Um olhar sobre o mundo Português

Voltei depois de um muito necessitado hiato e agora apresento uma edição recheada de experiências e multiculturalidade. Seja bem-vindo de novo

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

quinta, 27 outubro 2016 15:22

O ilusionista do caos

E se por instantes parássemos para pensar no infinito número de coincidências. Esta é uma das premissas do novo espectáculo de Luís de Matos, sobre a teoria do caos, em tournée nacional, que apresenta novas ilusões, transformações do efeito borboleta que transportam o espectador para um momento que nunca mais se repetirá no tempo.

Demora muito tempo para montar um espectáculo como o “Chaos”? Já que um dos truques começa em 2011.
Luís de Matos: Cada espectáculo demora uma vida inteira a preparar, porque cada show não é o resumo dos dois ou três anos que dedicámos mais a um determinado projecto, nele se vê reflectido toda uma vida, uma carreira, uma experiência, um conceito estético e uma maturidade que é só possível ter se considerarmos todos os anos para atrás. Respondendo à pergunta, sim, demora dois a três anos a preparar, mas neste período de tempo não se faz tudo o que esta aqui, isto é uma evolução de toda uma vida dedicada à magia.

25 anos de carreira, olhando para átras, houve alguma coisa que não fizeste ainda ou te arrependeste de fazer?
LM: Arrepender não me arrependo de practicamente nada, sobretudo das coisas más, porque são elas que nos fazem crescer, que nos dão uma maior atenção, maturidade, cuidado, mestria e isso vem tudo com os erros se cometem ao longo da vida, não mudaria nada. Se há coisas que gostaria de fazer e não fiz ainda, milhares delas e são elas que quero fazer cada dia.

Tu és quase um atleta, tens de treinar o teu corpo intensamente para alguns dos truques que apresentas que são muito exigentes fisicamente, é-te mais fácil actualmente entrar nesse estado de espírito com o passar dos anos?
LM: Provavelmente quando se somam experiências e quando o que faço é feito por paixão e gosto. Eu o desenhei e tive a ambição de o fazer assim, enfim é algo que faço sempre com grande prazer numa tentativa de auto-superação e de não desapontar as pessoas que acompanham mais de perto o meu trabalho.

Durante o espectáculo disseste que vês os shows de outros mágicos. Há um certo medo de repetição? Por vezes pensas num truque e depois aparece no trabalho de outro mágico.
LM: Sim, claro, acontece por várias maneiras. Ocorre quando esse mágico se dedica ao plágio e copiou coisas que já viu antes, pode também acontecer porque esse profissional teve uma ideia semelhante e não tenha visto nada antes, pode suceder por muitas circunstâncias. Agora, eu procuro despertar a minha concorrência, sou eu que procuro ser melhor hoje do que ontem, só isso faz com que valha a pena o meu dia-a-dia, o meu esforço, a minha paixão, só vale a pena ser melhor do que fui ontem e espero que amanhã seja muito melhor.

Achas que os portugueses ainda gostam de magia ou nem por isso? Já que nos últimos anos a tua carreira tem-se centrado mais em Espanha.
LM: Acho que todas as pessoas gostam de magia com qualidade e há muito que partiram da ideia estereotipada de um mágico de cartola que faz aparecer lenços e pombas e hoje querem mais. Com a internet, com os canais de televisão e as viagens as pessoas estão à procura de uma magia mais contemporânea, que possa ombrear com as outras formas de arte, mas que não cheire a mofo, que tenha um toque de contemporaniedade permanente e isso é o mais importante.

Tu organizas festivais de magia, ao nível nacional, tu notas que há cada vez mais jovens entusiasmados com o ser mágico?
LM: Não só nos festivais de magia que organízamos, mas no final de cada espectáculo eu tenho sempre 4 a 10 jovens mágicos que mostram truques e habilidades com cartas, coisas especiais e acho que isso é prova que a magia como arte transversal, como forma universal de comunicação que continua a apelar, enfim, a todas as idades. Existem, contudo, jovens que derivam facilmente para uma profissão hoje e amanhã querem outr e há um dia que querem ser mágicos, para alguns isso acaba por ficar, que é o meu caso.

Existem várias promessas nacionais que não conseguem fazer carreira cá. Tu, embora tenhas começado em Portugal, eras practicamente o único na altura, agora, que conselhos dás aos jovens tendo em consideração que não podem estar restrictos as fronteiras do seu país?
LM: Eu acho que o conselho que dou aos jovens que querem ser mágicos, é o mesmo que dou aos que querem ser médicos, advogados e agricultores, ou políticos, é que estudem línguas, aprendam a falar o maior número possível de idiomas. Falar inglês, francês e espanhol são passaportes para a vida, são formas de que nos permite conhecer as ideias dos outros para além daquelas com quem partilhámos um país. Para mim aprender línguas é o mais inteligente e rentável investimento que qualquer pessoa em qualquer idade, principalmente os jovens podem e devem fazê-lo.

Há alguns dos jovens mágicos nacionais que de facto admires?
LM: Ao nível nacional gosto do trabalho do Tiago Morgado e do João Blümel que apresentam trabalhos originais, independentes e sérios. A propria selecção natural se vai encarregando que uns triunfem mais do que outros e isso tem a ver com o agrado que conseguem suscitar junto do público, na perseverança que tem no seu trabalho e na procura constante de se auto-superarem e, portanto, acho que o tempo decide quem é que fica e quem é passageiro.

Tens algum nemesis?
LM: Não, acho que aquilo que a minha força é a vida, é o estar, não tenho nenhuma dependência para além daquela que é acordar e ter o prazer enorme de estar vivo e poder ser dono do meu tempo.

E ao fim de 25 anos ainda continuas apaixonado pela magia do que quando começaste?
LM: O mais possível e isso é de facto o mais surpreendente, porque para mim o que marca é o segredo de fazer o que faço, a paixão que sinto pela minha profissão, mas se a perder terei que ter a coragem suficiente de me afastar.

