Um olhar sobre o mundo Português

Voltei depois de um muito necessitado hiato e agora apresento uma edição recheada de experiências e multiculturalidade. Seja bem-vindo de novo

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

terça, 20 dezembro 2016 14:36

Floresta negra

John Gallo lançou um projecto fotográfico, que divulga em imagens e números a floresta ardida em Portugal nos últimos 35 anos.

O ambiente e o futuro do planeta são algumas das preocupações do fotográfo e foi nessa condição que surgiu o projecto fotográfico “Floresta Negra” destinado a transformar-se num movimento da sociedade civil. Um livro de fotografia, um website e uma campanha de sensibilização e educação são a trilogia que compõe esta iniciativa que, nas palavras do autor. O projecto fotográfico foi lançado na plataforma de crowdfunding até 22 de Novembro. Os montantes angariados, para além de financiarem os custos do projecto, serão atribuídos à Liga dos Bombeiros Portugueses. John Gallo recorda que “em 35 anos ardeu em Portugal o equivalente à área total da Holanda ou da Dinamarca” e que “metade dos incêndios florestais na União Europeia, ocorrem em Portugal”. Segundo dados já avançados, “42% do nosso país, 38 mil km2, arderam nos últimos 35 anos, em comparação com 12% de área ardida em Espanha, 12,2% na Grécia, 12,6% em Itália e 1,3% na França”. Convicto que para travar esta tragédia é necessária uma “mudança de mentalidades” este fotógrafo, distinguido internacionalmente desde 1998, nomeadamente com o galardão Joan Wakelin Award Royal Photographic Society, acredita que o seu projecto pode fazer a diferença. Um passo que pode dar ao ajudar nesta campanha em prol da floresta portuguesa e de todos os heróis anónimos que a tentam proteger, para tal basta aceder ao link em baixo.

http://www.florestanegra.chappa.pt/

quarta, 14 dezembro 2016 15:39

A meloteca

 

 

 É uma página dedicada à música e as artes em todas as suas vertentes lançada por José António Ferreira, professor de música e responsável pelo desenvolvimento do projeto "Campo da Música", em Avintes, Vila Nova de Gaia, um espaço pedagógico para oficinas de música e futuro espaço físico da meloteca.

Fui verificar o significado da palavra meloteca no dicionário e posso dizer com segurança que se trata da junção da palavra melodia e biblioteca, não sei se esta de acordo com o actual acordo ortográfico, mas isso pouco me importa, o que pretendo é chamar à atenção para este site que aborda a música de uma forma muito abrangente e global literalmente. Nas diversas secções pode encontrar todo o tipo de informações desde um dicionário onde pode descobrir, por exemplo, o significado do “allegro” na música clássica, ou simplesmente ouvir música, ou ainda ver curtas-metragens cujo enredo gira em torno de quê? Adivinhou. O que achei também interessante nesta página sobre as artes musicais é que pode ser consultado por todo o tipo de públicos e não apenas pelos eruditos, podemos deambular pelos vários temas de forma intuitiva e ler, ou ouvir apenas o que nos agrada. Mas, não se fique pelo que penso, dê uma espreitadela e abro o apetite com uma homanegem ao escritor José Saramago.

www.meloteca.com

quarta, 14 dezembro 2016 15:17

O dia mais curto

Inspirada no Solstício de Inverno, a grande festa da curta-metragem, decorre durante todo o mês de dezembro, com incidência no dia 21, levando sessões de cinema a 34 localidades de norte a sul do país, passando também pelos arquipélagos.

odos os anos, por volta do dia 21 de dezembro, o hemisfério norte entra na estação mais fria devido ao Solstício de Inverno, naquele que é o dia mais curto do ano. Este fenómeno astronómico inspirou a criação da festa que celebra o cinema no formato curto, "O Dia Mais Curto". A ideia, que nasceu em França, rapidamente alcançou uma dimensão internacional sendo, atualmente, celebrada em simultâneo em dezenas de países. Em Portugal, o evento é organizado pelo quarto ano consecutivo pela Agência da Curta Metragem e vai percorrer novamente o país de norte a sul.

Abrantes, Albufeira, Almada, Amadora, Amarante, Barcelos, Braga, Cascais, Castro Verde, Coimbra, Constância, Elvas, Évora, Faro, Funchal, Guarda, Guimarães, Lajes do Pico, Leça da Palmeira, Leiria, Lisboa, Maia, Matosinhos, Oeiras, Ponta Delgada, Ponta do Sol, Porto, Sardoal, Setúbal, Vila do Conde, Vila Nova de Famalicão, Vila Nova de Gaia, Vila Real e Viseu vão receber uma seleção de curtas-metragens, nacionais e internacionais, para adultos e crianças, nos mais variados locais de projeção. Para além das salas de cinema, algumas sessões terão lugar em espaços inesperados como na piscina do Santana Hotel & SPA, em Vila do Conde, onde será possível assistir à sessão dentro de água, as carruagens e estações do Metro do Porto, as lojasFnac, ou na Internet e televisão.

