Um olhar sobre o mundo Português

Voltei depois de um muito necessitado hiato e agora apresento uma edição recheada de experiências e multiculturalidade. Seja bem-vindo de novo

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

terça, 21 junho 2016 18:15

A doce tentação

É uma das novas revelações da música de Cabo Verde. Elida Almeida canta por necessidade para expressar, através da música os seus sentimentos, os momentos bons e menos bons da sua vida.

Intitulaste o teu primeiro álbum de “ora doci ora margos”, porquê? Começemos por esta historia.
Elida Almeida: É um título que tem muito a ver comigo. Com o que esta a ser a minha vida, é também algo que vai ao encontro de muitas pessoa. Hoje em dia por mais mil maravilhas que seja a tua vida, há sempre um tom amargo, um momento em que as coisas não dão certo. Tendo em consideração todas as músicas que tinha no disco, o título que não poderia ter sido melhor.

Estas canções falam da tua vida. Vamos falar da composição, o que inspirou muitos dos temas?
EA: Eu não escrevi este álbum assim, eu escrevo assim desde sempre e muito. Por norma falo sobre a minha vida e por tudo o que passei até agora inspira-me. Eu tiro tudo para fora através da música e das letras, penso que com isso consigo comover as pessoas, porque embora sejam os vários estágios da minha vida, as pessoas também vivem esses momentos no seu dia-a-dia e penso que, por isso, o público se identifica muito com os meus temas, porque abordo o quotidiano.

Então quando começaste a escrever em termos de letras?
EA: A minha primeira composição foi “Nta Konsigui” que escrevi quando tinha 17 anos, na altura já conseguia fazer uns acordes com a minha guitarra, é uma melodia muito simples e poucos acordes, mas que teve muito impacto em Cabo Verde e roda a gente canta. Em Portugal graças a telenovela da TVI tornou-se muito conhecida, só no “youtube” temos mais de 2 milhões de visualizações.

Escreves muito, desde muito jovem, então o que uniu todos os temas de este álbum?
EA: Fomos ouvindo e seleccionando, quando decidimos intitular o disco de “ora doci, ora margos”, escolhemos temas que se enquadravam com o título. Então, escolhemos 13 canções, mas havia mais de uma dezenas de temas que tinha escrito e eu queria interpretar, mas acima de tudo foram escolhas minhas.

Acho curioso que refiras que muita gente se identifica com as tuas canções, contudo, és tão jovem e as letras parecem de alguém bem mais maduro.
EA: Pois é, mas a vida encarregou-se que a maturidade fizesse parte da minha existência desde muito cedo, devido as circunstâncias o meu pai faleceu quando eu era muito jovem, a minha mãe teve ir buscar a vida numa outra ilha e eu fiquei responsável pelos meus irmãos, tive uma gravidez precoce, tudo isso fez com que ganhasse maturidade de uma forma precoce dígamos assim. Eu fico muito feliz de saber que entro na vida das pessoas adultas, mas também nas crianças, porque em Cabo Verde elas vem ter comigo e dizem-me que me adoram e isso é gratificante.

Tens ganho prémios, um deles como reveleção no teu país. Isso pesa-te de alguma forma?
EA: Claro, o prémio sempre pesa em termos de responsabilidade, tu pensas e agora? Ups! Eu já tinha ganho um prémio nos Cabo Verde Music Awards (CVMA), foi a artista mais premiada da noite, por melhor álbum do ano, de composição inédita e artista mais popular da internet e esses prémios não chegam todos os dias, mas tornam-se em desafios, tenho mais um título para defender e faço por merecer.

Tu não vens de uma família musical, o que é também curioso, porque a grande parte dos músicos cabo-verdianos tem sempre um passado musical. Então como é a música entrou na tua casa, ao ponto de teres decidido aprender a tocar acordes e escrever letras?
AE: Muito cedo. Em Cabo Verde existe muito a tradição de ouvir muita rádio. Eu nasci e cresci numa zona onde hoje ainda não tem electricidade e eu ouvia muita música africana ou americana e eu acompanhava os temas e a segunda vez já tinha decorado as letras. Depois nós tínhamos de inventar coisas para fazer, éramos grupos de crianças, sentavamó-nos em cadeiras, pegavámos em garrafas de plástico e começavámos a fazer batuque, improvisavámos canções e falavámos sobre o dia-a-dia das pessoas e depois eu fiz parte do coro da igreja católica, por um período trabalhei numa rádio e ganhei dois concursos, em Cabo Verde temos um chamado “todo o mundo canta” e como venci, as pessoas começaram a falar de mim e comecei a cantar.

Estas a preparar um novo disco?
EA: Não, estou só a escrever. Foi surpreendente o sucesso deste meu primeiro disco, não estavámos à espera de tanto trabalho, eu ainda tenho até Setembro um mês muito cheio com a tournée e no mesmo de Julho vai sair um single conjunto com um clip e depois em Novembro vou entrar numa fase de respouso para compor, para começar num novo trabalho discográfico, mas não sei a data.

Mas, continuas a escrever?
EA: Eu escrevo todos os dias.

E os temas principais continuam a ser a tua vida?Ou a tua escrita esta a mudar?
EA: Eu ainda ontem estava a pensar nisso, ultimamente tenho escrito muito sobre o amor, que antes que não era o meu forte. Escrevia sobre pessoas e o quotidiano, mas ultimamente ando a escrever sobre o amor, é uma nova fase, mas isto passa. (risos)

terça, 21 junho 2016 18:12

As avós e os seus netos

O poeta, escritor e contista angolano Ondjaki aborda uma das suas obras de prosa a “Avódezanove e o segredo do do soviético”.

A sua literatura abarca vários estilos desde a poesia, a prosa e a literatura infantil. Como é que surge um projecto?
Ondjaki: Eu não tenho um plano, não posso dizer o que vai acontecer daqui a dois ou três anos, espero continuar a escrever contos, escrever para crianças, mas é um desejo não é uma certeza.

Então como tudo acontece?
O: Espero um bocadinho, se a ideia aparece e é má desaparece, se é consistente permanece, às vezes é preciso convencer as ideias a serem alguma coisa. É mesmo esperar, representa muito trabalho, mas também há golpes de sorte para que se chegue a uma boa ideia, visitações como dizia a minha avó é preciso ser-se bem visitado, depois aproveitámos. A literutura não faz milagres, a Igreja promete, mas agora não sei se já o faz, a escrita é sobre comportamentos humanos, ela vai tocando mais ou menos as pessoas, era bom que toca-se os políticos seria bom, se fosse boa literatura, a má não vale a pena.

Quando comecei a ler este livro surgiu-me a ideia que esta história podia ser real.
Ondjacki: A história é real, toda. Há uma parte que é ficção, as crianças não explodiram o mausóleo, ele esta lá, é um monumento e é uma coisa enorme. Eu nunca entrei lá, porque quando inaugurou eu não estava em Angola. Os personagens são reais, a praia do Bispo existiu, nós tínhamos essa relação com as obras dessas locais e a avó é a minha de verdade, é a mãe da minha mãe e a avó Catarina é a irmã que também existiu, não sei onde ela esta.