Se não fosses mágico o que serias?
LM: Não sei, poderia trabalhar num Mac Donald, podia ser realizador, presidente de Câmara, taxista, nunca se sabe, é difícil saber o seríamos se não fossemos o que somos, porque somos o resultado de todas as escolhas que fizemos na vida, é disso que fala a teoria do caos e do efeito borboleta. As pequenas coisas que fizemos ao longo da vida acabam por ter repercussões grandes e acabam por determinar o que acontece ao longo dos nossos dias e isso tudo é belo.

Achas que há um ponto em que vais ter de reformar? Olhando para a tua carreira e pensando que atingiste o ponto.
LM: O ponto esta decidido desde o início da minha carreira, no dia em que deixar de gostar.

Sim, mas muitos dos teus truques dependem do teu corpo.
LM: Sim, aquilo que foi utilizando em cada ilusão foi variando ao longo dos tempos, não é preciso depender do corpo para criar truques, há uns que se criam com palavras, pensamentos e outros sentado numa cadeira. Há ilusões para todo o tipo, isso é o mesmo que dizer que só as pessoas com dedos longos é que podem tocar piano, ou podem ser pintores, existem pessoas que não tem mãos e pintam e há quem toque com os pés. A magia esta cheia de histórias de auto-superação que mostraram precisamente que não existe uma fisicalidade absolutamente necessária para criar ilusões, é uma questão de estética, de gosto e apetência para usar aquilo que temos, mas no meu caso é perfeitamente claro, no dia em que não gostar de fazer o que faço, tenho imensas outras coisas para ocupar o meu tempo.

terça, 04 outubro 2016 15:09

A terra das vacas felizes

  

É o início de um períplo pela maior ilha do arquipélago dos Açores.

Dizem que não há duas pessoas iguais, excepto os gémeos verdadeiros e mesmo esses tem diferenças quase indeléveis, o mesmo se aplica às ilhas Atlânticas, podem ter
pontos em comum, mas são totalmente díspares. É o caso de São Miguel, a maior das ilhas do Arquipélago dos Açores, cuja beleza serena e ondulada entra pelos olhos a dentro em várias tonalidades de verde que nos deixam sem palavras. Ponta Delgada fica a cerca dez minuto do aeroporto, mesmo com trânsito em hora de ponta! Estou a brincar, a circulação rodoviária nesta ilha é tão calma como a sua paisagem, só comparável a uma estrada interregional algures no Alentejo mais profundo. Vale a pena alugar um carro, porque graças a gestão ponderada do governo local, a via rápida que atravessa da ilha permite uma condução segura, as estradas regionais estão em excelente estado de conservação e mesmo os acessos secundários são muito bons e acredite, mesmo os condutores menos experientes não terão dificuldades, é evidente que dentro das localidades as vias estreitam-se, nada não que não seja manejável, se percebem o meu bom português.
São Miguel vale a pena ser visitado em qualquer altura do ano, devido ao seu clima temperado, onde se pode desfrutar dos micro-climas, ou seja, ao longo do dia, chove, fica nublado e faz sol. No verão, por outro lado, a humidade pode rondar os 90% o que é um desafio especialmente de noite para dormir, mas nada que um bom ar condicionado não possa resolver.
Ao sair de Ponta Delgada o que chama mais à atenção são pastagens pontuadas com vacas malhadas pretas e brancas e deixem-me que vos diga, não há animais mais felizes que estes, elas pastam sem problemas todo o dia, porque é tudo plano e como o clima é tão ameno, comem erva fresca todos os dias, depois há campos e campos de milho transgénico que mais tarde é seco e serve como forragem para as vacas, daí que elas produzam o melhor leite, manteiga e queijo ao nível nacional, é tudo uma delicia e de chorar por mais.

A primeira paragem, como é da praxe, é a visita aos lagos, a mais famosas das quais, das sete cidades com a sua coloração azul e verde, que segundo reza a lenda, advém das lágrimas vertidas por uma princesa de olhos azuis de um reino encantado e um humilde pastor de olhos verdes que se apaixonaram perdidamente e perante a impossibilidade de serem felizes para sempre choraram copiosamente a sua tristeza e magicamente criaram os dois lagos unidos para toda a eternidade. Uma história que vale a pena recordar no miradouro do rei à medida que o nevoeiro denso se iça lentamente para mostrar a beleza sem paralelo destas duas caldeiras e toda a paisagem verdejante circundante. Descendo pela estrada sinuosa sempre rodeada de tufos de hortênsias e campos cobertos de amarelo das flores conhecidas como roca-da-velha, chegámos a ponte que divide os dois lagos e a perspectiva é ainda mais impressionante, pela sua paisagem em profundidade. É uma visão de 365 graus em que as paredes verdejantes banhadas pelas águas calmas e profundas mudam consoante a cor do lago, como é Domingo apenas se ouve o sibilar de uma brisa, o pio das aves e o tocar do sino para chamar os fiéis para a pequena igreja da localidade com o mesmo nome, as Sete Cidades, mas porquê esse nome tão invulgar?
Mais uma vez uma característica lendária mistura-se com a realidade, um açoriano de nome Fernão Telles afirmava que São Miguel era a famosa “insula septem civitatum”, uma referência histórica mediaval que assegurava que havia uma ilha algures no Atlântico ocidental, rodeada de lagos e rios, onde viviam sete povos em sete cidades diferentes, e como se pensou que esta ilha portuguesa correspondia a localização da lendária Antilia, o nome ficou. Não deixa de ser quase inverossímel que dois lagos inspirem tantas histórias míticas, quase diria que os colonizadores e os reis que os governaram não passavam de uns românticos.
A segunda lagoa que merece um vista de olhos é a do Fogo, a maior da ilha de São Miguel com cerca de 1,360 hectares, que deve o seu nome ao vulcão que a criou e cuja última erupção data de 1563, sendo que o que mais impressiona nesta caldeira é o seu azul tão profundo que parece que uma parte do mar se perdeu em terra.
A terceira porção de água doce que vale a pena referir é a lagoa das furnas, onde estão localizados os fumeiros vulcânicos onde se faz o famoso cozido, que como é tradição comi, mas devo confessar que prefiro a versão original, cozido à portuguesa. A paisagem circundante é idílica, o cheiro que provém da água borbulhante vulcânica é que pode “estragar” um pouco a experiência, mas ao mesmo é impressionante como estámos perante um submundo subterrâneo que se manifesta de forma tão poderosa, a natureza aqui domina e parece que se deixa domar, mas nem por isso, somos meros convidados de um ecossistema maravilhoso e encantado, como nas lendas.

terça, 04 outubro 2016 15:02

Jóias de escamas

 

Isabel Silva Melo é licenciada em Escultura pela escola superior de belas artes do Porto, uma formação que em muito contribui para as suas peças de bijutaria de autor feitas de escama de peixe, que modernizam uma tradição secular açoriana.