Os vários programadores associaram-se a esta iniciativa através de sessões próprias ou dos quatro programas propostos pela Agência da Curta Metragem. Elaborada em colaboração com a rede europeia Short Circuit, a sessão "Europa em Curtas" apresenta um conjunto de filmes europeus recentes que se destacaram nos principais festivais internacionais de cinema. É uma viagem pela Europa através de sete curtas-metragens com temas tão diversos como a poesia e a dependência, ou tão importantes quanto conceito de fronteira. O programa "Panorama Nacional" revela o melhor da produção portuguesa através das obras de jovens autores como Gabriel Abrantes, Simão Cayatte, Eduardo Brito e Ana Maria Gomes e das histórias que têm para contar. A pensar nas famílias, "Curtinhas em Dezembro" é uma proposta da Casa da Animação e inclui um conjunto de pequenas histórias repletas de aventura, peripécias e personagens únicas, mas também de reflexões sobre a solidão e o caminho certo a seguir. "Papel de Natal e Outras Histórias" celebra o espírito natalício através de pequenos contos para os mais novos sem esquecer a vertente pedagógica.
A Cinemateca Portuguesa e o Cineclube do Porto recebem sessões especiais do evento, no dia 21 e 22 de dezembro respetivamente, apresentando programas que destacam a produção nacional.

Este ano, "O Dia Mais Curto" também acontece na Internet. Entre os dias 14 e 21 de dezembro, a Agência da Curta Metragem disponibiliza cinco filmes portugueses, galardoados internacionalmente, para visualização gratuita online: "Abraço do Vento" de José Miguel Ribeiro, "Rapace" de João Nicolau, "Amélia & Duarte" de Alice Guimarães e Mónica Santos e "Vicky & Sam" de Nuno Rocha.
"O Dia Mais Curto" será ainda assinalado nas escolas, por alunos de diferentes graus de ensino, e em instituições de solidariedade social como as Aldeias de Crianças SOSe a Santa Casa da Misericórdia. É a festa do cinema, um momento de descoberta que vai iluminar as telas do país!

www.odiamaiscurto.curtas.pt.

sexta, 25 novembro 2016 18:25

Siga-me o rasto

  

É a terceira parte de uma viagem à ilha açoriana pelos seus aromas e paladares.

O meu períplo por São Miguel não estaria completo sem uma passagem pelos seus odores e sabores. Esta terra fértil transbordando de vida produz um dos mais icónicos frutos do território nacional, o ananás. O rei da fruta e o fruto dos reis, como é apelidado na ilha, foi introduzido em meados do século XIX como planta ornamental. Só muito mais tarde foi explorado o seu potencial comercial que se mantém até nossos dias, por isso, aconselho uma visita matinal as estufas que existem ao longo do sul da ilha, ou uma plantação no Norte, em Capelas, provem o famoso ananassa sativus lindl (nome científico) e aproveitem para fazer um tour educativo e muito agrável sobre o seu cultivo.
Para abrir mais o apetite nada melhor do que ir em direcção a uma das únicas plantações de chá da Europa e decidi visitar as instalações do Chá do Porto Formoso. Trata-se de uma das plantações mais pequena de São Miguel e devo de sublinhar que fiquei deliciada com a casa-mãe e a beleza da sua paisagem, trata-se de uma herdade de apenas seis hectares, ornamentada pelo que parecem inúmeros arbustos verdes, bem podados, alinhados na horizontal ao longo da colina com vista para o mar, sinónimos de um passado idílico, de um modo de vida mais lento, onde tudo tinha o seu tempo, o seu lugar, sem pressas e foi desta forma calma e relaxada, que me foi explicado o ciclo de cultivo da planta e como chegou até esta ilha, via Brasil, quando as primeiras sementes foram plantadas em meados do século XVIII. Tal qual os ananazes, as plantas do chá foram usadas inicialmente como ornamento nos jardins. Mais tarde, a promotora da Agricultura Micaelense trouxe até à ilha dois chineses que ensinaram aos ilhéus a forma de transformar a folha da camellia sinensis (nome científico) em chá, parece inverossímel, certo? Mas, é a mais pura das verdades. O gosto pela bebida ganhou logo inúmeros adeptos, como seria de esperar, porque embora se fale sempre muito dos britânicos em matéria de chá, o facto é que os portugueses são campeões em termos de variedade no que concerne esta bebida que aquece os corações e cura todo tipo de maleitas, se for preciso. Mas, adiante.
A Porto Formoso produz por ano seis toneladas de chá preto que é apanhado entre os meses de Abril e Setembro, o período de tempo no qual chove menos na ilha. Infelizmente não tive a oportunidade de assistir ao processo de recolha da folha, com grande pesar da minha parte, mas pelo que foi informada pelo guia, todas as etapas desde a poda até a secagem são feitas da mesma forma tradicional e natural que emprega pouca ou quase nenhuma maquinaria há vários séculos. No final, do passeio somos brindados com uma chávena de chá acompanhada de bolachinhas e valeu mesmo pena quando a estômago começa a dar horas.

