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A agente dos cineasta portugueses

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Salette Ramalho é uma das responsáveis da Agência de Curtas-Metragens. Uma entidade que ajuda a promover as obras do cinema independente português e que tem uma palavra a dizer sobre o rumo do cinema em Portugal.

Fala-me um pouco sobre a agência para a promoção de curtas-metragens portuguesas, em que âmbito surge?
Salette Ramalho: Vou então começar pela génese da exibição de cinema em Vila do Conde. Por volta dos anos 50 foi criada a secção de cinema do Clube Fluvial Vilacondense, que foi um cineclubes mais antigos do país e que, entretanto, deixou de funcionar, mas nos anos 80 este renovou-se no chamado Cineclube de Vila do Conde, já com uma nova direção que mostrou cinema à cidade durante vários anos. Entretanto, este mesmo núcleo decidiu iniciar um festival de cinema à imagem do festival internacional de curtas-metragens de Clermont-Ferrand que é um dos eventos mais importantes ao nível da curta-metragem em todo o mundo, com cerca de 3000 profissionais do sector, e é então em 1993 que organizam o primeiro festival internacional de curtas-metragens de Vila do Conde. O conceito de curta-metragem, com o passar do tempo, mudou. Na altura, o filme curto era visto como um cartão-de-visita de um realizador, que acabava a escola de cinema e fazia uma curta-metragem para mostrar o seu potencial. Hoje em dia isso modificou-se. Vemos muitos cineastas que já realizaram longas-metragens a voltarem aos filmes curtos para testar novos conceitos, novos formas de filmar, é o caso do João Pedro Rodrigues, do João Nicolau, até do Manoel de Oliveira cuja última obra é um filme de 20 minutos. A curta é então um formato atrativo para este tipo de experiências. A partir do quinto ano do festival decidiu separar-se o Cineclube por uma razão muito simples, esta instituição era uma associação juvenil e eles já não eram muito jovens (risos). Para o efeito decidiram criar uma cooperativa de acção cultural para ser o motor do festival, a Curtas Metragens CRL. Todos os seus braços de início o Curtas Vila do Conde, depois a Agência, a Solar, a Animar ou o Estaleiro, foram sempre iniciados de forma muito espontânea. Na verdade, a cooperativa esteve sempre, desde a sua criação, de olhos bem abertos e atentos às necessidades que surgiam.

A Agência aparece da necessidade de produção?
SR: A Agência nasce da necessidade de mostrar aquilo que já existia a nível de produção em Portugal. Em 1993 não havia quase produção de curtas-metragens nacionais. Existiam pequenas experiências mas nunca a partir de um financiamento seguro do Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA). Em 1995, e depois de uma aposta do ICA para a produção regular de curtas, a direcção do festival verificou que existia um número de filmes considerável para poder ser mostrado e assim criaram no festival uma competição dedicada à produção nacional. Isso também ajudou a dinamizar todo este sector, pelo menos é o que gosto de pensar, porque no passado as poucas curtas que eram feitas não tinham um lugar dedicado para serem mostradas. Em 1999, em conversa com os responsáveis do ICA, discutiu-se o problema da internacionalização das curtas-metragens portuguesas que já tinham uma produção considerável e, já que o Curtas Vila do Conde fazia esse trabalho espontâneo e voluntário de entregar, na altura, as fitas de VHS com filmes portugueses a programadores de outros festivais, decidiram oficializar a ação com a criação da Agência da Curta Metragem (ACM), que a princípio tinha como função contactar os produtores portugueses, visualizar os filmes produzidos e fazer a articulação com os outros festivais internacionais de cinema. A Agência inscrevia os filmes nas competições dos festivais e tratava de toda a parte burocrática, deixando para o produtor com a já árdua tarefa de produzir. Hoje em dia, para além desse trabalho estruturante vemos a ACM com um papel mais activo junto dos programadores internacionais, com a realização de retrospectivas ou programas especiais portugueses... Entretanto, por razões que se prendem com o financiamento, a agência foi forçada a também encontrar meios para se auto-financiar, porque o ICA só suporta o seu trabalho 50% sendo necessário encontrar os 50% restantes. Esta receita é, assim, obtida através da venda de filmes para televisão, na distribuição através no aluguer de curtas-metragens para museus ou festivais de cinema que representam o grosso das vendas. Isto acaba por ser benéfico porque ajuda à criação de um pequeno mercado, algo que não é muito óbvio à primeira vista, e porque incute nos programadores a necessidade de reconhecer valor a um formato que tem uma componente artística muito forte.

