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A perna esquerda de tchaikovisky

Escrito por  yvette vieira fts bárbara fernandes

 

Trata-se de uma peça que levanta um pouco do véu da vida exigente e ao mesmo tempo apaixonante de uma bailarina, interpretada por Barbora Hruskova, com texto e encenação de Tiago Rodrigues e música original de Mário Laginha.

O Tiago Rodrigues escreveu e encenou esta peça “A perna esquerda de Tchaikovsky” que criou para si em particular?
Barbora Hruskova: O projecto já existia, era sobre uma bailarina no momento da reforma, em que para de dançar. Era uma ideia da Luísa Taveira, directora artística da Companhia Nacional de Bailado, que já tinha uns anos e de certa forma “caiu-me” no colo no momento em que me despedi, foi uma sorte eu ter sido escolhida. Quando o Tiago Rodrigues começou a escrever, claramente, tornou-se mais pessoal, embora seja a história de todas as bailarinas quando param de dançar.

São 44 anos de carreira?
BH: Eu tenho 44 anos, mas tenho mais de 25 anos de carreira.

As bailarinas têm de reformar-se mais cedo, por causa do desgaste do corpo e os problemas que surgem.
BH: Dependem das bailarinas, é muito pessoal. Há profissionais que conseguem dançar mais do que outras, depende das lesões que se tem ao longo da carreira toda. Hoje em dia, por causa da versatilidade dos diferentes estilos de dança que são pedidos aos bailarinos das companhias nacionais, numa mesma temporada fazemos contemporâneo, clássico e neoclássico, um após o outro e isso é um desgaste enorme no corpo, mais do que antigamente.

Até que ponto é mesmo biográfico, eu vi o documentário sobre a CNB e nele aparece uma pequena parte desta peça, onde a Barbora afirma que os seus pais sempre lhe disseram que não tinha corpo para ser bailarina.
BH: Tudo o que aparece na peça é totalmente verdade.
Ou seja, foi adaptado à sua realidade.
BH: Sim.

 

Tenho essa curiosidade, se os seus pais que eram ambos bailarinos lhe disseram que não tinha corpo para ser bailarina, como é que alguém assim chega a prima bailarina de uma companhia de dança?
HB: A minha ideia inicial era dançar e não ser bailarina principal, por causa do que os meus pais me tinham dito sobre o meu corpo. Eu tinha uma paixão e não deixei que nada a travasse, queria só dançar. O que me foi dito ao longo da minha carreira é que tinha uma grande devoção à minha arte e então isso fez com que conseguisse chegar mais longe. Se calhar, porque sempre me foi dito que tinha de trabalhar mais do que os outros e isso fez com que chegasse mais longe.

É uma retrospectiva de quase 30 anos de carreira que vê quando olha para atrás?
BH: Muita sorte mesmo. Quando vejo os bailarinos, hoje em dia, que enfrentam muitas dificuldades para encontrar trabalho e oportunidades, eu penso que fui uma sortuda na minha carreira. Sempre encontrei trabalho com coreógrafos incríveis, também directores que me deixaram dançar papéis principais e acreditaram em mim, houve muito trabalho, mas sorte também.

Porquê o título, “A perna esquerda de Tchaikovsky”?

BH: A bailarina principal tem uma perna de base, é aquela por exemplo onde se faz mais piruetas com o rapaz e tudo recaí sobre ela. De Tchaikovsky porque foi a decisão da nossa directora Luísa Taveira e do Tiago Rodrigues, podia ter sido Prokofiev, ou Mahler.

Mário Laginha: Acho que é porque ele é um nome muito marcante no ballet.

BH: Acho que faz mais sentido para as pessoas, porque a minha perna esquerda estragou-se, o golpe final foi com Prokofiev. A minha cirurgia ao joelho resulta da “La Sylphide” e depois escorreguei no “Romeu e Julieta”. Tchaikovsky é um nome muito ligado à dança e o “Lago dos cisnes” também é muito focado na peça.

Qual foi o pico da sua carreira como bailarina principal?
BH: Acho que não foi um pico, mas sempre sonhei com o “Romeu e Julieta” e foi um dos momentos mais lindos da minha carreira, porque tive a sorte de dançar com a coreografia de John Cranko, de trabalhar com duas mestres fantásticas e de ter como patner o Carlos Pinillos, ele é tecnicamente e principalmente artisticamente incrível. Nós “perdíamos” durante duas horas que era o tempo que durava o espectáculo e era maravilhoso. Um outro bailado marcante para mim foi “Giselle”, porque foi o primeiro que fiz como bailarina principal, aos 19 anos, e com ela terminei à minha carreira. Foram três momentos muito diferentes na minha vida, aos 19 anos, ainda era inocente, aos 30 em que estámos no top da técnica e aos 42 quando o corpo começa a falhar, mas a maturidade torna tudo mais forte, com mais emoção.