A minha terceira paragem pelos paladares açorianos depois de tanto ar fresco salpicado de sal foi deliciar-me com o polvo à micaelense. São diversas porções deste molusco acompanhado de brocólos, batatas e um molho delicioso feito de massa de pimentão da ilha, a melhor de todo o país, já que as suas aplicações culinárias são tão variadas e de facto conferem um paladar delicioso a comida, só tenho pena que só se venda nos Açores.
O famoso bife à micaelense ficou para o fim (e fica já o aviso, como já devem ter notado quase todos os pratos locais tem esta mesma designação, à micaelense e acreditem que há mais, assim já sabem quando a virem no menu quer dizer que é tradicional e boa), trata-se de meu naco considerável de carne que vinha acompanhada de batatas fritas feitas na ocasião com molho, quase tive pena de o saborear para ser franca, porque de facto as vacas em São Miguel não são apenas saudáveis, como são gordinhas, fofinhas e parecem genuinamente felizes. Como é evidente a leve sensação de culpa dissipou-se de imediato perante a iguaria gastronómica e o ataque não se fez esperar, foi uma das melhores refeições que comi, bastante calórica é certo, mas tudo vale a pena quando a alma não é pequena, ou melhor o estômago. Como já devem ter notado também, não tenho por hábito falar de restaurantes ou marcas, mas neste caso, excepcionalmente vou fazê-lo de novo, o Alcides não só tem excelente carne, como a confecção e o atendimento foram de elevada qualidade, o estabelecimento fica no centro de São Miguel, mas atenção o espaço é pequeno e é imprecindível uma reserva. Bem, assim termina a minha viagem pelo paraíso verdejante com nome de santo e só esta conversa já me abriu de novo o apetite.

sexta, 25 novembro 2016 18:09

A prata e o ouro

É uma viagem no tempo por algumas das peças mais emblemáticas da ourivesaria portuguesa de finais do século XII até o princípio do XIX, no Museu de Arte Sacra, do Funchal, através do profundo conhecimento do Francisco Clode, director regional de serviços de Museus e Património da direcção regional da cultura, naquela que foi a última palestra cultural do projecto “Dar a ver”.

A colecção de ourivesária do Museu de Arte Sacra é de elevada importância não só pela sua qualidade e diversidade e pelo seu legado histórico, como pelo desvendar da história da ourivesária portuguesa. Há um conjunto de obras de arte de absoluta excepção, são quatro peças oferta directa da corte do rei D.Manuel I, cuja obra mais emblemática tem circulado pelo mundo por inúmeras exposições, desde o século XIX, pela sua representividade da ourivesaria manuelina, porquê é que esta cruz, a peça central de doação do rei, que morre em 1521, mas deixa por vontade expressa numa carta régia que esta obra de ourivesária litúrgica e as restantes ficariam para a capela-mor na Sé do Funcha, é tão importante? Esta cruz procissional, como a palavra indica, que dizer que é levada na procissão, é única, porque as restantes obras similares e documentadas que se conhecem desapareceram, a dos Jerónimos é um desses exemplos e a outra cruz procissional que se aproxima é muito mais tardia e esta hoje no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.

A peça é constituida pelos elementos típicos das cruzes procissionais, um delas é um nó e ela ser como em muitos casos da ourivesaria manuelina é uma mistura de feitos, isto é, ela tanto representa um gótico final em progressivo desaparecimento, mas é em si a expansão portuguesa e da abertura ao mundo, é uma abertura renascentista à Europa. É importante observar já na época que se fazia a alusão da arquitectura ao romano, que é o nova arte emergente, o renascimento que vem misturar-se ao gótico. A arte manuelina é esse cadinho entre união dessa tradição sacro-mediaval que se encontra com a arte do renascimento. O aparato constitui sempre as obras ligadas as encomendas régias, para já, a presença constante dos símbolos do rei, a esfera amilar, os ajustamentos, a coroa real portuguesa, estão representadas quer nos portais da arquitectura civil, quer no religioso, no coroamento das abóbodas e é muito interessante que na ourivesária manuelina aparecem novamente esses elementos.