Primeiro queria abordar esta técnica ancestral das escamas de Peixes nos Açores.
Isabel Silva Melo: Sim, que eu tenha conhecimento é uma técnica utilizada desde o século XVIII, na altura os pescadores tinham embarcações muito pequenas e quando não iam com muita frequência ao mar esta era forma que as esposas tinham de ajudar na economia familiar, durante o inverno. Habitualmente trabalhava-se sempre em branco, faziam-se pequenos palmitos para ornamentar as imagens religiosas, era uma arte destinada unicamente ao contexto religioso, em comunhões e baptizados para ornamentar também as crianças. A escama do peixe era trabalhado com um canutilho, que era um fio prateado ou dourado, ainda utilizo esta técnica como no contexto religioso, mas uso a cor evidentemente. Para usar esta técnica em termos de bijutaria retiro o cantilho e aproveito a própria configuração da escama que é linda, é quase como fosse um apontamento de uma pétala e depois “brinco” com este material.

É qualquer tipo de escama de peixe que se pode utilizar?
ISM: Não, habitualmente nos Açores trabalha-se com vários peixes, mas eu gosto mais da veja, porque tem uma escama grande e tem um desenho de uma pétala, neste caso em concreto a fêmea é vermelha e mais chamativa, ao contrário do que acontece na natureza onde os machos são mais exuberantes, aqui são cinza-acastanhado e não tem piada nenhuma. Também gosto do bodião porque tem uma escama longa, que dá a sensação de folhas pequenas, existe ainda a tainha que cá se trabalha imenso, mas eu não gosto muito.

Quais são os desafios que enfrenta utilizando esta técnica ancestral para a confecção de brincos, alfinetes e outras peças de bijutaria?
ISM: Eu tive uma formação promovida pelo centro de artesanato e pelo museu, era um workshop de escamas de peixe onde aprendi a trabalhar a forma tradicional com o canutilho, mas depois cheguei a casa começei a “brincar” com o material e tive a sorte de gostar muito da escama do ponto de vista plástico, elástico, de flexibilidade e começei a trabalhá-lo à minha maneira. Eu tenho tenho de vergonha de dizer, mas é fácil, eu dobro, redrobo e faço o que quero, vou inventando e as peças vão saindo.

Qual é a peça que as mulheres gostam mais?
ISM: Talvez os brincos inspirados nas bungavílias, tudo aconteceu num dia que estava a chover imenso, eu tenho uma planta enorme em frente de casa e depois decidi transpor isso para a escama. O primeiro que fiz tinha quatro pétalas, depois apanhei uma flor e vi que tinham apenas três e agora os brincos são executados com esse número de escamas.

E qual é a peça mais emblemática que produz? Que diga logo que é Isabel Silva Melo?
ISM: Eu não sei dizer.

Ou o que distingue o seu trabalho de uma outra designer de jóias que use escamas de peixes?
ISM: Não sei explicar, isso vai ter de perguntar as minhas clientes.
(risos). Eu estou sempre a variar as peças, não as faço da mesma forma como no início, foi cerca há ano e meio que dei início ao projecto, gosto de introduzir outros materiais, desde o acrílico, a renda, o bordado, vidro murano, gosto de ir misturando e conjugando materiais inusitados que não fariam parte deste contexto. Tenho agora um artesão da ilha da Santa Maria que me vai trazer pedras polidas e quero ver como isso funciona. Adoro “brincar”, faço a conjugação das cores consoante a época do ano, tenho agora uma colecção de inverno, para além da de verão.

terça, 04 outubro 2016 14:59

A ode de antero de quental

Este acoriano nascido na ilha de São Miguel é um dos nomes incontornáveis da poesia moderna portuguesa e não só, foi também filosófo e uma das vozes mais activas na revolução social que culminaria com a implantação da República. Este é apenas uma singela homenagem a um dos grandes vultos da cultura portuguesa, no ano em que o 5 de Outubro de 1910 voltou a ser feriado.

Panteísmo

I

Aspiração... desejo aberto todo
Numa ânsia insofrida e misteriosa...
A isto chamo eu vida: e, deste modo,
Que mais importa a forma? silenciosa
Uma mesma alma aspira à luz e ao espaço
Um homem igualmente astro e rosa!
A própria fera, cujo incerto passo
Lá vaga nos algares da devesa,
Por certo entrevê Deus – seu olho baço
Foi feito para ver brilho e beleza...
E se ruge, é que a agita surdamente
Tua alma turva, ó grande natureza!
Sim, no rugido há vida ardente,
Uma energia íntima, tão santa
Como a que faz trinar a ave inocente...

