Grita liberdade!

Escrito por  yvette vieira fts antoinette van dikkenberg

Esta uma viagem marítima que pretende ser uma homenagem aos lutadores pela liberdade onde quer que estejam.

Um dos pontos obrigatórios da minha visita pela África do Sul foi uma visita à ilha de Robben, queria ver a prisão onde Nelson Mandela, um dos líderes históricos do anti-apartheid e um dos meus ídolos, esteve detido durante 18 anos e concretizei esse desejo, mas o que aprendi nessa viagem foi muito para além das minhas expectativas, não foi a cela do líder histórico o que mais me emocionou, ao contrário do que imaginei, mas sim, os muitos rostos da luta pela liberdade, alguns até que passam despercebidos, apesar de terem ajudado a escrever a história do seu país com sangue, suor e lágrimas, heróis quase anónimos que simplesmente não desaparecem pelo simples motivo que há sempre alguém que os recorde, que mantenha viva a chama dessa memória e são esses homens que marcaram a minha alma para sempre e sobre os quais vós quero falar…

Na chegada, após uma viagem agradável de ferry, no porto o primeiro que se avista são uma série de autocarros com o seu respectivo guia que descreve ao longo do percurso de forma sucinta vários factos marcantes sobre a ilha de Robben. Basicamente desde o século XVI até meados do século XX, o território foi desde sempre utilizado para banir criminosos, povos ou pessoas que de alguma forma representassem algum tipo de perigo ao sistema vigente.
Foi também o local para onde foram desterradas várias pessoas com a lepra. Existiu uma pequena colónia na ilha e a prova da existência dessas infelizes e ostracizadas almas é um pequeno cemitério, junto da pequena igreja do bom pastor que na actualidade celebra muitos casamentos especialmente no dia 14 de fevereiro.
Ao longo dos 500 anos de história desta ilha, este foi o local de opressão e encarceramento do povo Khoi que se opunha à colonização, dos líderes religiosos muçulmanos, dos presos políticos da Namíbia e mais tarde os resistentes ao regime do Apartheid, transversalmente todos partilhavam um ideal comum, a sua ânsia pela liberdade de expressão, independentemente da sua etnia, religião, convicção política ou cor da pele e isso por si só é uma mensagem bastante poderosa.

 

Mas a maior lição que aprendi sobre liberdade teve lugar diante de uma pequena casa branca, isolada, onde esteve detido um dos homens mais “perigosos” da África do Sul de acordo com o Apartheid, o dissidente político, Robert Sobukwe. O professor universitário e fundador do partido Congressista Pan Africano, liderou uma marcha não violenta à 28 de fevereiro de 1960 contra as chamadas “pass law” que obrigavam os cidadãos negros a apresentar uma caderneta que tinha como objectivo restringir-lhes os seus movimentos pelo território, nesse dia milhões aderiram ao chamado. Contudo, o pior ainda estaria por vir, quando os protestantes se dirigiram até a esquadra de Shaperville, os agentes de polícia abriram fogo matando 89 pessoas e ferindo 150, este incidente trágico ficaria mais tarde conhecido pelo massacre de Shaperville.
Nos três anos seguintes, Robert Sobukwe foi "banido" para uma fazenda remota e entre 1963 a 1969 e ficou detido na ilha de Robben sob a chamada cláusula de Sobukwe, que foi especialmente criada para ele pela Lei de Supressão do Comunismo de 1950. O Apartheid considerava Sobukwe tão perigoso, mas tão perigoso que o manteve isolado durante vários anos sem qualquer tipo de contacto humano, quer dos restantes prisioneiros da ilha, quer mesmo dos guardas que estavam proibidos até de o cumprimentar. Ninguém, mas absolutamente ninguém podia abordar o residente da casita T159, nem sequer lhe eram permitidas visitas da família, o seu isolamento foi tal ordem que Robert Sobukwe perdeu a capacidade de se expressar oralmente, já que as suas cordas vocais se retraíram por falta de exercício e tinha mesmo dificuldade em expressar-se quando era alvo de interrogatórios.
Outra das consequências do tratamento inumano a que foi submetido é que começou a falar com as plantas e perdeu algumas das suas capacidades mentais. Em 1969 foi libertado, conseguiu voltar para casa, mas ficou em prisão domiciliar por vários anos até sua morte em 1977. O Apartheid conseguiu assim quebrar o homem que nunca chegou a ver os frutos da sua revolta, nem muito menos viu nascer a nação multirracial para a qual contribuiu. Não consegui deixar de pensar, depois de ouvir o relato, como é que um único homem, um líder nato é certo, conseguiu assustar um regime político de tal forma que decidiram quebrar o seu espírito de luta pelo silêncio.