Há também outro dado, muitas vezes na ourivesária portuguesa, muita dela era feita na rua dos ourives em Lisboa, onde havia mestres dedicados apenas ao ouro e outros a prata, na cidade pombalina aparece a rua do ouro e da prata, e portanto, é no círculo da corte, entre os ourives mais próximos do rei que se executa esta cruz. Quero chamar à atenção também para o facto que estas cruzes muitas vezes serem maquetes para a arquitectura, se reparámos o nó da cruz, tem os seus contra-fortes, butaréus e pináculos, todos esses elementos verticais que dão o efeito de uma construção que se aproxima à Igreja dos Jerónimos, com a sua arquitectura manuelina.

Depois há outro elemento interessante, para além dos pormenores de raíz gótica, tem também vazados nestes portais que se vão desenvolvendo no hexágono da base, são elementos abertos, que se identificam com o Diogo de Castilho, o autor do claustro do mosteiro dos Jerónimos, portanto, isso são elementos renascentes que tem a ver com essa nova gramática decorativa, através da gravura flamenga e italiana que começou a chegar a Portugal, muitas vezes através de modelos espanhóis, ou mesmo pela presença de ourives estrangeiros que vieram trabalhar para a corte de Lisboa.
Outro aspecto de referir, a enorme delicadeza e de apuro tecnológico e é assim que se deve dizer, a peça em prata é muito avançada para o seu tempo, tal é a qualidade de toda a sua gramática simbólica e temática exposta, como também pelo apuro do desenho e do trabalho da prata. A representação da flagelação de Cristo, a traição de judas, há uma história principal e a narrativa que se desenvolve, de um lado temos o Cristo crucificado, do outro o Cristo redentor e salvador.

A segunda oferta do rei, esta incluída, nas 21 peças que foram colocadas numa caixa em Lisboa, das quais apenas estas quatro sobreviveram até os dias de hoje, o porta-paz, é também em si uma obra raríssima da ourivesária portuguesa, mais do que a cruz processional, esta peça se afasta ainda mais de uma linguagem gótica final e assume um gosto moderno. Tem entabulamentos, tem capitéis coríntios, pela aplicação de pedras preciosas na ourivesária chega-se a conclusão que estes jazigos de São Tiago de Compostela, tem a ver com esta ideia simbólica de oferta da paz, uma peça que se move, que representa a epifania.
Depois há um duplo sentido, os peregrinos foram aqueles que se movimentam para os locais de maior peregrinação, que é o sentido da presença do jazigo da pedra que ladeia a cena principal, mas tem também possui alguns símbolos régios, os trintões, umas figuras míticas meias-humanas, meias-peixes que estão a segurar a coroa, não sabemos se a figura superior seria um anjo-tenente, ou o Deus Pai, porque esta partida. Contudo, existe algo que sabemos é que a cena dos reis magos que tem duas representações, uma no retábulo de São Bento, de Gergório Lopes, e outra do retábulo de Sétubal de Jorge Afonso, muito provavelmente os ourives da prata tinham por modelo gravuras flamengas e italianas, mas foram influenciados pelos pintores primitivos portugueses, ambos os nomes citados foram artistas da corte e muito próximos desta inovação que as presentações renascentistas tem na ourivesária portuguesa.

O cálice de ouro, do final do século XVI, não conta já com a presença de campainhas, porque quando se elevava o cálice elas redobrabam a atenção do gesto, mas em seu lugar possui pingentes no cristal de rocha, que é considerada uma pedra preciosa e é muito interessante perceber que isto resulta da expansão marítima de Portugal no Oriente. Estes materiais provém dessas zonas do globo que permitem a sua adaptação e aplicação nestas peças de ourivesária. O cálice é proveniente da Sé do Funchal, mas a sua origem é de uma capela arruínada, que é de São João Latrão, já perto do Aeroporto internacional da Madeira.

A nossa senhora do Rosário, é outra das obras do espólio, o rosário julga-se que é de coral, é uma peça que pode ser datada entre os 25 a 35 anos do século XVI, contrariamente ao que se pensou, também é única no contexto nacional, na sua base apresenta um dos símbolos de ser nossa senhora da brota, que é um flor e ela abre-se, é a ideia de ser mãe não só de Deus, mas de todos nós, porque trouxe-nos a descendência divina. Abordo esta obra de escultura porque faz um enquadramento da época e como as outras artes reagem perante da ourivesária.