A obra de Antero Quental rompe definitivamente com o ultra-romantismo vigente da época e Odes Modernas, que é o seu primeiro livro de poesia, é o exemplo perfeito da nova literatura moderna portuguesa que emergia no final do século XIX. Este livro assume particular relevo já foi editado no ano da famosa questão Coimbrã, uma polémica literária, encabeçado por um grupo de jovens escritores do qual Antero era uma das vozes mais activas, que defendia que a visão literária ultra-romântica da época estava ultrapassada em relação aos novos ventos da modernidade que se estendiam por toda a Europa. Odes Modernas acaba por ser uma obra que reflete um novo estilo de literatura mais realista, com um certo tom revolucionário, que aborda as realidades sociais do Portugal de então fazendo o contraponto com o homem moderno dilacerado pela sua própria luta interna entre a fé e a razão. Esta ainda subjacente neste livro o ideal socialista que traria progresso à nação e o conceito de um mundo novo mais justo e equalitário. Mais do que um escritor, Antero de Quental é a personificação do novo homem moderno português, que rompe definitivamente, através da sua militância política, para além da sua escrita acutilante e provocatória em jornais e revistas, com o “status quo” vigente, num país à beira da ruptura ideológica, económica e social que mais tarde se traduziu numa jovem República. Infelizmente, este grande vulto da cultura portuguesa, não chegou a viver o suficiente para ver essa nova nação já que se suicidou em Setembro de 1891 aos 49 anos de idade, se tivesse resistido aos seu demónios internos 19 anos mais tarde teria provavelmente visto com o seus próprios olhos, a implantação do Portugal republicano.

terça, 04 outubro 2016 14:54

O arriscar nos outros

Gil Sousa é o coordenador do serviço socio-laboral da associação Arrisca, uma instituição de solidariedade social (IPSS), na ilha de São Miguel, que visa a inserção na sociedade e no mercado de trabalho de grupos de risco, ou com deficiências.

Fale-me um pouco sobre o que é “Arrisca Experience”.
Gil Sousa: A “Arrisca experience” é uma valência de uma IPSS, uma instituição de solidariedade social, que foi criada em 2007, nos trabalhámos com um público em situação de exclusão grave, falo dos toxidependentes, perturbações mentais, com pessoas que foram deportadas dos EUA e do Canadá e temos quatro unidades formativas e produtivas onde procurámos trabalhar a vertente de inclusão social, através do trabalho. Na área da cerâmicas temos as loiças regionais, os barreiros de azulejo, as figuras tradicionais, ou seja, procurámos representar algumas das profissões que estão a cair no esquecimento e procurámos trabalhá-las. Depois temos a vertente de carpintaria onde procurámos criar mobiliário diferenciador e trabalhámos à base de encomendas, não temos uma loja com as peças expostas, mas produzimos consoante a necessidade das pessoas. Também há um outro projecto nas madeiras, que é produção de mobiliário “eco-friendly”, através do aproveitamento das paletes fazemos vários tipos de móveis e tivemos alguns projectos interessantes com o “cais da sardinha”, o “eco beach resort” e alguns alojamentos que tem aderido muito a esta moda, porque é mais apelativo e sustentável. Para finalizar temos as equipas da jardinagem, vamos as residências das pessoas e oferecemos os nossos serviços. O que procurámos fazer é uma diferenciação dentro dos serviços nestas áreas, para colmatar as necessidades que as possam.

No início referiu que são artes em desuso, por isso foi necessário dar formação.
GS: Sim, a equipa é constituida por monitores que ajudam os utentes a serem integrados nestas diferentes valências que já referi anteriormente, são profissionais que tem formação nestas áreas, procurámos incutir nos utentes essas formações Também estámos abertos à comunidade, temos muitos workshops em que as pessoas podem efectivamente participar e aprender, por exemplo, a pintura regional de loiça ou em azulejo, os presépios, aqui, em São Miguel temos uma tradição de ser feito em redoma e fazemos desde as peças em miniaturas, os bonecos da lapinha até a própria concepção da peça artesanal em si. Realizámos estas formações abertas ao público também como forma de combater o estigma do nosso público-alvo e de envolver a comunidade neste processo de inserção.

Dos diferentes tipos de utentes que possuem, vocês deixam que eles escolham a arte que pretendem desenvolver ou não?
GS: Nós procurámos fazer um “job matching”, ou seja, adequar as capacidades, as competências e a experiência que essa pessoa já teve com as áreas que já possuímos, no entanto, pode haver uma pessoa que tem o gosto pela carpintaria, sem nunca ter tido qualquer tipo de experência, e pretende aprender porque tem essa motivação, nõs proporcionámos também essa possibilidade. Depois também fazemos uma ponte com as empresas, porque o objectivo ao longo-prazo seria a integração destas pessoas no mercado de trabalho, tentámos sempre encontrar sempre uma oportunidade de emprego.

Qual destas áreas tem havido uma maior inserção de utentes no mercado de trabalho?
GS: Hoje em dia estámos num mercado cada vez mais competitivo, as empresas procuram ter do seu lado os melhores e mais competentes, infelizmente, o nosso público-alvo é caracterizado por baixas habilitações literárias, tem algumas problemáticas associadas, não podemos falar, nem quantificar uma área com taxa de sucesso. O que posso dizer é que já tivemos situações em que algumas empresas no contactaram para obter pessoas para trabalhar nas obras, o que foi muito bom na altura, estámos a falar do período em que houve um boom na construção civil e aí as empresas não se importavam se a pessoa foi deportada, ou se tinha problemas, ou um passado. Infelizmente, hoje em dia, as coisas já não são assim, estão mais complicadas, temos imensas pessoas desempregadas e cada vez mais com qualificações e costumámos dizer que os nossos utentes estão na base da pirâmide com poucas qualificações e problemáticas associadas a competir com pessoas licenciadas e com outras formações. Daí a importância destas valências, destas competências que temos nas nossa instituição com programas que nos final permitem que as pessoas possam usufruir de um salário por mês, o que acaba por ser muito benefico.