 

Agora, sim, Mário Laginha, como entra neste universo da dança, em “A perna esquerda de Tchaikovsky”?
ML: Porque alguém me chamou. (risos). Tive a sorte de ser convidado, eu acho este espectáculo lindíssimo e adoro. Foi um desafio da Luísa Taveira inicialmente, que me perguntou se queria entrar num projecto deste tipo e eu disse logo que sim e nem sequer conhecia o Tiago Rodrigues, falha minha. Ao princípio lembro-me de não perceber, porquê não havia um coreógrafo? Na verdade, acabou por haver, o marido da Barbora esteve sempre atento à coreografia, mas esta é uma obra de teatro, a forma como foi tão bem pensada e com esta intimidade que eu acho tocante de ver em palco, para lá do óbvio, do que se vê. Por norma, vemos no final, o resultado, aqui é ao contrário, é todo esse percurso. Em palco tudo isto é materializado pela Barbora e eu concordo com ela, é mesmo a história dela, mas também dos bailarinos. A forma do corpo, aquilo que lhe é exigido ao longo dos anos é de uma violência que as pessoas não imaginam. É uma beleza que é conquistada com muita luta, isso é maravilhoso ver.

Então vamos abordar o processo criativo, teve de criar música original para esta peça em particular. Teve de falar primeiro com a Barbora Hruslova e só depois criou as melodias?
ML: Eu ia para lá, fomos tendo ideias juntos, todos davam ideias. Fazia sentido eu escrever música original e no “Lago dos cisnes” que é “pax de deux”, anda em volta do que eu iria tocar, apesar de que eu não interpreto na íntegra a parte orquestral, não de uma forma rigorosa, mas há uma vez que sou fiel ao original de Tchaikovsky. Tudo foi sendo montado.

Mas escrevia como? Resultada das suas conversas com a Barbora e o Tiago numa sala da CNB?
ML: Eu escrevo sempre fora, em casa. Às vezes, tinha esboços e mostrava. E apenas fiz um arranjo.
BH: Na cantata.
ML: E portanto, a música foi sempre sendo construída em conjunto e depois sentimos que já estava.

O seu background de músico de jazz e o facto de ter uma formação clássica em piano ajudou muito nesta peça ou não?
ML: Eu acho que somos todos a soma de tudo enquanto pessoas, neste caso, como sou músico, é a súmula de todo esse passado. Eu não consigo dizer se foi mais isto ou aquilo, eu acho que tudo ajuda ao que eu faço. Quem ouve é que sente mais a influência do clássico europeu, em alguns enxertos o jazz, mas para mim é difícil distinguir o que ao tocar me ajudou mais.

Como se adapta música aos corpos? Deve ser difícil porque tem de ter em consideração os tempos como num bailado clássico?
BH: Nesta peça não.
ML: O tempo, ou o balanço é sempre importante. Como há mais liberdade nesta peça, não há tanto essa contagem, mas claro, quando a Barbora esta a dançar eu tento que o gesto dela coincida com um acento meu, porque acho que fica melhor, mas não é algo obsessivo, cada gesto representa aquele momento. Há mesmo uma música que joga só com isso, com o tempo, a palavra, mas aí fui ao extremo, é uma coreografia falada que surge de ver os bailarinos a ensaiar de memória todos os passos que tem de fazer em palco, lembro-me de ouvir isso e pensei que tinha um lado nitidamente tão musical que achei graça musicar e acabámos por fazer isso.
BH: Ficou incrível, eu queria dizer que esta peça para uma bailarina é de uma grande liberdade, porque estámos os dois em palco, a sentir um ao outro, ou seja, não há nada marcado e isso libertador, posso fazer um passo mais pequeno, ou lento, ou ficar apenas em equilíbrio e eu sei que ele esta lá comigo, que vai seguir-me. Cada espectáculo é sempre diferente, eu vou para o palco sem receio, sem stress, porque não estou lá sozinha, estámos os dois, eu sei que a peça esta criada, mas estámos criando todos os dias ainda no palco, esta sempre diferente, como uma sensação.

Isso que acabou de dizer vai ao encontro da minha pergunta seguinte, o que cada um de vocês retirou de esta experiência? E para si, Mário Laginha, foi mesmo uma estreia este tipo de espectáculo?
NL: Sim, eu há uns anos tinha tocado umas valsas de Chopin com coreografia e tudo, mas de forma rigorosa. Este espectáculo é muito diferente, eu nunca fiz nada que se parecesse com isto, o que me trouxe? Foi único pela soma das disciplinas, neste caso, dança, música e teatro. O texto é longo, acho que é até para uma actriz e a Barbora é esmagadora, ela é uma dançarina, portanto, o modo como “agarra” o texto faz com que as pessoas entrem naquela história e isso foi novo para mim, ser perfeito junto de pessoas que passaram a ser especiais para mim, tenho uma admiração enorme por elas que nunca acabara jamais.