Sim, porque as longas-metragens sofrem dessa limitação de tempo e financiamento, o que não acontece nas curtas onde há liberdade total.
SR: Mas as curtas-metragens também necessitam de financiamento. E se recordarmos 2012, este foi um ano caótico, foi o chamado ano zero do Cinema Português porque não houve qualquer financiamento do ICA. O que se viu produzido nesse ano em termos de curtas-metragens foram as comissões para “Guimarães Capital da Cultura” e as do “Estaleiro”. Este “Estaleiro”, que entretanto se transformou no projecto “Campus” trata-se de uma iniciativa da Curtas Metragens CRL com uma índole pedagógica muito forte e que se define pela produção de filmes curtos, cuja equipa é composta por um realizador profissional convidado e por estudantes dos vários cursos dedicados à imagem em movimento das várias universidades e escolas técnicas localizadas no Norte de Portugal. A única condição que se impõe é que o tema esteja relacionado com esta zona do país, já que é financiado pela CCDRN. Mas não é possível, nem digno, sob pena de comprometer a sua qualidade, obrigar a produção nacional de curtas a uma estrutura semelhante àquela usada no Campus. Existe um tecido profissional especializado, desde os directores de fotografia a assistentes de produção que é necessário manter. E sim, no final, porque as curtas-metragens têm tempos de produção mais breves, não têm um peso muito forte a nível do financiamento comparando com as longas e consegue-se fazer uma curta com menos dinheiro, enquanto uma longa-metragem exige um outro tipo de meios. Mas foi em 2013 que se verificaram os resultados daquele ano calamitoso...

Desde que assumiste o cargo de directora até hoje, o que notas em termos de conteúdo artístico dos cineastas portugueses?
SR: Atenção que não sou directora da agência, existe uma direcção, que é a da Curtas Metragens CRL, composta por 3 pessoas: o Miguel Dias, o Nuno Rodrigues e o Mário Micaelo. Eles junto com outras pessoas que entretanto embarcaram noutros projectos, o Rui Maia, o Luís Urbano e o Dário Oliveira, são os criadores da ACM. Para responder à questão, sinto que os realizadores necessitam principalmente de suporte financeiro e de apoio de outras estruturas ligadas ao cinema. Na verdade uma pessoa pode ter uma semente e colocá-la na terra, mas se não tiver água, sol e alguém que cuide dela, pode acabar por não brotar. O talento é visto por nós nessa perspectiva. Há realizadores que fazem um primeiro filme que pode não ter a projeção desejada, mas havendo a sensibilidade de perceber que existe nas imagens daqueles realizadores uma visão de cinema, uma promessa, existindo uma aposta na sua continuidade e apoio, muitos talentos podem ser descobertos. O Miguel Gomes é um belo exemplo que começou pelas curtas-metragens e foi acarinhado pela Agência desde o início. Mas uma coisa é certa, sem talento não se consegue fazer nada. Obviamente que o que o ICA também tem aqui um papel muito importante neste apoio continuado e numa visão estratégica para o futuro do cinema. Considero bastante preocupante que, no presente, não seja esta instituição a fazer a nomeação dos júris para avaliar os projetos. Vejo com inquietação que a escolha dos júris integrantes dos painéis avaliação seja feita pelos próprios produtores, distribuidores, televisões ou associações do sector, porque estes são os principais interessados em receber os fundos. Toda a gente concorda que o ICA é a entidade mais equidistante a todas as entidades do cinema e a mais idónea, é por isso que deverá ser o ICA a escolher estes júris.


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Então como é olhado o cinema português no estrangeiro?
SR: O cinema que se vê e reconhece lá fora é o independente. Creio que é justo salientar que o que é visto e admirado no exterior é categoricamente o chamado cinema independente português (CIP), porque possui premissas artísticas que não tem amarras aos mercados ou a um conceito passivo de espectador. O CIP tem uma imagem invejável no estrangeiro e é tido como um cinema original, surpreendente, promissor e vibrante de ideias. É ele o foco de fomentação da imagem de Portugal, através da exibição de filmes nos mais prestigiantes festivais de cinema. Compete então ao ICA continuar o bom trabalho que tem sido feito até aqui.

Mas, existe esta noção que os portugueses não gostam de cinema português, nem sequer o vão ver.
SR: Eu acho que essa ideia é muito errada. Aliás, podemos ver pelos números do ICA, por exemplo, o filme do Miguel Gomes, o “Tabu”, teve um número colossal de espectadores.

