Um olhar sobre o mundo Português

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O que seria da esperança se não fosse o amarelo silvestre?

Escrito por  yvette vieira fts sílvia santos/teatro viriato

 

 

Trata-se de uma companhia teatral que procura apresentar textos e encenações inusitados que não cingem apenas ao termo sucinto de espectáculo de teatro, mas que procuram acima de tudo fazer reflectir e entusiasmar o público a visitar e revisitar o palco mais que uma vez e tudo em nome da cultura. Uma forma de estar muito própria no meio artístico que começa com uma simples ideia, uma frase, uma fração da realidade, ou um filme, como é caso da nova pesquisa intitulada “engolir sapos”.

Porquê escolher um tema relacionado com a comunidade cigana e o título “engolir sapos”?
Fernando Giestas: Bem, eu queria abordar a relação entre a maior parte da comunidade onde nós nos inserimos, enquanto portugueses e brancos e uma outra considerada a minoria das minorias, muito presente em Portugal e nem sempre com uma relação adequada com a sociedade. A inspiração para este trabalho não teria surgido se não me tivesse apercebido da presença, do impacto que um simples sapo de louça tem no quotidiano das nossas vidas, a partir de um marco que foi a curta-metragem da Leonor Teles que se intitula “A balada dos batráquios”. Nela se aborda de forma bem conseguida esta temática dos sapos nas lojas em Portugal e que no fundo tem um intuito de dizer aos ciganos que não são bem-vindos. O que interessa é que o objecto de louça esta lá, que esta presente e muito pior que isso o sapo que esta dentro de nós. Não é por não estar fisicamente que não esteja a minar na mesma esta relação entre as pessoas, ou seja, uma interação marcada por uma grande fronteira entre nós e eles, há um desconhecimento mútuo de parte a parte e sendo este um projecto que não tenta glorificar ou nada disso, tenta olhar de cima, de fora, tenta perceber como é que o preconceito se manifesta no público. Há também uma grande inquietação em nós próprios quando se trata do “engolir sapos”, porque nós também no dia-a-dia em Canas do Senhorim, em muitos locais comerciais ainda tem sapos e como é que nós nos confrontámos com isso? Como pactuámos com isso? Sabemos através do sapo que determinadas pessoas não são bem-vindas e nós continuámos a pactuar com a situação, porque eu não vou deixar de ir até esse local, mas no fundo estou a condescender com esse preconceito, não é? Depois em Canas de Senhorim, Nelas e Viseu há toda uma comunidade cigana presente e nem sempre as coisas funcionam da melhor maneira. Daí também vêm o interesse.

Então o que surge desta reflecção?
FG: Devemos conviver mais apaziguadamente com a diferença na sociedade em que vivemos, porque é uma coisa boa, que nos incita a conhecer, a ir, senão não saímos para ver nada. A diferença pode ter esse lado bonito de procurar conhecer outras pessoas, ou outras realidades o que é bom, porque podemos enriquecer-nos com esse património. O projecto pretende ver o mundo juntamente com a minha filha que tem oito anos e o que tenho feito com ela é comprar os sapos e vejo como é que uma criança olha para esse objecto de louça que tem a sua beleza, que não é um brinquedo, mas tem todo esse preconceito associado e no mundo há muitas coisas que não são apenas aquilo que são. Tento ver o mundo através do olhar dessa criança tão predisposta a olhar para as coisas de uma forma simples e sem grandes barreiras, ou muros que as afastem de outras pessoas. Tento construir uma ideia através de uma perspectiva infantil, um tanto quanto ingénua, esperando que tudo possa ser diferente e bonito. É uma óptica muita nossa, mas as coisas não são sempre assim, há também a infelicidade e o atrito que fazem parte da realidade e não posso ignorar isso, tento, contudo, minimizar o conflito, respeitando o outro. Eu não quero ser o português branco que olha para o cigano, tem de haver também da parte dos ciganos esse ímpeto da relação com o outro, não abdicando das tradições que eles têm que são algo muito bonito. Mas, ao mesmo tempo questionar-me sobre o que é ser cigano? Não é ser moreno e ter uma pronúncia diferente da nossa, é mais do que isso.
Eu também nesta fase de pesquisa para além de falar com ciganos, abordei algumas estrangeiras em Portugal, nomeadamente, em Viseu, falei com pessoas que estão também próximas dessa realidade. Falei com mulheres brasileiras e o preconceito imenso que ainda paira sobre elas. É um peso que elas carregam e tem de se afirmar muito mais, no nosso país é difícil ser mulher em muitos casos, ainda mais sendo brasileira e tentar perceber se há vários tipos de pessoas e existe esse perigo da generalização, mas afinal quem é que nós somos?

