Um olhar sobre o mundo Português

Uma edição de pessoas fantásticas nas suas diferentes áreas, deixe-se contagiar e sonhe mais alto. 

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

É a segunda parte da minha viagem que começa na costa do Atlântico, sobranceira à montanha mesa, na África do Sul. Acompanhe-me.

A frente-mar Victoria e Albert representa um dos pontos obrigatórios a visitar na cidade do Cabo, são mais de 400,000 mil metros quadrados de lojas, hotéis, restaurantes, centros comerciais e áreas para entretenimento e concertos, que são visitados em média por 24 milhões de pessoas por ano, dos quais 23% são turistas. A renovação destas duas bacias do porto da cidade do Cabo começou em 1988, o projecto visava revitalizar uma vasta área com diversas infraestruturas portuárias há muito abandonadas e que foram sendo modernizadas por fases e transformadas em diferentes espaços temáticos.

Um desses pontos obrigatórios, bem no coração desta área é o “Watershed”, trata-se de um antigo armazém que alberga centenas de pequenos stands de artistas e designers africanos. É tudo mesmo muito bonito e original, o difícil mesmo é a escolha. Isto para quem gosta de arte africana!


Mas, a nova joia da coroa, ao meu ver, foi a abertura do Zeistz Museu de Arte Contemporânea de África do Sul (Zeistz MOCAA), o maior do continente e da diáspora a apresentar de forma permanente arte africana. O mega projecto resultou de uma parceria entre a empresa que gere o V&AW e um investidor alemão Jochen Zeistz com o objectivo de reabilitar um dos silos de cereais mais antigos do porto, que funcionou durante quase 80 anos. A obra de reabilitação a cargo de uma empresa de arquitectura londrina, o “Heatherwich studio”, procurou preservar o legado arquitectónico e industrial daquele que foi durante muito tempo um dos edifícios mais altos da cidade, com os seus imponentes 57 metros de altura e o resultado de todas estas sinergias é simplesmente soberbo.
O museu merece uma visita por vários motivos, um deles prende-se com o excelente trabalho de reabilitação do silo. O hall de entrada lembra o átrio de uma catedral, devido ao recorte expostos dos tubos de cereais, parece o interior de uma colmeia de abelhas! E com o brinde de uma obra de Nicholas Hlobo chamada de “iimpundulu zonke ziyandilandela”, o pássaro relâmpago, inspirado numa lenda Xhosa, a localização não poderia ter sido melhor, confere-lhe uma atmosfera neo futurista. A própria infraestrutura não foi pintada, mantem-se o seu interior maciço e betonado, onde o destaque vai para a crueza das suas linhas tubulares sublinhada pela escadaria em viés e o elevador metalizado. O piso zero, é outra descoberta, é como estar no interior de um casulo recortado de onde podemos apreciar toda esta envolvência industrial que nos rodeia.

  

O vidro teve um papel muito importante em vários dos pisos, dígamos que a sua transparência realça ainda mais os traços austeros do edifício sem o adulterar demasiado, o destaque vai para o topo com as suas janelas em formato diamante onde fica situado o jardim de esculturas, um café e o hotel. É verdade, o Zeistz MOCAA não é apenas um espaço museológico, só funciona como tal, para já, na sexta-feira, ao longo do fim de semana e segunda-feira, nos restantes dias é um centro de negócios, de empreendorismo e possui espaços específicos para eventos ou convenções.
Mas, voltemos ao que me interessa de facto…ao trabalho artístico, as várias obras expostas no ZMOCAA provém da colecção privada de Jochen Zeistz, um empréstimo a longo prazo, que é a pedra basilar desta extensa mostra, para além, como não poderia deixar de ser, das exibições temporárias que ficam a cargo de distintos curadores. Fiquei deveras fascinada com vários dos artistas, não é nada comum, pelo menos para uma europeia, poder apreciar estes “olhares” contemporâneos num único espaço e tenho que vós mostrar algumas das peças e obras pictóricas expostas. Faço, no entanto, uma ressalva, as imagens selecionadas de modo algum pretendem desmerecer o trabalho dos restantes artistas, muito pelo contrário, é apenas um conjunto que visa sobretudo mostrar ao leitor o que se faz de melhor em termos de arte no continente africano.

 

Dispostos pelos vários pisos estão um conjunto de artistas que revisitam o conceito de vestuário, através de uma narrativa cujo centro é o corpo e onde há uma reinterpretação dos materiais. Athi-Patra Ruga, Yinka Shonibare, Leonce Raphael Agbodjélou e Nandipha Mntambo utilizam diferentes suportes artísticos de modo a materializar à relação simbiótica entre os seres humanos, a natureza e o seu meio envolvente. Na imagem superior aparece o trabalho de Kudzanai-Chiurai intitulado de "Revelations".

 

Este segundo bloco engloba dois tipos de veículos artísticos, as instalações e a pintura. Nesse contexto, El Anatsui é um artista ganês que reutiliza nas suas obras materiais descartáveis da Europa e Américas que foram introduzidas em África. O hiperrealista Jeremiah Quarshie questiona a noção do imaginário e investiga a natureza da arte e Marlene Steyn pinta universos vividos, diáfanos e complexos inspirados na teoria psicoanalitíca.

E mesmo ao lado do ZMOCAA ao subir das escadas, na torre do relógio, a beleza assume outras formas que aconselho vivamente as amantes dos átomos de carbono cristalizado, o museu do diamante. Já Elisabeth Taylor dizia e com razão, os diamantes são para sempre e é a mais pura das verdades. A visita guiada possui uma lotação máxima e por vezes é necessário agendar, em particular ao fim de semana, posso garantir que vale a pena, o percurso inclui um pouco da história da mineração dos diamantes na África do Sul, as personalidades mais importantes deste sector, as réplicas dos diamantes mais famosos do mundo e uma paragem pelo atelier de corte, aí poderão ver em acção o trabalho minucioso do que eu chamo os artesãos do brilho, que cuidadosamente talham e polem cada pedra preciosa com enorme precisão e minucia.

E depois de ter alimentado a alma, nada melhor para aplacar a fome física do que uma visita a outro dos pontos essenciais da frente-mar, é o “W&F food market”, não se trata de um espaço tradicional onde se vendem frutas e vegetais, é um local para provar iguarias locais e onde pode comer uma refeição se assim o desejar, o que não falta é uma oferta variada e de qualidade. O mais interessante são os vários stands de pequenos produtores agrícolas e empreendedores gastronómicos que expõem os seus produtos regionais e tudo isso merece uma dentada curiosa.

P.S- Decidi manter os nomes e siglas originais e não as traduzi, porque se pretende obter mais informação sobre estes locais basta pesquisar com os nomes supracitados.

https://zeitzmocaa.museum/

http://www.capetowndiamondmuseum.org/about-the-museum/

http://www.waterfront.co.za/vanda/about

sexta, 03 novembro 2017 20:17

O kastrupiano musical

Guilherme Kastrup é um dos músicos instrumentalistas e produtores musicais mais reconhecido do panorama musical brasileiro. Apesar de um percurso profissional com mais de duas décadas foi apenas em 2013 que lançou o seu primeiro álbum a solo e promete fazer a mesma proeza já no próximo ano, quando atingir o seu ponto de mutação.

