Um olhar sobre o mundo Português

Voltei depois de um muito necessitado hiato e agora apresento uma edição recheada de experiências e multiculturalidade. Seja bem-vindo de novo

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

terça, 07 março 2017 22:38

Minha senhora de mim

Maria Teresa Horta, uma das famosas três marias da novas cartas portuguesas, escreveu este compêndio de poemas, cujo impacto foi de tal forma poderoso que incomodou o poder do Estado Novo.

Trata-se de um pequeno caderno de poemas editado em finais de 1969, que apesar do seu sucesso editorial, o seu conteúdo foi condenado à obscuridade pela polícia política, a malfadada PIDE, que mandou apreender todos os exemplares existentes ao nível nacional, em todas as livrarias do país. O então subsecretário do Estado da Presidência do Concelho liderada por Marcelo Caetano, César Moreira Baptista, chegou ao ponto de ameaçar à proprietária da editora, Snu Abecassis, com o encerramento à Dom Quixote caso publicasse qualquer outra obra de Maria Teresa Horta. Mas, o que havia de tão perigoso, subversivo ou mesmo ameaçador para o fascismo na “Minha senhora de mim”? A própria autora esclarece numa entrevista que faz parte da obra “Novas cartas portuguesas: entre Portugal e o mundo”, “desejou escrever um livro directo, sem eufemismos, que falasse do prazer sexual da mulher”. A poetisa recorda ainda que, “por causa dele estive presa durante 24 horas. As paredes da minha casa foram pichadas com dizeres ofensivos e recebi telefonemas e cartas anônimas contendo ameaças”. Maria Teresa Horta, E sublinho o apenas, cometeu o crime supremo de abordar a sexualidade feminina sem pudores, nem constrangimentos. Se leremos alguns desses poemas, sob os auspicios da era moderna, parecem até inofensivos, mas, se fizermos uma viagem no tempo, até um Portugal fechado em si próprio, onde os direitos das mulheres eram extremamente limitados, foi uma lufada de ar fresco que ofendeu os ditos defensores da ordem, da moral e dos bons costumes da sociedade portuguesa. Caramba, com esta frase até já pareço uma das personagens do Herman José, o diácono Remédios, lembram-se do que ele diria? Não havia necessidade! Mas, afinal havia necessidade e muita de ler palavras carregadas de erotismo e sensualidade e por isso mesmo, aconselho vivamente a leitura deste livro de poemas, e sim, até poderia ter falado sobre a obra das três marias, mas apeteceu-me em vez disso, fazer uma pequena provocação. Fica a promessa de que para o próximo ano há mais três. Feliz leitura.

terça, 07 março 2017 22:33

Feminista em estado puro

Sílvia Vasconcelos é a coordenadora regional do Movimento Democrático das mulheres (MDM), que radica a sua participação na sociedade portuguesa, através da participação quer política, embora seja apartidário, quer através de debates, junto da populações e das escolas sobre os direitos humanos, com particular ênfase nos direitos das mulheres.

Segundo um estudo da OCDE as mulheres portuguesas gastam mais de 328 minutos por dia em trabalhos domésticos contra os 96 minutos dos homens. Elas ganham menos 15,7% do que eles e no entanto representam 48% da força laboral. Então como é que se verificam ainda estas discrepâncias, apesar de todos os direitos adquiridos depois das conquistas de Abril?
Silvia Vasconcelos: Exactamente, depois das conquistas de Abril e do pressuposto democrático que deveria direccionar para uma igualdade de géneros que não há. E porquê? É complexo responder de uma forma linear, porque tínhamos que retroceder na história, porque temos séculos de machismo e pratriarcado. A democracia em Portugal é algo muito recente, o que são 43 anos? Quando, no passado, as mulheres tinham de pedir autorização senão era ao marido, era ao pai para trabalhar, ou para viajar. Elas eram objectos, cujas escolhas dependiam deles, isto é algo muito recente e ainda temos um longo percurso a fazer e como é que isto se faz? Através de todas as frentes possíveis, com sensatez e todos os meios legais. Faz-se com campanhas de sensibilização, sobretudo nas escolas. É aí que devemos começar pelos meninos e pelas meninas e o movimento democrático das mulheres já deu os primeiros passos nesse sentido, mesmo ao nível nacional, que é aproximar os programas. Sendo um deles a violência no namoro, obviamente que chegámos lá e dizemos que eles e elas são absolutamente iguais, olham uns e para outros e riem-se, mas são iguais em termos de direitos e oportunidade e as diferenças existem para se complementar e mais nada. Descontruímos estereótipos, abordámos a corte de Luís XIV onde os homens tinham cabelos compridos, pintavam a cara, usavam saltos altos e vestiam calças que pareciam leggings e isso era masculinidade daquela altura, as mulheres deviam ser mais roliças e essa noção de homens e mulheres, essa diferenciação que existe, além das questões hormonais que são belas, de resto são tudo concepções culturais que são surreais. Quando uma menina nasce não é submissa e o menino não é dominador. São tudo processos sociais que, nós, mulheres e homens adultos temos responsabilidades pela forma como educámos as meninas e os meninos. Há uma video muito interessante que ilustra isso mesmo, ambos nascem iguais e são de cor amarela e depois vão-se diferenciando pela cor, ela de rosa e ele azul, porquê? Precisamente pelas acções de pais e educadores. Quando uma rapariga quer sair de noite é uma série de obstáculos e para ele é mais aceitável, há uma diferenciação muito grande ainda hoje em 2017, embora, eu espero que para o final deste século tenhámos uma sociedade mais alertada para esta questão da educação. Perguntava-me como se dá à volta a isto? Pela educação em casa e nas escolas.

Curiosamente, também ia abordar o estudo sobre violência no namoro, porque até são números preocupantes, mesmo na região, mas o que é intrigante é quem educa e transmite esses hábitos aos filhos são as mães.
SV: Eu estava-lhe dizer há bocado, que nós temos uma herança secular de pratriarcado e machismo.

Sim, mas muitas dessas mães actuais são da nossa geração e já estavam conscienzalizadas para esta questão, então, porquê este aparente retrocesso?
SV: Porque as mulheres também são machistas. Não são todas, obviamente. Posso falar de um caso sem abordar ninguém, a minha mãe tem 75 anos e ela sem saber é machista, porque tivemos uma familiar que decidiu terminar com uma relação que não a fazia feliz e mudou de vida. Para a minha mãe, é verdade que já foi há mais de dez anos, era uma situação condenável, porque ela saiu de casa, estava numa outra relação, mas se fosse ao contrário, diria que os homens eram assim, tinha-se portado mal, mas era homem, mas quando ela decidiu mudar era um escândalo e não era só a minha mãe a recriminá-la, eram as minhas tias e isso acontece porquê? Elas foram educadas dessas maneira, para mim foi diferente, eu tive acesso a educação e a liberdade, tive outras referências e tentei desconstruir isso tudo. Essa foi a educação que elas tiveram, a mulher é submissa ao homem e elas transferem isso para nós e se não tivermos alertadas e usufruirmos das oportunidades que teve a maior parte de nossa geração, continuámos com essa mentalidade. Nós, mulheres temos uma herança de patriarcado e machismo em nós e temos de nos libertar e por isso as mães educam os filhos de forma diferenciada. Se calhar com a nossa geração, espero que as coisas sejam diferentes e que daqui a 10, 20 anos os números sejam outros e a igualdade seja mesma e que o sucesso dependa do ser, não por ser mulher, ou homem, por ser aquela pessoa, que o género seja um pormenor das nossas diferenças que são bonitas.