As últimas peças são de Antuérpia, é o cálice da matriz de Machico e a celébre bandeja dita do Figueira, ninguém sabe quem é este homem, desde essa altura é apelidada como a bacia do Figueira, é uma obra flamenga do terceiro quartel do século XVI e tem a representação do deus Janus, que é o deus do dois mundo, das duas faces, da porta para o caminho do céu, ou do pecado. É muito interessante ver como a mitologia clássica e toda essa gramática simbólica do renascimento se introduz também nas peças do cristianismo. Não esqueçámos que a Antuérpia era até 1587 um dos mais importantes centros do comércio na Europa e porquê esta data? Porque o império espanhol toma conta da cidade, a arrasa nesse ano e deixa de ser o centro da ourivesária europeia.

A caldeirinha é também um encontro de dois mundos, o quase desaparecimento do gótico final e essas ideias classicistas do renascimento e aqui temos a importância dos símbolos régios, uma das maiores esferas amilares do contexto português, a esfera mundi, símbolo do rei português que se tinha em tanta consideração que se auto-intulava esperança do mundo e era presentado como redentor. É muito interessante ver que a esfera cobre todo o fundo da peça.

O outro conjunto de peças que representa a riqueza extraordinária e a diversidade tipológica do museu, no último quartel do século XVI e boa parte do XVII, todas elas, ou a grande maioria representam a riqueza das oficinas de ourives e os revelam que os mestres da prata ao trabalhar para as confrarias religiosas demonstram uma grande vitalidade deste negócio em Portugal.
A maior parte dos ourives na Madeira aproximam-se do maneirismo nacional e muitas vezes se traduzem numa linguagem despojada sem grande teor de aparato, mas tem uma delicadeza formal e um trabalho de gravura que é muito característico da ourivesária da época. A salva com pé, foi executada por alguém que viu o trabalho dos flamengos e estabeleceu isso na bandeja do Figueira, havia uma capacidade de observar a ourivesária de outros lados e depois traduzi-la ao gosto nacional e regional. Outro elemento que aproxima esta peça à arquitectura é que a arte portuguesa possui uma ideia de simplicidade, de desornamentação, de rigor formal, que é raro no contexto europeu, mas que é interessante no contexto ibérico e sobretudo no nacional. Não podemos esquecer que em 1580 perdemos a independência, que só recuperámos em 1640 e portanto vai assistir-se em Portugal, o que se designa de arquitectura chã, que é despojada, cria uma ideia de grande simplicidade formal e decorativa e que depois tem esse efeito funcionalista.

A naveta, que servia para transporte do incenso, há uma grande presença da ourivesária do século XVII e XVIII, mas estão integradas outros elementos artísticos e que ajudam a perceber o contexto decorativo, neste caso, é a ideia do barroco. Nesta época temos o enchimento dessa arte chã por elementos barrocos. A palavra barroco parece que é de origem portuguesa, segundo alguns países europues surge na forma como portugueses chamavam umas pedras deformadas da Arábia, as barrocas, pérolas que não eram perfeitas, mas também no Alentejo existem umas pedras nas planícies chamadas de barrocais, no fundo o que esta na base deste movimento é uma dispersão visual.
Quando olhámos para as peças que estavam marcadas pela contenção visual no espaço com a sua sobrieridade decorativa, o barroco traz o espectáculo do triunfo de uma igreja que se quer renovada, depois do cisma da Europa e do concílio de Trento que vai trazer uma nova expressão e propaganda da fé. Esta linguagem visual esta ligada a uma apropriação do espaço, há uma espécie de gesto largo, não equilibrado e que começa a desenvolver-se em todas as obras de arte até a arquitectura e a ourivesária.
A grande sede da arte barroca é Roma e é de Itália que vem os modelos que ser expandem em Portugal e que vamos traduzir à nossa maneira. A peça é de extraordinária cinzelado, é uma das obras da corte barroca, de 1747, anterior ao terramoto de Lisboa, há uma atenção formal ilusória, mas que depois é revolucionada por estes aconcheados e labéus e trazem espaço dentro do próprio objecto.
A Madeira possui a maior coleção de navetas ao nível nacional, a peça em causa é uma espécie de representação do barroco, a definição da nau desapareceu quase completamente, descolou da obra e é uma revolução formal da apropriação do espaço, um caos organizado, o desaparecimento da forma base e da criação de uma autoridade formal que é bem idetificativa da arte barroca portuguesa. Destaco ainda, uma série de sacras, que valem pelo seu sentido arquitectónico, pela ilusão óptica, mas no fundo eram uma cábula, para que os padres não se enganassem estava escrito exactamente o que se tinha de dizer, a repetição de momentos da missa.