És um músico já com uma longa carreira, produziste imensos artistas reputados no brasil, porquê só em 2013 decides fazer um álbum em nome próprio?
Guilherme Kastrup: Nunca pensei muito nessa história da carreira a solo, ou autoral. A minha vocação é de músico instrumentista e vivi disso durante muitos anos. Depois comecei por me interessar pela parte do estúdio, de gravar e produzir algumas coisas. Nesse processo passei a brincar com algumas coisas, de brincadeira autoral, mas sem nenhuma pretensão. Esse disco foi-se construindo ao longo de muito tempo, dez anos, a partir de brincadeiras de estúdio e eu comecei a reconhecer que tinha um trabalho que merecia ser lançado com alma. Comecei a organizar isso com o pensamento de um álbum.

És percussionista, mas o disco tem uma parte muito tecnológica. Como passaste dessa fase instrumental para os sons digitalizados?
GK: Acho que foram dois interesses simultâneos. Essa parte de mexer com o samplear e com o recorte de música digital, é uma coisa de brincar de um jeito percussivo com vários sons que não sejam instrumentos inicialmente gravados e reposicionados com essa característica que o sample pode dar. Você brinca com bateria electrónica e com sons gravados de diversas origens e isso foi ago que me interessou muito e que descobri. A outra parte é a gravação de estúdio, de produção em que mergulhei muito ao fundo, fiz gravação, recorte, aquilo de mexer muito nas músicas digitalmente e fazer edição, que é um pouco como se faz com as artes plásticas. Esse cruzamento das artes plásticas com a música é que acendeu muito essa vontade de fazer um trabalho autoral.

Que sons é que gravaste? Dá para perceber que tens animais, outras vezes parecem ser sonoridades mais urbanas.
GK: Eu gravo um pouco de tudo, como você percebeu bem, são dez sons urbanos de máquinas, de carros e essa coisa intensa que a cidade tem e também há sons mais oníricos de cigarras, pássaros, falas e entrevistas. Tem uma música que é uma entrevista do Cartola que eu recortei e transformo em música a partir da sua digitalização, é uma brincadeira de cortar e colar que me permite fazer as coisas de um jeito como se tivesse compondo música electrónica, só que a partir de elementos acústicos de todas as origens.

Depois como fizeste a escolha desses recortes, no meio de tantos temas qual foi o critério de selecção?
GK: Teve muitas brincadeiras, mas foi elegendo as que podiam formar um conjunto, a maioria dos temas nasceu a partir da própria precursão, mexi com elas, descobri temas melódicos nessas faixas e aí os temas foram começando a ser desenvolvidos e só depois comecei a pensar no conjunto. Gosto muito dessa coisa da criação do álbum, a ideia de um disco com princípio, meio e fim e que as canções tenham conexões umas entre as outras, é algo que fez parte da selecção para que as músicas tivessem nesse conjunto do “Kastrupismo”.

Chamaste-lhe “Kastrupismo” por ser a tua cara? Por seres tu é isso?
GK: Sim,

É a marca do ser individual, de um trabalho com alma.
GK: Exactamente, usei o meu próprio nome, Kastrup, porque foi como se dissesse que esta é a minha forma de fazer música, o meu jeito de fazer.

Tens algumas participações e algumas letras, isso surgiu mais tarde?
GK: Algumas sim e outras não, essa por exemplo, do Cartola partiu da ideia de recortar três das entrevistas em que ele foi contando a primeira venda do samba dele, o espanto dele quando chegaram para ele e ofereceram dinheiro e ele disse, comprar um samba meu? Tá maluco rapaz? O meu interesse por essa história fez com que eu quisesse fazer algo interessante com isso e partiu da fala para a música. Outros temas partiram do ritmo inserindo letra, mas não funcionam exactamente como canção. Normalmente, trabalho muito com canção, a minha carreira é baseada nisso seja como acompanhante, como percussionista, ou produtor musical. No meu percurso pessoal eu queria fugir um pouco desse formato e utilizar a poesia completa de uma forma mais livre na estrutura da música. O que eu uso como letra é mais a poesia completa que posso montar, desmontar em várias partes e remontar de outro jeito. A cada hora ela aparece de um jeito diferente e me dei essa liberdade de brincar com a poesia de uma forma diferente e fugir do formato mais fechado que é a canção.

Depois apresentas um outro álbum que é “Sons da sobrevivência”, que acho que tem um lado extramente poético e é muito diferente do “Kastrupismo”. Porquê do nome?
GK: Quem batizou esse nome foi o Benjamim Taubkin. “Sons de sobrevivência” partiu de um duo de percussão que tenho com a Simone Sou, uma grande percussionista e a gente montou o Soukast uma brincadeira com os nossos nomes, criamos um repertório a partir da repercussão e mais tarde convidamos o Benjamim Taubkin que é um grande pianista e pensador brasileiro. Esse encontro deu muita faísca, o resultado foi muito interessante e decidimos gravar esse álbum. Quando o Benjamim sugeriu esse titulo eu também estranhei e perguntei para ele, depois foi entendendo o sentido poético do tipo de música que a gente faz, que é de resistência da politica humana, de como vemos o mundo, mais autónomos na forma de criar e encarar a sociedade onde a gente esta, é a sobrevivência física e artística. “Sons de sobrevivência” tem a ver com isso, um certo acto de resistência, a arte das relações humanas.

Tu és produtor dos teus próprios projectos musicais, se não fosse assim, achas que haveria um espaço para ti no panorama musical brasileiro?
Por seres tão diferente?
GK: Não sei (risos). Nunca pensei nisso com esse enfoque de eu ser produtor dos meus projectos musicais. Ás vezes, eu sentia que precisava de um olhar externo para dizer para. Agora, estou finalizando o meu segundo disco e nesse acho que sou melhor produtor de mim mesmo que no primeiro.

É um segundo exercício do Kastrupismo?
GK: Não será mais um Kastrupismo, mas é um exercício sobre uma brincadeira um pouco diferente, a minha vida mudou e desta vez o principio das canções não são as repercussões, mas foram alguns encontros que promovi de música improvisada. Formei dois trios com artistas com que tenho muita conexão e fizemos improvisações, a partir disso comecei a recolher esse material para fazer as composições.

Mas, andas em tournée com o teu primeiro trabalho discográfico, nos espectáculos já tocas temas deste segundo álbum?
GK: Ainda não, eu ainda não o finalizei. Terminei o processo criativo, estou com o álbum todo montado, como gosto de fazer tudo, aprecio pensar na ordem, como é que as músicas se interligam, se entrelaçam, como é a história delas no contexto geral do disco e a partir daí, vou mixar, masterizar, mas por enquanto estou no processo criativo. Ainda não mostrei para ninguém, mas toquei uma primeira música já em Lisboa e na Madeira.