A Sílvia é deputada, a violência doméstica ainda é uma realidade gritante na nossa sociedade, como sabemos morrem muitas mulheres que são assassinadas pelos companheiros, ou maridos. Então como deputada como é que se cria mecanismos para evitar que estes números continuem a crescer?
SV: Politicamente há muito trabalho para fazer. Tem-se criado muitas campanhas de sensibilização, mas há um aspecto da nossa legislação que previne a violência doméstica, que pune os agressores e pergunta-se se existe legislação, porquê estes números? Porque muitas vezes não é aplicada, esse é um dos pontos, há mentalidades que é necessário mudar e isso é um processo moroso, numa sociedade que é tão machista como a nossa, porque é verdade, somos latinos e é necessário desconstruir todos estes mitos em relação ao género, em torno da discriminação, há muito trabalho por fazer. A legislação existe, mas não sei até que ponto poderia ser mais apertada.

Mas, podia-me dar um exemplo? Porque até bem pouco tempo, quando uma mulher fazia uma queixa formal na polícia,ou junto dos tribunais passado pouco tempo retirava-a, porque ambos continuavam a residir na mesma residência e elas e os filhos eram ameaçados. Agora, é crime público, mas mesmo assim, eles perseguem-nas, elas mudam de vida, de zona do país e morrem na mesma.
SV: Isso é porque a legislação não se cumpre, legalmente a mulher tem mecanismos que a protegem, mas o problema reside na prática. O agressor devia ser submetido a todos os mecanismo de afastamento, mas não acontece, mesmo com pulseiras electrónicas transgridem, outras vezes tem medidas de caução em termos de distância, transgridem e isso leva a que estas pessoas desenvolvam um quadro patológico, porque ninguém na sua devida sanidade tem este comportamento que leva a perseguições, ou mesmo obssessões, é um processo extremo de machismo, em que ele manda, domina e se não sou eu não podes amar ninguém, ou se te fores embora eu mato-te e não me importo e mato-me. Em relação ao que estámos aqui a abordar, garanto que existe legislação, agora, não é cumprida, mesmo em máteria de justiça não é devidamente aplicada, em princípio há uma caução que beneficia o agressor e democracia também é isto, acaba por penalizar a vítima em alguns casos. Obviamente, que em caso de dúvida há a presunção da inocência e os agressores defendem-se, mas depois a culpada já é a mulher e raramente se aplica a maior medida de caução que é a prisão preventiva. Na Madeira, se há dois ou três assim é o máximo, pelo menos que tenha conhecimento. O que se verifica são medidas como suspensação de prisão, ou de afastamento e na verdade o que se devia fazer é obrigar aos agressores a efectuarem tratamentos, sob a pena de serem presos. Deviam também haver cursos, ou formações de reabilitação que já existem em vários países europeus e nos EUA, mais penas com trabalho comunitário para eles, ou elas porque também existem mulheres agressoras. Ao meu ver, todas estas medidas ao médio e longo prazo seriam mais eficazes. O que temos de mudar também são as mentalidades, porque a justiça só por si não é suficiente, as medidas políticas não tem sido suficientes, devemos promover o tratamento dos agressores, mas também das vítimas, no caso da violência doméstica é tão devastador que são marcas para toda a vida.

Acha que é uma ilha, onde as mentalidades são mais fechadas, é um meio muito mais pequeno onde as pessoas se reconhecem socialmente não é tão visível o problema da violência doméstica?

SV: Visível é e há um relatório ao nível nacional que mostra que os números são preocupantes, em 2015 colocam à Madeira no topo da violência doméstica. Não possuo os dados mais actuais, mas creio que não decresceram assim tanto, nos Açores acontece o mesmo. Essa questão dos meios mais pequenos é porque se criam tensões, que levam ao álcool, as drogas que conduzem a comportamento mais agressivos e há violência doméstica não só contra as mulheres, mas também as crianças e a Madeira poderá não estar no topo do ranking, mas ainda tem um dos índices mais altos de violência doméstica do país. O nosso caso tem uma particularidade muito alarmente é que esse dados que não correspondem à realidade. Há muitas mulheres que não fazem queixa por vergonha, isto acontece tanto com a operária, como a executiva, qualquer uma de nós pode ser uma potencial vítima. Mesmo que tenhámos conhecimento seja de quem for, é moral e legal denunciar essa situação. Mas, o que nos diferencia do país são as morte por violência doméstica, é menor, tivemos dois casos no ano passado, mas a proporção em termos do território é muito mais pequena.

E como é que a associação intervêm, como tem acções nesse sentido? De alertar e educar também?
SV: Temos vários programas junto das escolas por causa da violência no namoro, educámos para a não-violência, para a igualdade, para a harmonização dos sexos, sem que ninguém seja superior, tentámos sensibilizá-los para situações que parecem muito inócuas. Não fazemos apresentações com powerpoint, é pela via do diálogo, que temos de descontruir alguns desses mitos. Por exemplo, um dos comentários mais frequentes diz respeito aos ciúmes, ser ciumento não tem mal nenhum, é sinal de gostar, é uma forma de amor, mas sabemos que o ciúme mata. Dei aulas de teatro numa comunidade, há cinco anos, em que elas ficavam entusiasmadas porque era uma forma de aumentar a sua auto-estima, eram actrizes, trabalhavam para a comunidade e cheguei a ter meninas que iam as escondidas dos namorados, não podiam usar mini-saias, maquilhar-se e estámos a falar de raparigas de 15,16 e 17 anos. E muitas das vezes a violência doméstica com esses números assustadores começa por aqui. Se não intervirmos nestes casos, como podemos daqui há vinte anos ter a perspectiva e a esperança de que a igualdade seja um facto e que estas entrevistas nem façam sentido. Temos que actuar nestas idades, em toda a comunidade, junto dos políticos, magistrados e professores, todos em conjunto temos de agir, não podemos continuar que continuem a morrer mulheres, ou meninas e homens, porque a violência existe e é uma realidade.