Sim, mas teria tido o mesmo êxito se tivesse sido estreado primeiro em Portugal, se não houvesse já o reconhecimento do exterior, através de prémios em festivais internacionais?
SR: Na verdade não consigo adivinhar. Mas recuso a ideia de que os portugueses não saibam reconhecer o que é qualidade, creio que cada um de nós a consegue distinguir. O que é necessário, na verdade, é aprender a saber do que se gosta e ter acesso ao que se aprecia ver. É importante haver meios para ligar o público português ao seu cinema. O que é de facto fundamental, é que haja essa conexão e estou perfeitamente convencida disso. Um belo exemplo disso é a competição nacional do Curtas Vila Conde, que é a competição do festival que tem sempre mais público, mesmo sendo exibida à hora do jantar (risos).

Não será também porque o festival ao fim destes anos todos acabou por educar os espectadores nesse sentido, pela escolha de conteúdos de acordo com a qualidade artística?
SR: Lá esta! Isso no fundo significa que se fez esse trabalho com o público e as obras. Acho que é isso que falta principalmente ao cinema português.

Então, porque falha no resto?
SR: Eu muito sinceramente não acho que isso aconteça, não considero que falhe muito. O facto de vermos os nossos filmes a serem galardoados no estrangeiro, a serem colocados em listas das mais prestigiantes revistas de cinema, ajuda com certeza. Vermo-nos ao espelho através dos olhos dos outros é muito mais gratificante.

Então, falemos da produção de filmes, existe neste momento um certo caos em termos de financiamento devido à mudança de governo?
SR: Ora bem, não se trata de ser este ou aquele governo especificamente, o que aconteceu é que o ICA vê-se neste momento com um grave problema de tesouraria para fazer face aos compromissos já assumidos nos concursos. Trata-se de um problema provocado pela situação política recente: as eleições em Outubro que deram vitória a uma coligação que se viu em minoria no Parlamento, entretanto houve o atraso no pronunciamento do Presidente da República para empossar um novo governo, esta situação travou a possibilidade de utilização do saldo de gerência, e impediram os normais procedimentos para a transferência da verba da ANACOM para o ICA. É por isso urgente uma intervenção política para esta situação especialmente delicada porque existem muitas produtoras e entidades do sector a aguardar tranches para poderem a começar os seus filmes, que estão parados, e porque existem acordos e compromissos que essas entidades já assumiram e que necessitam de ser cumpridos. Basicamente, trata-se de uma grande areia na engrenagem, que normalmente funciona relativamente oleada, mas porque nestes últimos meses vivemos um momento fora do comum em termos políticos, este interregno causou todo este problema.

Olhando para a gestão do ICA ao longo dos anos, exceptuando este período de incerteza, ainda consideras que o cinema português deve ser financiado por fundos estatais?
SR: Sem dúvida. Aliás, o Estado tem uma missão muito importante que é apoiar a cultura. E se pensarmos bem, todas as civilizações mais sofisticadas são as que têm um nível de cultura mais elevado, com pessoas que vão ao teatro, ao cinema, aos concertos, aos museus e os artistas criam, e o peso do estado é muito forte. A cultura abre novos caminhos, novas formas de pensar e cria músculo mental. Não é obviamente por se ver um filme que tal se consegue, é a continuação disso, fazer pensar sobre o que se viu. Isto é importante para fazer desenvolver ideias e de produzir novas coisas. E quando digo isto não falo apenas em arte...
Mas existe uma falácia muito grande quando se fala de cinema comercial. Não existe cinema em Portugal que se consiga auto-financiar, como costumam gritar os apoiantes do chamado “cinema comercial”. Na verdade, duvido que haja em toda a Europa. Vemos em França, que é o país com o cinema mais robusto da Europa, que tem um sistema muito engenhoso de financiamento e que é o próprio Estado que, para além de participar financeiramente na produção, obriga os privados a investirem uma percentagem dos seus orçamentos em cinema independente. É o exemplo da obrigatoriedade da dispensa de uma percentagem do seu orçamento anual na aquisição de filmes por parte das televisões francesas, ou uma comissão de bilheteira nos cinemas...

Já falei com alguns realizadores e produtores que referem que há demasiada dependência dos financiamentos públicos.
SR: E é por isso que tem de ser o ICA a escolher os júris e fazê-lo com conformidade com a sua estratégia e com diversidade. Obviamente que não devia ser só esta instituição a assumir essa responsabilidade do financiamento. Existem outras formas como já falei. E, acontece também que existe uma lei do mecenato disfuncional. É muito difícil encontrar mecenas sendo uma entidade privada porque os incentivos ou as regalias financeiras recebidas através da Lei do Mecenato Portuguesa, são mais vantajosas quando dadas a entidades estatais, do quando dadas a privadas. Isto é, um museu público, por exemplo, está sempre em vantagem na corrida aos apoios dos mecenas privados.

http://www.curtas.pt/agencia/

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