Sombra a seguir para Monsaraz, Valência de Alcântara, Olivença, Beja, Elvas, Cuba, Ferreira do Alentejo, Odemira, Barrancos, Santiago do Cacém e Sines.

 

Terras sem Sombra torna-se ibérico e convida os EUA para a edição deste ano, estreando o cante alentejano no Kennedy Center, no próximo dia 26 de Janeiro. O TSS'19 expande-se por seis países  potenciamdo uma das mais belas regiões de Portugal. 

A música e as viagens são a pedra de toque do Terras sem Sombra (TSS) em 2019, que tem, como País Convidado, os Estados Unidos da América. Esta edição a 15.ª estende-se de Janeiro a Julho, com uma temporada de música, mas também de património e biodiversidade, com o Alentejo por palco.

Sob o tema Sobre a Terra, sobre o Mar, Viagem e Viagens na Música , dos Séculos XV-XXI, duas efemérides proporcionam o fio condutor para esta escolha: em 2019 assinalam-se os 550 anos do nascimento de Vasco da Gama, que teve Sines por berço; e, um pouco por todo o país, iniciam-se, as comemorações do V centenário da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães.

Este ano, o TSS'19 conta com quase 50 actividades, entre concertos, conferências, visitas guiadas ao património e acções de salvaguarda da biodiversidade. Além da sua geografia tradicional (o Baixo Alentejo e o Alentejo Litoral), o evento chega agora ao Alto Alentejo e o Alentejo Central. Por outro lado, reforça também a vocação ibérica, com actividades em dois concelhos da Extremadura espanhola, com profundas ligações a Portugal.

“É assim, desde 2003, com uma persistência que se tornou felizmente normalidade: um Festival de música, mas também da terra alentejana, um Festival do património, mas também da diversidade, ou seja, de memória, conhecimento, divulgação, e de brio.” Quem o afirma é o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no texto de abertura do TSS em 2019.

A colaboração do festival com instituições dos EUA, nomeadamente com a Embaixada dos EUA em Portugal, iniciada em 2017, é o reflexo dos laços históricos do Alentejo com esse imenso país. O abade José Correia da Serra, natural de Serpa, foi grande amigo de Thomas Jefferson. Exerceu importante influência política nos EUA, ao longo de vários anos, e foi aí embaixador de Portugal em 1816. Por outro lado, praticamente desde a independência americana existiriam consulados dos EUA em Odemira e Sines, sinal da vitalidade dos intercâmbios então estabelecidos e que se mantêm até hoje.

Por seu turno, Juan Ángel Vela del Campo, director artístico do TSS'19, destaca “a vocação itinerante do projecto”, não só porque cada concerto tem lugar numa povoação diferente mas, acima de tudo, pelo carácter inovador da música como elemento de mediação: “viajar é viver, e no Terras a viagem cruza geografias, mas representa também uma viagem interior, que abre as portas de experiências únicas”.

Cante Alentejano estreia-se no Kennedy Center

O Terras sem Sombra une, de forma inédita, a música ao património e à biodiversidade, e caracteriza-se por associar, à exigência da qualidade, uma programação de cariz internacional. Tem por palco o Alentejo, uma das regiões onde mais se faz sentir o peso da identidade, e o evento não se limita a trazer o mundo ao seu território leva também o Alentejo ao mundo.

A edição de 2019 tem, como país convidado, os Estados Unidos, e traz a Portugal destacados intérpretes do outro lado do Atlântico, assim como uma programação, que faz uma radiografia da música norte-americana, do século XIX à criação mais recente. Estão previstas estreias, integrais ou europeias, de alguns dos mais importantes compositores americanos da actualidade.

A abertura do festival ocorre, em Washington, num santuário das artes performativas dos EUA, o Kennedy Center. No coração da capital escutar-se-á, pela primeira vez, o Cante, através das vozes do Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento, um agrupamento “clássico” da música tradicional alentejana. A actuação terá lugar no Millenium Stage do Kennedy Center e será transmitida, em directo, pelo canal de TV da instituição, com audiências significativas, dentro e fora dos EUA.

O périplo por terras do Tio Sam, é acompanhado por presidentes e vereadores de câmaras municipais, como Beja, Serpa, Ferreira do Alentejo, Cuba, Vidigueira ou Sines, mas também responsáveis por algumas das principais empresas da região, entre elas o Porto de Sines, a EDIA, a Vale da Rosa, produtora de uva de mesa em larga escala, a ACOS, que organiza a OVIBEJA, a Adega Cooperativa da Vidigueira ou as agências de Desenvolvimento Regional e de Promoção Turística do Alentejo que realizaram reuniões com entidades locais. Com a colaboração da embaixada portuguesa em Washington, da sua homóloga em Lisboa e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, assim se constrói a cultura como motor da diplomacia económica, mostrando o potencial da arte, do património e da natureza – os três pilares do Terras sem Sombra – para abrir portas. Afirmar o Alentejo enquanto destino privilegiado de arte e natureza é o objectivo do festival, uma organização da Associação Pedra Angular que apresenta, em 2019, a 15.ª edição.

Um Festival, seis países, uma região

O Terras sem Sombra começa a 26 de Janeiro na Vidigueira e conta com quase 50 actividades, entre concertos, conferências, visitas ao património e acções de salvaguarda da biodiversidade, em 13 cidades: Vidigueira, Serpa, Monsaraz, Valência de Alcântara, Olivença, Beja, Elvas, Cuba, Ferreira do Alentejo, Odemira, Barrancos, Santiago do Cacém e Sines.