Quantas pessoas estão inseridas nesta IPSS?
GS: A associação Arrisca acompanha mais de mil utentes, não é nestas valências de que falei, esta é uma pequena parte, temos também um serviço psicossocial que é composto por assistentes sociais, psicólogos, educadoras sociais, sociológos e monitores de inserção social. Possuímos ainda um departamento clínico com médicos e enfermeiros, onde trabalhámos todas as vertentes da reabilitação social desde os mais pequenos até na prevenção juntos dos mais idosos, o objectivo é acompanhar todas as fases da vida destas pessoas.

http://www.arr1sca.pt/

terça, 04 outubro 2016 14:44

Se os pratos falassem

As artes decorativas nas casas reais portuguesas eram de elevada importância, não só por uma questão de gosto, mas porque exibiam o que de melhor se produzia em termos de peças de porcelanas, baixelas e vidro ou cristal, ao longo dos séculos XVIII e XIX e eram sobretudo um sinal de poder, como descreve a especialista do Palácio da Ajuda, Cristina Neiva Correia.

Num jantar do século XVIII as pessoas tem uma mesa simétrica, arrumada muito preenchida e a refeição desenvolve-se como uma peça de teatro, por cobertas que vão apresentando os alimentos em conjuntos em cima da mesa que são descobertos, até os guardanapos eram apresentados em várias formas de animais e possuiam muitas peças de prata, tudo isto é o teatro de comer, tem a ver com uma ideia de poder através dos objectos de una etiqueta codificada e da exposição dos artistas que trabalharam estas peças, são cerimoniais do tipo da corte de Luis XIV.

 
Com a subida de Napoleão ao poder surge o gosto pelos dourados, a conquista dos territórios, as guerras, obrigaram a entrega das pratas. Em Portugal temos um conjunto que é uma referência, de peças que marcariam o centro da mesa e vai-se adaptar peças em dourado, onde se colocam os candelabros e até alguns apontamento de biscuit, mas só para ilustrar, porque a prata deixa de ser utilizada. Mas, como o nosso país não andava a conquistar território, considera estas peças tão especiais que as guarda como tesouros e quase não existem baixelas francesas fora do seu país de origem. Não desaparecem, foram convertidas em dinheiro, era para isso que serviam as peças em prata para entesourar, quando a coroa francesa precisava de dinheiro para o esforço da guerra mandava os nobres contribuirem e por isso as peças derretiam-se, o trabalho artístico não é considerado relevante. Portanto, hoje em dia, para estudar ourivesária do século XVIII, que foi o que eu estudei, impõem-se uma visita aos museus portugueses, o que é interessante.
Nesses centros dourados vai haver também muita cor por via das flores e dos frutos, que são muitas vezes apresentados em pequenas pirâmides e que ficam ao longo da refeição. O Dom João VI tem serviços extraordinários no Palácio de Queluz, mas a maior parte esta no Brasil, vindos sobretudo de Inglaterra e tem alguns serviços franceses, são muito simples e vão atravessar todo o século, em círculos concêntricos todos demarcados, que vai iradiar com elementos decorativos. No século XIX os pratos começam a ser assimétricos, com motivos botânicos, de fauna sobretudo, retratos de trajes regionais, são tirados de estampas que circulam pela Europa toda e não é uma excepção, já que circulam estes estilo pelas restantes casas reais porque todos querem estar ao mesmo nível, embora a casa real inglesa tem peças mais brilhantes e maiores, mas são pequenos pormenores, na generalidade todos se abastecem nas mesmas fábricas e acompanham esses estilos.

Os serviços de Dona Carlota Joaquina eram absolutamente absolutistas, esta senhora tinha um gosto fantástico e o palácio do Ramalhão tem um recheio extraordinário e riquíssimo. Ela tem a chamada lenda negra, que já vinha da mãe e que interessava denegrir, tinha uma feitio especial, peculiar, mas tinha muitíssimo bom gosto basta ver o arrolamento do Ramalhão. No Palácio da Ajuda existem dois depósitos, o museu consegue, por vezes, comprar peças destes outros reinados, é o caso dos frescadores da copos que haviam na mesa, são peças que cairam em desuso, mas que permitiam manter os copos frescos.

Dona Maria II no palácio das necessidades, em 1840, o inventário é um infindável de conjuntos de mesa, há duas vitrines do Paço de Vila Viçosa, que serve para mostrar os pratos com flora e fauna, paisagens, com cores densas, são muito decorados, onde não se vê muita porcelana, embora seja muito apreciada pelo branco, quanto mais branco e menos defeitos tem melhor é.

 

Há alguns reinados em que as peças escasseiam e interessa-me chegar à Dona Maria Pia e Dom Luís I, porque a colecção era muito maior. Chegámos a uma certa altura em que os centros de mesa são invadidos por flores, neste período, as peças de prata suportam as flores, às vezes são de vidro, ou cerâmica, os calendrados, que tem uma colecção extraordinária, com cerca de 16 mil peças de cerâmica, de mesa e as restantes decorativas. O acervo é grande, porque é uma casa real, a rainha durante vinte anos vai fazendo compras, ela tem muita fama de ser gastadora, mas aos poucos eu noto que ela faz um esforço notável com uma economia de meios de conseguir manter a representação da corte com dignidade. A disposição da mesa é feita de acordo com João da Mata que tem uma grande importância para a corte portuguesa, uma mesa de festa privada, é sempre feita com os serviços mais simples, sem os vidros venezianos, que tinha um menu, as pessoas sempre sabiam o que iam comer, na década de oitenta, mas não depois. Temos o guardanapo colocado no prato raso, designado por prato de guardanapo, só se coloca à esquerda no que se designa serviço de hotelaria, à francesa, o chique é ao centro. Os talheres são dispostos à inglesa, em crescendo pelas laterais, ocupavam muito espaço, talvez por isso as mesas são mais espaçosas.