Adaptaste as personalidades delas a tua história?
O: Não, são elas. Eu não sou a criança que narra a história, podia ter sido, dígamos que sou um dos netos da avó Dezanove, mas eu não me considero o narrador seja eu, agora, todos os outros existem, a Charlita, os vizinhos, tudo isso é real.

Então, o que te atraiu nessa história?
O: É pensar que podia ser literária e não apenas uma história de vida. Aqui esta contado e montado para ser um livro e não apenas do que eu me lembro que a minha avó dizia, não teria sentido. Às vezes é preciso isso juntar de maneira a criar um fio condutor e virou um livrinho, que gostou em formato de livro, porque se eu contasse aquelas histórias separadamente era uma conversa de café.

Seria possível se traduzirem em contos?
O: Podia ser, eu podia pegar naquele universo da praia do Bispo e pegar em cada uma daquelas histórias. Aquilo era para ser um conto, mas não consegui parar e virou um livro, depois entrou a avó Agneta, a avó Catarina e comecei a pensar no cubano, no soviético e foi crescendo.

Este livro também é reflexo de uma cultura africana que dá muita importância a figura mulher.
O: Sim, mas eu não sei se é africana, porque África é muito grande, por exemplo, como é em Marrocos, ou Madagascasr, mas em Angola, Moçambique e mesmo na África do Sul a figura da mulher não só socialmente como familiarmente é uma figura extremamente importante, já para não dizer o avó, é de uma dimensão surreal, acho que sem ter sido intencionalmente isso se reflecte um bocadinho no livro. Veja os países que tiveram em guerra e não é só em África, mesmo na primeira guerra e na segunda as mulheres cumpriram um papel muito importante, ficam na retaguarda a cuidar de tudo, não no sentido doméstico, é muito superior a isso, é cuidar da continuidade, às vezes, o marido, o tio, o irmão já não voltava e é óbvio que do ponto de vista da humanidade se não fosse a mulher havia estes palermas que são os homens e estava tudo lixado.

Outro aspecto de que gostei do livro é que o narrador é uma criança, a história é narrada do seu ponto de vista e depois há este aspecto da uma certa ingenuidade e do sonho, tem todo esse lado da infância. Tivestes que retroceder a tua infância para abordar este jovem narrador?
O: Sim e não. Ali há um exercício que é muito difícil para mim e outras pessoas que é fazer este narrar, não é só voz, é necessário narrar uma perspectiva, como se falava ou se viu, é narrar toda uma construção do pensamento infantil, não digo que é conseguido, mas é uma tentativa de homenagear essa visão em que de facto até uma certa idade o mundo é diferente para nós. Quando vamos crescendo, vamos estragando a parte da fantasia, não a estragámos por completo, há poetas que conseguem ficar com muita infância dentro de si. Foi essa minha tentativa, existe também aquela questão de posse do bairro, elas reagem a uma ameaça que não é pessoal, é colectiva, aquela obra vai fazer desaparecer o nosso bairro, em última instância para uma criança a rua é a sua casa. O seu bairro é o seu mundo, não o país e eles não querem que desapareça.

Também tem esse aspecto de abordares uma certa franja social do teu país.
O: Sim, não teria como evitar. É uma época muito específica da presença dos cubanos, dos russos, a convivência com outros povos, a guerra, tudo isso aconteceu ali, na cidade não havia consequências da guerra, não havia combantes em Luanda, isso gera nas crianças, também nos adultos, mas em especial nas crianças um carnaval de ideias e sentidos obviamente. É completamente diferente para uma pessoa que não conviveu com professores cubanos, que não se habitou a ver russos no seu país a fazerem obras, é outra realidade.

O teu personagem preferido é avó dezanove?
O: Não, a avó dezanove é a minha personagem preferida na minda vida, ela vai fazer cento e um anos agora em 12 de Agosto, esta viva. Neste livro não tenho um preferido, mas a personagem que mais me surpreendeu é avó Catarina, quando comecei a escrever o livro não me lembrava dela, nem tinha o objectivo de a incluir, ela foi vindo e foi-se impondo na história com um ritmo específico e as pessoas pergunta-me se aquilo era verdade, basta perguntar aos meus primos, temos muitas discussões, uns diziam que ela já tinha morrido, outros diziam que lancharam com a avó Catarina.
A avó dezanove leu o teu livro?
O: De uma ponta a outra já não tinha paciência. Eu quando escrevi esse livro ela já tinha 94 anos, ela esta bem, até foi ao lançamento do livro em Luanda e foi muito bonito.

terça, 21 junho 2016 18:08

A porta do riso

  

A Porta 27 é um grupo de teatro dedicado exclusivamente à comédia. Os criadores deste projecto artístico, Cristovão Carvalho, Susana Rodrigues e Tiago Lourenço tentam chegar ao público, através da provocação dos costumes actuais em tom cómico, irónico e divertido, mas sempre com uma componente que promove o intercâmbio interdisciplinar.

Vocês afirmam na vossa página que criaram a "Porta 27" para promover um intercâmbio multidisciplinar de forma a dar corpo a um projecto em comum. O que querem dizer com isso?
Cristovão Carvalho: Nós colaborámos, não é uma companhia com uma forte estrutura, temos um núcleo que depois vamos chamando, vamos estando em contacto com outros profissionais de forma a que consigámos chegar a outros projectos em outras plataformas que não o teatro.

Suzana Rodrigues, tu que escreves as peças todas, porquê escolhem apenas uma plataforma humorística?
Suzana Rodrigues: Por várias razões, ao contrário do que muitas vezes se pensa eu acho que escrever humor e escrever comédia acaba por se tornar mais difícil, mesmo para os actores, do que fazer drama, ou qualquer outro tipo de suporte e de teatro. Não tem a ver apenas com o desafio, mas com a “atenção” das pessoas, é muito mais fácil captar à atenção das pessoas pelo humor do que em qualquer outro tipo de comunicação e não fomos nós que inventámos isto, “ridendo castigat mores” quer dizer rindo castiga os costumes, já há muito tempo que se fala das coisas de uma forma menos séria, sem perder a seriedade e sem deixarmos de falarmos das coisas de que queremos falar.

É nos temas da actualidade que vais buscar a inspiração?
SR: Sim, nós temos este trabalho “o pistolas, pilantras e problemas” que aborda a situação actual da falta de emprego e de termos de nós “safar” com o que temos. Temos um outro espectáculo que é o “senha 44” e que fala da dificuldade de trabalhar a recibos verdes, de uma forma ou outra acabámos por abordar os obstáculos que também sentimos, ou seja, pegámos naquilo que nos esta próximo e abrimos o leque para abrangir mais pessoas.