Tem acções junto das escolas, mas ao nível das mulheres adultas também promovem actividades?
SV: Na Madeira fazemos campanhas de sensibilização nas associações sobre essas matérias, trazemos a comunidade até esses encontros e debatemos esses temas para promover mais ideias. Não temos ainda uma sede regional, o MDM tem um papel político, embora não seja partidário, não tem um papel de assistência social por assim dizer, recebemos sim mulheres que nos chegam por casos de violência doméstica que são encaminhámos e nesse âmbito temos uma associação muito interessante que é a “presença feminina” elas recolhem as queixas e encaminham para a via judicial, ou social. O que não temos é um sistema de proteção, nós apenas intervimos politicamente e quando digo isto falo de intervenção que tira as mulheres da rua, que protege as crianças isso é que política na sua concepção grandiosa. Este é um movimento apartidário onde cabe toda a gente, de todas as religiões, esse é o nosso papel de intervenção junto das escolas e da comunidade sobre todos os temas. Há bem pouco tempo debatemos “a mulher e a deficiência” e trazemos tudo isto para a política, através de diplomas de resolução que possam favorecer a mulher. No dia 8 de Março íamos abordar a mulher e a sexualidade, porque ainda é um tabu, no século XXI, mas recuámos por agora, vamos falar em vez disso da mulher, a família e o trabalho, porque há pouco tinha razão em abordar esses dados da OCDE e houve até uma manifestação na Islândia, onde elas trabalharam as mesmas horas que os homens, e pararam por um dia, a partir do momento em que começam a laborar da graça, tendo em conta ao que recebem. Felizmente, hoje em dia, há muita coisa que mudou, já há mulheres electricitas e mecânicas, mas ainda há a feminização do trabalho. Por outro lado, quando elas saem do trabalho, além de receberem menos que os homens e trabalharem mais horas, chegam aos seus lares e tem de cumprir várias tarefas domésticas, gastam mais tempo nisso que os homens e isso é uma desigualdade tremenda.

Mesmo com toda a legislação existente ainda há um grande preconceito em termos não só de empregar deficientes, como também em relação a cor da pele.
SV: Confesso que não tenho um grande conhecimento sobre essa matéria, o racismo não é radical na sociedade portuguesa.

No entanto, eu tive uma colega que estudou engenharia e foi chamada para uma entrevista pelo conteúdo do seu curriculum e não foi pelas respostas que proferiu na conversa formal, mas ela acha que foi preterida pela cor da pele e não é caso único.
SV: Acredito que sim e custa-me imenso dizer isso. São situações que por mais que tenhámos consciência que existam e que são absurdas, admito que ocorrem. Os portugueses não são dos povos mais racistas, embora tenham sido conquistadores no passado, mas esse problema é real. Confesso que nunca me tinha debruçado sobre esse tema da mulher, o trabalho e a cor da pele.

Se calhar porque na Madeira não há grandes comunidades de descendentes africanos, mas no Continente é uma realidade muito visível.
SV: Isso é um campo de actuação que devia ser estudado. No caso das mulheres com deficiência elas sofrem um caso da tripla discriminação, porque são do sexo feminino, porque tem deficiências e dependem de outras pessoas ao nível até da locomoção. Acredito que uma mulher ou homem com deficiência tem as mesmas capacidades do que um dito normal, tem é algumas limitações físicas e necessitam de diferentes ferramentas de trabalho e é verdade que muitos empresários empregam essas pessoas, porque tem vantagens sociais e fiscais com essas contratações, mas não adaptam os locais de trabalho, essas pessoas não são alvo de formações e obviamente que no final do contratos de trabalho são despedidas. Estava há pouco a perguntar-me pelas medidas que se podem tomar, estes casos sim, necessitam de uma iniciativa forte, porque em lugar de resolver esta questão, dão-se pensões e eu não estou obviamente a contestar essas benifícios, porque se não fosse essas verbas as pessoas não tinham como se socorrer. Sobretudo, devia promover-se a empregabilidade dessas pessoas, deviam e precisam, porque o trabalho é uma mais-vália, ajuda na auto-estima.

Mas, isso também envolve uma vertente cultural. Os empregadores não criam os acessos, porque se reparámos de um modo geral ainda subsistem inúmeros obstáculos arquitectónicos e não são tão poucos quanto isso, existe legislação nesse sentido e contudo, vêem-se algumas rampas tão inclinadas que é impossível até para a circulação de cadeiras de rodas e elevadores que não funcionam.
SV: Tem razão e há legislação para isso e posso dizer que ao nível regional, debatemos isso, existe um plano para as acessibilidade inclusivé para os edifícios públicos e não há acesso para estas pessoas. As leis são excelentes, mas não são aplicadas.

Os portugueses são reconhecidos por uma legislação muito avançada em termos de igualdade do género e outros direitos, mas que falha sempre na práctica. Então o problema no nosso caso qual é?
SV: É necessário continuar com o trabalho, mais acções políticas e fazer cumprir a lei.

No fundo não se penaliza ninguém.
SV: É o machismo social e político também, porque temos uma constituição, e vou reforçar que, é belíssima, foi uma das mensagens de 1976, em termos de direitos humanos e da igualdade de género esta lá tudo. Estámos também avançados em matéria de direito ambiental, mesmo que alguns países europeus, e a verdade é que somos um país que deve muito a igualdade do género, dos direitos das pessoas com deficiência e até em termos ambientais e tudo tem a ver com mentalidades. Atrevo-me a dizer que a educação é basilar nesta matéria e ponto. E quando temos um fraco investimento político nesta área e professores a serem humilhados, isto desmoraliza a classe e obviamente que o ensino não será o mesma para as gerações futuras. É um processo em cadeia, um sistema que não é nada abonatório numa sociedade que se quer mais justa e igualitária.

Mas, as mulheres portuguesas já ultrapassam os homens em termos de habilitações literárias.
SV: Ainda há uma herança patriarcal muito pesada. Estámos melhor, mas é um progresso muito lento.

Recentemente há uma palavra que voltou a ribalta que é o feminismo, porque a nossa geração de mulheres que usufruem os direitos adquiridos acham que já não é necessário, mas vemos ainda um pouco por todo o mundo que as mulheres são alvo de trafégo de seres humanos e não tem direitos. Acha que temos de ser mais feministas em Portugal?
SV: Em primeiro lugar, acho que essas questões feministas já não se justificam quando o feminismo é visto como o contrário de machismo. O machismo mata e humilha todos os dias, tortura, escraviza, explora, prostitui e discrimina a mulher por ser mulher. O feminismo foi inicialmente um movimento de mulheres e alguns homens e estámos a falar do século XIX e XX em que havia várias republicanas portuguesas e mais recentemente as três marias nas “novas cartas portuguesas”. Estas mulheres não eram contra os homens, o feminismo é uma filosofia, uma moral atrevo-me a dizer que promove a igualdade de género e diginidade das mulheres, porque ao defender os nossos direitos não estámos a dizer mulheres sim, homens não. Vou dizer mais o feminismo que estes movimentos defenderam o direito a emancipação das mulheres, do voto até no sexo masculino, porque se fossem pobres os homens não votavam, defenderam também o direito das crianças, das populações negra e outras étnias, no fundo era uma questão de direitos humanos. Sou a favor do feminismo, faz todo o sentido ser-se feminista, mas não é por sermos mais dos que os homens.