Tem uma frase que defina este segundo álbum?
GK: Esse álbum vai-se chamar talvez “Ponto de mutação” em referência a um livro que li, que achei muito bonito, de Fritjof Capra. Ele tem um conceito de ver a humanidade como um único organismo vivo e que esta nesse ponto de mutação. Estamos num final de um período, de um ciclo, de uma época dominada pelo yang, o masculino, para transitar para uma fase mais ying, mais feminina. Achei essa imagem muito poética, de um físico que estuda sociologia, o conceito é muito bonito, porque a gente esta no fim de um ciclo da humanidade, vemos este sistema capitalista num acto de ebulição e tem tudo a ver com isso. O disco tem a ver com esse mundo de agora.

Quando se fala de música no Brasil, fala-se de música popular, de bossa nova e como disse desde o principio o teu som é muito diferente, é algo que se vê mais na Europa e EUA, mas que nunca se ouve no teu país. Como é mercado brasileiro para o teu tipo de musicalidade?
GK: O Brasil é muito rico musicalmente. O que passa para fora é esses estereótipos da bossa nova, do samba, mas internamente temos uma produção muito grande, especialmente em cidades como São Paulo que tem vazão para isso. Existe muita gente interessada, tem um mercado que se movimenta, é possível viver de música independente autoral e experimental mesmo estando fora dos grandes circuitos popular que no Brasil é muito intenso.

sexta, 03 novembro 2017 20:14

Os opostos atraem

São duas propostas completamente diferentes de dois designers de moda portuguesa para este outono-inverno 2018. Duas perspectivas que incidem sobre as linhas, a geometria e o luxo dos materiais.

Miguel Vieira apresenta uma colecção intitulada “reflexos reflectidos”, que pretende questionar se as roupas que usamos são o reflexo de nós mesmos, ou o reflexo de como os outros nos vêm nelas?
Vestimo-nos influenciados por emoções e transmitimos perceções visuais, como num jogo de espelhos em que se define o que é visto e como é visto. A paleta de cores inclui o cinza escuro e claro, preto, azul marinho, vermelho e branco marshmellow. As silhuetas são slim, com volumes contrastantes em maxi e mini sizes, através de peças estruturadas, sendo algumas delas oversized. Um dos detalhes dos coordenados foi a utilização de tecidos de alfaiataria, uma das tendências deste outono-inverno, com prints personalizados, misturas de tecidos, através de criação de camadas com elementos casuais e elementos trabalhados como plissados, com manipulação de tecidos, malhas e prints de imitação de pele.

Carlos Gil contou-nos um “Magic Tale” que propõe uma imagem jovem e contemporânea. Um look com atitude, que combina elementos de inspiração retro e naïf, em peças elegantes e distintas.
Com inspiração no mundo das crianças, o estilista reproduz estampados com motivos infantis depurados e aplicações acrílicas que se misturam com padrões geométricos. O mesmo padrão ocorre em diferentes escalas e as texturas surgem tom sobre tom, criando uma nova noção de proporção e movimento. As sobreposições revelam-se camada a camada, sobrepondo texturas, tons e transparências.
A imagem perfeita é conseguida com combinações simples e espontâneas, revelando detalhes desportivos e compondo um look urbano de luxo. A inspiração loungewear ganha novamente um papel de destaque e assume o fato de treino como o “must have” desta estação. As calças de alfaiataria largas reinventam-se e os vestidos casuais em materiais de luxo tornam-se as peças chave deste inverno. Os casacos assumem um oversize de cintura cingida e aparecem em cores planas com grandes bolsos utilitários, reforçando o mood casual chic, imagem de marca das coleções de Carlos Gil.Uma paleta cromática com cores tão distintas como rosa pó, amarelo olho de gato, verde água, azul crepúsculo, laranja queimado, coral e preto, alia-se a materiais luxuosos como brocados, veludos, pelos volumosos, tules delicados, tecidos brilhantes e caxemiras macias.
Neste inverno de combinações genuínas e pureza de corte, ficamos presos a uma narrativa mágica que nos vai fazer querer sonhar e brincar com a moda

sexta, 03 novembro 2017 20:11

O templo de bordukan

É o primeiro volume de uma saga fantástica escrita por Hélder Martins.

O que te levou a escrever sobre literatura fantástica? Porquê logo uma Saga fantástica?
Hélder Martins: Na realidade era uma ideia já antiga. Não que alguma vez tivesse em mente tornar-me escritor, mas na minha mente existia já uma aventura. Lembro-me de em miúdo, nas minhas brincadeiras, imaginar personagens e visualizar os seus enredos e a forma como se cruzavam. Tanto que quando as transcrevi, não me eram estranhas e sabia exatamente como queria que fossem. Assim, quando achei ter em mim as ferramentas necessárias, graças também à parte escolar que me devolvia um bom feedback dos meus trabalhos literários, passei a tornar real uma história. Descobri a forma que mais me inspirava a trabalhar, que passava por me sentar no café ao som de música japonesa e realizar todo um primeiro volume a papel e caneta.

O porquê de uma saga fantástica?
HM: Porque é nela que me revejo. Eu pouco gostava de ler até ter nas minhas mãos a temática que mais me entusiasmava. Passei de nada ler, a devorar livros do fantástico. Acho uma literatura bastante completa. Tem acção, suspense, amor, comédia; tudo envolto numa fantasia contagiante. Por isto tudo, arrisquei na minha própria demanda, com o “O templo de Borkudan”, e dar aos leitores aquilo por que gostava de ser reconhecido: uma fantástica aventura.

Quais são os principais desafios deste tipo de escrita? O que foi mais difícil e mais fácil?
HM: Penso que o mais difícil é o rigor devido a este tipo de tema épico. Implica algum estudo e análise aos pormenores arquitetónicos da altura. Mas acaba por ser interessante descobrir certos detalhes que solucionavam na altura o que para nós hoje é normal. Onde tive mais liberdade, foi nas partes de maior ação, onde consegui um melhor detalhe pela minha prática nas artes marciais, nomeadamente o kickboxing. Graças a isso, permitiu-me ser exato em situações de posicionamento e equilíbrio nos combates que se desenrolaram. Claro que, a parte fantasiosa da temática das minhas obras passa também a ser um apoio e a contornar algumas dificuldades.

O epílogo é uma luta do bem contra o mal. Porquê decidistes começar a tua saga assim?
HM: A minha literatura favorita é o fantástico. Delicio-me com o partir à aventura. Personagens distintas, unidas numa causa que as torna comum. No entanto, nas minhas leituras, vejo sempre mundos épicos já criados, sem qualquer alusão ao que os levou ali. Quis inovar. Começar o meu primeiro livro numa explicação do que eu acho que foi o meu Bing Bang do fantástico. Naquilo que é a eterna luta entre o bem e o mal, ver nas duas entidades a criação do mundo abaixo. E com ele o aparecimento das primeiras raças a uma terra do desconhecido.