É um reflexo da geração Y, onde vocês se inserem? As peças tem a ver com os desafios que enfrentam os jovens actualmente em Portugal?
SR: Eu acho que sim, sim. Nós criámos a “Porta 27” por várias razões, uma delas é permitir que pessoas da área possam colaborar umas com as outras e possam criar algo em comum. Outro aspecto é abordarmos coisas que nos são próximas junto de um público que não é habitual consumidor de teatro. Claro, que as pessoas que vão habitualmente ao teatro acabam por ver os nossos espectáculos, mas tentámos comunicar com os que não estão habituados as prácticas teatrais e atrair novos públicos.

O grupo começou nas manobras em 2011 no Porto, já tem seis anos de existência, olhando para atrás que balanço fazem da vossa actividade?
Tiago Lourenço: Acho que é positivo porque ainda cá estámos. Quando criámos a companhia não sabíamos o que nos esperava, não foi fácil, mas sempre houve pessoas e momentos em que vimos que valia a pena, houve público que nos disse para continuar, casas cheias e temos continuado. É isso que tem prevalecido estes seis anos, criámos um objecto que pouco a pouco vai dizendo mais a mais pessoas, aí, sim, para mim valeu a pena.
SR: Apesar das dificuldades e da falta de suporte financeiro, tivemos sempre apoio por parte de estruturas e entidades que sempre nos abriram a porta. Ao fim de seis anos podemos falar com as pessoas que já sabem quem é a “Porta 27”, termos reconhecimento é muito bom.

O que tem vindo a melhorar? Concerteza que ao longo de seis anos se derem de conta que havia certas prácticas que não funcionavam e deixaram de parte, ou tiveram de adaptar, ou não?
CC: A visão e forma como vemos o que nos rodeia esta em constante mutação, o que víamos em 2011 e agora em 2016 há coisas que mudaram radicalmente. As opiniões que tinhámos na altura faziam sentido e actualmente deixaram de o fazer e é assim que tem de ser assim, é sinal que estámos a crescer, a ver para onde queremos ir e achámos que queremos estar e ainda qual é o caminho certo para nós, que é um pouco como toda a gente.
TL: Actualmente pensámos de uma forma mais cautelosa, já nos conhecemos e as nossas valências, o que a “Porta 27” necessita e quer, porque ao início quando estámos a começar é difícil estabelecer uma marca, porque as pessoas podem não gostar. Hoje em dia já sabemos o que é este projecto, o que quer e o que somos. Tentámos que em cada espectáculo isso prevaleça, é claro que há mutações e questões que nos fazem repensar o assunto, mas agora sim, estámos mais assentes no que somos e esperámos que as pessoas gostem.

Então qual é a marca, ou identidade da “Porta 27”?
CC: Eu acho que pode ser a desconstrução, porque ao longo destes seis anos, um dos aspectos que se manteve nos nossos espectáculos e uma das ligações que temos entre nós é a desconstrução, no sentido em que, embora, as peças estejam assentes na comédia são diferentes entre si e experimentámos diversos tipos de comédia. Isso permite-nos conseguir perceber que em todas elas nos desconstruímos o que achavámos à partida que não podia ser destruído, ou seja, houve uma destruição do que achavámos, ou queremos mostrar que pode ser de outra forma, pode não ser exactamente daquela maneira.
SR: O exemplo disto é o “pistolas, pilantras e problemas” onde há um actor que interpreta um personagem que esta a interpretar um actor, este por sua vez esta também a interpretar uma personagem, acho que não há maior desconstrução do que esta e o público ao ver o espectáculo acaba por confundir quem é o actor, quem é a personagem que é o actor e quem é a personagem que o actor esta a interpretar. É um exercício, é uma forma de estar atento e tentar perceber de que forma estas personagens se complementam.

Falam de construção, então como é génese do vossos espectáculos? Suzana, tu escreves de forma independente ou todos participam e dão o seu contributo?
SR: Até agora as ideias dos espectáculos foram todas minhas, que proponho ao grupo, falámos os três e discutimos sobre isso. Cada um dá o seu contributo, surgem outras ideias e há uma primeira proposta de texto que lemos em conjunto e alterámos, ou adaptámos aquilo sentimos necessidade de alterar, ou seja, no fundo apesar da ideia original ser minha e o primeiro e último texto serem meus, o trabalho é colectivo. Existem sempre ideias na “Porta 27” e quando eu digo de todos, não falo apenas dos actores, mas dos técnicos e de todas as pessoas que colaboram conosco e que tem uma palavra a dizer, ou algo a acrescentar.

Isso também acaba por acontecer no palco, quando assumem as personagens, há espaço para a improvisão, ou seguem o texto na íntegra?
CC: Como trabalhámos diferentes tipos de comédia, este espectáculo do “pistolas, pilantras e problemas” tem espaço para esse improviso. O “senha 44” não tem tanto espaço, a apresentação deste espectáculo não é tão aberta, ao contrário da outra peça onde há espaço para haver uma interacção do público. Tudo vai depender dos projecto e de como nos inicialmente idelizámos o espectáculo e o que é que na fase final vai ficar.
TL: Mas na concepção existe uma grande liberdade, até fazemos jogos.
SR: Os ensaios são períodos de experiências, testámos muita coisa, há sempre aspectos que não funcionam e em muitas das partes desse improviso criam-se momentos que não apareciam incialmente e acabam por ficar fixos na peça, porque surgiram nos ensaios e correram tão bem.
TL: Também assumimos que todos os espectáculos que apresentámos não estão fechados, não deixam de estar em processo, que podem ser melhoradas mesmo para nós, ou após um público o ter visto, ouvimos opiniões, ou seja, todas as peças estão em constante mutação e evolução.

Fazem comédia difícil, então o que acontece quando estão em palco e o público não se ri ou não reage? É aí que entra o improviso?
CC: Isso já nos aconteceu, num espectáculo em que toda a linguagem é assente na línguagem do palhaço, se o público falha a gargalhada, não há muito a fazer, porque todos os jogos estão orientados e criados para isso, podem ocorrer actos falhados, mas por norma, tentámos nos proteger ao máximo nos ensaios, para que acabe por resultar de uma forma ou de outra. Aliás, por causa disso necessitámos dos ensaios e nos apoiámos uns aos outros, porque as visões diferentes do que estámos a criar vão-se complementando ao longo do processo e que acaba sempre por resultar. Claro, que não é uma fórmula 100% infalível, mas tentámos reduzir ao máximo essa margem de erro.