Essa entrevistas estão inseridas nos quatro dias em que estivestes abordando pessoas no foyer do teatro Viriato? E onde abordaste essa questão do preconceito?
FG: Fomos fazer uma residência no teatro Viriato, estivemos num espaço público, onde as pessoas podiam entrar, sentar-se e falar um bocadinho e o que eu sugeri à direção que em vez de ir para a sala de ensaios, não me interessava estar lá dentro fechado, era estar num espaço público colocando cinco ou seis sapos na mesa onde as pessoas podiam vê-los, houve um momento de relação com o espaço exterior e as pessoas vinham naturalmente falar comigo e falávamos um pouco ali.


Gravaste essas conversas e vais utiliza-las posteriormente para o espectáculo ou não?
FG: Eu registei-as para mim. Interessa-me mais falar com as pessoas, do que arquitectar uma peça de teatro. Quando partimos para esses projectos e isso já aconteceu no “O que é que o teu pai não te contou da guerra?” as entrevistas são importantes em termos de pesquisa, mas não se pretende que seja nada documental, é muito pouco provável que use parte desses discursos no espectáculo, não procuro isso. O conceito de peça de teatro passa por uma reflexão sobre o assunto, mas que a dada altura seja apenas isso entre muitas aspas um “espectáculo de teatro”. Se ajudar a reflectir sobre as temáticas tanto melhor, mas o lado da fruição artística já é algo conseguido. No fundo eu sou um cidadão e esta é minha forma de abordar este tema, não sou alguém que tenha um plano para resolver o preconceito em Portugal, não é nada disso, sou alguém que reflecte artisticamente sobre isso. Se for um espectáculo dirigido as famílias, aos pais e aos filhos, isso será óptimo, porque ajudará a pensar sobre o outro. Contudo, a ideia não é colocar no espectáculo aquilo que as pessoas disseram. O universo, a particularidade do discurso, a caricaturidade do que disseram podem ser reflectidas em cena, isso é tudo material que nunca vou revelar, porque são conversas em que coloco as minhas inquietações, com perguntas muito óbvias e concretas, simples e directas, tais como é ser cigano em Portugal? Que situações de preconceito já viveram? Como é que olhavam para a cultura cigana no nosso país? O que pretendo com isto é que não seja apenas um projecto “Amarelo Silvestre”, mas que possa ter vários contributos de outras pessoas. Eu não pretendo ver o mundo apenas através da minha cabeça e dos meus olhos.

E vais utilizar também de forma indirecta os testemunhos dessas mulheres estrangeiras na peça?
FG: Sim, de forma indirecta. Ainda não sei como, como disse o lado documental não estará presente, agora, ainda é muito cedo para dizer como é que vou fazer em palco, se é que vou abordar a situação da mulher brasileira, dando o exemplo de uma mulher que vai trabalhar para a fábrica e quando volta para o seu veículo tem lá escrito, “quando é que o programa?”, ou seja, assumem que ela é prostituta, então como é que se coloca isto no espectáculo? Não sei ainda, mas é uma imagem muito forte. É uma situação que se vive em Portugal e que sabemos não é pontual, a mulher brasileira tem dificuldade ao igual do que os ciganos de ser respeitadas, as pessoas desconfiam delas, até tem dificuldades em alugar casas e o preconceito é muito próximo em ambos os casos.


Depois desta recolha pretende colocar o texto em cena em princípio no próximo ano?
FG: Não tenho obrigações para já nesse sentido, não tenho sequer qualquer tipo de parceiro para este projecto, por exemplo, ainda não estou preocupado com isso. A ideia é o ser o mais livre possível e se calhar pode até parecer pretensioso que não tenha ainda uma ideia de que tipo de espectáculo pretendo criar, ainda não formalizei nenhum pedido de apoio, nem falei com ninguém, nem esta submetido a nenhum tipo de apoio por parte da Direcção Geral das Artes. Por um lado, deixa-me mais livre, por outro mais inquieto, mas pretendo ter este projecto em cena no final do 2018, ou até pode ser no ano seguinte. Nós temos outras ideias em mãos e tudo vai correndo o seu ritmo.