Abordo isto, porque os movimentos de extrema-direita na Europa e a eleição de Trump para presidente dos EUA relançaram esses ideiais, reforçaram esses argumentos, porque agora parece que estão a tentar retirar-nos esses mesmos direitos adquiridos e até na Rússia se aprovou uma lei em que um homem pode ser violento por um dia contra uma mulher. É por isso que parece que temos encetar novamente esse tipo de lutas e reavivar esses movimentos.
SV: É verdade. Focou uma questão que é interessante, nossa geração partiu do princípio que isto era tudo assim e que temos direitos adquiridos. Volto a sublinhar esta questão que é necessário educar os meninos e as meninas, porque não é um dado adquirido. É preciso ensinar através da história que foi necessário mulheres e homens lutarem pelos seus direitos de afirmação e de direito ao emprego. É natural que haja uma contestação contra este tipo de medidas, como é que hei-de classificar sem ser ofensiva? São inconcebíveis num Estado avançado, como esse caso na Rússia e por todos as outros que estão a emergir e mais ainda nestas nações ocidentais e não em países onde as mulheres são vistas como objectos. Na Europa 3 em cada 10 já experienciaram qualquer tipo de violência, sexual, física e psicológica, um número que nem se imaginaria. Quanto ao aparecimento desses governos, são movimentos de reacção, obviamente, temos de insurgirmos contra isso, mas dizer que esta a reaparecer o feminismo não, a MDM nunca deixou de ser feminista, é pela defesa dos direitos humanos e por isso temos de reagir de todas as formas cívicas e legais seja nos EUA, na Rússia ou em Portugal.

http://www.mdm.org.pt/

terça, 07 março 2017 22:29

A animadora do pensamento

Margarida Madeira é o cérebro criativo por detrás da produtora pickles films e de várias animações premiadas em festivais nacionais e internacionais, entre elas, “Os prisioneiros” e a famosa “Dona Fúnfia”.

Como é que surge a animação na tua vida?
Margarida Madeira: Eu estava estudar design de comunicação na Faculdade de Belas Artes do Porto e fui fazer Erasmos na Pólonia. Como a animação neste país é muito importante, então decidir ter umas aulas, apercebi-me que era o que gostava mais, depois quando voltei para Portugal apostei nessa vertente.

Começaste a trabalhar numa produtora na América do Sul, na “Hierroanimación”, e como foste parar à Colombia depois do curso, ou não foi assim este percurso?
MM: Não foi bem assim esse percurso, depois de terminar o curso fui fazer um mestrado em Barcelona. Tinha um grupo de amigos que elaborou um projecto que se tornou uma série, como tinham o apoio de um canal de televisão colombiano e precisavam de mão-de-obra, pessoas formadas em animação e que soubessem utilizar o software que tinha sido usado na curta-metragem, convidaram-me a mim e outras pessoas e fui trabalhar para lá.

Depois tivestes outra oportunidade no México?
MM: Sim, quando acabou à produção da série estava a pensar o que iria fazer, esse mesmo grupo de amigos decidiu ir até o México e eu resolvi procurar trabalhar lá e estive uns meses numa agência de publicidade.

Depois voltastes para Portugal e criaste uma curta-metragem bastante premiada que é “Os prisioneiros”. Como é que surge este projecto?
MM: “Os prisioneiros” surge quando ainda estava no México, falaram-me de um livro “As prisioneiras:Mães atrás das grades ” de Isabel Mery, escritora e jornalista, eu não sabia que as mães podiam ficar com as crianças na cadeia e fiquei chocada, porque achava que não era muito ético e até mau para elas. Depois de ler o livro à minha opinião não ficou assim tão clara, fiquei com sérias dúvidas sobre aquilo que achava antes e pensei que era um bom tema para desenvolver numa animação. Por outro lado, achei que seria bom para à divulgação do tema do livro e que seria um óptimo veículo para fazer chegar essa mensagem a outros públicos.

E foi nessa altura que decidiste criar à tu produtora a pickles films?
MM: Isso foi um pouco por necessidade, porque como consegui um apoio do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) para desenvolver esse projecto era necessário uma produtora e achei que era boa ideia para começar a desenvolver esta e outras animações.

E qual foi o feedback do público em relação a esta curta-metragem?
MM: As pessoas gostaram muito e como eu havia muita gente que não sabia que as crianças podiam estar com as mães na cadeia. Acho que cumpri os meus objectivos com esta animação que foi fazer as pessoas pensar, dar conta que a realidade não é preto e branco e que existem vários tons e que é preciso pensar duas vezes sobre as coisas. As pessoas ficaram sensibilizadas e mesmo com os prémios foi bom perceber que, ao nível internacional, fazia sentido a mensagem que queria transmitir.

Como aparece à “Dona Fúnfia, volta a Portugal em bicicleta”?
MM: Foi uma ideia que já tinha há algum tempo, uns bons anos, mas que não nunca tinha posto em práctica. Era sobre uma senhora que nunca tinha andado de calças e era sobre uma realidade que eu conhecia. Surge enquanto aguardava para saber se tinha apoio ou não para desenvolver “Os prisioneiros” . Peguei em coisas antigas que já tinha e num mês fiz essa curta-metragem. “Dona Fúnfia” foi feita nos meus tempos livres, mas depois acabou por resultar muito bem, porque foi bem aceite pelas pessoas, participou em alguns festivais e até deu origem a um primeiro episódio de uma série.

Sim, mas vais continuar este projecto, porque tens previsto levar à “Dona Fúnfia” por outras localidades de Portugal.
MM: Pois, eu fiz esse primeiro episódio que é sobre uma volta por Portugal e a localidade é Vila Real. Estava à procura de financiamento para fazer os restantes capítulos, a ideia é fazer 20, entretanto, surgiram outras animações e também não consegui as verbas necessárias para dar-lhe continuidade, por isso, é um projecto que esta em stand by.

E tens uma parceria com “a música portuguesa a gostar de si própria”. Como é que isso surgiu?
MM: Uma das ideias iniciais da “Dona Fúnfia” é apoiar-se muito na música tradicional portuguesa e em todos os aspectos culturais que isso envolve. Sempre gostei desse projecto do Tiago Pereira, então, resolvi perguntar se podia usar as músicas e inspirar-me nas imagens do filme que ele grava para desenvolver personagens e completar os episódios da animação. Ele achou óptima ideia, peguei nos vídeos e nas pessoas de alguns deles para fazer à Dona Fúnfia” pela sua volta à Portugal.