Existem públicos diferentes em Portugal? No Norte, no Porto o público é muito interactivo, mesmo quando as peças de teatro não o são, mas não é caso de todo o país.
SR: Existem imensos e mesmo no Porto há diferenças. De uma forma ou outra estámos ligados as artes e temos colegas e encenadores que vão ver os nossos espectáculos. Fazer uma peça para actores é completamente diferente do que fazê-lo para não actores, porque eles são muito mais críticos, eles vêem e observam o teatro de uma outra forma que o público em geral não vê. Eles estão atentos a luz, por exemplo, enquanto que as pessos notam que o foco é importante numa cena, mas não esta preocupada com isso. O actor, por outro lado, esta preocupado com o ângulo, o tipo de projectores e o seu número e acaba por perder a acção e analisa o texto de uma forma muito mais escrupulosa do que o público em geral, que vê o espectáculo como um todo. Na peça sobre os recibos verdes, os advogados, ou outras profissões liberais são mais sensíveis ao texto, há partes em que o público que não depende dos recibos verdes ri a gargalhada e os que trabalham com recibos verdes como sentem isso na pele não se ri. Neste espectáculo dos “pistolas, pilantras e problemas” houve uma senhora que esteve a rir as gargalhadas desde o princípio ao fim nas falas sobre o banco e percebemos que aquela espectadora trabalhava nesse tipo de instituição. As pessoas que se sentem retratadas nas personagens agem de forma diferente, a experiência é diferente e por isso revêm-se de formas diferentes no espectáculo. Quando o Tiago Lourenço entra com a peruca loira e olha para o público nós sabemos logo por esse momento qual vai ser o comportamento do público no espectáculo, se não se rirem vai ser uma peça difícil.
CC: Já nos aconteceu uma vez.
TL:É complicado, um espectáculo para vinte pessoas é diferente do que para cem, há o medo de rirem entre si, existe aquela vergonha, mas depois quando duas ou três pessoas se começam a rir, todos riem.
SR: Isso acontece porque o riso é contagioso e sabemos disto.
TL: Nós não trabalhámos com o tempo do riso, embora já nos habituámos a ter esse suporte do público a divertir-se. Por vezes é mais difícil, mas depois as pessoas chegam no fim e dizem que gostaram muito.
SR: A pouco quando o Cristovão falava da ausência de riso, existe outra questão que também é difícil, foi o caso de um espectáculo que fizemos em Mondim de Basto em que o público se ria de tudo e se para nós é um gozo enorme ver esta reação, quando temos os tempos pré-preparados para dar 2 a 3 segundos para as pessoas se rirem e segue a cena, se eles não pararem para as pessoas se rirem, depois o público não os ouvem e os tempos ficam todos descoordenados e temos de adaptar-nos, nesse caso tivemos mais calma para depois continuar com a peça. É muito complicado ter um público participativo, ou outro que não o é de todo, mas preferimos o que ri mais.
TL: Também faz parte, estámos sempre a lidar com essa questão, não sabemos o que vamos encontrar. Com a experiência vamos aprendendo a nos proteger, vamos avançando nos trabalhos e verificámos como isso pode funcionar quase sempre, tornar a fórmula mais perfeita possível para todos os públicos.

Qual das peças que fizeram a que teve a reacção mais inesperada do público?
CC: De certa forma todos acabam por ser marcantes. Há espectáculos que conseguimos perceber que as pessoas vão agarrar, existem outros que inesperadamente as pessoas gostam de determinadas cenas que não esperavámos, vai sempre depender como a Suzana dizia do público, ou de como sente o que estámos a apresentar em palco.
SR: Eu tento ir ao máximo de espectáculos possível e houve um no Porto em que entraram pessoas mais velhas do que é habitual nas nossas peças e eu fiquei preocupada porque não se riram e sairam com má cara e eu fiquei com a sensação que eram funcionários públicos e que deviam ser reformados da segurança social porque estavam super ofendidos, no final perguntei se gostaram e disseram que sim com um sorriso amarelo. Acontece.
TL: E já tivemos pessoas a insultar-nos a meio de uma peça que aborda a troika, porque se sentiram ofendidos.
CC: Mas esse era o objectivo, sabiámos que íamos causar algum furor, algum mal- estar, precisamente porque queríamos ter uma reação negativa, queriamos que as pessoas se revoltassem com tudo aquilo.
SR: Havia uma pequena manifestação e notou-se que havia pessoas que se queriam levantar e manifestar-se com eles, as pessoas estavam mesmo a sentir tudo aquilo, a troika, a crise e tudo esta mal. O público estava indignado e isso para nós é bom, porque sabíamos que estavámos a fazer o nosso trabalho bem feito, quando as pessoas sentem o que estámos a sentir.

Vão continuar nesta linha humorística ou pretendem fazer outro tipo de peças?
CC: Nós continuámos a adorar a comédia, acho que deveríamos apostar num outro tipo, não esta de fora dos nossos planos fazer comédia de enganos, ou seja, o que é entrar neste processo e experimentar fazer uma revista.

www.porta27.pt

terça, 21 junho 2016 18:05

Curtas ao ar livre

“Santacurtas” é um festival de cinema alternativo e de autor que visa contribuir para a criação de novos públicos e simultâneamente reavivar um evento similiar que houve no passado na Casa da Cultura de Santa Cruz, na Quinta do Revoredo. Este ano não há competição, mas poderá apreciar várias curtas-metragens nacionais e internacionais premiadas no dia 25 de Junho e as restantes são no mês de Julho, sempre ao sábado, dias 2, 9 e 16.

Porquê organizar um festival de curtas-metragens? Em que se distingue dos restantes?
Taciana Gouveia: A ideia era dar uma nova vivência ao anfiteatro e reactivar uma práctica que foi iniciada nos anos 80 e 90, que era o cinema ao ar livre. O Santacurtas é um nome bastante sugestivo e tem a ver com este espaço, que irá potenciar e criar novamente uma série de actividades culturais desta feita com uma abordagem contemporânea ao cinema. Fomos buscar jovens realizadores e outros mais consagrados, convidámos uma série de pessoas da área, depois apareceram outras que ficaram bastante interessadas e posso dizer que temos um leque de cineastas bastante interessante.

Qual foi o intuito de toda a programação?
TG: Inicialmente tinha pensado abordar a questão sociológica da ilha, depois vi logo que não ia resultar, porque ia estar a afunilar a tematização, então decidi-me por uma programação mais livre. Falei com vários realizadores, os que se identificaram com o projecto vão participar, a grande novidade é que vamos ter a Leonor Teles vencedora do urso de ouro de Berlim. O Igor Bjorrt é outra das presenças, é um artista que realiza exposições em Nova Iorque e não só, é um fotográfo assumidamente, mas cria pequenas curtas-metragens interessantes. Portantos, temos alguns artistas internacionais, outros nomes nacionais e ainda cineasta regionais.

Contactates os realizadores nacionais e regionais porque querias que tivesse esse tipo de alinhamento?
TG: Não, queria que as pessoas tivessem a oportunidade de saber que este evento ia acontecer e não queria estar a castrar a oportunidade aos nossos cineastas para poderem participar. “Santacurtas” vai acontecer em quatro edições, a primeira começa no dia 25 de Junho, integrado nas festas do concelho. No dia 9 contámos com a presença do Filipe Ferraz e da sua curta-metragem, “Ruínas”. O Carlos Melim estará presente via skype e vamos apresentar o seu filme mais recente. Vamos exibir também uma curta-metragem da Joana Rodrigues, que já foi mostrada anteriormente neste espaço, que tem a ver com as gentes locaise e é uma experiência que julgo vai ser muito boa para o público.

terça, 21 junho 2016 17:56

Temperaturas batem recordes

Os registos de temperatura global do Instituto Goddard da NASA arrancaram oficialmente em 1880 e, desde então, cientistas têm vindo a estudar os padrões de aquecimento da Terra.