O teu personagem principal tem muitos defeitos, não é o típico herói altruísta que se costuma apreciar neste tipo de leitura. Porquê o criaste assim?
HM: Porque no final é apenas humano. Quis uma personagem que a cada capítulo lido é apenas tão igual como a quem o lê. Que se irrita, que diz os seus disparates, que tem medo, que ama, que é tímido. Que a cada passo que dá se vê dividido nas escolhas do dia-a-dia. Dando assim mote ao que pretendo passar a cada livro meu: “A eterna batalha entre o desejo de fazer o que é certo e o que é certo fazer”. Esta é a personagem real, que aproxima o leitor. Não um super-herói, mas sim alguém que irá crescer com as suas decisões. Positiva e negativamente.

Tens também um dragão amnésico e isso deixa o leitor um tanto quanto desconcertado, com um grupo de personagens que não tem pouco ou nada de heroico.
HM: A amnésia do dragão é já um preparo para o que será o final da saga. Mas sim, é um grupo de personagens peculiar. Peculiar, mas rico numa componente humana que nos liga a cada peripécia. Com um pouco de mim; com um pouco de quem me conhece; com um pouco de quem conheço. Ao fim ao cabo, é um conjunto de personagens para evoluir umas com as outras, no melhor das virtudes e no pior dos defeitos.

Quando começastes a escrever o livro já tinhas ideia que a saga teria continuação?
HM: Quando comecei a escrever, tinha e tenho já o final idealizado. A saga é longa, como sempre apreciei no género do fantástico. Estas personagens e esta aventura têm muito para dar aos leitores. Tem acção, tem um suspense curioso pela forma como os desfechos nos surpreendem. Tendo eu já um início e um fim previsto, o resto é um meio que mesmo a mim me surpreende. Aliás no meu segundo livro: “A asa da consequência”, eu próprio ficava ansioso pelo que iria chegar no capítulo a seguir.

Os nomes são um dos pontos muitos curiosos do teu livro, como os inventastes?
HM: Realmente, os nomes são o verdadeiro desafio. Mas para me ajudar, tenho o que são as minhas experiências. Os locais por onde já passei e com grande significado para mim, como é o caso da ilha da Madeira, ou os nomes daqueles que me são próximos. Altero-os um pouco, acrescento umas vogais e umas consoantes e revejo nas minhas personagens e cidades, aquilo que para mim é importante.

É muito difícil ser aceite como escritor do fantástico num país como o nosso?
HM: Bastante. Talvez mais por se ver numa capa do fantástico, um nome nacional. Sim, podia ter adotado um pseudónimo, mas quero ser reconhecido pelo meu próprio nome. Eu acredito que é uma temática apreciada por muitos e mesmo nos feedbacks que já consegui, tive boas críticas mesmo de quem não era apreciador. Confesso que é um campo difícil de percorrer, mas tem sido gratificante e mesmo que exista só uma pessoa à espera do meu próximo volume, vale a pena escrever por ela.

O que podes adiantar da próxima parte da saga?
HM: Posso adiantar um lado mais humano da personagem principal. Um lado fora daquilo que esperamos que um herói faça. Adianto que vai surpreender os leitores e que veremos o mote dos meus livros a um nível que os vai relacionar a algum momento das suas vidas. Acima de tudo é uma história escrita com grande dedicação e paixão, de resto só posso esperar que gostem.

quinta, 12 outubro 2017 15:03

Os magnatas do incomum

 

Os Ermo que nada devem ao nome são um jovem duo musical que surgem em 2012 com um EP homónimo e cujo álbum seguinte “vem para aqui” os lança nas luzes da ribalta da música em Portugal. Com uma sonoridade electrónica com uma forte influência musical portuguesa, esta banda de Braga lançou recentemente o seu último trabalho Lo-fi Moda que se distância dos seus restantes trabalhos discográficos, mas não da sua essência tão lusa.

Gostaria de saber como o projecto dos Ermo surge com esta vertente de música portuguesa e ao mesmo tempo electrónica? Vocês são instrumental e voz.
António Costa: Conhecemo-nos há uns anos, desde 2011, ficámos amigos e não foi algo muito pensado, a parte da música portuguesa, aliás é uma sonoridade que estamos a deixar muito de fora neste novo trabalho. Mas, durante um grande período foi assim, não consigo explicar porque, simplesmente foi o que sentimos na altura e agora estamos a pensar em letras e sonoridades diferentes que não reflectem tanto sobre isso.

Quando ouvimos o álbum há sempre no fundo uma sonoridade electrónica e o que muda é a letra. Que tipo de instrumentos usaram?
Bernardo Barbosa: Chegámos a usar guitarras, mas a instrumentação é sempre no computador.


Começa por aí, ou alguns dos temas surgem primeiros nas letras?
BB: Existem algumas faixas em que temos o tema que queremos tratar e se calhar partimos disso. Pegamos num sample e vamos percorrendo a sonoridade portuguesa e só mais tarde encaixámos algum instrumento, ou usámos apenas o computador, ou alguns acordes. Trabalha-se em cima disso.


Então qual é a linha condutora do vosso trabalho?
AC: Temos um trabalho de 2012 que não tem nome. O disco de 2015 intitula-se “Amor vezes Quatro” o de 2013 chama-se “Vem por aqui” tem 8 faixas e resulta do que estamos a sentir, não há linha condutora. Mas, neste último trabalho quisemos mesmo fazer essa separação em relação aos registos anteriores, por isso, tivemos dois anos de silêncio, quisemos fazer um paragrafo.


Cantares numa sonoridade grave é propositado?
AC: Quisemos fugir também desse registo, agora, as vozes são mais leves. Em 2013 aconteceu essa entoação mais grave, não foi muito pensada, usávamos muitos sons sustenidos nas nossas canções, para fazer melodias, não te sei dizer se é algo propositado. As letras são graves no seu conteúdo e se calhar por isso surge esse som mais grave.

Disseram que vão apresentar um novo trabalho e é diferente, em que difere?
AC: Já não estamos tão dependentes da temática portuguesa, não estamos tão ligados a esse meio. É um álbum mais urbano e jovem, somos uma banda que vai crescendo a maturidade se nota no profissionalismo do que estamos a fazer e nos temas.

BB: É menos clássica, antes íamos buscar muita coisa a Zeca Afonso, Madredeus e José Mário Branco.

E em termos de sonoridade?
AC: É mais electrónico e é dirigido a um público diferente. Usámos mais o sintetizador, menos digital e houve uma tentativa de fazer arranjos mais ousados, deixámos de parte aquela centralidade poética que houve durante muitos anos e tentámos fazer algo mais coeso em termos de instrumentalidade.

A portugalidade esta subjacente de novo neste disco ou nem tanto?
AC: Nem tanto, continuámos a cantar em português, é algo que vai estar sempre presente, mesmo que vamos para outro sítio.
BB: E nunca equacionar cantar em outra língua que não português.

A electrónica é associado ao inglês, mesmo em bandas portuguesas.
AC: O nosso som natural é português e não queremos mudar.

É muito difícil escrever as letras? E quem escreve?
AC: Somos os dois.

