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Se os pratos falassem

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As artes decorativas nas casas reais portuguesas eram de elevada importância, não só por uma questão de gosto, mas porque exibiam o que de melhor se produzia em termos de peças de porcelanas, baixelas e vidro ou cristal, ao longo dos séculos XVIII e XIX e eram sobretudo um sinal de poder, como descreve a especialista do Palácio da Ajuda, Cristina Neiva Correia.

Num jantar do século XVIII as pessoas tem uma mesa simétrica, arrumada muito preenchida e a refeição desenvolve-se como uma peça de teatro, por cobertas que vão apresentando os alimentos em conjuntos em cima da mesa que são descobertos, até os guardanapos eram apresentados em várias formas de animais e possuiam muitas peças de prata, tudo isto é o teatro de comer, tem a ver com uma ideia de poder através dos objectos de una etiqueta codificada e da exposição dos artistas que trabalharam estas peças, são cerimoniais do tipo da corte de Luis XIV.

 
Com a subida de Napoleão ao poder surge o gosto pelos dourados, a conquista dos territórios, as guerras, obrigaram a entrega das pratas. Em Portugal temos um conjunto que é uma referência, de peças que marcariam o centro da mesa e vai-se adaptar peças em dourado, onde se colocam os candelabros e até alguns apontamento de biscuit, mas só para ilustrar, porque a prata deixa de ser utilizada. Mas, como o nosso país não andava a conquistar território, considera estas peças tão especiais que as guarda como tesouros e quase não existem baixelas francesas fora do seu país de origem. Não desaparecem, foram convertidas em dinheiro, era para isso que serviam as peças em prata para entesourar, quando a coroa francesa precisava de dinheiro para o esforço da guerra mandava os nobres contribuirem e por isso as peças derretiam-se, o trabalho artístico não é considerado relevante. Portanto, hoje em dia, para estudar ourivesária do século XVIII, que foi o que eu estudei, impõem-se uma visita aos museus portugueses, o que é interessante.
Nesses centros dourados vai haver também muita cor por via das flores e dos frutos, que são muitas vezes apresentados em pequenas pirâmides e que ficam ao longo da refeição. O Dom João VI tem serviços extraordinários no Palácio de Queluz, mas a maior parte esta no Brasil, vindos sobretudo de Inglaterra e tem alguns serviços franceses, são muito simples e vão atravessar todo o século, em círculos concêntricos todos demarcados, que vai iradiar com elementos decorativos. No século XIX os pratos começam a ser assimétricos, com motivos botânicos, de fauna sobretudo, retratos de trajes regionais, são tirados de estampas que circulam pela Europa toda e não é uma excepção, já que circulam estes estilo pelas restantes casas reais porque todos querem estar ao mesmo nível, embora a casa real inglesa tem peças mais brilhantes e maiores, mas são pequenos pormenores, na generalidade todos se abastecem nas mesmas fábricas e acompanham esses estilos.

Os serviços de Dona Carlota Joaquina eram absolutamente absolutistas, esta senhora tinha um gosto fantástico e o palácio do Ramalhão tem um recheio extraordinário e riquíssimo. Ela tem a chamada lenda negra, que já vinha da mãe e que interessava denegrir, tinha uma feitio especial, peculiar, mas tinha muitíssimo bom gosto basta ver o arrolamento do Ramalhão. No Palácio da Ajuda existem dois depósitos, o museu consegue, por vezes, comprar peças destes outros reinados, é o caso dos frescadores da copos que haviam na mesa, são peças que cairam em desuso, mas que permitiam manter os copos frescos.

Dona Maria II no palácio das necessidades, em 1840, o inventário é um infindável de conjuntos de mesa, há duas vitrines do Paço de Vila Viçosa, que serve para mostrar os pratos com flora e fauna, paisagens, com cores densas, são muito decorados, onde não se vê muita porcelana, embora seja muito apreciada pelo branco, quanto mais branco e menos defeitos tem melhor é.