E a voz da dona Fúnfia, como seleccionaste a pessoa para essa personagem?
MM: Isso foi muito fácil, a primeira “Dona Fúnfia”, a original da curta-metragem que fiz num mês, a única pessoa que me ocorreu para a voz foi à minha avó, então, decidi continuar, porque ela tem bastante empatia e jeito para narrar histórias.

E o aspecto físico do personagem foi baseado na tua avó?
MM: Não, a “Dona Fúnfia” não é a minha avó, o aspecto físico da personagem é baseado nas senhoras que via diariamente em Canas de Senhorim, que faziam parte do meu imaginário, que nunca usavam calças e andavam sempre vestidas com batas.

E qual foi à reação em relação a esta animação?
MM: Tem sido muito boa, mesmo ao nível internacional, já ganhou bastantes prémios e eu até pensava que era uma realidade bastante portuguesa, mas afinal notei que também existe em outros países e as pessoas gostam de alguns aspectos que desenvolvo nesta curta-metragem.

Estas a desenvolver outros projectos?
MM: Sim, estou a desenvolver uma curta-metragem chamada “Ensaio sobre a morte”, baseada no livro da mesma escritora de “Os prisioneiros”, da Isabel Mery, é sobre a morte e eu queria explorar esse tema, porque me faz pensar.

E vais apresentá-la ainda este ano?
MM: A ideia é essa, mas será lá para o final do ano, quando terminar à produção.

http://www.pickle-films.pt/

quarta, 01 março 2017 16:54

Sopas do espírito santo

A Ronda dos Quatro Caminhos, lança um novo trabalho dedicado à música tradicional dos Açores, com edição da Ocarina. É o 14º disco da carreira da Ronda, na continuação das últimas grandes produções editoriais, "Terra de Abrigo" e “Tierra Alantre".

O disco foi composto e pensado com base na Orquestra Regional Lira Açoriana, uma orquestra de instrumentos de sopro e percussão, que integra jovens músicos das bandas filarmónicas das várias Ilhas e que participa em todos os temas, todos eles populares, com orquestrações dos músicos da "Ronda dos Quatro Caminhos”. Além da orquestra, participam no disco vários coros polifónicos e músicos populares e eruditos de todas as Ilhas do Arquipélago, num total de mais de 300 músicos e cantores.
Neste trabalho, a música regional dos Açores é vista sob a perspectiva das bandas filarmónicas que têm um papel de grande relevo e destaque na vida comunitária dos Açores, quer pela formação musical que proporcionam à juventude, quer pela participação nas festividades religiosas e populares. O mesmo acontece com a harmonia coral religiosa e pagã, através dos coros polifónicos, geralmente ligados à celebração litúrgica, mas também com um repertório clássico e popular, tendo-lhes sido dada neste trabalho, a par com a orquestra, a relevância que na verdade têm e certamente merecem. Depois a viola da terra, com as suas variações e diferentes maneiras de tocar, certamente o instrumento mais representativo da tradição popular, participa por direito próprio neste disco.
Para os músicos da Ronda, Mário Peniche, Pedro Fragoso, António Prata, Carlos Barata, João Oliveira, Pedro Pitta Groz, o problema maior foi "em relação aos vários grupos e formações de danças e cantares populares, guardiães maiores do cancioneiro popular, dos cantadores dos vários estilos e canções populares, dos tocadores de instrumentos também relevantes na música tradicional, como o violino, o bandolim, o violão, etc., que pessoas e agrupamentos convidar, numa terra de brilhantes músicos e instrumentistas? Já sobre o repertório, como escolher uma dúzia de cantigas numa terra onde se respira música popular e com um cancioneiro tradicional tão vasto e variado? A escolha foi assim, como certamente podería ter sido outra dúzia diferente e mais outra e outra. Quantos discos haveria que fazer?".

 

quarta, 01 março 2017 16:51

Notícias do bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval,
a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos…
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.

Egito Gonçalves não é um dos nomes que nos salta à memória quando se fala de poesia em português, mas cabe-me abordar este autor por dois motivos, o primeiro prende-se pelo poder das suas palavras, a sua capacidade de moldar o pensamento, de transformar os seus versos em hinos à liberdade, ou a falta dela, de tentar impedir o entorpecimento de uma sociedade fechada sobre si mesma através dos seus poemas e nada melhor para ilustrar essa ideia do que, “Notícias do bloqueio”. Editado a partir dos anos 50, este é um dos fascículos de uma série de nove que foram publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção deste poeta, de Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro e que surgem num Portugal onde a ditadura se fazia sentir no rasurar dos textos pelos censores e pela constante pressão exercida sobre os intelectuais desta época e este autor é porventura um dos rostos menos reconhecidos de uma geração de escritores que não se remeteram ao silêncio cúmplice de um sistema político opressor. Foi acima de tudo um homem dedicado à cultura, tendo-se destacado para além da poesia, na área da edição e tradução de textos, daí o destaque desta obra e eis o meu segundo motivo, este livro aborda uma poesia que reflecte à sua época, são poemas de resistência, do combate ao silêncio imposto pelo Estado e que aludem o cerco sombrio que a polícia política impunha as vozes mais críticas deste período e isso reflecte-se na poesia de Egito Gonçalves. Boa leitura.

quarta, 01 março 2017 16:45

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É uma curta-metragem premiada do jovem cineasta, Nuno Sá Pessoa e que já esteve presente em 46 festivais internacionais. O filme de ficção científica aborda um encontro inesperado que expõem as fragilidades dos cidadãos e das políticas que os governam.

Nuno Sá Pessoa criou um universo paralelo que aborda uma sociedade internacional controlada pela União dos Mundos, que resulta do colapso dos países desenvolvidas em todo o planeta e que procura controlar todos os possíveis “elementos subversivos” que se desviem da nova ordem geo-política e social. Segundo o cineasta, esta curta-metragem que foi filmada em 2014 serviu como veículo para mostrar “a minha opinião em relação à situação económica de Portugal e do mundo em geral”. A curta-metragem reforça a ideia de um Estado opressor primeiro porque é filmado a preto e branco, ou seja, um mundo com poucas opções, raras liberdades e muitas obrigações. Depois há o enredo que sublinha a ideia do medo de emitir uma opinião, de ser diferente, estar fora das normas, não por ser perigoso, apenas fora da leis da dita normalidade, ser desempregado, incapaz de produzir sem parar. É uma alusão, ao meu ver, ao livro “1984” de George Orwell que nunca esteve tão actual como hoje em dia, e o titulo do filme remete-nos para isso, mesmo se tratando de um género como a ficção científica, coloca uma questão pertinente sobre como facilmente aceitámos e nos submetemos a certas ideias, ou regras para (sobre)viver em sociedade como dogmas e não questionámos o seu porquê?

http://www.nunosapessoa.com/videos

 

quarta, 01 março 2017 16:39

Escolhas

 

A exposição da artista cénica, Margarida Menezes surge como a conclusão do processo de "site-specífic" de procurar o espaço físico ou cenográfico do livro de fotografia e texto "Escolhas" de Miguel Leitão Jardim, no qual se baseou a construção de uma instalação com o mesmo título em exposição no Salão Nobre do Teatro Municipal Baltasar Dias. A performance baseou-se no mesmo método e propos a exploração em site numa das áreas da instalação. O tempo e a luz, a casa e as palavras foram as ferramentas através das quais se desenvolveu o tema das "não escolhas", ou seja, aquilo que foi não foi seleccionado para integrar o livro e a instalação é articulada no tema das escolhas como um rebuscar de material fotográfico intríseco ao processo criativo.