Reflecte a vossa vida?
AC: Sim, é o que nós pensámos e sentimos. Reflecte também o que estamos a ouvir. É o que saí de nós. Trabalhamos aquilo que gostámos e é a nossa estética

Neste álbum pareceu-me que deram grande enfase as palavras e a entoação da voz.
AC: Sim, qualquer pessoa que trabalha com a voz tem de se preocupar com a entoação, a maneira como colocas a voz e existe a maneira certa e errada de cantar uma palavra. Nós esforçamo-nos nesse sentido, se calhar outra pessoa não se preocuparia com o ditongo, ou a maneira como o acento vai ser usado numa canção e por esse motivo há palavras que não devem ser usadas. A letra por melhor que seja deve ser pensada quando colocada junto com a melodia, a letra é sempre escrava da forma como a estas a cantar.

Este novo disco como o definiriam?
AC: Apesar de ser menos épico e denso é mais urbano, mais cidade e menos campo. Vivemos na cidade é mais subterrâneo nesse aspecto.
BB: É mais passível de ser apreciado por alguém que não fala português. Joga muito mais com a sonoridade da música, ou de qualquer coisa que queiras ouvir sobre Portugal é um disco que pode ser ouvido lá fora e é o primeiro passo nesse sentido.

Vão partir em tournée internacional com este novo álbum?
AC: Sim, vamos ao Brasil e experimentar à Ásia um dia destes. Os projectos para o futuro ficam lá mesmo.

Como é a recetividade de um trabalho como o vosso mesmo tão diferente, num país como o Brasil?
AC: Fomos parar a um festival de rock, encontrámos muita gente que gostou do nosso som, mas se calhar seria mais bem-recebidos se fosse em São Paulo. Mas, aprendemos imenso enquanto profissionais.

Como se chama o novo álbum?
AC: Lo-fi moda. (risos)

Não é um título muito português, porquê?
AC: É como teres uma peça de roupa por ser “chunga”. É como teres umas calças de ganga que já as usas há 15 anos e assentam bem nas tuas pernas. (risos)

São 3 volumes didácticos lançados pela escritora Zita Cardoso que pretendem mostrar os símbolos da autonomia e independência dos arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde.

Um dos livros que escreveste aborda os 42 de independência de Cabo Verde?
Zita Cardoso: Exactamente, são 42 anos de mudança de regime político de uma ditadura para um modelo autonómico, mas curiosamente trata-se de um fenómeno transversal que se juntou e transformou num sistema administrativo paralelo, com mais ou menos conquistas. Cabo Verde teve uma etapa que queria ser autonómica como as regiões autónomas portuguesas, mas com a formação do partido PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde) que é um dissidente do partido PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde da Guiné Bissau) ao separar-se pretende ser um país independente. É preciso contextualizar esta questão o Cabo Verde e a Guiné Bissau ambas eram colónias e a Madeira e os Açores não.
No caso da autonomia açoriana o livro foca que aspectos?
ZC: É um livro pedagógico e didáctico, é patriótico e pretende aproximar as pessoas das instituições democráticas. É também uma obra sobre cidadania e é um fundamentalmente educativo. Este é um dos livros que aborda os três arquipélagos no Atlântico. Já tenho a primeira edição que se debruça sobre a Madeira, vou agora, recomeçar em breve uma segunda publicação. Sobre os Açores já é também uma segunda edição e a terceira obra é sobre a independência do Cabo Verde que é uma situação diferente, porque é uma ex-colónia africana.
Para o livro de Cabo Verde tivestes de fazer um levantamento exaustivo?
ZC: Sim, tive que me deslocar a este arquipélago e falar com as autoridades, fiz investigação no local e desloquei-me a todas as ilhas do arquipélago, percorrias de lés a lés, tirei fotografias e achei que a autonomia neste caso significa uma transformação positiva da sociedade e tinha de estar representado no livro. No caso dos Açores as obras são sobretudo na costa, a aposta açoriana foi mais no sentido de criar infraestruturas marítimas, enquanto que na Madeira as intervenções foram mais em terra, os túneis, por exemplo.
Em relação ao Cabo Verde quais são os principais símbolos da sua independência?
ZC:. Conheci a família de Amílcar Cabral, em particular a esposa e também o companheiro na independência que é o comandante Honório Chantres, que vive na ilha de Santo Antão e foi ele que me incentivou a fazer este trabalho. Ele forneceu-me todos os dados e apesar dos seus 76 anos é uma pessoa perfeitamente lúcida e o seu depoimento que esta no livro aborda os sinais da independência. Acompanhou a separação do partido da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Eu conheci à raiz da independência de Cabo Verde e este testemunho têm de ser passado para as novas gerações e para as escolas, porque a sociedade tem de saber como a democracia chegou aos países onde vivem.
Então como são os símbolos da independência de Cabo Verde?
ZC: Os escritores que através da sua escrita questionavam à independência do seu país, depois abordo os diferentes ministros de cada ilha, a assembleia como esta elaborada e as várias alterações que teve ao longo do tempo. A ilha de São Vicente, por exemplo, foi o palco de diversos comícios políticos para a liberdade de Cabo Verde. É acima de tudo um trabalho político e libertário.
E a educação é outro grande símbolo?
ZC: Muito e também os dois partidos no poder e que se tem revezado nos diferentes governos e tenho que dizer que Cabo Verde é um país virado para a modernidade. Aproxima-se muito à cultura europeia.

Então ao contrário das autonomias atlânticas cujos símbolos de autonomia são as obras, em Cabo Verde, são as pessoas?
ZC: Sim, são as pessoas que fizeram o país. As obras não são tão expressivas como nas regiões autonómicas. Também há outro factor, existiam correntes que defendiam apenas a autonomia de Cabo Verde, mas como era uma colónia portuguesa africana e a Madeira e os Açores não o eram, não aconteceu. Existe um organismo europeu para as regiões ultraperiféricas, como é o caso das Caraíbas, Guadalupe e Martinica que foram colonatos franceses, ainda são colónias “autonómicas” francesas, depois temos a ilha de Reunião e Guiana Francesa que que são francesas, não obtiveram a independência, mas são regiões autonómicas, nunca se desligaram do cordão umbilical que é o país mãe. Depois temos as ilhas Canárias, Madeira e Açores, contudo o Cabo Verde é apenas um país observador, não esta integrado no conceito de região ultraperiférica.

quinta, 12 outubro 2017 14:42

Robô que salva vidas

 

Num cenário de catástrofe porquê arriscar a vida no reconhecimento do interior de um edifício desmoronado? Um pequeno “milagre” electrónico foi desenvolvido por um grupo de estudantes de Engenharia Electrónica e Telecomunicações da Universidade de Aveiro (UA) e pretende ser uma preciosa ajuda quando todos os minutos são essenciais para salvar vidas.

Trata-se de um robô capaz de entrar nos escombros, que consegue mapear em três dimensões o espaço, detetar focos de incêndio e medir a temperatura, humidade e monóxido de carbono e, em tempo real e enviar os dados para o exterior. Pequeno e autónomo este dispositivo electrónico foi idealizado por 15 estudantes do Mestrado Integrado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações, no âmbito da unidade curricular de Projeto em Engenharia Electrotécnica lecionada pelo docente Nuno Borges Carvalho. O robô já está em fase de protótipo e à espera de todos os apoios para, no futuro, ser fundamental no trabalho da Proteção Civil. Para tal, os estudantes têm já delineado a HART (Human Aid Robotic Technologies), uma empresa que, quando nascer, vai dar suporte ao desenvolvimento e comercialização do robô.