No final do século XIX os serviços tem nome, porque eram produzidos por artistas, mas já se vediam por catálogos, são mais económicos e D. Maria Pia acompanha o gosto europeu, temos peças Vista Alegre e Limoges. Ela anota tudo que esta partido, o que falta, para substituir nos Palácios da Pena e do Estoril, que necessitam de serviços funcionais. Esta rainha tem porcelana francesa, com peças neo-góticas, e neo-renascentista, a prata é sempre um símbolo de riqueza. O centro de mesa, é o que traz no seu enxoval de casamento, da baixela Berran, um ourives francês, são peças destinadas para frutos, ou flores, ou ainda que tem capacidade para um globo com peixinhos. O vidros que tem várias correntes,são venezianos, apelidados de Marguerita uma homenagem à sua cunhada, com cor para o vinho branco e o vinho Madeira era sempre o que usava para acompanhar a sopa, tudo esta na mesa, e quando chega a sobremesa todos os pratos são substituídos. A casa real tem porcelana oriental em quantidade extraordinária e cada produção ajuda a avalizar os reinados.
As salas de jantar nesta altura ganham um lugar fixo, até então as pessoas colocavam-na onde queriam e é nesta época que também recebe à atenção dos arquitectos e torna-se no eixo central da casa, na verdade a aristocracia e a casa real vão ter salas de gosto renascentista, que são feitas já na década de 60 e 80, a Dona Maria Pia usufrui desta sala, temos as cadeiras de couro lavrado, ao fundo de uma lareira, os grandes aparadores onde se preparam os pratos, eles são servidos empratados, o que se esperava de uma sala de jantar de qualidade?


Havia quatro moços da prata, vestidos de preto que tinham de trazer e levar tudo, não havia conversa com a dona da casa, tudo era codificado, planeado e executado ao milimetro. Na clivagem do século XVIII para o seguinte é fundamental o serviço à francesa e temos os testemunhos memorialistas, entre eles, Tomas Melo e Breiner que é quase uma biblia, porque conta tudo ao pormenor o que ia acontecendo, ele fala até sobre o cozinheiro do paço que era o Custódio que enfeita os pudins com as pernas de veado, faz bolos, o que é estranho porque ele aparece a fazer tudo e a pastelaria era uma secção separada, estes pratos levavam horas a preparar e davam também a ideia de riqueza. É ele que disse que a rainha Maria Pia tinha um porte de grande elegância, nunca comia mais do que lhe punham no prato, nunca recusava o que lhe serviam e estranhamente comia fruta com a mão. O rei Luís I, por outro lado, comia dieta e ainda o que outros comiam e pão com manteiga, segundo o testemunho de Vital Fontes
No fundo os objectos da mesa, reflectem o lugar do poder, especialmente no século XIX, como marca social, distingue-se quem é quem pela forma de estar na mesa, por saber manusear também uma finita quantidade de objectos que são criados para isso mesmo, para atrapalhar aqueles que não pertencem ao grupo, mas todas as peças tem uma marca de posse, tem um monograma real, tem a heráldica, dos respectivos reis, isto permite-nos datar, registar e estudar a evolução do gosto nesse período.

 

http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosListar.aspx?TipoPesq=2&NumPag=2&RegPag=50&Modo=1&Criterio=pratos

terça, 04 outubro 2016 14:34

A última praia

A Plataforma livre de Petróleo e a Quercus lançam campanha em defesa dos da costa do Algarve.

Apesar de o mundo inteiro já se ter apercebido que as energias renováveis são o futuro, os anteriores governos de Portugal criaram condições e incentivos para a prospecção, pesquisa, e exploração de hidrocarbonetos nos mares da costa Algarvia. Por esse motivo foi criada a Plataforma Algarve Livre de Petróleo (PALP) uma organização que surge na sequência da iniciativa de um conjunto de cidadãos e entidades insatisfeitos com a perspectiva da perda irreparável de vários ecossistemas ao longo da costa desta região do sul de Portugal.
Um dos principais objectivos desta plataforma é alertar a população para os riscos inerentes à exploração de hidrocarbonetos nesta região, incentivar um debate público sobre as consequências de uma tomada de decisão desta natureza, exigir um estudo de impacto social, económico e ambiental, e ainda, pressionar o Estado para publicar toda a informação inerente à prospecção, pesquisa, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural em Portugal. Uma das suas mais recentes acções foi a entrega na Assembleia da República de uma petição que poderá salvar os interesses de todos nós, cidadãos e acima de tudo, do nosso frágil ecossistema.
Mas não chega. Daí que tenha sido essencial a parceria com a Quercus e duas agências de comunicação para a criação de uma campanha que pretende alertar a população para os riscos da perda destes ecossistemas e do que se pretende proteger de uma forma mais simples e acessível através das redes sociais. Por isso, apela-se a todos que passem a mensagem, que partilhem os vídeos que aparecem no final deste texto, utilizem as imagens, assinem a areia da praias preferidas e partilhem com o hashtag #thelastbeach.

http://www.palp.pt/

http://www.quercus.pt/

 

 

terça, 16 agosto 2016 19:09

Biquíni versus fato de banho

É mais um daqueles textos que pretende ser uma reflexão sobre os padrões de beleza actual.