Muitos dos vossos projectos no “Amarelo Silvestre” são muito impactantes em termos sociais. Muitas das peças, como “Mina” que “não é um trabalho etnográfico, mas é uma reflexão artística com mais de cem anos”. O que te atraiu neste projecto teatral?
FG: No “Mina” há duas pessoas que olham para o futuro para o que nos queremos fazer, no fundo sou eu e a Rafaela Santos e embora tenhámos perspectivas diferentes das peças, as obras em palco tocam-se. A Rafaela tem uma visão mais vincadamente cívica, para ela é mais claro que os espectáculos tenham de abordar o existencialismo, eu concordo, mas faço sempre a ressalva de abordar outros temas como o preconceito, ou a guerra e toco em assuntos políticos, mais contemporâneos e acaba por estar lá tudo. No meu caso particular e eu não gosto de falar de mim, nesta companhia há duas cabeças e a minha esta muito condicionada por ser um pai, português, que vive o seu tempo de forma atenta e pronto para dentro das minhas possibilidades contribuir nessa reflexão, para que possámos discutir vários assuntos e fazer luz sobre outros que na nossa opinião são importantes. Por outro lado, tem de ser matéria de palco, nós somos fazedores de teatro e portanto, tem de haver sempre uma componente, por muitos dos projectos e assuntos que hajam, desde os antigos combatentes aos mineiros, nós gostámos de abordar pessoas e vêmo-las de fora e a nossa tendência natural não é um caminho previamente traçado. Sabemos que vamos fazer um projecto quando há entusiasmo, não é tanto porque tenho meios para determinada peça, mas sim porque estou muito entusiasmado e assim é mais fácil de convencer as pessoas a participar. “Mina” surge porque vivemos em Canas de Senhorim e embora não lidemos com essa realidade quando lá chegámos, porque as minas já estavam fechadas, ainda conhecemos imensa gente que lá trabalhou. Foi uma vida inteira de labuta, de luta e onde várias culturas se cruzaram, como foi o caso das várias administrações inglesas que foram por lá passando quando as minas ainda estava em laboração, ou o hotel Urgeiriça, ao lado, que acolheu refugiados durante a segunda guerra mundial, depois houve muitas pessoas estrangeiras que vieram para cá trabalhar, há toda uma relação com o outro e muitos acabaram por ficar. As temáticas vão nascendo desta forma inusitada, mas o que nos move é o nosso entusiasmo, vamos criando e acábamos por montar um espectáculo de teatro dessa forma.


Tu quando embarcas num projecto ficas muito obcecado?
FG: Não, sou uma pessoa entusiasmada e resiliente, porque fazer teatro em Portugal é algo muito difícil e só se consegue levar uma ideia para frente se estivermos verdadeiramente entusiasmados. Não há grande apoios, o retorno em termos de público também não é o melhor, então, temos de fazer um grande esforço para que o espectáculo chegue as pessoas. Não fazemos um teatro comercial, não temos um nome sonante, embora as temáticas sejam interessantes, temos de fazer um grande esforço para entusiasmar as pessoas para vir ao teatro, também temos de “seduzir” os programadores para abraçar o projecto até o momento em que a pessoa compra um bilhete e se não tens força e não te entregas totalmente é mais difícil. Eu, não consigo, por outro lado, fazer uma calendarização completa da companhia, por exemplo, este projecto é o contrário do que antes fazia, eu nem sei se vai para a frente, eu tenho de certeza que sim porque vou batalhar por ele, mas não posso assumir o compromisso que vai ser no ano tal, ou no dia X, porque não consigo, o quando e de quê forma não sei como será, há sim uma convicção, um entusiasmo e uma certa experiência que faz com que eu esteja mais relaxado. Eu estou mais seguro com o meu trabalho, consigo relativizar melhor o que é o teatro e as artes em Portugal.

http://www.amarelosilvestre.com/

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