Espanha está bem presente, nesta edição do festival, que inaugura em Portugal o ciclo de eventos de Mostra Espanha 2019, a convite do Governo espanhol. De Madrid virá o Trío Arbós, com um programa de música hispano-portuguesa dos séculos XIX-XX. Juan de la Rubia, organista titular da basílica da Sagrada Família, de Barcelona, apresentará, na Sé de Elvas, a obra de Antonio de Cabezón. “Fora da caixa” será o concerto, em Odemira, com Quartetazzo, formado por quatro mulheres flautistas da Argentina, do Brasil e de Espanha, que recriou melodias tradicionais da América do Sul.

Se os laços à América e a Espanha dão o mote ao TSS, os autores e intérpretes portugueses, uma prioridade do festival, assumem decidido protagonismo, com nomes como Ana Telles, a Orquestra Clássica do Sul e o maestro Rui Pinheiro, Sofia Diniz, Fernando Miguel Jalôto ou Nuno Lopes. Há também espaço para uma aproximação a outras pátrias musicais, abarcando intérpretes da Hungria, da República Checa e das Filipinas, algo a ter em conta numa edição dedicada ao périplo de Fernão de Magalhães, mas que não esquece os 550 anos do nascimento de Vasco da Gama (1569-2019).

Participar no Terras significa adentrar-se no que o Alentejo tem de mais interessante para oferecer. Neste ano, a panóplia patrimonial abre-se decisivamente a novos âmbitos, entre eles o património imaterial, dando grande atenção a aspectos tão diversificados como o fabrico artesanal do pão, a aprendizagem do Cante ou as tradições relacionadas com os astros, com a sua observação nocturna como pano de fundo.

Quanto à biodiversidade, 2019 vai ser um ano cheio de aventuras. Por exemplo, acompanhar o elevador de peixes da barragem de Pedrógão, participar na festa do mundo rural – seguindo um rebanho de ovelhas de raças autóctones ao longo das canadas reais, com os pastores de Beja e do Fundão – ou entrar nas águas portuárias de Sines para conhecer a vanguarda da aquacultura. Ou ainda, na Extremadura, percorrer a maior mancha de monumentos megalíticos da Europa, em Valência de Alcântara, conhecer os segredos do Tejo internacional ou aprofundar a personalidade única de Olivença.

O País Convidado do 15.º Terras sem Sombra são os Estados Unidos e o concerto de abertura traz a Vila de Frades, a 26 de Janeiro, às 21h30, um dos mais destacados coros estado-unidenses, o Spelman College Glee Club, de Atlanta, dirigido por Kevin Johnson. Fundado em 1883, este agrupamento especializou-se no repertório para vozes jovens, com destaque para os espirituais tradicionais e a música de compositores afro-americanos.

Ao abrirem, em 1882, o Spelman College, que adquiriu logo grande prestígio, os seus fundadores aspiravam a muito mais do que abrir uma faculdade para jovens negras, no Sul, após a abolição da escravidão (1863). Queriam proporcionar-lhes uma experiência educativa tão completa quanto possível, pelo que a formação musical foi introduzida nos programas desde os seus primórdios. É este tesouro artístico que o Glee Club guarda e renova, anos após ano.

Conhecer o Ciclo do Pão: Teoria, Poesia e Prática

A tarde de sábado, 26, é dedicada, a partir das 15 horas, a uma interessante dimensão do património imaterial do Alentejo: o fabrico artesanal do pão, que está a ser alvo de um intenso trabalho para a sua certificação.

No decurso da visita a cinco padarias ancoradas na história local, vamos conhecer os segredos das diferentes fases de preparação do nobre alimento, assim como a sua importância para a vida comunitária, o seu uso gastronómico e outras dimensões patrimoniais que lhe estão associadas e foram transmitidas de geração em geração.

Vai haver oportunidade, assim, para conversar com as mulheres e os homens que lhes dão vida e, pondo literalmente a mão na massa, também parea fazer e cozer pão em fornos tradicionais.

Quando os Peixes tomam o Elevador: Explorar a Conectividade do Rio Guadiana

Domingo, dia 27, músicos, espectadores e membros da comunidade local partem às 9h30 na direcção do Guadiana, para uma acção consagrada à biodiversidade do grande rio do Sul. O objectivo principal é o dispositivo de passagem para peixes da barragem de Pedrógão, que minimiza o efeito barreira desta infra-estrutura, permitindo a conectividade entre o Guadiana e alguns afluentes.

Esta visita, guiada por grandes conhecedores dos segredos do rio, permitirá observar as artes de pesca que ainda nele se praticam e apreciar as margens intocadas, nas imediações de um geoparque digno de especial atenção. Aqui, abundam as lendas de mouras encantadas e todas as elevações e grutas contam uma história. Não falta, sequer, um anfiteatro natural para o Spelman College Glee Club elevar as vozes ao céu.

O Terras sem Sombra conta, em 2019, com 50 actividades, entre concertos, conferências, visitas guiadas ao património e acções práticas de salvaguarda da biodiversidade, em 13 concelhos do Alentejo e da Extremadura: Vidigueira, Serpa, Monsaraz, Valência de Alcântara, Olivença, Beja, Elvas, Cuba, Ferreira do Alentejo, Odemira, Barrancos, Santiago do Cacém e Sines.

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