Como surge esta instalação artística intitulada “escolhas”?
Margarida Menezes: A instalação resulta do lançamento do livro do Miguel Leitão Jardim. Ele falou-me da exposição de fotográfias e eu desafiei-o com o projecto como uma forma de divulgar os conteúdos, porquê não tentar o espaço físico dessa obra? E foi o que fizemos. Basicamente, estudámos o livro já no final e procurámos o espaço e objecto físicos, o tempo e as dinâmicas das imagens, ou seja, a relação entre o texto e a fotográfia e isto proporcionou-nos um labirinto, um espaço com várias estructuras e uma instalação quase literária, fotográfica e plástica.

Miguel Leitão Jardim: O ponto de partida foi uma série de viagens minhas em espaços museológicos. Especialmente Serralves, no Porto e as Mudas, na Madeira e ao contrário de outros trabalhos este surgiu de algumas dessas fotográfias que fiz e que me motivaram a continuar uma série que percebi que tinha, aumentá-la e dar-lhe vida. O enquadramento que surgiu resulta dos vários autores que foram convidados para escreverem sobre as várias imagens que estavam aliadas a este projecto.

Foi uma ideia inicial para a obra fotográfica convidar autores? Ou foi em conjunto?
MLJ: A ideia inicial foi minha e convidei vários autores para este projecto. No livro não há apenas prosa, existe também poesia.

Margarida, porquê um labirinto?
MM: O labirinto tem a ver com algumas fotográfias do livro e o que se faz é dar as pessoas a escolha do percurso, como os trajectos de vida, as nossas escolhas e esse foi o nosso tema para à instalação. Com base nisso também há uma performance, baseada na escolha e não escolha. As imagens que não foram seleccionadas para esta exposição serão depois aproveitadas, as páginas 32 e 33 que não existem na obra e que neste caso tem a ver com as nossas escolhas, daquilo que se deixa de fora e será isso que vou aproveitar para a performance que vou fazer.

Qual foi o fio condutor em termos de imagens?
MM: Isso foram escolhas do Miguel, ou seja, o trabalho dele foi seleccionar uma série fotográfica e convidar autores a escrever directamente para cada fotográfia. O meu trabalho foi, agora, buscar todas as coisas que ele não aproveitou para analisar para a performance.

Porquê consideraste este espaço do teatro Baltazar Dias que nada tem a ver com as imagens e a tua instalação?
MM: Esta sala é um espaço lindíssimo e nós assumimos o clássico como neutro, ou seja, toda a estructura do teatro, como as paredes, decidimos não usá-las para à instalação. Portanto, o projecto limita-se aos paineís e ao interior do labirinto que foi criado por nós. A questão mais relevante é como é que o espaço influenciou? Como decidimos que o espaço não é uma escolha? As suas características também não o são, por isso, a performance que irei fazer chamada página 32 e 33, incide sobre isso, sobre o tempo do espaço, a luz, a ressonância, então será uma interpretação numa área específica, de não luz, foi uma zona não escolhida e portanto a performance será efectuada de forma a que todas as características do espaço sejam assimiladas.

Muitas das instalações são quase toscas.
MM: Sim, o objectivo da instalação é conseguir mostrar um produto artístico com o mínimo de recursos possíveis e então entra a ideia do “low budget”, tentámos próprios criar todas peças da instalação, tudo o que pudesse ser construído por nós, seria, em vez de ser mandado fazer através de um designer gráfico. O objectivo é cativar a sensibilidade à arte e incentivar a criação artística, porquê? Porque a minha área é mais cénica, é o palco, então a minha visão de uma instalação é a criação de um cenário que o livro me sugere. Isso é a minha perspectiva como performer. Como não sou artista plástica, a ideia era combinar as fotográfias e os textos, mas materializando-as no espaço. Para mim é mais uma construção de um cenário, é uma instalação, porque não se trata de um espectáculo, ou uma peça de teatro, sendo, que a performance não terá cenário, é o próprio espaço.

E os blocos de cimento?
MM: Estão aí por dois motivos, simbolizam os alicerces e a força que uma casa tem advém disso, dos tijolos. O livro faz essa referência da casa, do espaço, daí a forma da obra ser quadrada. A casa é construída com tijolos e isso representa-nos, o nosso impeto artístico que coloca os blocos e que os mantém unidos. Essas peças são de um puzzle, ou de um labirinto, portanto, o tijolo representa a construção de alicerces que estão na base do ímpeto artístico, mas também representam o escolher ficar, ser um objecto imóvel, pesado e rústico.

Procuraste também criar com este labirinto muita interactividade com o público?
MM: A intenção é exactamente essa, envolver o público na arte de criação. As pessoas podem tocar nos alfinetes e correrem o risco de se magoarem. Quererem, ou não, entrar numa sala escura que é iluminada com um flash intermitente. Podem cheirar ou até morder uma cadeira feita de maças, mas, eventualmente tem de se aproximar e cheirá-las para conseguirem ler o texto, o objectivo é que usem o olfacto. Têm que girar, ou dançar em torno de uma coluna para ler o poema sobre o infinito, porque é essa minha ideia do eterno. Há várias peças que tem ser tocadas, afastadas para permitir a sensibilidade sobre uma fotográfia e é necessário até usar o espelho para ler um texto. O objectivo é criar uma ligação mais próxima com o público, eu enquanto artista cénica tenho dificuldade em criar esse elo, porque quando estámos em palco e mesmo que seja no meio de uma audiência há barreiras difíceis de ultrapassar, a presença de um actor, de um bailarino, ou performer, ao mesmo tempo restringe, ou constringe uma certa ligação com o público. Esta instalação permite um visitante entrelaçado com o objecto artístico, para que toque, que sinta, que entre no espaço, no cenário e isso, por norma, não são coisas acessíveis.

quarta, 01 março 2017 16:33

Alameda dos freixos em perigo

 

  

Queixas à Quercus sobre o abate de árvores geraram polémica junto das populações e autarcas de Portalegre.

