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Picos e lombos

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A obra do fotografo Rui Pinheiro esta patente, na Galeria dos Prazeres, na Calheta até Fevereiro de 2019. O evento marca as comemorações dos dez anos de atividade desta galeria, que integra o projecto da Quinta Pedagógica dos Prazeres. O conjunto autoral resultou de uma residência artística na freguesia dos Prazeres. Nesse contexto, Rui Pinheiro, fotografou durante um dia. As obras em exposição, como, de resto, o trabalho deste artista, definem-se por um registo conceptual que recorre frequentemente ao uso da ironia.

Como defines a tua fotografia?

Rui Pinheiro: O meu percurso na fotografia começa com o fotojornalismo. Trabalhei em diversos projectos editoriais onde o foco principal era a notícia. Hoje, encontro no meu trabalho de autor a essência da fotografia documental, mas muito distante do jornalismo. Continuo a construir histórias reais, mas o trabalho deixou de ser pontuado pela necessidade imediata que a comunicação social exige. Passei a dar mais tempo aos processos de criação. A minha maior dificuldade, num meio tão vasto como é da fotografia que se tem desenvolvido de uma forma brutal ao longo destes últimos anos, foi encontrar o meu cunho pessoal. Na pintura tu tens o traço, uma cor, na fotografia tu tens um meio tecnológico muito avançado onde podes fazer uma imagem quer seja com um telemóvel, como numa máquina fotográfica muito avançada. A minha ideia era demarcar-me enquanto conceito, ou conteúdo e foi isso que tentei fazer nos últimos anos e cada vez mais sinto que finalmente atingi um encontro autoral com a fotografia.

E o que tentas fazer?
RP: Tento eliminar o maior número de elementos possíveis, pretendo depurar a imagem, o que a fotografia contemporânea faz hoje em dia. Na minha obra acrescento informação técnica, poética e questiono, deixo dúvidas no ar. Para mim enquanto fotógrafo tento isolar a execução no espaço acrescentando outros títulos, outros significados.

E qual é a tua assinatura como autor?
RP: Uma das minhas assinaturas é o formato. Com os processos digitais e as redes sociais surgem milhares de pessoas que todos os dias publicam imagens, por isso quero distanciar-me nesse sentido. Mantenho essa norma, contudo, por vezes castra, porque como quero manter o formato, tenho imagens muito boas, mas como as quero a imagem num quadrado, o que esta aos lados desaparece. Mas, é para aqui que fui e esse é o meu selo pessoal e quero mantê-lo. No trabalho de fotojornalismo e comercial tenho o formato convencional, mas no meu trabalho autoral eu tento manter esse quadrado, como se estivesse a captar as imagens com uma máquina analógica e quase me dá vontade de colocar duas tiras no visor para continuar a ver o mundo ao quadrado.

As tuas obras não têm títulos.
RP: Os títulos são sempre algo difícil de conseguir e mais ainda foi chegar a um título que fosse representativo. As explicações de tudo o que se faz são redutoras, eu não gosto de explanar o que eu faço. Eu deixo essas interpretações ao público, deixo ao olhar do espectador, essa descoberta.

Como é que surge o convite para a exposição na Galeria dos Prazeres?

RP: O convite surge depois da minha primeira passagem pela ilha da Madeira. Conheci nessa altura a freguesia dos Prazeres e o projeto da galeria de arte contemporânea. O curador da galeria fez-me a proposta de regressar em formato de residência artística logo no início de novembro. Ficou também definido que este projeto devia ser desenvolvido nos Prazeres e assinalaria os 10 anos da galeria.

O que pretendes mostrar em “Picos e Lombos”?

RP:É uma narrativa que conta a minha passagem pela freguesia, é o meu retrato dos Prazeres.
Procuro levantar questões, ver para além do quotidiano, a forma como o território se compõe pela mão do homem, como a arquitetura tradicional de confronta com os novos modos de construir. Abordo questões como a biodiversidade, as tradições, a emigração, a forma como as grandes infraestruturas invadem a paisagem natural; o impacto das recentes catástrofes naturais; a força da regeneração da ilha e de quem a habita. Das oito freguesias do concelho da Calheta esta é a única sem contacto direto com o mar. Queria perceber este limbo entre o mar e a serra.

Quais foram os principais desafios nesta exposição?

RP: A falta de tempo. Todo o processo é realizado durante o mês novembro. A captação de imagens nos primeiros dias do mês e a montagem nos últimos. Pelo caminho foram dias de edição, testes de cor e impressões de provas finais.
Parti de um universo de 150 imagens para chegar ás 33 fotografias e uma peça vídeo que apresento. A pressão do tempo é muitas vezes o principal desafio.

Qual é a imagem, ou imagens que definem o que descobristes nos Prazeres?

RP:  Escolhi uma imagem inusitada para abrir o trabalho. A fotografia do colchão preso a uma árvore pode definir o que descobri nesta freguesia do Oeste. O que faz uma pista de Motocross num território de pouco mais de 600 habitantes? Quando isolo os elementos do seu contexto apresento novas representações. Queria abrir o campo da observação e deixar espaço a novas leituras. Obrigar a questionar e a apontar direcções.

O que esta exposição acrescenta em termos dos teus projetos autorais?

RP: Foi importante desenvolver o Picos e Lombos este ano. Saí da minha zona de conforto na tentativa mapear um território desconhecido onde a natureza tem importância vital. A fragilidade de conseguir material numa única tomada de vista obrigou-me a ser preciso e pragmático. Estou muito satisfeito com o que este trabalho me trouxe de novo. Fotografias de um país real, fotografias sobre a vida

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