O céu profundo

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A astrofotografia é um tipo especializado de fotografia que envolve gravar imagens de corpos celestes e grandes áreas do céu noturno. É um ramo da fotografia que, embora possua um forte enfoque estético e artístico, muitas vezes contribui de forma valiosa com a ciência.
As imagens são da autoria do fotógrafo amador Duarte Silva, natural de Gaula, que pertence à Associação de Astrónomos Amadores da Madeira, um aficionado e paciente captador de imagens do espaço celeste já foi distinguido pela NASA. A exposição da “Astrofotografia” esta patente na Casa da Cultura de Santa Cruz, no âmbito da "Hora do Planeta", com o intuito de sensibilizar a população para as questões do meio ambiente e a consequente, sustentabilidade do nosso planeta.

Como é que começou esta sua paixão pelas estrelas?
David Silva: Isto começou há muitos anos atrás, comecei a adquirir telescópios para ver planetas. Depois de olhar tanto para os planetas e as constelações, várias vezes sem fim acabei por as querer registrar, como por exemplo, se fizer uma viagem até Londres leva consigo uma máquina fotográfica para captar esses momentos, certo? A astrofotografia é exactamente isso. Neste campo da astrofotografia há dois tipos de processos, as imagens planetárias que são fotografias captadas em frame, trata-se de um vídeo de dois ou três minutos de onde se conseguem retirar mais de mil frames e depois dessas imagens serem trabalhadas surge uma única fotografia trabalhada, quem faz este tipo de trabalho é, ao meu ver, um dos maiores astrónomos de Portugal que é o Paulo Casquinha, ele é fantástico e faz um trabalho de outro mundo! (risos).
O Céu profundo, por outro lado, é um outro tipo de imagem, são fotos de galáxias e nebulosas, que necessitam de 600 minutos de exposição cada uma, se eu pretendo efectuar 18 imagens consegue imaginar as várias horas que tenho de gastar para fazer estas fotos? Os problemas para este tipo de exposição prolongada só surgem quando, devido a rotação da terra, aparecem satélites, lixo espacial, ou as chuvas de estrelas candentes, quando isto acontece das 40 imagens que se faz 20 são para deitar fora.

Vamos então abordar esta questão para captar estas imagens no espaço que tipo de equipamentos exige?
DS: Estas imagens do céu profundo são fora do nosso sistema solar, há milhões de anos luz.

Mas, sabe quantos anos luz de distância?
DS: Só lhe posso adiantar que Andromeda esta a 2,5 anos luz da terra e é a galáxia mais próxima do nosso planeta.

Então explique-me como se prepara o equipamento para captar estas imagens? Tem de verificar a meteorologia? Qual é a especificidade do equipamento?
DS: É mais no verão que se faz este tipo de imagens, tem de estar uma noite bastante transparente, ou seja, se não esta muito poluído, se não tem muitas poeiras. A partir daí montámos os telescópios, fazemos o chamado alinhamento drift que consiste na montagem de uma câmara fotográfica sobre um telescópio que possua uma montagem equatorial motorizada, ou seja, trata-se de um alinhamento preciso e milimétrico da rotação da terra com o espaço e os erros periódicos do nosso planeta são corrigidos pelo motor. Uso câmaras especiais que são apenas para este tipo de astrofotografia, que é também usada em observatórios de astronomia, um dos equipamentos faz o alinhamento com as estrelas, qualquer milímetro em que a estrela se mexa quer para a direita ou a esquerda, tendo em conta a rotação da terra, a máquina corrige os erros dessa trajectória e mantém-se a noite inteira apontada para o objecto que pretendo fotografar.

Isso quer dizer que se o objectivo é fotografar a galáxia de Andromeda, por exemplo, a máquina fotográfica mantém sempre essa trajectória toda a noite?
DS: Sim, mas há um pormenor para tirar esse tipo de imagens há dois tipos de máquinas, há as câmaras DSLR que são as Canon e Nikon e outras do género e depois temos as máquinas CCD dedicadas à astronomia que tem um problema, são monocromáticas, o que isto quer dizer? Que as imagens são a preto e branco tal qual o telescópio Hubble faz, mas para obter a cor real nessas imagens utilizámos entre 3 a cinco tipos de filtros, que neste caso chamámos de RGB para a cor vermelha, a verde e a azul. Assim, fazemos entre 10 a 20 imagens com o filtro vermelho, o mesmo para o azul e o verde, entre cada um dos filtros a imagem é a preto e branco e o resultado dessa mistura é a imagem real que vemos nas fotografias.
Como vive na ilha como adquire as suas câmaras fotográficas?
DS: Tenho amigos astrónomos no continente e amigos astrofotógrafos com quem foi aprendendo algumas técnicas e adquirindo algum material. Eu sei que a CCD que uso é de uma máquina profissional que se vê nos observatórios e como em Portugal este tipo de equipamentos não existe à venda tivemos de mandar vir de fora, encomendámos 10 e fui uma para cada um de nós e que só servem para este fim, fotografar o céu profundo. O material para astronomia é caríssimo e um destes equipamentos pode custar aproximadamente 3, 000 euros.