Então como foi preparar um texto, sendo uma bailarina que quando esta em palco, não fala.
BH: Não, não. Foi muito desafiante, era teatro em português e eu não sou portuguesa. Disse não, duas, três vezes, depois apresentaram-me o Tiago Rodrigues, quando o conheci pensei que era um homem extraordinário e que era uma enorme falha não trabalhar com ele, então, aceitei. Mas, quando cheguei a casa ao falar com o meu marido pensei que estava louca, porque nunca ia conseguir fazer uma peça em português, já que, não falo bem a língua. Foi também extremamente aliciante com o Tiago e o Mário todo este processo da criação, são ambas pessoas de uma grande generosidade e humildade e muito humanas, tudo isso tornou a experiência incrível e enriquecedora. Parecíamos grandes amigos numa sala só a aproveitar o talento de cada um e a partilhar isso, eu senti-me e ainda sinto muito à vontade, embora tenha a noção que trabalho com um génio. (risos) Não que me sinta pequena a trabalhar com ele, isso ajudou em relação ao texto, porque realmente eu sempre me exprimi com o corpo e a palavra era diferente. A relação com o público também foi evoluindo, é algo muito mais presente, eu sei que eles esta lá, foi diferente, a primeira vez foi muito especial.

Esta a sempre a adiantar-se à minha pergunta seguinte, há diferenças entre a estreia e este espectáculo que é o…
BH: A antestreia foram oito ou dez espectáculos. Deve ser o vigésimo.

Então, há diferenças? Já que ambos referem que todos as apresentações são diferentes e há uma grande liberdade de expressão.
BH: Antes da estreia, eu tive muitas dificuldades com a pronúncia e o decorar o texto. Isso deixava-me muito stressada, mas ao mesmo tempo consciente quando estava a dizer o texto, tinha a preocupação de o pronunciar bem. Sim, entregava-me, mas era diferente, estava muito concentrada. Este ano trabalhei o texto de uma maneira distinta, a criação estava feita, era diferente de quando estavámos nos primeiros quinze dias antes da estreia que me deu pouco tempo para trabalhar as falas. Agora, tive mais tempo, foquei-me na pronúncia, para parecer mais natural, para poder viver mais o texto, ou ainda mais e acho que claramente, estou a aproveitar muito mais por causa disso. Em termos de pronúncia, como há uma base de trabalho por detrás, deixa-me mais à vontade.

E para o Mário?
ML: Numa estreia há sempre um nível de nervos que esta um pouco acima, depois estabiliza um pouco abaixo.

Eu falo isto, embora saiba que esta sempre no palco.
ML: Tenho sempre medo, não há nada a fazer. O que disse a Barbora há pouco, existe aqui uma liberdade que faz com que não haja tantos nervos assim, se o fizer ligeiramente diferente não é o fim do mundo. Eu posso tocar algo de forma diferente, porque se fosse com uma orquestra, onde a música esta toda escrita, se falho uma nota há problema. Nesta peça, há um processo na nossa cabeça que nos faz ter uma preocupação menor, mas para todos os efeitos estou a ofender a mim próprio. À parte disso, é um espectáculo que dá muito prazer.

Mas, depois da estreia notou que tinha de fazer algumas melhorias ou não?
ML: Acho que vou fazendo pequenas mudanças, mas não surgem da reação do público. Resultam da consciência que fica melhor assim, ou de um gesto prolongado da Barbora e muitas vezes foi ela própria que me disse, eu demoro um pouco mais tempo aqui e isso foi fundamental, faz com que a peça esteja sempre viva e sempre pronta a ser melhorada nem que seja um milímetro para um lado ou para outro e isso torna o espectáculo fascinante, porque nunca cristaliza e acho isso fantástico, é dos seus aspectos o mais apaixonante.

Como é que reage o vosso público específico, os bailarinos a este trabalho? É uma bailarina que não dança apenas, fala, apesar de ser uma peça muito íntima.
BH: É muito íntima. Muitos dos meus colegas acharam incrível que conseguisse falar tanto tempo em palco. Ficaram extremamente emocionados, porque todos passámos por isso, eles sentem essa partilha com as pessoas, falava um bocadinho sobre eles ao público em geral.

É um pouco a história deles também.
BH: Não é só um pouco, mas as pessoas que também não são bailarinos também experienciam a mesma emoção. Toda a gente sente quando o tempo passa, que tudo muda e às vezes o público pode reconhecer-se através disso.

E para o Mário Laginha como foi ser abordado num contexto em que não estámos habituados a vê-lo?
ML: Eu sou aqueles que defende que qualquer pessoa pode ver qualquer tipo de espectáculo, o que acontece é que não são devidamente estimuladas para isso e fecham esse tipo de portas. Esta peça pode ser entendida muito bem, mesmo vindo de áreas diferentes é muito possível. O que eu sentia é que se é um público de músicos estão mais atentos a um certo tipo de coisas, até se nota no final, os bailarinos se dirigem de imediato à Barbora e ficam lá e os músicos vêm na minha direcção (risos). Mas, no último ou penúltimo espectáculo em Lisboa houve um músico de jazz americano que me deu algumas aulas há 38 anos que no final estava siderado, adorou a música e veio ter com a Barbora a chorar, ou seja, as pessoas podem perceber mais de uma área, mas entendem as outras e isso é maravilhoso.

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