Em comunicado, a associação ambiental, Quercus esclarece que “foi alertada para um corte de árvores que se estava a realizar na Estrada Nacional 246-1, junto à localidade da Portagem, concelho de Marvão, distrito de Portalegre, mais em concreto num local conhecido como “Túnel das árvores” ou “Alameda dos Freixos”. Tendo-se deslocado ao local, verificou que apesar dos trabalhos de corte se encontrarem interrompidos devido aos protestos dos populares e da Autarquia de Marvão, tinham já sido cortados pela empresa pública, Infraestruturas de Portugal, sete freixos (Fraxinus angustifólia Vahl) adultos de grande porte, com a justificação que se encontrariam em mau estado de conservação. Verificou também que era intenção inicial da empresa cortar mais alguns exemplares desta espécie, já sinalizados previamente.

O local onde decorreu este abate está integrado no Parque Natural da Serra de São Mamede e devido à sua singularidade paisagística, é um autêntico cartão de visita da região, constituindo-se como um património natural e cultural que tem sido conservado pelas populações ao longo dos anos. Os cerca de 300 freixos centenários foram inclusivamente classificados como árvores de interesse público, pela sua dimensão e conjunto, que segundo a ficha de caracterização oficial, forma uma “magnífica alameda de altos e frondosos freixos”.

Face ao sucedido à associação ambiental refere que “estamos na presença de operações de duvidosa legalidade e oportunidade, a Quercus solicitou de imediato esclarecimentos à Infraestruturas de Portugal, tendo em vista o apuramento de responsabilidades decorrente deste abate de árvores. Dado que, segundo foi possível verificar no local, algumas das árvores abatidas, e outras sinalizadas para abate, não apresentavam quaisquer sinais de má conservação ou perigo para a segurança pública, a Quercus exige que sejam divulgados os pareceres técnicos que levaram à intervenção realizada. Uma vez que infelizmente são recorrentes as situações em que árvores junto às vias públicas são abatidas sem justificação ou segundo critérios muito duvidosos, a Quercus vem exigir ao Governo, e em especial ao Ministério do Planeamento e das Infraestruturas que tutela a empresaInfraestruturas de Portugal, uma atuação mais firme e responsável, de modo a que árvores saudáveis não sejam abatidas sem razões válidas e sem a ponderação de outras alternativas mais adequadas".

Em baixo aparece link com descrição da importância destas árvores para o Insitituto de Conservação para a Natureza.

http://www.icnf.pt/portal/florestas/ArvoresFicha?Processo=KNJ3/025&Concelho=&Freguesia=&Distrito

quarta, 01 fevereiro 2017 16:54

Não sou imune ao teu charme

Os Anaquim surgem em 2010, na cidade de Coimbra, com um álbum de estreia, “ As vidas dos outros”, que os catapultou de imediato para a fama nacional, mas cujo sucesso já atravessou fronteiras graças à sua sonoridade peculiar fruto de uma fusão de sons do mundo, com um toque muito português. Este ano lançaram o seu terceiro trabalho discográfico, muito mais calmo e bucólico como o define o fundador, cantautor da banda, José Rebola.

Em termos dos Anaquim, no terceiro álbum “um dia destes” notas uma evolução em termos dos restantes dois trabalhos discográficos que já lançaram como banda?
José Rebola: Eu acho que neste álbum há sempre uma evolução e uma dinâmica muito própria, tentámos que cada disco transmita um certo sentimento e foi isso que mudou em relação os restantes dois álbums, porque “um dia destes” tem um fio condutor. O nosso primeiro trabalho discográfico era uma espécie de colecção de crónicas, o segundo era um álbum mais social, centrado mais nas problemáticas da sociedade e do eu. Este terceiro trabalho é diferente porque toca nos afectos, no amor, no desamor, no encontro e desencontro das pessoas. Portanto, é um disco mais contemplativo, mais calmo, mais bucólico, a ideia foi sempre o minimalismo das canções, um certo diminuir da quantidade de letra e da velocidade de algumas coisas, foi basicamente isso que mudou.

Este é um trabalho ainda voyeurista, porque os vossos temas focam os outros e tudo o que ocorre em volta e afirmou que este disco é mais contemplativo e bucólico.
JR: Eu acho que quando olhámos ao que esta à nossa volta e para os outros, também vemos o que há de nós nessa circunstância, na sociedade que nos rodeia e o contrário. Acho que olhar para dentro não é só olhar para dentro e olhar para fora nunca é só olhar para fora, o que acontece quando escrevo letras para o Anaquim é esta conjugação dos pontos de encontros que encontrámos entre eu e os outros, o interior e o exterior e nesse sentido acho que continua e continuará a acontecer.

Abordando as letras das músicas, acabaste de referir que estão mais contidas, mais concisas, nostaste uma evolução da tua escrita neste álbum em relação aos restantes?
JR: Quando estava a referir-me que eram mais contidas, estava a abordar a quantidade total de letras e o que é debitado por segundo. Numa canção mais reivindicativa, mais interventiva, nos queremos dizer muita coisa e muito depressa, quando se fala de amor e solidão acho que é natural haver um certo respirar, uma certa pausa e isso é o que sinto nestas canções. O que não diminui a intensidade das letras e o que elas transportam, é que não importa só o que se diz, nem como se o diz e neste álbum as coisas são ditas de uma maneira mais suave, mais pausada que vai ao encontro da natureza das mensagens que são passadas.

Há algum tema que seja a súmula de tudo isso? Que seja emblemático de “um dia destes”?
JR: Eu acho que a canção que passa mais essa mensagem e que consegue abordar quase todos os outros temas do álbum talvez seja “a estrada” e lá esta não é uma letra muito contida, é a maior de todas, mas como é uma espécie de viagem consegue abordar e ser o mote dos restantes temas do disco.

Algumas vezes os Anaquim estreiam músicas nos concertos que depois inserem nos álbuns, aconteceu o mesmo em “um dia destes”?
JR: Aconteceu com um ou dois temas, mas não mais do que isso. Até porque só no processo de gravação é que os temas sofrem uma metamorfose e acabam por ser diferentes do que tínhamos em mente. Portanto, esse apresentar as canções antes da apresentação só aconteceu uma ou duas vezes.