Projeto único num mercado onde abundam soluções voltadas essencialmente para ambientes militares e que fazem uso das câmaras apenas para recolha de imagens, o robô tem também por novidade a capacidade de dispensar um operador já que, apontam os estudantes do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática, na fase final de desenvolvimento o robô vai ser capaz de se mover e adquirir informação de forma autónoma.

Com 1,5 quilogramas e 23 por 28 centímetros, o dispositivo electrónico pode facilmente ser usado em todos os cenários que necessitem de medir condições ambientais e em que a obtenção de um modelo tridimensional possa ser útil. Nestes cenários os estudantes incluem incêndios, colapsos parciais, grutas, demolições e operações de reconhecimento, busca e salvamento.
O robô pode ainda ser usado para ajudar na avaliação da integridade e extensão de danos num edifício afetado por um sinistro. Do interior dos escombros o autómato conseguirá informar sobre a temperatura, humidade, concentração de monóxido de carbono e presença de focos de incêndio. Será ainda possível visualizar um modelo tridimensional do espaço onde o robô se encontra.

Todos estes dados serão disponibilizados em tempo real às equipas de salvamento através de uma aplicação de computador criada para o efeito, onde a informação é apresentada de forma clara, simples e concisa, para acelerar o processo de análise e tomada de decisões.
Nesta fase de desenvolvimento, apontam os estudantes, o robô já consegue fazer a sensorização do ambiente e gerar o respetivo modelo 3D. Dentro em breve, será a vez da implementação da capacidade de adquirir e sobrepor vários modelos 3D e da instalação do movimento autónomo.

quarta, 04 outubro 2017 16:00

set In stone

 

 

Inaugurada durante o London Design Festival, e aberta ao público até 25 de Outubro, a exposição foi preparada especialmente para o Design Museum de Londres.
No âmbito da exposição Set In Stone, que faz parte do programa Primeira Pedra, organizado pela experimentadesign em parceria com a Assimagra e com curadoria de Guta Moura Guedes. O carismático designer de comunicação inglês Peter Saville, co-fundador da lendária editora discográfica independente Factory, apresenta um trabalho inédito, produzido especificamente para esta exposição.

A peça In Memoriam, de Peter Saville, autor de diversas capas de discos (New Order, Joy Division, Roxy Music, Pulp, David Byrne, entre muitos outros) é uma interpretação escultórica do gráfico que demonstra as pulsações sucessivas do CP1919 (a primeira estrela pulsar descoberta a partir de ondas de rádio, em 1967), que Saville utilizou para a icónica capa do disco Unknown Pleasures, de Joy Division, em 1979. O gráfico, que representa uma ilustração linear da frequência e simetria de um evento temporal, foi transposto para 3D por Saville e o seu colega Bill Holding dos Morph em 2002 resultando numa escultura de um momento no tempo. As associações entrópicas que habitam a história deste trabalho são amplificadas por esta reprodução em pedra monumental reflectindo sobre o que Michael Bracewell escreve sobre o trabalho de Saville para os Joy Division, vendo-o como “a prova documental de um crematório nas profundezas do espaço”.

Feito em mármore Ruivina Escuro, com 305x305x1077mm e 250kg de peso, In Memoriam é apresentado num conjunto de 20 trabalhos de 9 arquitectos e designers, reunindo as três áreas de trabalho de arquitectura, design de produto e design gráfico, no exterior e interior do The Design Museum, inaugurado em 1989.

Para além do trabalho de Peter Saville, as peças apresentadas em Londres são da autoria dos portugueses Eduardo Souto de Moura, Paulo David, Miguel Vieira Baptista e Jorge Silva, do atelier chileno Elemental, do inglês Jasper Morrison, do cipriota Michael Anastassiades e da dupla austríaca e americana Sagmeister & Walsh.

Peter Saville
Nasceu em Manchester em 1955. É um artista e designer que tem exercido uma contribuição marcadamente única na cultura. Como fundador e director de arte da editora discográfica independente britânica Factory Records, chegou a um público alargado através da música pop, nomeadamente com as capas que criou para os Joy Division e New Order entre 1979 e 1993. As suas criações radicais quebraram todas as regras, omitindo informação sobre os artistas ou os títulos, questionando de uma forma fundamental as formas de consumo e comunicação. Os seus projectos mais recentes englobam design, arte e cultura. Peter Saville vive e trabalha em Londres.

Primeira Pedra

Resultado de um projecto que implicou cerca de dois anos, onde 24 arquitectos e designers foram convidados a explorar o potencial do mármore e calcário portugueses, foi explorada a presença da pedra em espaços públicos e privados, fazendo uso da versatilidade do material em termos de sua cor e textura. No total surgiram 51 novas obras, novas perspectivas e novos métodos no decorrer do processo. A liberdade artística foi primordial neste projeto, que ampliou o potencial da pedra, expandindo a relação entre material, design e processos industriais e de fabricação.

Set In Stone

Projectos:
Eduardo de Souto Moura (PT), Conversadeira, 2017
Elemental (CL), A Thing Not An Object, 2016
Jasper Morrison (GB), Alpinina, 2017
Jorge Silva (PT), Pictorama, 2017
Michael Anastassiades (CY), Forbidden Fruit, 2017
Miguel Vieira Baptista (PT), O Peso da Pedra, 2017
Paulo David (PT), Mult, 2017
Peter Saville (GB), In Memoriam, 2017
Sagmeister & Walsh (US), Don’t Look Back, 2017

quarta, 19 julho 2017 14:51

A criatura nasce e a obra acontece

Este projecto inusitado surgiu de uma vontade de Edgar Vicente de fazer música portuguesa com outros músicos e o que começou com apenas seis elementos foi ganhando mais força e mais instrumentos e neste momento é uma banda que mais do que cantar em português faz uma ponte entre o som tradicional e uma sonoridade em camadas mais contemporânea, que resultam em canções que vão ao encontro da portugalidade e da identidade da banda como um todo.

A criatura começa contigo, com música portuguesa de raiz tradicional e criastes uma banda gigantesca?
Edgar Vicente: A minha ideia era de ir ao encontro da minha identidade, da minha geração e com as pessoas de uma forma geral, dos mais novos aos mais velhos. Queria que fosse uma identidade em uníssono, que conseguisse juntar as pessoas, todas, numa altura em que o amor esta mais globalizado e dia após dia perdemos essa ideia de pertença. Temos de nos revisitar constantemente e comecei essa ideia em Serpa com o objectivo de gravar um disco. O que pretendia era ir até à tradição e perceber o que aquilo era, o que já não faz parte e aí surge uma necessidade, também, de precisar de mais gente, mais criativos que me ajudassem a perceber isso e começaram a surgir os convites. São pessoas com quem tinha tido muita vontade de trabalhar, mas ainda não tinha surgido essa oportunidade, como o Carlos e o Gil e outros ainda com quem ainda não tinha tocado antes e que queria levá-los nessas musicalidades.

