Um olhar sobre o mundo Português

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A bela do sul

Escrito por  yvette vieira fts antoinette van dikkenberg


Este é apenas o início do meu períplo por um dos países mais belos do hemisfério sul de África. Não se assuste e tenha paciência comigo.

Sempre pensei que quando se chega à África o ar parecer-me-ia diferente de todos os lugares onde já estive, mas enganei-me, pairava no ar uma certa humidade, mas a cidade do Cabo como qualquer outra cidade do mundo sofre do mesmo problema global, poluição rodoviária. Logo à saída do aeroporto internacional, ao dirigir-me ao centro da cidade deparo-me de imediato com um dos muitos bairros de latas, os chamados “townships”, que pululam pelas várias zonas desta metrópole e não pense que apesar da imagem negativa que as autoridades ficam de mãos cruzadas, muito pelo contrário o governo local mesmo nos limites destas construções provisórias constrói habitações sociais para albergar as milhares de famílias que confluem para esta zona do país.
Com uma população estimada em cerca de 3 740 milhões de habitantes, segundo os últimos censos de 2011, esta cidade possui um crescimento populacional mais lento comparativamente a Joanesburgo e Tshawane, de acordo com o último índex de desenvolvimento humano. O documento também aponta para o segundo valor mais baixo de desemprego entre os jovens, a cidade do Cabo possui ainda um bom desempenho em termos de melhor rendimento per capita e menor desigualdade salarial. Valores que a colocam na lista dos melhores locais para residir e trabalhar, tendo em conta que a actual taxa de desemprego na África do Sul ronda os 27,7%, desde o primeiro trimestre do ano, contra os 26,5% dos três meses anteriores, atingindo o maior nível desde setembro de 2003. Contudo, nem tudo é um mar de rosas, a metrópole apresenta um aumento de 40% de homicídios, o dobro comparado a outras cidades, violência esta que advém dos gangues organizados que existem nas zonas mais empobrecidas da cidade, os “townships”, que semeiam o terror e a morte entre a população local.


Mas, não pense que com estes dados pretendo demover o leitor de uma visita por uma das metrópoles mais belas do mundo, muito pelo contrário, o Cabo é uma das cidades sul-africanas mais seguras e apreciadas por turistas de todo o mundo, o que pretendo é que tenha a perfeita noção que podemos usufruir de cenários idílicos e paisagens de cortar a respiração, mas com as devidas precauções. E não falo apenas dos seres humanos, existem “outros perigos” sob a forma de animais não racionais, como por exemplo, os macacos! É verdade, há diversos avisos para não alimentar, afagar ou abrir as janelas do carro aos babuínos, uma das espécies mais perigosas de África que pode ser avistada nas estradas ao longo da costa, no final do dia. E falo em sério, um destes adoráveis animais pode pura e simplesmente morde-lo, arrancar, ou amolgar partes do seu veículo num curto espaço de tempo e se por azar entrarem no carro, tem de fugir e chamar as autoridades.

A vida numa cidade como o Cabo difere muito da vivência urbana europeia, por uma razão muito simples, há uma diferente noção de espaço. Nós, de uma forma geral, na Europa, vivemos “amontoados” num espaço já de si limitado pelo tempo e pela geografia, quero dizer com isto, que tudo esta construído há séculos e como tal, não há muito mais por onde se expandir. Em África, embora haja zonas montanhosas os planaltos dão-nos uma noção de infinito, o nosso olhar perde-se e em matéria de construção as dimensões vão muito para além do que se pode ver e adquirir na Europa. As casas, são vivendas que tem pelo menos em média 3 quartos, uma jardim e piscina. Existem apartamentos, há arranha-céus na cidade do Cabo, mais no centro com uma maior ênfase nos serviços, mas as pessoas em geral vivem nas redondezas. Os subúrbios são considerados cidades pelas suas dimensões quando comparadas com as suas congéneres europeias e de onde só se avistam na sua grande maioria portas e janelas com grades, muros electrificados, ou vigilância privada paga pelos moradores.
Existem inúmeras zonas privilegiadas, devido a sua localização umas são mais caras do que outras, onde uma casa pode custar em média acima dos 2 milhões de dólares com áreas nunca inferiores aos mil metros quadrados e no qual apenas se avistam, por norma, condomínios fechados aos quais apenas só se pode aceder por convite dos moradores, porque há vigilância no portão e arredores e onde a identificação é tão sofisticada que passa pelo reconhecimento de impressões digitais dos moradores, à entrada.
Quase toda a gente tem o seu automóvel, há transportes públicos, mas são ineficientes no que concerne horários, cobertura de área e os que existem são pouco fiáveis, devido as avarias constantes e também por questões de segurança pessoal. O comboio, apelidado de metro, que achei estranho, serve a população mais pobre, mas não cobre as necessidades dos cidadãos em termos de deslocações para o centro da cidade.