A custódia de ouro de um ourives francês que vivia em Lisboa, Paul Malle, esta datada de 1799, é o primeiro exemplo de ourivesária neo-clássica em Portugal, para além disso, temos alguns elementos do neo-classicismo que vai marcar o século XVIII e uma parte do XIX. Chamo à atenção para a delicadeza do trabalho de gravação de ouro, dos recortes das pinturas do clássico.

sexta, 25 novembro 2016 17:58

Aristides um homem bom, nos bastidores

É um documentário sobre a vida do cônsul português que desafiou a Salazar para salvar vidas, realizado por Victor Lopes com uma equipa de jovens universitários argentinos e filmado na cidade de Buenos Aires. A estreia está prevista para o fim do ano no Festival Internacional dos Direitos Humanos, em São Paulo, no Brasil, entre os dia 7 e 13 de Dezembro de 2016.

"Não se é santo para ser-se um eleito por Deus, senão que, se é um eleito por Deus para ser-se santo", repete Victor Lopes, um argentino com nacionalidade portuguesa, para sublinhar a obra humanitária do cônsul de Portugal, em Bordéus, que assinou 30000 visas em apenas sete dias desobedecendo ao ditador luso António de Oliveira Salazar, quando os nazis invadian França nos cruéis tempos de 1940, "Para Aristides teria sido mais fácil desocupar com o exército, ou a policia, os jardins da Embaixada que nesse momento encheram-se de homens, mulheres e crianças perseguidos procurando un salvo-conduto que os levasse ao porto de Lisboa. Contudo, Aristides não o fez, Sousa Mendes não chamou as tropas alemãs e a questão é o que eu faria? O que farias tu? O que fariam os nossos atuais embaixadores de Portugal ao redor do mundo?”. É esse o eterno conflito gerado entre "o dever e a conciência que não sempre estão de acordo" diz Lopes, enquanto lembra também o soldado da obra de Javier Cercas que podendo matar a um Sanchez Mazas indefeso decidiu não o fazer, durante a tragédia da Guerra Civil Espanhola.
"Portugal teve uma ditadura de mais de quarenta anos e desembaraçar a trama de cumplicidades de centos, milhares de profissionais e líderes formados na intolerância vai levar muito tempo", como sabe que sucede nos países que sofrem com os regimes autoritários, apesar do esforço e a boa vontade que realizam os atuais dirigentes e as novas gerações democráticas. Levar ao ecrã e ao público a história de Sousa Mendes é um dos objetivos do realizador com uma equipe formada por jovens das universidades argentinas e a produtora “cite tango-ultra tango”, debaixo do atento olhar de Paula Fossatti e Ramiro Klement, junto com os atores Melissa Zwanck y Nahuel Vec, Lopes vai assim, "aportar o seu grãozinho de areia" aos que já vêm fazendo o mesmo há muito tempo em diversos lugares do mundo, quer sejam familiares, amigos, ou fiéis seguidores da causa Sousa Mendes. Victor Lopes reconhece ainda, que pouco a pouco irá respondendo as convocatórias que diariamente lhe chegam já que “a proposta causou boa recepção por tratar-se duma história praticamente desconhecida e que ainda desperta certa polémica nos setores mais conservadores da sociedade portuguesa”.

sexta, 25 novembro 2016 17:44

Salve o fura-bardos

 

São pequenas aves cuja importância para o ecossistema da Laurissilva na ilha da Madeira é imprescindível.

O projeto Life Fura-bardos termina em 2017 mas, até agora, os fundos não são suficientes para dar continuidade ao trabalho de conservação desta subespécie prioritária e do seu habitat, a floresta Laurissilva da Madeira. Depois dos últimos incêndios na Madeira, nunca foi tão importante agir. A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves lança esta campanha de crowdfunding para continuar a assegurar o controlo de espécies invasoras e a recuperação de floresta Laurissilva, bem como a conservação do fura-bardos através da sua monitorização e sensibilização ambiental.
Partilhe esta campanha com os seus amigos, familiares e contactos. Identifique-nos nas redes sociais usando a hashtag #HelpFuraBardos.
Mais do que um projeto, uma parte única da Madeira necessita da sua ajuda!
Apoie a causa e contribua em

https://www.generosity.com/animal-pet-fundraising/help-fura-bardos-in-madeira

quinta, 27 outubro 2016 15:32

Das entranhas de são miguel

 

É a segunda parte de um passeio pela ilha com nome de santo.