Chegadas ao verão e não há nada mais refrescante do que um mergulho no mar, ou na piscina e aí começa também um dos maiores dramas femininos, biquíni ou fato de banho? Eis a questão. E embora o mercado ofereça todo o tipo de peças, padrões e feitios o facto é que o maior problema para as mulheres não é a escolha, o que pesa mesmo são os potenciais olhares condescendentes ou comentários mordazes que os outros fazem à nossa escolha. Lembrei-me deste tema por causa de uma notícia recente sobre uma mãe norte-americana que usou um biquíni, tirou uma foto para mostrar nas redes sociais e o que tinha a imagem de tão especial que gerou uma enorme discussão e inúmeros comentários preconceituosos? Qual foi o verdadeiro busílis? Apenas que o corpo dela mostrava estrias e um pouco de pele flácida resultado da gravidez e uma senhora tinha-lhe dito na piscina pública que não devia usar biquíni porque via-se tudo, ficava feio e como era mãe não era apropriado. A resposta não se fez esperar e a jovem afirmou que não sentia vergonha do seu corpo, porque foi com ele que ela gerou um milagre, a sua filha, sentia-se confortável na sua pele, até tinha orgulho do seu corpo e se o seu marido não se importava com aquelas pequenas imperfeições, quem era ela para dizer seja o que for? Devo dizer que foi uma das melhores respostas que já li e não só apoio essa mãe, como também já me deparei com esse tipo de preconceito, o usar um biquíni depois do 30. De onde surgiu a norma de que é mais adequado usar fato de banho inteiro a partir de uma certa idade? Por ventura o biquíni esta apenas reservado para uso e usufruto das jovens adolescentes e das modelos do Victoria Secrets? E se não temos o corpo ideal, porque isso nos pode impedir de usar apenas duas peças? A verdade? É que a vergonha resulta dos comentários pouco abonatórios por parte de terceiros e o pior é que na maior parte dos casos são as próprias mulheres que em muitos casos incentivam esse tipo de maldizer de forma despudorada. Mas, poderão contrapor que não se trata de dizer mal, mas sim impedir que uma amiga passe vergonha, ou seja motivo de riso, ou seja apontada pela sua escolha. Não é um argumento válido, se uma pessoa se sente bem na sua pele, mesmo com as suas imperfeições e não há corpos perfeitos, porque não há-de usar um biquíni? E se pelo vistos isso incomoda mais os outros, porquê devemos preocupar-nos tanto com que os outros pensam? Sejámos francas quando vemos as imagens das actrizes e ex-modelos na praia com os seus corpos tonificados e magníficos não se esqueçam que elas antes estiveram meses a treinar com o seus personal trainers para preparar os seus corpos para a época estival, fizeram dietas, liposucções, tratamentos para as estrias e a celulite e o resto de nós comuns mortais temos de nos contentar com as nossas idas ao ginásio duas vezes por semana e com os cremes que adquirimos na farmácia à espera da um milagre! E como não existem, temos de assumir o que temos e que a força da gravidade é igual para todas, mesmo para aquelas que não tiveram filhos, infelizmente! Por isso, um conselho de amiga, que já disse mais do que uma vez, e que não me canso de repetir, use o que acha que lhe fica bem e que a faz sentir confortável, seja biquíni ou fato de banho. O que interessa é apanhar sol, nadar e descansar, sem complexos. Boas férias.

terça, 16 agosto 2016 19:08

52 anos de história

A biblioteca Municipal de Santa Cruz comemorou o seu aniversário. Uma efeméride que serviu de mote para um períplo de memória.

Um dos meus grandes amores são os livros e nem sempre ao longo da minha vida à minha família teve disponibilidade financeira para adquiri-los, mas graças à Fundação Calouste de Gulbenkian tive acesso as maiores obras e clássicos da literatura nacional e internacional, atlas, banda desenhada, livros de ficção científica e outro tipo de publicações que inundaram o meu imaginário e foram fonte não só conhecimento, como de deslumbramento. Tudo isto para falar de quê? Dos 52 de existência da biblioteca municipal de Santa Cruz, o meu local de eleição. Um aniversário singelo que serviu não só para assinalar a efeméride, como também para recordar um pouco a história deste espaço que foi inaugurado no dia 16 de Julho de 1964 com alguma pompa e circunstância, já que era a segunda biblioteca ao nível regional. Se antes do 25 de Abril de 1974 a afluência era escassa devido a um elevado analfabetismo da população, no pós-revolução tudo mudou como conta uma das suas ex-funcionárias, Maria Belita Abreu, que esteve ao serviço desta biblioteca durante 42 anos e recorda, “ no pós 25 de Abril começámos a ter uma influência incrível, houve uma grande necessidade por parte das pessoas de ler, era uma dificuldade encontrar lugar numa das três salas, estavam sempre cheias e as pessoas esperavam pela sua vez. Por vezes queríamos senta-las e os lugares já estavam todos ocupados, pediam todo o tipo de livros para sentar-se, tirar apontamentos e para estudar, era algo diferente”.
Ao longo do tempo a biblioteca foi ganhando o seu espaço, graças a uma outra revolução que se deu no ensino escolar, como sublinha a ex-bibliotecária “algumas professoras da escola primárias tinham o cuidado de quando começava o ano lectivo de apresentar a biblioteca aos seus alunos. Até nos intervalos das aulas, como as escolas eram próximas havia alunos que depois vinham levantar livros, com o passar do tempo os establecimentos de ensino foram ficando mais distantes e os hábitos mudaram”.
No ano 2000 há uma novo marco quando à Fundação Calouste de Gulbenkian decidiu doar todas as suas bibliotecas e os livros as autarquias portuguesas, nessa década, como sublinha “o fluxo de leitores foi decrescendo, primeiro porque as escolas abriram as suas próprias bibliotecas e posteriormente, os jovens começaram a estar mais ligados à informática e usavam mais os computadores para pesquisa e aí notou-se uma quebra”.
Mas, o que se lia há vinte anos? Maria Belita Abreu refere que “os mais pequenos liam a literatura mais tradicional, como o “Capuchimho Vermelho”, “Os três porquinhos”, mas também autores mais contemporâneos como “a Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada já que sempre tivemos os livros dessas autoras e elas sempre tiveram o cuidado no final do livro de abordar a questão histórica e isso prendia os leitores que queriam ver outro livro. Depois passou a ser uma leitura mais selectiva, porque passou a haver obras obrigatórias lidas pelos alunos nas escolas. Por parte dos adultos havia alguns que vinham procurar os filosófos, mas a maioria escolhia os escritores portugueses e estrangeiros, a partir de uma certa altura notou-se que as pessoas tinham uma sede de literatura que não só os clássicos. Liam uma citação e vinham procurar a obra, despois sugeríamos e até encaminhavámos esses leitores para outro autor, ou leitura. Um dos autores mais requisitados foi desde sempre “o Eça de Queirós, que passou a ser mais tarde a ser obrigatório nos estabelecimentos de ensino, através da sua obra, “Os Maias” que ainda o é hoje em dia. O nobel de José Saramago entusiasmou as pessoas para quem não o conhecia e isso também trouxe leitores”.
Em 2016, há um entusiasmo renovado pela biblioteca municipal de Santa Cruz, através de uma agenda de eventos cujo objectivo é tentar atrair mais jovens leitores a este espaço, contudo, o futuro das bibliotecas necessita de ser repensado, já que com advento das novas tecnologias, dos gadgets que permintem o download de várias obras literárias em poucos minutos e das consultas de informação especializada disponíveis online, a existência destas instituições guardiãs do conhecimento humano e da sua capacidade ilimitada de imaginação poderá ter os seus dias contados.

terça, 16 agosto 2016 19:02

A balada de Leonor

Leonor Teles é a joven cineasta portuguesa que ganhou o prémio pela melhor curta-metragem no Festival de Cinema de Berlim com o filme a “balada dos batráquios”. Um objecto de cinema que visa fazer reflectir e ao mesmo tempo é um testemunho sobre como é olhada a comunidade cigana por parte da sociedade.