 
O transporte mais usado pela população laboral são os táxis, que nada tem a ver com a versão europeia, ou os Uber, são carrinhas com 12 a 16 lugares que estão vocacionados exclusivamente para um público africano, porque passam pelos bairros de lata. A forma de acesso a estes meios de transporte é no mínimo inusitado, os táxis tem uma espécie de revisor que pela janela grita o nome da zona para onde se dirigem e as pessoas com apenas sinal mandam pará-los pura e simplesmente seja onde for, mesmo havendo paragens assinaladas, desde que haja um passeio, ou sítio para parar, tudo é possível. Estas carrinhas causam inúmeros distúrbios ao trânsito, utilizando as manobras mais loucas, desde passar três faixas seguidas de rodagem, meterem-se numa fila de carros quase à força para vencer o trânsito, mas ao contrário do que era de esperar os condutores sul-africanos estão de tal forma habituados a tudo isso que não constitui problema, com isto quero dizer que quase ninguém apita (um fenómeno ao qual os condutores portugueses são alheios) e nem sequer há muita sinistralidade rodoviária. Um dos principais motivos de tal impavidez quase inglesa, como mais tarde vim a descobrir, deve-se a que a grande maioria das viaturas não tem seguro, são bastante dispendiosos mesmo muito acima da média, tendo em comparação o padrão europeu e como tal os condutores estão muito atentos a estrada, porque se baterem tem de custear os prejuízos causados nos seus próprios veículos.
Estas carrinhas são de tal forma essenciais para as pessoas das cidades e não falo apenas da cidade Cabo, que nos dias em que lá estive decidiram fazer uma greve dois dias cujo resultado foi assustador e totalmente desastroso em apenas 24 horas, milhares de pessoas não puderem ir trabalhar, vários serviços públicos e privados na cidade estavam limitados por falta de pessoal, ou simplesmente fechados, os que conseguiram por outros meios deslocar-se até o seu posto de trabalho, no final do dia estavam à beira das autoestradas acenando com dinheiro, na sua grande maioria mulheres, para conseguir de alguma forma boleia até perto da zona de viviam sem qualquer sorte devo acrescentar, porque as pessoas, no geral, não param para ajudar com receio, mesmo que lhe paguem.
No final desse mesmo dia, o descontentamento era de tal forma gritante que queimaram algumas das viaturas paradas, houve confrontos com os grevistas, as empresas foram forçadas a desconvocar a greve e ao longo dessa mesma noite foram obrigados a recolher milhares de pessoas que ainda estavam percorrendo as estradas para chegar a casa e isto era apenas na cidade do Cabo. É a força dos números!


Outro aspecto a ter em conta e sobre o qual nunca me tinha debruçado antes na minha vida, embora no nosso país já não se trate de uma realidade muito distante é o problema da escassez de água que é deveras severo. África tem sido palco de uma das piores secas de sempre que já se arrasta há 4 anos, devido ao fenómeno “el niña”, com o nível das barragens a atingir valores históricos que rondam os 38%. Para fazer face ao problema o governo da África do Sul impôs uma série de leis que restringem o uso da água nas cidades. Por exemplo, só é permitido gastar 87 litros, por dia, por pessoa. Consegue imaginar quanto é isto? Claro que não, porque embora todos saibamos que a água é um bem essencial, como não escasseia em Portugal, nem reflectimos muito sobre o assunto e gastámos o que queremos, afinal pagámos a conta, certo? Deixe-me esclarece-lo por muito dinheiro que tenhamos podemos viver perfeitamente sem muitas das inovações da vida moderna, ou até sem electricidade, mas definitivamente não podemos sobreviver sem água!
Para não ultrapassar este número imposto pelas autoridades e que pode resultar em multas muito pesadas, as famílias não podem regar os jardins, a não ser que usem a água usada das máquinas de lavar a roupa, ou da loiça e muita gente o faz, garanto. Deitam menos quantidade de sabão e desviam as tubagens para um tanque após cada lavagem, bem pensado, certo? As piscinas que de um modo geral toda gente tem nas suas casas e falo da classe média, não devem ser enchidas. Portanto, a água já existente em muitos casos é limpa constantemente com equipamentos e produtos próprios para impedir a criação de verdete. Os banhos devem restringir-se a um chuveiro de 2 minutos cada, mas só para ter uma ideia dos gastos de que falo, de acordo com a Vimagua, uma empresa portuguesa de gestão de qualidade e gestão ambiental, em média uma pessoa num banho de imersão usa 260 litros de água, enquanto que num duche de apenas 5 minutos gasta cerca de 25 litros. Entendem agora a regra dos dois minutos? Agora imaginem fazer isto de forma eficiente quando estamos habituados a gastar sem pensar, é um autêntico desafio em tão pouco tempo, especialmente quando se pretende lavar um cabelo comprido. As descargas do autoclismo devem ser em menor número possível, porque cada uma delas representa 20 litros de água. Imagine, banhar-se, ir à casa de banho, cozinhar, limpar a casa e tudo isto com apenas 87 litros por dia, por pessoa? Tudo isto fez-me pensar como somos privilegiados e como devemos repensar a forma como usámos a água potável no nosso país. E com esta primeira impressão sobre a belíssima cidade do Cabo vós deixo, para a próxima crónica há mais.

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