Foi das experiências mais marcantes nesta minha viagem, o mergulhar no oceano e a água era uma mistura de frio e quente, com sabor a sal e metal ao mesmo tempo e não, não estou a exagerar. São Miguel é famosa pelo seu grande número de inusitadas experiências termais, a minha favorita foi na Ponta da Ferraria, em Ginetes. Trata-se de uma pequena reentrância na costa onde o mar se expande e ao mesmo tempo sai água quente do interior da ilha, é uma sensação bizarra e excitante ao mesmo tempo, esse megulhar numa mistura de água salgada metalizada, morna e nota-se de imediato a diferença, à superfície o conforto de um banho de água quente e por debaixo uma impetuosa corrente marítima gelada que se dispersa em terra, sem exagero podemos ter uma parte do corpo aquecida pelas águas termais vulcânicas e do outro lado somos “massajados “ pelas ondas frias do Atlântico, foi surreal em todos os sentidos, literalmente. O nosso organismo ao tentar adaptar-se a esta nova e estranha dinâmica que acontece ao mesmo tempo em há também um choque térmico e somos invadido por uma sensação de euforia partilhada também pelas pessoas que também decidiram mergulhar nestas estranhas águas.

 

Mas, não foi a minha única aventura surrealista, em contagem decrescente, a próxima paragem foi nas Furnas, não pelas fumarolas, mas pelo parque Terra Nostra. É um jardim bicentenário, com 12,5 hectares de jardins e matas, dividida por diferentes colecções botânicas. Para os especialistas em jardins e botânicos, calculo que deva ser um sonho tornado realidade, mas mesmo para os restantes comuns mortais, é simplesmente um percuros a não perder pela sua grande beleza cromática. Existe uma área só dedicada a floresta endémica dos Açores, outra para os fetos gigantes, depois existe uma zona para as vireyas, umas plantas provenientes da Malásia que florescem ao longo do ano em várias tonalidades, há um canteiro de azáleas e as cycadelas, plantas com milhões de anos, em vias de extinção, parecia o parque jurássico, a sério, seria um excelente local para filmar um cena com dinossauros, mas ...adiante, só neste espaço existem 85 exemplares diferentes e para os mais românticos há pelo menos vários espaços com camélias. Os lagos que interligam estas diversas zonas, são populados por peixes koi, enormes e em diversas tonalidades o que confere um ar ainda mais exótico a toda esta atmosfera e existem ainda diferentes espécies de patos.

 

A jóia da coroa para mim, no final deste périplo, foi mergulhar no tanque de água termal, é uma piscina enorme subjacente à casa principal desta propriedade que esta rodeada por um jardim, as águas são côr de laranja por causa do ferro rodam os 28 graus celsius e garanto que não ficámos alaranjados, mas os fatos de banho mudam de tom, e mais uma vez aqui tive uma daquelas experiências para toda a vida, estava eu na água com centenas de turistas rodeada por árvores de grande porte e plantas de diferentes espécies e eis que começou a chover, um grupo de patos juntou-se a nós e foi mais uma vez daqueles momentos de outro mundo. Eu, aquecida pelas águas metálicas que burbulham a partir do ventre da ilha e do céu caiam gotas de água doce fria que refrescavam o meu rosto. Mas, o dia não acabou aqui, depois desta visita uns metros mais à frente existem as chamadas poças de Dona Beija, com cinco tanques de água férrea a rondar os 40 graus e se quiser um outro momento kodac para mais tarde recordar, posso adiantar que estas piscinas estão abertas até às 10 horas da noite, e não há nada melhor para o corpo e a mente fatigadas do que estar de molho rodeada de uma vegetação mista, em vários tons de verde até o sol se pôr no horizonte e os únicos arrepios que tive foi uma felicidade imensurável e não pude deixar de admirar mais uma vez a pujança desta natureza indomável.

quinta, 27 outubro 2016 15:26

O arrancar páginas

Trata-se de uma restrospectiva crítica sobre as publicações dedicadas a moda.