O que achei curioso ao ouvir o álbum, “Aurora” e ouvi-los em palco há uma diferença brutal. No CD o som era menos vivaz, mais polido, muito bem acabado e masterizado, mas preferi as versões em palco.
EV: Isso tem a ver com facto do álbum ter sido feito há três anos.
Gil Dionísio: São três anos de estrada, deste revisitar para dentro, foi o ser obrigados a ter um olhar verdadeiro lá para fora e para o que esta à nossa volta e isso fez com que houvesse coisas que tivessem sido feitas na altura, eu tinha 24,25 anos e tu tinhas 19?
EV: 21 anos
GD: Agora o Edgar tem 25 anos e existe uma diferença brutal. Uma pessoa pensa de forma diferente do que pelo menos há quatro anos e eu vou fazer quase 30 anos. Ou seja, nós crescemos com esta música que fizéssemos e houve coisas que falharam, houve temas que agora tem mais força e estão mais bonitas e outras que foi o inverso, canções que acabaram por ter uma dimensão muito menos forte. Acima de tudo quando o ouço o álbum e eu crio uma relação à medida que o vou ouvindo, mais o amadureço. A própria capa é uma peça, é tudo o que queremos fazer e com o passar do tempo, em palco, criou-se uma relação muito íntima com estas músicas, com a Portugalidade, seja o que for que isto quer dizer, mas que pode querer transmitir muita coisa. Com o tempo formos criando esta relação com este olhar, com esta forma de fazer música de uma forma emocional, ou como o Edgar diz de quem “cá esta”, é uma tradição de música tradicional portuguesa, de música pimba e de toda a música do mundo que existe ao mesmo tempo e que influenciou essa mesma musicalidade. Ou seja, quando trazemos música tradicional não podemos só olhar para a “modinha”, olhámos para pessoas, para as histórias e todo um conjunto de coisas que estão em volta para que essa relação com os temas seja mais intensa, mais emocional. Quando chegámos ao palco há todo um romance que nunca mais acaba e isso é o que se nota.

Vocês são muitos, cerca de 11 músicos em palco, deve ter sido difícil conjugar isso tudo e as personalidades musicais, ou não?
EV: Isso é um dos aspectos principais deste grupo, o facto de sermos diferentes e já partimos todos para isto sabendo que erámos muito diferentes, há muita tolerância. De vez em quando existe um que avança e diz que no rock não se faz assim, não sabíamos o que estávamos à procura, nem no que estávamos a fazer, sabíamos apenas que éramos todos muito diferentes. Abrimos um grande espaço para a tolerância, para aproveitarmos o que outro vai fazer à partida, porque sabemos que vai ser diferente do que vamos trazer.
GD: Há um aspecto muito importante aqui, enquanto grupo e que estamos todos a fazer, é que não sabemos o que isto de fazer música tradicional. Na banda descobri muita coisa e quando fazemos algo distinto uns dos outros, isso abre as possibilidades todas e quando embocámos nesse poço todos juntos são muitas ideias, muitos pontos, mas no geral é vamos lá descobrir o que é esta herança muito grande, gigante.

É, por isso, que os temas são tão compridos? Porque comparando com uma melodia de música portuguesa são até bastante extensos.
EV: Nós gostámos de atingir um certo estado com as músicas, o que não quer dizer que os caminhos não atinjam certos picos, mas em alguns temas já dá para sentir uma história.
Mas, há um tema que parece contar mais do que uma história, a canção que fala da rapariga que não quer ir à missa e do jovem que embora não queria ir para universidade, não paga.
EV: Na verdade é ao contrário, ela vai à missa e eu vou para a faculdade não foi por não querer, mas porque ninguém me disse para não ir.

Achei que eram dois temas numa única canção.
EV: Exactamente, esse tema se chama “É da praxe” e acabámos por cantar que há coisas que por mais que seja tradição, ou que tem de ser assim, se pensarmos bem naquilo em que nos estamos a meter acabámos por não as fazer e isto não é mais do que fazer perguntas, é isso que sugerimos as pessoas. É bom não seguir a maré, é bom olharmos em volta e remarmos por outras rotas onde podemos chegar mais depressa até.

No concerto já cantaram um dos temas do próximo disco, “A noiva”.
GD: Cantámos cinco músicas do próximo álbum. “A noiva”, “bem bonda”, “lóbis homem”, “dá praxe” e “a gaita”.

Porque decidiram começar a apresentar estes temas em palco, para já obter feedback do público?
EV: Acho que é por essa relação que a banda tem de ser renovada constantemente. Jamais conseguiríamos a tocar o mesmo repertório por três anos seguidos, as canções vão surgindo naturalmente para nós estimular como grupo e cativarmos a nós próprios. É tão bom quando alguém chega com uma canção pela primeira vez, vamos ensaiá-la e temos um momento novo que nos traz uma magia renovada em palco. O espectáculo é muito mais do que isso.


“A noiva” não é um nome definitivo para o álbum?
EV: Ainda não sabemos bem qual será o nome do disco.
GD: Não consigo fazer essa projecção.
EV: Eu sei como que se vai chamar (risos)
GD: É “bem bonda”, mas ainda não há uma certeza. É curioso nos gostámos de saber o que realmente andámos a fazer, gostámos de olhar para o que estamos a fazer. Vamos gravar ainda neste final do ano e início do próximo, não temos datas projectadas, nem nomes ainda, embora não tenha algum problema em tocar as músicas antes. Não consigo adiantar o que o álbum vai ser, porque parte desse percurso é descobrir o que vai ser esse disco. Esta banda é isso, até nos concertos não sabemos como vai ser. Curiosamente quanto as canções não acho que sejam longas, são narrativas por camadas que vamos descobrindo cada vez que as tocámos. “A noiva”, ou “A gaita” não sabemos como vai soar. Provavelmente vai ser como o que viste em palco e até nem sei o que será, obviamente já pensámos sobre isso, mas se calhar nessa altura vão aparecer outras coisas e seja o tempo a dar-nos essa resposta. Vamos vivendo, tocando e quando chegar ao álbum vai ser um cabaz, mas não sei é como vai soar.

https://www.youtube.com/watch?v=uOo4ymyWZ2I

quarta, 19 julho 2017 14:48

Sou eu mais livre, então

Trata-se de um diário sobre um preso político angolano, Luaty Beirão. Um relato, na primeira pessoa, que servem como testemunho do quotidiano dos 13 dias que esteve preso numa cadeia de Angola e que ainda inclui uma entrevista a Carlos Vaz Marques onde aborda os 36 dias de uma greve de fome que o deixou em perigo de vida.