O recente estudo da NASA à temperatura da superfície terrestre mostra que as temperaturas de Abril último são as mais quentes face às registadas nesse mesmo mês em anos anteriores e com uma diferença muito significativa. O record estabelecido no mês passado ultrapassou o anterior por 0,24 ºC, registado em 2010, o qual foi 0,87 ºC acima da média base para Abril.
O mesmo se pode afirmar do mês de Maio de 2016 que foi o mais quente já medido, ao nível global, batendo de forma fulgurante o recorde anterior, datado de 2014. A média global de temperatura do mês passado foi 0,93oC superior à média de Maio registada entre 1951 e 1980, segundo dados divulgados pela agência espacial norteamericana.
De acordo com o Observatório do Clima, Maio é o oitavo mês seguido a bater recordes globais de temperatura, o que põe 2016 no rumo quase certo de ser o ano mais quente de toda a história desde que as medições com termómetros começaram, em 1880.
E isto numa altura em que os meses mais quentes do ano, os do Verão no hemisfério Norte, ainda não chegaram. Ou seja, muito dificilmente 2016 não será mais quente que 2015, que por sua vez esmagou todos os recordes anteriores.
A média de desvio de temperatura do segundo trimestre de 2016 foi de 1,1oC em relação à média de 1951 a 1980 para o mesmo período. Como esta média já é cerca de 0,3oC superior à do período pré-industrial, provavelmente já estamos a viver, este ano, um aquecimento global próximo a 1,5oC.
A responsabilidade das altas temperaturas é, em parte, atribuída ao El Niño, que causou uma faixa de água quente oceânica no Pacífico Equatorial, a qual influencia as temperaturas globais do ar e da terra. Contudo, o calor sentido em Abril e Maio é também influenciado pelo rápido e acelerado aquecimento global que o Planeta tem vindo a sofrer.

terça, 07 junho 2016 18:38

Fui ver a primavera à berlim

 

As primeiras impressões durante uma viagem à capital da Alemanha.

Decidi visitar a capital alemã à convite de uma amiga, porque dizia-me “tens de ver a primavera a desabrochar em Berlim” e assim fiz. A capital alemã é considerada uma das cidades mais verdes de Europa pela quantidade de parques e espaços verdes que se podem usufruir de forma gratuíta. Os berlinenses mal avistam uma nesga de sol são os primeiros a invadir estes espaços e nota-se que é uma urbe vibrante e cheia de cor. É uma cidade onde se inspira calma e ao mesmo tempo é uma corrida desenfreada diária, basta ver a linha de metro que devo reconhecer foi difícil de dominar, embora as áreas estejam dividas por cores, temos de pensar nas linhas quase em 3D, porque se sobrepõe, ou seja, há carris na superfície e mal descemos umas escadas rolantes estámos já numa outra linha que se pode subdividir, entenderam ou nem por isso? Boa sorte! Adiante, existem passes para turistas que duram por vários dias, mas também podem optar pelos bilhetes diários, que usei com alguma frequência e tive a sorte de uma rapariga me ter oferecido o dela num desses dias, assim sem mais nem menos, ela não precisava mais pelo que deprendi do seu simpático discurso em alemão e eu agradeci, com o meu dankeschön recém aprendido.


O mais impressionante do metro são os túneis nos cruzamentos das linhas e posso adiantar que há toda uma outra cidade subterrânea à nossa disposição. Existe todo o tipo de pequenos restaurantes com sabores do mundo, quiosques de jornais, minimercados, floristas, pastelarias, cafetarias e tudo a preços acessíveis até para os portugueses. Trata-se de um submundo dentro da cidade, porque os berlineses não param para almoçar, compram algo para comer e seguem viagem, sempre de passagem. É fascinante assistir a todo este movimento humano, onde se ouve todo o tipo de línguas e se assiste a uma corrida diária de um lado para o outro. E é de tal forma um hábito vigente que até existem avisos dentro das carruagens a proíbir que se coma, beba ou transporte um animal sem açaime. Contudo, irão ver pessoas a comer, ou beber quase as escondidas e cães apenas pela trela, não é a maioria, acontece como em qualquer outro país, sem exageros e sem confusões.

 

À superfície uma das paragens quase obrigatórias é a ilha das museus, é uma área linda, com várias edificações neo-clássicas junto ao rio, basta atravessar a ponte que cruza o rio Alte e deparamo-nos com uma série de museus. Decidi visitar o “alte nationalgalerie” para conhecer alguns dos mais famosos pintores alemães, que devo reconhecer desconhecia quase por completo, como Fritz Von Uhde, Max Libermann, Karl Friedrich Schinkel, entre outros. No segundo piso, poderemos encontrar várias obras dos mestres europeus impressionistas. Mas, a cereja no topo do bolo foi o último andar, onde me foi dado a conhecer um dos grandes ícones do romantismo alemão e que prendeu à minha atenção pelas suas paisagens bastante trágicas, Caspar David Friedrich. Os seus quadros transmitem uma profunda solidão, com as suas paisagens desoladoras, algumas soturnas até, mas que não deixam de exaltar a beleza avassaladora da natureza. August Kopisch foi outra das descobertas verdadeiras maravilhosas deste museu, ele que criou uma cor maravilhosa chamada de “blue grotto”, azul gruta, que foi inspirada numa gruta na ilha capri, em Itália. Bem como um vermelho ocaso, que ajuda a criar paisagens verdadeiramente sumptuosas do final de tarde. Sei que utilizei muitos adjectivos, mas as palavras por vezes não são suficientes para descrever algo tão, tão belo. É como uma exilir da alma, emociona-nos até o âmago e deixa-nos esperançados quanto à humanidade, mesmo sabendo que estes artistas tiveram percursos tortuosos e personalidades sofridas, sem eles como seria possível eternizar o sublime numa pincelada?

http://www.augustkopischinberlin.de/

terça, 07 junho 2016 18:35

Bons sons 2016

 

O festival revela os nomes que enchem o seu cartaz de música portuguesa, na aldeia de Cem Soldos, em Tomar.

Durante quatro dias, o festival toma conta de Cem Soldos com sons diversos distribuídos por 8 palcos integrados na Aldeia, uma feira de artesãos, exposições de arte e arquitectura, área de restauração e inúmeras outras actividades que animam as suas ruas, praças e largos.