Sou fã de revistas de moda desde a minha adolescência, ainda hoje há duas publicações que compro religiosamente todos os meses só para ler os artigos, ver as tendências e admirar as fotografias das campanhas publicitárias. Leio e folheio tudo mais do que uma vez por mero prazer, mas como leitora atenta não pude deixar de notar algo ao longo do tempo que o número de páginas para a publicidade aumentou exponencialmente em detrimento das reportagens interessantes que abordavam várias temáticas ligadas ao universo feminino em todas suas vertentes. Estou a falar disto porquê? Recentemente vi um vídeo que criticava precisamente as revistas de moda pelo perpetuar não só dos modelos corporais impossíveis de atingir para a grande parte das suas leitoras e que potenciam a baixa auto-estima das mulheres em geral, mas também como as revistas ao longo do tempo se transformaram em meros catálogos de vendas de luxo, porque ao arrancar as imagens de publicidade, restavam apenas algumas páginas de conteúdo jornalístico. Não pude deixar de concordar com todos os argumentos desta exposição, que aliás, também defendo veemente, e um dos que mais me toca, se calhar pelo aspecto profissional, foi o lento desaparecimento dos artigos de teor informativo substituídos por pseudo-entrevistas as atrizes internacionais e nacionais que afinal não passam de manobras publicitárias, onde “casualmente” se aborda um produto, ou marca que utilizam no seu dia-a-dia e que ocupam no mínimo três a quatro páginas. Não tenho nada contra a publicidade, garanto, também gosto de folhear as imagens sofisticadas de malas, sapatos, roupas e perfumes, é um fraquinho que eu tenho, mas não posso deixar de lamentar que o evoluir visual das campanhas não seja acompanhado por grandes reportagens com informação importante e pertinente e muitas das vezes nada glamorosa. Fico triste com esta realidade que já venho notando há vários anos, porque se fizermos este mesmo exercício de arrancar as páginas publicitárias de uma revista de moda nacional muito conhecida, por exemplo, no início do anos noventa e fizermos o mesmo na sua última edição, o resultado é demolidor.
Actualmente há uma clara diminuição dos artigos de teor informativo e a publicidade, camuflada ou não, domina o espaço da publicação quase por completo. Um dos principais motivos, ao meu ver, porque isto tudo acontece é por causa do aglomerar de vários meios de comunição social num único grupo económico, dou-vos um exemplo que veriquei sobre uma entrevista da Meryl Streep, li o mesmíssimo texto ilustrado por fotos diferentes e com a ordem das perguntas alteradas em diferentes publicações do mesmo grupo, porquê? Porque ajuda a reduzir custos em termos de pessoal, pesquisa de conteúdos e potenciais deslocações, por isso, é mais fácil para uma empresa comprar de agências noticiosas internacionais um determinado número de textos que são iguais para todo o mundo, do que ter um grupo de profissionais credenciados a produzi-los localmente, o que em termos economicistas acaba por maximar as receitas de venda de espaço publicitário não só pelo maior número de páginas numa só revista, como pelas restantes publicações que pertencem ao grupo empresarial, gerando assim mais lucro.

Eu vou ser franca, eu gosto de revistas de moda, gosto de folhear publicidade e quero continuar a consumi-las, mas não deixa de ser lamentável, que sejámos vistas pelos agentes económicos como meras consumidoras fúteis que carecem de ser devidamente apreciadas e informadas. E sabem o que mais me irrita nisto tudo? É que as redacções e as chefias nestas publicações são, por norma, constituidas por mulheres como nós e o que ganhámos com isso? Nada, pelos vistos, a estupidificação massificada é mais lucrativa do que conteúdos mais informativos e socialmente, etnicamente e até corporalmente mais apropriados. Tenho mesmo que deixar de comprar revistas de moda que perpetuem estes modelos...

quinta, 27 outubro 2016 15:24

Estórias de amor para meninos de cor

Este é um livro de crónicas de Kalaf Angelo, o gajo dos Buraka.

Para ser franca o que me atraiu neste livro em primeiro lugar foi o título, queria descobrir quem eram esses meninos de cor apaixonados e o que encontrei foi o olhar de um errante que se move entre duas cidades, que aborda a sua percepção desses lugares tão díspares e a sua interpretação de outros mundos tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos. Kalaf Angelo tem uma escrita limpa e cuidada, o que indicia uma obra de fácil leitura que aguça o apetite por mais, mas (e quase sempre há um) temos a sensação que algumas das crónicas mereciam ter tido mais espaço para respirar, para mergulhar nos personagens, nas histórias e no final fica-se com a sensação que deveria ter havido mais alguma coisa, mais umas palavras. Só quase no final é que me dei de conta que o autor é o mesmo que nos deu a conhecer a semântica dos Buraka Som Sistema e ainda, para meu espanto e agrado não gosta de ser apresentado como tal. Agora, reflectindo sobre o assunto, ainda bem que não tive a noção inicial de quem era Kalaf Angelo até ter começado a ler o livro, porque se calhar o meu olhar seria muito mais crítico, ou ficaria viciado pela opinião que já tenho da banda e para que conste é a melhor possível, porque gosto da música, mas quanto ao livro posso dizer que é agradável e acessível. Boa leitura.

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