Depois do relato emocionado sobre a vida deste lutador pela liberdade, visitámos a pedreira onde Nelson Mandela e os restantes dissidentes políticos do Apartheid eram forçados a trabalhar partindo pedra para as várias obras de construção e reparação as infra-estructuras presidiárias de Robben.


A última paragem envolveu uma visita pelos grupos de celas onde ficaram encarcerados vários dissidentes políticos e que tem sempre como guia um dos ex-presidários, o meu chamava-se Sphiro Misomi. A sua história com este local começou aos 16 anos quando ele e mais seis colegas de luta que participavam numa manifestação do ANC, foram detidos e enviados para Robben. Os primeiros 5 meses foram passados na solitária desta cadeia de extrema segurança e de seis prisioneiros, apenas cinco saíram com vida, o sexto não resistiu as sessões de tortura infligidas pela polícia de segurança, naquilo que ele chamou o inferno do “Alcatraz da África do Sul”.

A tortura física e psicológica diária passou a fazer parte do seu quotidiano, assim como já o era dos todos os detidos, o receio de regressar à solitária era uma realidade constante e temida, que quase o enlouquecia, porque as formas mais violentas de tortura aconteciam nestes espaços exíguos. A única vez que sentiu os primeiros laivos de esperança foi no dia que se apresentaram diante do juiz para serem julgados, sentados nas cadeiras da sala estavam alguns familiares e amigos recitando frases de alento e cantos de liberdade. Foi nesse dia que Sphiro Misomi sentiu que ganhava forças para sobreviver, porque alguém não se esqueceu deles, os alentavam e encorajavam a resistir e acreditar que havia esperança.

Depois da sentença proferida um dia normal na ilha de Robben consistia em dirigir-se a pedreira onde eram forçados a trabalhar desde as 7.30 da manhã até 16 horas, todos partilhavam um balde comum para as suas necessidades que estava colocado dentro da gruta e onde os principais líderes da cadeia aproveitavam para falar de conceitos democráticos e socialismo.
A comida era racionada e dependia da cor da pele, é necessário frisar que não havia apenas prisioneiros africanos na ilha de Robben, entre os detidos constavam indianos e muçulmanos. Os negros, regra geral, recebiam menos quantidade e as suas rações eram as piores. Contudo, havia um sentimento de grande solidariedade entre os prisioneiros e por várias vezes encetaram greves de fome com o intuito de melhorar as precárias condições de vida na cadeia, tal como a comida e o tempo de descanso.

 

Mesmo encerrados nas suas celas colectivas havia o que Misomi chamava a “Universidade da Ilha de Robben” onde os prisoneiros mais letrados ensinavam a ler e escrever os seus colegas menos privilegiados e se discutiam os acontecimentos noticiados pelo mundo, através de jornais contrabandeados pelos colegas que trabalhavam na cozinha. No final de cada destes encontros, cantavam-se hinos de liberdades e havia danças tribais que reforçavam os sentimentos de resiliência e fraternidade entre os prisioneiros.
Outra fonte de esperança foi o trabalho incansável da Cruz Vermelha Internacional que não só melhorou as condições sanitárias dos prisioneiros, como patrocinava os equipamentos para as equipas de futebol da prisão, para Sphiro e os restantes prisioneiros este pequeno gesto era de extrema importância, porque lhe permitia não só fazer exercício físico, mas acima de tudo concedia-lhe um momento de puro prazer e deleite, que os transportava para “fora” dos muros da cadeia, que os fazia esquecer que eram apenas um número e passavam a ser seres humanos a jogar futebol.
A resiliência física e mental que o levou ao sobreviver ao cativeiro também provinha do exemplo dos prisioneiros mais velhos com penas mais pesadas, como Nelson Mandela, que ficaram privados dos momentos mais importantes das suas vidas, o crescimento dos filhos, a vida conjugal e como ele era jovem e solteiro sentia que tinha de aguentar, porque se eles apesar de todas estas vicissitudes enfrentavam o pior dos castigos, também ele podia suportar o mesmo martírio e conseguiu, mas frisou que nem todos os seus amigos chegaram ao final desse calvário, muitos morreram porque pura e simplesmente não aguentaram mais, não é que fossem menos corajosos, ou fracos, a vida como um prisioneiro negro na ilha de Robben era extremamente dura e deixava marcas profundas que alguns deles não conseguiram superar.