 

Há alguns reinados em que as peças escasseiam e interessa-me chegar à Dona Maria Pia e Dom Luís I, porque a colecção era muito maior. Chegámos a uma certa altura em que os centros de mesa são invadidos por flores, neste período, as peças de prata suportam as flores, às vezes são de vidro, ou cerâmica, os calendrados, que tem uma colecção extraordinária, com cerca de 16 mil peças de cerâmica, de mesa e as restantes decorativas. O acervo é grande, porque é uma casa real, a rainha durante vinte anos vai fazendo compras, ela tem muita fama de ser gastadora, mas aos poucos eu noto que ela faz um esforço notável com uma economia de meios de conseguir manter a representação da corte com dignidade. A disposição da mesa é feita de acordo com João da Mata que tem uma grande importância para a corte portuguesa, uma mesa de festa privada, é sempre feita com os serviços mais simples, sem os vidros venezianos, que tinha um menu, as pessoas sempre sabiam o que iam comer, na década de oitenta, mas não depois. Temos o guardanapo colocado no prato raso, designado por prato de guardanapo, só se coloca à esquerda no que se designa serviço de hotelaria, à francesa, o chique é ao centro. Os talheres são dispostos à inglesa, em crescendo pelas laterais, ocupavam muito espaço, talvez por isso as mesas são mais espaçosas.

No final do século XIX os serviços tem nome, porque eram produzidos por artistas, mas já se vediam por catálogos, são mais económicos e D. Maria Pia acompanha o gosto europeu, temos peças Vista Alegre e Limoges. Ela anota tudo que esta partido, o que falta, para substituir nos Palácios da Pena e do Estoril, que necessitam de serviços funcionais. Esta rainha tem porcelana francesa, com peças neo-góticas, e neo-renascentista, a prata é sempre um símbolo de riqueza. O centro de mesa, é o que traz no seu enxoval de casamento, da baixela Berran, um ourives francês, são peças destinadas para frutos, ou flores, ou ainda que tem capacidade para um globo com peixinhos. O vidros que tem várias correntes,são venezianos, apelidados de Marguerita uma homenagem à sua cunhada, com cor para o vinho branco e o vinho Madeira era sempre o que usava para acompanhar a sopa, tudo esta na mesa, e quando chega a sobremesa todos os pratos são substituídos. A casa real tem porcelana oriental em quantidade extraordinária e cada produção ajuda a avalizar os reinados.
As salas de jantar nesta altura ganham um lugar fixo, até então as pessoas colocavam-na onde queriam e é nesta época que também recebe à atenção dos arquitectos e torna-se no eixo central da casa, na verdade a aristocracia e a casa real vão ter salas de gosto renascentista, que são feitas já na década de 60 e 80, a Dona Maria Pia usufrui desta sala, temos as cadeiras de couro lavrado, ao fundo de uma lareira, os grandes aparadores onde se preparam os pratos, eles são servidos empratados, o que se esperava de uma sala de jantar de qualidade?


Havia quatro moços da prata, vestidos de preto que tinham de trazer e levar tudo, não havia conversa com a dona da casa, tudo era codificado, planeado e executado ao milimetro. Na clivagem do século XVIII para o seguinte é fundamental o serviço à francesa e temos os testemunhos memorialistas, entre eles, Tomas Melo e Breiner que é quase uma biblia, porque conta tudo ao pormenor o que ia acontecendo, ele fala até sobre o cozinheiro do paço que era o Custódio que enfeita os pudins com as pernas de veado, faz bolos, o que é estranho porque ele aparece a fazer tudo e a pastelaria era uma secção separada, estes pratos levavam horas a preparar e davam também a ideia de riqueza. É ele que disse que a rainha Maria Pia tinha um porte de grande elegância, nunca comia mais do que lhe punham no prato, nunca recusava o que lhe serviam e estranhamente comia fruta com a mão. O rei Luís I, por outro lado, comia dieta e ainda o que outros comiam e pão com manteiga, segundo o testemunho de Vital Fontes
No fundo os objectos da mesa, reflectem o lugar do poder, especialmente no século XIX, como marca social, distingue-se quem é quem pela forma de estar na mesa, por saber manusear também uma finita quantidade de objectos que são criados para isso mesmo, para atrapalhar aqueles que não pertencem ao grupo, mas todas as peças tem uma marca de posse, tem um monograma real, tem a heráldica, dos respectivos reis, isto permite-nos datar, registar e estudar a evolução do gosto nesse período.

 

http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosListar.aspx?TipoPesq=2&NumPag=2&RegPag=50&Modo=1&Criterio=pratos

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