A rocktrónica de João Vieira no projecto White Haus, o turbo-baile de Tocha Pestana, os jogos rítmicos das Adufeiras do Paúl, as canções tresmalhadas de Diego Armés, as quatro baterias de Tim Tim por Tim Tum e as canções dramáticas de João e a Sombra são alguns dos novos nomes para o alinhamento desta edição.
A Enchufada faz 10 anos e celebra com o BONS SONS. Branko, Rastronaut e Dotorado Pro, nomes emblemáticos da editora criada pelos fundadores de Buraka Som Sistema, vêm encher a noite de ritmos globais.
João Vieira, depois do sucesso aos comandos de X-Wife e DJ Kitten, entrou na composição e produção electrónicas com o projecto White Haus.
A dupla Tocha Pestana, percorrendo deliberadamente a estética pop-rock portuguesa dos anos 80, são os reis do turbo-baile. Pop de bola de espelhos a reflectir nos óculos escuros retro-futuristas.
As Adufeiras do Paúl misturam as palavras das suas recolhas etnográficas com os sons de adufes, peneiras e pedrinhas.
Para lá de Feromona e Chibazqui, projectos que integra, Diego Armés deixa fugir a solo as suas canções frágeis e isoladas, apoiadas no som da guitarra acústica.

As quatro baterias em palco de Tim Tim por Tim Tum (José Salgueiro, Alexandre Frazão, Bruno Pedroso e Marco Franco) comportam um universo tão vasto quanto a imaginação de quem as toca e de quem as ouve.
O actor e músico João Tempera ressuscitou o seu alter-ego musical João e a Sombra. Traz canções negras que consolam as penas e embalam os medos.
Em Agosto, a Enchufada vai levantar os decibéis em Cem Soldos com Branko, Rastronaut e Dotorado Pro.
Banko, pioneiro da editora, depois de uma residência na BBC Radio 1 e Antena 3, editou o seu álbum “Atlas” em 2015, com uma sonoridade classificada como “sonoridade sensualmente dançante”.
Rastronaut encarna na plenitude a missão da Enchufada, de azimute traçado desde o continente africano até Campo de Ourique.
Dotorado Pro, um dos mais recentes nomes lançados pelo selo português, trabalha num misto de afrohouse e sonoridade progressiva.

Jorge Palma, compositor, poeta, intérprete e exímio pianista, estará presente com banda completa. Vera Mantero apresenta “Os Serrenhos do Caldeirão, exercícios em antropologia ficcional”, peça em que a coreógrafa vai além da dança para, numa experiência também sonora, falar da sabedoria perdida dos povos.
Também toca nos projectos Roncos do Diabo e Ai!, mas é a solo que Tiago Pereira se apresenta, aos comandos dos instrumentos de percussão tradicional portuguesa.
Galardoado com o prémio para Melhor Banda Sonora de 2015 no Los Angeles Independent Film Festival, André Barros apresenta-se no seu íntimo nostálgico, com um piano emoldurado num quarteto de cordas.
Os ícones das “Noites Príncipe” da Musicbox, em Lisboa, assentam arraiais até de madrugada, a debitar os sons num apurado ritmo e balanço. São eles DJ Lilocox,NiagaraePuto Márcio.
Os clássicos revisitados pela guitarra e piano de Os Tunos prometem novas versões de temas icónicos, do fado à lambada.
Depois de muito escavar nas feiras, durante meses, por bandas duvidosas, virtuosos improváveis, versões em mandarim, artistas de variedades e discos promocionais, DJ Rubi Tocha traz tudo à baila numa só noite.
A partir de gravações de campo, Luís Antero formou um corpo constituído por 100 sons que respondem à questão, a que soa Cem Soldos? “Cem Soldos, 100 Sons” convida a mergulhar na paisagem acústica da Aldeia, projectando sensações, valorizando uma identidade e arquivando uma memória.
Quem és tu Laura Santos? É simultaneamente uma pergunta intrigante e o nome da actuação que irá receber os primeiros visitantes do BONS SONS. A festa começa com êxitos seleccionados que se estendem da radiofonia dos anos 60 aos (in)sucessos contemporâneos.

Sabendo que grandes eventos são também grandes estruturas de produção de resíduos, promovemos o respeito pelo espaço que acolhe o Festival, a aldeia de Cem Soldos, desenvolvendo estratégias de sensibilização para a reutilização de materiais, diminuição do desperdício e implementação de sistemas de recolha e tratamento mais eficientes. Estas boas práticas ambientais e a contribuição para o desenvolvimento local têm sido motivos de reconhecimento do BONS SONS como um dos melhores e mais sustentáveis eventos de música ibéricos com a melhor Contribuição para a Sustentabilidade e melhor Festival de Média Dimensão no Iberian Festival Awards 2015 e melhor Festival de Média Dimensão 2015 e Festival Mais Sustentável 2014 no Portugal Festival Awards.

terça, 07 junho 2016 18:10

As jóias da coroa

 

As histórias marcantes das jóias da casa de Bragança no século XIX são o mote para uma palestra do investigador, Eduardo Alves Marques, autor da obra “se as jóias falassem”, no âmbito das conversas de “dar a ver”, que abordou muitos dos episódios caricatos e curiosos das várias peças de ourivesaria das rainhas portuguesas.

Onde é que estão as jóias da rainhas portuguesas hoje em dia? A nossa história em concreto começa em 1834 quando D.Maria II é aclamada rainha de Portugal, a qual se seguem D.Estefânia, D.Maria Pia de Sabóia e D.Amélia já no século XX. Mas, vamos ainda abordar a Imperatriz D.Amélia de Leuchtenberg e a condessa d'Ebla que casa em segundas núpcias com o rei D.Fernando II.

Para compreenderem a história marcantes das jóias da coroa há que fazer duas distinções, por um lado existem as chamadas jóias do Estado, onde a monarquia centra uma série de rituais específicos que contam como uma representação do poder. Desde 1640 a dinastia de Bragança ofereceu a coroa de Portugal à nossa senhora da Conceição é por esse motivo que não existe a cerimónia de coroação, mas sim de aclamação. As peças de ourivesaria estatais são feitas com pedras preciosas, prata e ouro e nunca podem ser alienadas, o rei e a rainha podiam usá-las, transformá-las, mas nunca podem ser vendidas. Actualmente, as jóias estão etiquetadas, seladas e discriminadas individualmente e esta tudo devidamente guardado no Banco de Portugal.

As jóias particulares são adquisições efectuadas pela casa real, através da dotação do Estado e temos que enquadrá-las numa monarquia constitucional. Neste caso, grande parte destas peças de ourivesaria privadas estão desaparecidas, porque são devolvidas aos seus proprietários.

 

 

D.Maria II é filha de D. Pedro I imperador do Brasil. Em 700 anos de história é a primeira soberana que viaja e isso permite-lhe adquirir conhecimentos que mais nenhum rei tinha tido até a data. Entre 1834 e 1853 é o auge do romantismo, também há menos de 100 anos descobriram-se as ruínas de Pompeia e existe um grande interesse pelo antigo, onde se procura inspiração para a espiritualidade, naquilo já fomos e muitas das jóias da rainha são inspiradas nesse período. Existe um lado afectivo nas peças muito marcante, onde aparece a representação dos filhos, dos sobrinhos, dos irmãos e é neste contexto que aparecem as miniaturas, as braceletes são um ex-libris.