Ao terminar a sua preleção, diante do antigo “relvado” improvisado ele perguntou se havia alguma dúvida ou comentário que quiséssemos fazer e não consegui resistir, perguntei-lhe como é que alguém que foi aprisionado e torturado durante vários anos da sua vida, ao todo seis, conseguiu voltar e ser guia?
Depois de um pequeno silêncio Sphiro Misomi respondeu pausadamente que ao princípio depois de terem libertado todos os prisioneiros houve uma grande euforia com sabor à liberdade e muita militância política no ANC, depois nos anos que se seguiram após a sua libertação em 1996 esteve desempregado e embora lhe tenham feito um convite para que que fosse guia na ilha, inicialmente recusou e mentiu dizendo que estava a trabalhar, porque não concebia a ideia de retornar para esse local de sofrimento e tortura, ainda era muito doloroso. A pressão dos amigos e da família foram os principais motivos que o levaram a reconsiderar e aceitar esse novo desafio e pesou também a estabilidade económica que conseguiria obter.

Assim, em 2004 iniciou à sua actividade como guia oficial na ilha de Robben e recorda que nos primeiros seis meses enquanto percorria os corredores da sua cela e falava sobre a história deste local ficava muito stressado, tinha suores frios e pensou até em desistir. Com o passar do tempo apercebeu-se que em vez de só mostrar a face mais negra do presidio, o que não quer dizer que em algum momento pretende-se branquear o passado, decidiu apresentar uma visão mais humanista daquele local e assim prestar uma homenagem a todos os que lutaram e pereceram neste lugar e isso trouxe-lhe uma certa paz interior.

Actualmente, quando percorre os corredores sente um grande orgulho pelo trabalho que faz e pelo que este local representa para as novas gerações sul-africanas, um local de tortura e morte sim, mas acima de tudo um espaço de reflexão sobre a capacidade humana de sobreviver, de alimentar a esperança e acreditar, quer seja invocando um Deus cristão, ou muçulmano, ou deuses pagãos, mas resistir sem esquecer.

Saí de lá com o coração apertado pela minha ignorância sobre estes heróis da liberdade e ao ultrapassar os seus portões, vendo passar por mim grupos de jovens estudantes reflecti sobre se de facto aprendemos alguma coisa quando visitámos estes locais, ou outros como Auschwitz. Será que a humanidade é mesmo capaz de evoluir?
Se olharmos para a actualidade existe uma série de conflitos armados onde os direitos humanos são atropelados, as convenções internacionais são ignoradas e como é que é possível que em pleno século XXI haja ainda o tráfico de seres humanos em grande escala e infelizmente ainda proliferem sem controlo líderes despóticos que dispõem das vidas dos seus cidadãos como se de gado se tratasse, atropelando os seus direitos, mutilando o seu modo de vida e privando-os até das suas mais escolhas mais básicas.

Quanto tempo teremos de esperar até que a humanidade entenda que a liberdade e o respeito pelo próximo não tem cor de pele, ou religião? Bem, se houve algo que aprendi com estes heróis da liberdade é que não podemos desistir, temos de resistir, não ficar parados à espera que os políticos ajam, temos de agir como sociedade e não apenas acreditar, mas fazer parte dessa construção que é a humanidade.

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.

FaLang translation system by Faboba

Eventos


loading...