Em relação as melodias, vocês incorporam muitos genéros, que não são de uma sonoridade dita portuguesa, são muito díspares. Onde fostes buscar influências desde o klezmer judeu, ao bluegrass e a rembetika grego que não são musicalidades muito conhecidas do público português?
JR: É verdade, mas eu sempre ouvi muita música diferente. O Anaquim surge quando eu estava em outra banda de rock, mais virado para o punk rock e comecei a ter ideias que não se enquadravam naquele universo, então foi gravando e escrevendo. Como era uma composição tão espaçada as canções eram muito diferentes, o que não significava que não houvesse alguns pontos de contactos, através de ritmos bastantes fortes e marcados. O que acontece é o que vemos com a sonoridade de bastantes músicos que pegam na música tradicional portuguesa e mostram que ela tem um lugar no mundo, nós fazemos um processo contrário trazemos a música do mundo e provamos que ela se enquadra em Portugal. Os temas que escrevemos em português e a nossa maneira de fazer música, também podem ser em bluegrass, como com ritmos bálcanicos, ou judeus, ou gregos, pode ter isso tudo. O que pretendemos é não só mostrar que Portugal tem lugar no mundo, como também mostrar que todo o caldeirão do mundo têm lugar no nosso país e com um sentimento português.

Não ouviram já críticas nesse sentido dos ditos puristas musicais portugueses?
JR: Por acaso não acontece muito, porque o modo de estar de uma banda, não é só a melodia ou a música que fazem, são as letras, a atitude, os temas abordados, a postura e acho que nisso somos muito portugueses e vamos buscar muitas coisas portuguesas. De resto tudo acaba por ser um círculo vicioso em que todos os genéros de musicais vão beber uns nos outros, o fado tem muito contacto com a música árabe, há outros que acham que tem uma forte componente napolitana. No fundo vamos todos buscar coisas uns aos outros e adaptamó-las à nossa maneira. Nesse sentido tentámos mostrar que tudo pode ser música portuguesa, talvez não nos cânones mais tradicionais, mas não sentimos muito essa crítica.

Acham que a música portuguesa gosta de si e o público é reflexo disso? Ou ainda há um percurso por fazer?
JR: Eu acho que a música portuguesa e mais em particular a que é feita em português beneficiou de uma mudança de atitude dos média e do público em geral, em relação a si própria. Nós temos vindo a constatar nos últimos 10 anos que as pessoas abordam a música portuguesa com outros ouvidos e que já não é tão “foleira” e isso felizmente já desapareceu, ou esta bastante minimizado. Temos a noção que o público tem mais atenção as letras, uma maior abertura e um preconceito menor em relação aos projectos musicais portugueses nos palcos nacionais. Agora, o nosso país não permite um fluxo gigante de musicalidades como uma nação como os EUA, isso não acontece, infelizmente. Mas, sentimos que as bandas portuguesas tem conquistado muito público no seu mercado interno.

E a vossa projecção como banda? Notam que são mais reconhecidos fora de Coimbra?
JR: Nós temos tido a sorte de tocar, ganhar fãs e amigos em todo o lado onde vamos tocar. E notámos que essas pessoas actuam como “agentes de promoção da banda”, porque apesar de tudo ainda se vive muito desse passa-palavra e sentimos que a nossa base de apoio vai-se alargando e até mais do que isso, já tivemos a sorte de fazer uma tournée pela África Austral, fomos tocar ao Zimbábue, a Namíbia e a África do Sul e em Março vamos à Lion. Sentimos que estámos a cumprir um além-fronteiras onde a nossa música é bem aceite.

quarta, 01 fevereiro 2017 16:46

Aqueça o seu inverno com luxo

Mais tendências para este Outono-Inverno'17 que estiveram em destaque nos desfiles do Portugal Fashion.

Pedro Neto, um dos nomes a reter que saíram da secção Bloom, dos novos talentos nacionais, tem como tema da colecção a análise pessoal de uma figura feminina, Lady Godiva e os veludos foram um dos elementos chaves dos seus coordenados. Como refere o jovem designer de moda, “ esta protagonista viveu no séc. XI e foi uma referência para um quadro de John Collier. No entanto, é com este quadro que advêm as referências equestres para se fundirem com o conceito desta coleção, que pretende ilustrar uma mulher ingénua, mas simultaneamente determinada e muito forte nas suas convicções e na sua presença. Paralelamente a esta introspeção pretende-se transmitir o luxo utópico e a sumptuosidade através dos tecidos escolhidos como os veludos devoré e as lãs com acabamentos detalhados. Com a escolha do quadro de Lady Godiva, a ideia é submergir no mundo sumptuoso onde vive esta imagem com detalhes utópicos de luxo".

Outros Pedros desta feita “Pedro Pedro" destacaram um novo tipo de xadrez, que é uma das tendências deste inverno, sobre a sua colecção questionam, “uma imagem continuará a valer mil palavras quando vivemos asfixiados pelas imagens? And if the glamour is dead? Brutalismo. Desleixo. Proteção urbana. Um manifesto anti-glam. A roupa como casulo. A forma como liberdade do corpo. O corpo como interioridade. Silhuetas agigantadas, volumetrias generosas, cortes assimétricos, sobreposições de peças e bizarrias. Influência do vestuário masculino/ militar nos sobretudos e blusões. Malhas femininas de decotes generosos. Calças largas de linhas sport. Comprimentos exagerados. Materiais de agasalho e confortáveis. Lãs, feltros, acolchoados encerados e gabardines encerados que se conjugam com algodões e linhos rudes. Tricots grossos e jerseys de lã. Vichys e axadrezados marcam os motivos da coleção. Cores invernosas, terra e sóbrias. Do cinza ao beije e ao camel, passando pelo preto, caqui, verde, verdes néon e oliva".

Alexandra Moura apresenta uma colecção que se debruça sobre o masculino/feminino e também lança o debate, “género, pronome, indivíduo!? Uma reflexão sobre o impacto do feminino no masculino e vice-versa porque "em todo o indivíduo vive uma guerra misógina". A personagem e a espiritualidade de Anohni (F.K.A. Antony Hegarty), inundadas de sensibilidade, são o ponto de partida da coleção que nasceu dos seus esboços, recortes, colagens, da sua carga dramática e teatral, revelando-se de uma fragilidade que pede conforto. Os detalhes são trazidos de tempos antigos, das peças de roupa interior de ambos os géneros que se fundem para o futuro. A silhueta clássica é desconstruída e torna-se contemporânea. O peso dos materiais revela a imagem do conforto de um cobertor que protege de uma "falsa identidade". A sofisticação das texturas e padrões trazem às peças o romantismo e a plasticidade de outra época. A coleção liberta-se numa mistura de características femininas e masculinas num único ser, espírito e energia?."

A concreto de Hélder Baptista, apresenta coordenados onde "são predominantes os jacquards com figuras de animais em tons de preto e branco, com apontamentos de prata. Para simbolizar a proteção desta floresta as silhuetas são apresentadas em forma de tubo, justas, muito compridas com uma ou outra peça ampla e grossa a contrastar, mas curta. Todas elas são trabalhadas com relevos e texturas 3D, nos quais se representa a magnifica irregularidade das florestas, bem como as rendas e as suas transparências. Tudo isto é constituído por matérias-primas como lã e algodão, nos tons de preto, branco e cinza com apontamentos de bordeaux e prata que representam esta silver forest”.

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