A rainha possui 183 jóias pessoais, uma das peças em destaque é o berloque e colar do opalas da mãe, D.Maria Leopoldina e uma tiara em diamantes com pedras de várias cores. Um Châtelaine com um relógio de bolso, de Leitão e irmãos, consta ainda do inventário.


D.Maria II estabelece, como uma das regras básicas do seu reinado, acabar com a lei do morgadio, que consistia em que apenas o primogénito é que herdasse e a restante descendência tinha de fazer bons casamentos. A partir do seu reinado cada filho passa a receber exactamente o mesmo que os outros, excepto o rei que tinha a sua ocupação régia. Quando a soberana morre as suas jóias privadas são loteadas por grupos que são colocados numa mesa. Todos os lotes são numerados e cada um dos sete filhos sobreviventes escolhe um número por sorteio.

O rei d.Fernando II sobe ao trono, por morte de D.Maria II, já que o infante ainda é menor. O soberano viúvo numa das suas idas ao teatro acaba por apaixonar-se por uma cantora de ópera, Elise Hensler, uma mulher culta e encantadora, com um pequeno senão, não pertencia à nobreza. Mesmo assim, contra tudo e todos casa com ela, é um escândalo nacional na altura, tendo em consideração que tinha a seu cargo filhos menores reais. Uma das jóias mais emblemáticas que o rei lhe oferece, no dia do casamento, é um alfinete de malmequeres em ouro do tamanho de uma mão. Cada jóia carrega consigo uma história, podemos saber os quilates ou o número de diamantes, mas cada uma destas peças é uma aventura e esta concerne a bisneta da condessa que herda uma propriedade que é o chalet da Parede, casa de verão da condessa d'Elda e o famoso alfinete. Este relato começa com a neta da condessa que era uma mulher elegantíssima, que só comprava as melhores marcas e tinha tantos sapatos Dior que amarrava fitas de seda nas caixa para saber qual era a respectiva cor do par. Por uma fatalidade, acaba por morrer num desastre de automovél e o alfinete desaparece. Quando a bisneta da condessa d'Elda volta dos EUA e regressa de vez para Portugal em 1998, ela decide vender a casa, porque tem uma proposta irrecusável de um promotor imobiliário, embora ao mesmo tempo, alimente um sentimento de culpa e perda por desfazer-se da casa onde nasceu e onde a mãe viveu. Assim, uma semana antes de entregar a casa tira todo o recheio e procura o alfinete em vão. Por esses dias a senhora começa a ter um sonho recorrente e vêm-lhe à memória as cavalariças nas traseiras da casa, onde a mãe a levava passear no pónei que ela tinha quando era criança. No último dia, em finais de Outubro, ela fica sozinha por uma última vez na sua casa de infância, estaciona nas traseiras ao pé da cavalariças, dá uma volta pela propriedade e como as cinco horas já era de noite decide partir, ao entrar no carro acende os faróis e a luz incide na cavalariça, ela repara que no seu interior meio escondido estava uma caixa dos sapatos da mãe, sai do carro e ao abri-la e pegar num dos sapatos, caí o alfinete.

A nova imperatriz do Brasil, Amélia de Leuchtenberg, madrasta da rainha D.Maria II, era tão bonita que segundo relatos da época o imperador D.Pedro I quando a vê pela primeira vez desmaia. Na primeira metade do século XIX ela possuia 500 peças de ourivesária privadas e depois morrer não se sabe ao certo o que aconteceu à maioria delas. Como a sua única filha Maria Amélia morre no Funchal com tuberculose, a soberana viúva e sem mais filhos deixa as jóias melhores à sua irmã, a rainha da Suécia em vez da enteada e soberana de Portugal, já que era do conhecimento público uma certa animosidade que existia entre ambas desde essa altura. Por vingança, ou despeito, o facto é que as peças de ourivesária foram despachadas por barco em 14 caixotes rumo ao Norte e uma das tiaras de diamantes da casa de Bragança, agora, adorna a cabeça da actual rainha sueca.

Pedro V casa com D.Estefânia, uma mulher muito cândida, religiosa e beata e ela trazia algumas jóias particulares, há duas peças no Palácio Nacional da Ajuda, uma pulseira de outro oferecida pela rainha Victória, com a palavra “remember” com diamantes encrustados e outra em alemão que lhe ofereceu o irmão.

 

Uma das histórias mais curiosas e dramáticas da monarquia portuguesa tem lugar antes do casamento do rei, Dom Pedro decide oferecer uma das jóias mais caras que há memória, uma tiara com 4 mil diamantes, a peça custou 86.953,645 reis e tudo isto faz parte do inventário real. Acontece algo inusitado, depois do casamento, o diadema desaparece, nunca mais ninguém a viu, mas existe uma ilustração do dia do casamento, por isso sabemos que a jovem soberana a usou. Outras das curiosidades sobre esta jóia é que para a época não era bom tom levar diamantes no dia do casamento, estas pedras preciosas só deviam ser usadas por mulheres casadas e não por virgens. Existe uma dama camaristas, a duquesa de Rio Maior que escreveu nas suas memórias, tendo sido publicadas em livro por Gonta Colaço, que a princesa era tão bonita que todo o povo a queira ver e ao diadema, mas a peça era tão pesada que lhe corta a testa, a rainha sangra e quando ela sai da igreja o povo diz “ ai coitadinha, vai morrer, vai amortalhada” e a verdade é que a rainha passado um ano morreu com tifo. De acordo com o relato da duquesa do Rio Maior, no dia do funeral, a joven soberana estava vestida com uma seda de prata pálida e Dona Estefânia, por ordem do rei, trazia na cabeça o diadema do seu casamento que logo que chegou ao paço foi retirado e substituído por coroa de flores de laranjeira e partir desse momento perde-se o rasto da peça de ourivesaria. Mas a história não acaba aqui, há um contrato nupcial que estabelece que quando um princípe, ou uma princesa se casa, morre e não deixa descendência, a coroa tem de devolver todo o dote, ou seja, a rainha como não teve filhos, todas as suas jóias particulares tinham de ser devolvidas, tal não acontece, já que o espólio alegam desaparece e a outra parte do dote em dinheiro da rainha acaba por ser usado para construir o hospital D.Estefânia em Lisboa.

 

D.Maria Pia de Sabóia casa com rei D.Luís I no dia 6 de Outubro 1962. Ela traz consigo peças de inspiração romana, executadas por Castellani. Para além disso, possui tiaras, pentes de cabelo, travessas, pulseiras, alfinetes e brincos com trabalho de cinzel magnífico. A rainha quando chega à Portugal manda fazer um inventário de todas as peças de ourivesária do Estado e usa-as com frequência. A tiara e um colar com diamantes em estrela, muito em voga naquele período, foram executadas com diamantes a vulso que pertenciam a coroa real. Existe também uma travessa em laça de esmeraldas com fios de diamantes, que é do tamanho de uma mão dessa época.