Quando escreveste "balada dos batráquios” já era uma ideia inicial do guião entrar nas lojas e partir os sapos?
Leonor Teles: Sim, começou com essa ideia e depois todo o resto foi construído em torno dos sapos.

Depois da exibição do filme as pessoas abordam-te sobre essa questão, o desconhecimento sobre a simbologia dos sapos?
LT: Sim.
Que desconheciam?
LT: Sim, que não faziam a miníma ideia.
E achas que alguns dos sapos estavam lá, mas sem essa intenção?
LT: Sim, eu acho que os sapos não estão lá com esse intuito, mas muitos dos outros estão. A ideia do filme é tentar perceber se os sapos estavam com lá com essa intenção ou não, foi isso que tentámos fazer e os sapos que estavámos a partir tinham esse propósito.
E como descobriste que os sapos que estavam nessas lojas tinham esse intuito?
LT: Isso faz parte do processo do filme.
Como assim?
LT: Faz parte da minha maneira de fazer os filmes e toda a preparação.

Tu filmaste a curta-metragem com uma câmara especial, porquê?
LT: Porque a super 8 era o formato apropriado para contar esta história, não só por ter aquele granulado e colorido, um aspecto tosco e parvo, tinha a ver também com a temática do filme por se tratar de uma situação parva. O filme também acaba por ser um conto e esta relacionado com um imaginário com esse tipo de imagens antigas e coloridas que nos remetem para outro tempo que não agora.

Depois de ter ganho o prémio em Berlim e quando te deparaste com os teus familiares e amigos, entre as raparigas, as tuas amigas na comunidade, elas olharam para ti de forma diferente?
LT: Não tenho amigas na comunidade cigana.
Mas, um dos teus pais é de etnia cigana?
LT: Sim, o meu pai é, a minha mãe não, mas ele só mantém uma relação com os familiares directos, portanto, as nossas relações embora próximas não eram muitas.
E não tens primas?
LT: Eu acho que ficaram contentes.
Sim e as raparigas ciganas no geral tem uma tendência de sair da escola mais cedo. Tu, transcendes tudo isso.
LT: Sim, mas eu sou meia cigana, portanto, não dá para tomar-me como um exemplo tão abrangente, eu acho.

Agora que tens um prémio pesa-te muito para o teu próximo projecto? Em termo de expectativas?
LT: Não, acho que os prémios são bons e tem um aspecto positivo que é ajudam em termos de obter financiamento de uma forma mais fácil, mas temos que relativizar e não deixar que essa pressão nos afecte no trabalho seguinte.

E qual a tua perspectiva sobre o cinema português? De álguem que esta a chegar ao meio.
LT: Como assim?
Trata-se de um meio difícil para obter apoios, para alguém tão jovem como tu?
LT: É difícil, mas o cinema é algo muito difícil para os jovens que começam. Se as pessoas trabalharem e tentarem criar as suas próprias oportunidades aos poucos e poucos as portas vão-se abrindo e há novas perspectivas para os mais jovens. As pessoas tem de trabalhar, continuar a lutar e se tiverem poucos meios tentarem compensar de outras maneiras, mas tem de fazer filmes e levar adiante as coisas.

E como espectadora como vês o cinema português?
LT: Acho que às vezes os realizadores são bons e não são conhecidos por causa do preconceito em relação ao cinema português, porque é chato e aborrecido e por isso ninguém tem interesse em ver, mas essas pessoas tem de ser mais flexíveis, abrir mais e estarem mais predispostas a ver coisas novas. Se calhar assim iam gostar mais do que os portugueses fazem, porque há muito bom cinema que se faz e depois não tem lugares para serem vistos.

Tens algum cineasta de referência?
LT: Gosto do Miguel Gomes.

E a tua geração olha para o cinema nacional como algo menos chato e que se pode ver?
LT: Eu acho que na minha geração depende, as pessoas que trabalham no cinema da minha idade olham-no com outros olhos, vão ver os filmes e tentar compreender. Também temos uma formação que faz com que vejamos os filmes como é algo para pensar e não apenas como entretenimento. Os meus colegas não tem essa perspectiva, para eles, cinema é algo para os entreter, não o vêem como forma de arte para pensar e reflexionar as coisas.

Tu no teu próximo projecto vais continuar a usar a câmara super oito?
LT: Não.
Vais usar outro formato?
LT: Sim.
E vais continuar a fazer o circuito de festivais porque é a única forma de ser reconhecida?
LT: Não sei se as coisas podem ser postas dessa forma. As pessoas quando concorrem aos festivais lá fora é bom para algum reconhecimento e se houver esse sucesso no circuito de festivais internacionais, certamente abrem-se as portas para se estrearem o filme comercialmente.

Vais continuar no formato de curta?
LT: Acho que sim.
Mas, tens o objectivo de fazer um dia uma longa-metragem?
LT: Não, o meu objectivo é fazer um projecto de cada vez, trabalhando nas coisas a pouco e pouco e o melhor possível.

E sempre neste registo de espécie de documental?
LT: Sim, acho que o tenho para mostrar é mais nesta parte documental, mas ao mesmo tempo misturando um pouco outros registos, se olharmos para “balada dos bátraquios” não é um filme propriamente fácil de caracterizar.

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