Esta é uma paixão nutre apenas nos tempos livres?
DS: Sim, sim.
Porque tem uma profissão?
DS: Sim, só faço isto quando tenho tempo e o clima ajuda.

Há alguma imagem que gostaria de captar, mas que tem sido difícil?
DS: Estou a fazer um trabalho agora chamado de sistema de mosaico, o que é isso? Por exemplo, tenho uma foto do céu profundo com cerca de 200 galáxias, que são os vários pontos que se visualiza na imagem, se eu quiser fazer um mosaico necessito de seis peças, cada imagem corresponde a 5 a seis horas de exposição, são vários dias de trabalho, depois o mosaico é encaixado e vou obter uma imagem única brutal com 2 mil ou 3 mil galáxias. Para um observatório é fácil de fazer, eles programam e o equipamento faz tudo, agora, eu faço tudo sozinho, sempre que há bom tempo eu é que tenho de montar e depois desmontar o telescópio e é complicado, até porque aqui na Madeira não temos um observatório.

É difícil obter este tipo de imagens na ilha, devido à sua localização ou nem por isso?
DS: Não, nos aqui na Madeira e as ilhas Canárias temos uma excelente localização para o efeito e há estudo científicos que comprovam isso mesmo. Estas duas regiões ultraperiféricas são as melhores da Europa em termos de astronomia, tanto que à Agência Espacial Europeia tem um dos seus observatórios montados nas Canárias. Na Madeira, há dois anos tivemos astrónomos de renome a fazer várias medições no Pico do Areeiro, e ficaram estupefactos com a qualidade do céu que temos aqui, nesta região não há fábricas, não há grande poluição luminosa, excepto nas áreas mais urbanas, como o Funchal. É uma pena que não possámos aproveitar este aspecto, temos os recursos e não os desenvolvemos, o que é incrível. Em Portugal regra geral dá-se o financiamento aos outros, os estrangeiros e não usámos os recursos disponíveis no nosso país. Este é um trabalho científico e no nosso caso são particulares, os amadores, a desenvolver este tipo de projectos.

 

Mas, o trabalho que desenvolve já foi reconhecido pela NASA.
DS: Sim, a imagem da nebulosa da Roseta, foi o último trabalho que fiz, o tempo ajudou em conjunto com as técnicas que vamos desenvolvendo. A NASA pediu à minha autorização para publicar essa imagem numa revista de astrofotografia, para eles é importante mostrar este tipo de fotos, de vários pontos do globo, porque embora esta agência americana tenha entre 2 mil a 3 mil de telescópios, há aos biliões de galáxias por fotografar. A nebulosa da Roseta foi fotografada com os filtros especiais através do chamado processo Hubble, que só deixam passar uma sequência de luz. O que é uma nebulosa? É o resultado da explosão de uma estrela há milhões de anos atrás e que espalha pelo espaço os seus próprios gases e cria este efeito e se eu for fazer esta mesma imagem daqui há 50, 100 ou 200 anos ela estará practicamente igual, poderá haver uma ou outra estrela que tenha explodido, entretanto, mas a nebulosa no geral estará idêntica.

Uma outra imagem mostra a nebulosa da cabeça do cavalo, que foi baptizada pelo pormenor do que parece ser a cabeça deste animal no topo.

Qual o período do verão em que faz estas imagens?
DS: É um período de sensivelmente seis meses, que começa em maio e termina em meados de outubro. Por exemplo, a nebulosa de Oríon, que fica na espada de Oríon, onde se avistam as chamadas três Marias, podemos avistá-la na Madeira, ela esta lá, o problema é o tempo.

E onde costuma fotografar?
DS: Eu fotografei estas imagens todas na Achada de Gaula, em Santa Cruz, que fica há 600 metros de altitude. Neste momento estámos a trabalhar no Pico do Areeiro que tem cerca de 1,800 metros de altura, como pertenço à Associação de Astrónomos Amadores da Madeira temos tido alguns apoios da Câmara Municipal para montar alguns dos nossos equipamentos nesse local, porque é mais alto e o céu esta mais limpo, enquanto que na minha casa em Gaula que, apesar de tudo é um lugar alto, para realizar a imagem da Nebulosa da Roseta tive de faze-lo em dois dias, um com o filtro vermelho e verde e no dia seguinte o azul e a iluminância, mas a piada esta aí quando se processam todas as imagens e se vê o resultado, pensámos Epá!

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