Com a implantação da República nada desaparece em termos de jóias do Estado, mas Dona Maria Pia, como era muito vaidosa, gastava muito dinheiro em jóias e vivia acima das suas possiblidades. Naquela época tinha pedido dinheiro emprestado ao conde de Burnay, o homem mais rico no fim da monarquia, e como caução deixou-lhe jóias, que recuperaria assim que saldasse a dívida, o banqueiro acumulou 369 peças de ourivesaria da Rainha-mãe, que foram leiloadas pelo Banco de Portugal em 1912 para recuperar o dinheiro emprestado.

 

D.Amélia, filha dos conde de Paris, casa com D.Carlos I e é uma das rainhas mais presentes e estimadas pelos portugueses, foi a fundadora das Misericórdias. É também uma soberana que não ostenta muitas jóias, porque é muito religiosa e piedosa, quando fica viúva decide dividir as jóias privadas de forma salomónica, as que trouxe de França vão para os herdeiros franceses, as que recebeu em Portugal ficam para os herdeiros da casa real nacional.

 

A sua tiara de diamantes que agora pertence a D. Isabel de Herédia, a actual Duquesa de Bragança foi usada no dia do seu casamento, herdou ainda um “collier de chien”, a coleira de cão também em diamantes, bem como um pregadeira em esmeraldas e diamantes de 60 cm, onde no meio esta escrito “por seu bem”.

http://www.matriznet.dgpc.pt/matriznet/home.aspx

http://www.monarquicos.com/

terça, 07 junho 2016 18:08

Alentejo prometido

Um livro que foi lançado sobre forte polémica cujo autor é Henrique Raposo.

Devo confessar que a minha curiosidade levou a melhor no que concerne este pequeno livro, apenas o li por causa da celeuma e polémica que envolveu o seu lançamento. Fiquei deverás perplexa perante o movimento de ódio e de verdadeira censura, ao qual nunca tinha assistido em Portugal, que visava impedir o seu lançamento e pensei, mas afinal o que contém este volume de 107 páginas de tão terrível ao ponto de ameçarem o autor? E o que descobri? Que as pessoas que pretendiam boicotar “Alentejo prometido” concerteza não o leram com atenção. Henrique Raposo não denegriu, ou tentou destruir a imagem bucólica para além do Tejo, apenas faz um retrato pessoal, baseado nas origens da sua família, que utiliza como alicerce para abordar a história das gentes alentejanas e tenta explicar o porquê da sua maneira de ser e de estar na vida sem branquear o seu passado e isso é deveras corajoso e inovador. Li de forma obsessiva este livro, porque achei a escrita deste autor interessante, não há desperdício de palavras, o seu raciocínio é claro e conciso, ele até assenta algumas das suas conclusões em dados publicados pelo censos ou de estudos cientificos e não pude deixar de regozijar-me pelo facto de que finalmente alguém tem uma explicação, deverás lógica, para as altas taxas de suícidio que sempre assolaram esta parte do país e que não se baseia apenas na dita solidão quase endémica dos alentejanos. Outro aspecto que apreciei nesta obra foi o me ter sido dado a conhecer a maneira de ser e estar das mulheres alentejanas, foi uma verdadeira descoberta, a sua liberdade no que concerne o casamento e os filhos, depois a comparação que Henrique Raposo estabelece com o Norte do país, diria que foi extremamente elucidativa e fez-me ver com outros olhos as alentejanas no geral, mas no bom sentido. Gostei muito deste “Alentejo prometido” não por causa da polémica que o envolve, mas porque o autor dá-nos a conhecer uma parte de Portugal, através do seu testemunho pessoal sem complexos e não é por causa do livro que vou deixar de amar o Alentejo, muito pelo contrário, o meu amor ainda é maior se porventura tal é possível, a diferença é que é mais real. Boa leitura.

terça, 07 junho 2016 17:50

71 praias com poluição zero

 

Vila Nova de Gaia e Vila do Bispo são os concelhos com maior número de praias sem poluição.


A Zero (Associação Sistema Terrestre Sustentável) identificou 71 praias sem poluição em Portugal. Este número significa que não foi detetada qualquer contaminação nas análises efetuadas ao longo das três últimas épocas balneares. Este valor representa 12% do total das 579 zonas balneares existentes em 2016.
Esta análise inédita da Associação Zero teve em conta os parâmetros da legislação em vigor e concluiu que existem 67 zonas balneares costeiras, 3 interiores e 1 de transição (estuário) com zero poluição. Os concelhos com maior número de praias em excelentes condições ambientais são Vila Nova de Gaia e Vila do Bispo ambas com seis e Aljezur com 5 praias. As ilhas apenas foram representadas por Santa Cruz, com apenas uma praia, o Garajau, que é uma área protegida.

Apesar de ser extremamente difícil conseguir um registo incólume ao longo de 3 anos nas zonas balneares interiores, muito mais suscetíveis à poluição microbiológica, há 3 praias nessa situação: Vale do Rossim, em Gouveia, Fraga da Pegada, em Macedo de Cavaleiros, e Zaboeira, na albufeira de Castelo do Bode, em Vila de Rei.
A partir de dados solicitados à Agência Portuguesa do Ambiente, a Associação Zero identificou as praias que, ao longo das três últimas épocas balneares, não só tiveram sempre classificação “excelente” como apresentaram valores zero ou inferiores ao limite de deteção em todas as análises efetuadas aos dois parâmetros microbiológicos controlados e previstos na legislação (Escherichia coli e Enterococosintestinais). Isto é, em todas as análises efetuadas não houve sequer a deteção de qualquer unidade formadora de colónias.

Três alertas para o início de época balnear

A Zero selecionou três comportamentos cruciais para os banhistas, ou frequentadores das praias selecionadas, para este início de época balnear 2016
. Em primeiro lugar, por razões ambientais e de segurança, só devem ser frequentadas praias classificadas como zonas balneares, onde há vigilância e onde se conhece a qualidade da água. Em segundo, não devem ser deixados quaisquer resíduos na praia e, de preferência, devemos encaminhá-los através da recolha seletiva. Mais de 80 por cento dos 12,2 milhões de toneladas de plástico que entram no ambiente marinho em cada ano vêm de fontes terrestres, sendo o maior contribuinte o lixo de plástico, incluindo itens como garrafas de bebidas e outros tipos de embalagens. Por último, deve-se preservar a paisagem e os ecossistemas envolventes das zonas balneares, evitando o pisoteio de dunas ou outras áreas sensíveis.

Se pretender ver a tabela poderá consultá-la no link em baixo:

http://zero.ong/portugal-tem-71-praias-com-zero-poluicao-2/

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