Este é um diário sobre o período em que esteve preso?
Luaty Beirão: Na verdade são 13 dias em que tive acesso a um caderninho e uma caneta no ano que lá cheguei. Depois é compensado com uma entrevista mais aprofundada do Carlos Vaz Matos em que se aborda o que não esta registado no diário. São basicamente pensamentos, letras de música, coisas da próxima visita que tinham de me trazer, tem de tudo um pouco, é muito misturado.
É o relato de um ano?
LB: Tem um hiato de 3 meses de prisão domiciliária, depois da condenação voltámos para a prisão onde ficámos desde o dia 20 de junho 2015 até que fomos soltos no dia 29, um um ano e nove dias depois.
O que mudou em Angola?
LB: Tem vindo a mudar, houve um salto desde este período em que estivemos presos. Existe um lento despertar de consciência, um tímido calar do medo, há uma inversão em como as pessoas se relacionam com o seu próprio medo, elas começam a falar mais e protestar mesmo que seja em espaços mais reduzidos como as redes sociais, ainda não se transporta para a rua, mas sente-se que esta a desaparecer aos poucos. O caminho faz-se caminhando e um passo de cada vez, também não sei se seria muito bom que tudo fosse tão repentino, não sei se saberíamos gerir uma mudança do dia para a noite, esta a ser como tem de ser e esta a correr bem. Não consigo quantificar um tempo para que essa mudança aconteça, sei que já não será para nós, somos os agentes de mudança, mas não sei se será imediato, temos é que provocá-la.
E Portugal deve ser agente nessa mudança?
LB: Se Portugal não fosse conivente seria bom, não pode fazer mais do que isso por questões de soberania. Não calar processos que existem aqui, por causa de crimes que foram cometidos lá. Gostam de dizer que os poderes são separados, mas nem sempre é assim, lá como cá, mas o papel de não ajudar os que lá estão já é alguma coisa. É bastante.
Tem uma vida normal em Angola?
LB: Não existe uma vida normal em Angola. Nem estas pessoas que se vêem a esbanjar milhares de euros em relógios vivem normalmente. Uns vivem em redomas, atrás de muros, saem com carros blindados o que não é normal e os outros vivem num outro extremo à procura de água, luz e comida, coisas básicas para a dia-a-dia. Nada disto é normal. Mas, percebo o que me quer perguntar, se sou incomodado, ou seguido, acho que o sou de uma maneira mais discreta, antes via quando saia para a rua quem me ia seguir, mas tenho a noção que eu e os outros somos monitorizados, aprende-se a viver com isso também, não é normal, é a vida que temos.

Voltando um pouco ao diário, trata-se de um registo de 13 dias em que também refere escreveu para não enlouquecer.
LB: Eu estava confinado a uma solitária, não sei se foi bem para não enlouquecer, não sei o que teria acontecido se não tivéssemos acesso a livros e a escrita, não sei como teria lidado com uma cela durante 3 meses, iria haver algum impacto ao nível do meu estado psicossomático. Bom, felizmente ao fim de três dias tivemos livros, cadernos e canetas, que depois foram sendo retirados quando invadiam as celas e às vezes levavam os cadernos e as canetas. Chegou um ponto em que não tinha mais vontade de escrever, porque não sabia se voltaria a ver os meus escritos. Esse caderno que saiu foi uma sorte, alguém que já tinha a experiência de estar preso em Angola sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde e conseguiu camuflar o caderno numa coisa saiu e que foi para a cidade. Eu estava a 100 quilómetros da cidade.
Acha que o seu grito acabou por inspirar mais pessoas não só em Angola, mas em outros países?
LB: Não sei se poderia dizer que inspirou outras pessoas um pouco por todo o mundo, ou em Angola e que isso esta a transformar alguma coisa. Não estou muito preocupado com o ego, a vaidade, esta coisa do eu, não gosto muito de falar disso. Não estou sozinho, mas se o que estámos a fazer esta a transformar, isso seria óptimo, não por uma questão de vaidade, espero não me contagiar com isso. O que se esta a conseguir é a transformação social num ambiente político que é hostil, acho que isso é muito superior, seja por acção individual, ou seja de quem for.
Mas, ajudou dar a conhecer o seu caso.
LB: Lá esta a estupidez dos regimes totalitários de não se darem de conta dos limites e a visibilidade que se pode dar a um grupo de pessoas que até é pequeno e insignificante e que passam a ter um palco e um espaço. Foi sem dúvida o grande holofote mediático mundial que acabou por reverter a nossa situação, senão fosse isso, estaríamos na cadeia até hoje.
Foram 36 dias de uma greve de fome, quais foram as sequelas físicas e psicológicas que ficam? As crónicas ajudaram nesse sentido?
LB: Não, porque o escrevi antes. Aquilo foi escrito no primeiro mês, a greve de fome acontece no terceiro mês de carcere, felizmente quando fui fazer uma série de exames a seguir não apareceu nada que me tivesse afectado, foi milagroso. O médico avisou-me ao 30º dia que estava tudo aparentemente bem, mas a partir daí tudo conta, podia ter falência de órgãos em cascata.
E a nível psicológico ficaste com receio de espaços fechados? Ou de estar sozinho?
LB: Não, gosto de estar sozinho, se calhar foi por causa disso que a solitária não me afectou tanto, tive muitas coisas positivas no meio deste transtorno. Foi sobretudo à minha família que sentiu mais. Eu fui “bem tratado” na prisão, a minha mulher até me levava salmão. Parece até que estou a minimizar a gravidade da situação, mas eu prefiro olhar para o que houve de positivo, tive tempo para ler e estive informado sobre a revolta que houve na sociedade e como a começou a transformar. O pior para mim foi estar afastado da minha filha.
Acha que as condições que teve na cadeia que acabou de referir surgiram porque o seu pai foi uma figura pública em Angola?
LB: O meu já faleceu em 2006 e os meus colegas também estavam em celas solitárias, privados de ver-nos, eu até fui adicionalmente privado de ter visitas depois e houve um episódio de revolta pela forma como nos estavam a tratar. Mas, nesses 3 primeiros meses todos os que tiveram na mesma prisão do que eu, sofreram o mesmo tratamento, não houve nada diferenciado.
Então o que notou é que graças a uma campanha internacional houve um tratamento diferente? Porque outro tipo de presos que não tiveram os holofotes mediáticos e as acções de organizações não governamentais por detrás teriam recebido o mesmo tratamento?
LB: Eu tenho a certeza quase absoluta que sim, não o posso comprovar, teria sido diferente senão fossem os holofotes mediáticos. Eu conheço pessoas que neste momento são presos políticos que não estão a ter o mesmo tratamento. E quanto mais eles podem torturar as pessoas, ao priva-los dos seus direitos plasmados na lei prisional, eles fazem-no sem hesitar. Só quando as pessoas conseguem passar a mensagem cá para fora é que eles acabam por ceder. Tenho a noção com toda à atenção que tivemos eles tiveram mais cuidado, mais ou menos.
E as pessoas que referiu que estão presas e a sofrerem todo o tipo de tortura, o Luaty é a sua voz cá fora agora?
LB: Não gosto de me arvorar da voz. Eu sou mais um, é o que tenho tentado ser e não ser singularizado dessa forma. Portanto, continuo a fazer o que fazia antes de ser preso e colocar o foco nas injustiças que acontecem em Angola, mas de maneira nenhuma me considero representante dessas pessoas. Se me considerarem um deles já me considero reconhecido.

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