Um olhar sobre o mundo Português

ptenfrdees

 

h facebook h twitter h pinterest

A ameaça invisível

Escrito por 

Norbert Shuchanek e Márcia Gomes de Oliveira organizam em Maio o maior festival mundial sobre o Urânio, no Rio de Janeiro, legendado em português. Uma vasta mostra de cinematográfica que aborda a temática do nuclear e os seus efeitos devastadores na vida do nosso planeta. Recentemente, os dois activistas estiveram na localidade de Nisa, no Alentejo, para filmar um documentário sobre o descontentamento e a oposição popular generalizada, perante a possibilidade da reactivação da exploração mineira de urânio. Um testemunho que consideram ser importante divulgar pelo mundo inteiro e que tem a sua estreia marcada na extensão do festival em Lisboa, no mês de Fevereiro.

Como é que contexto surge a ideia de filmar um documentário em Portugal, sobre Nisa?

Márcia Gomes de Oliveira: O filme está baseado no projecto do urânio film festival, dentro do mesmo assunto. Nós visitámos Nisa e ficámos a conhecer a história que existia um lugar em Portugal que fazia uma luta contra a mineração. No Brasil, nós desenvolvemos um trabalho para conhecer lugares do mundo preocupados com o problema nuclear. Quando nós debruçámos sobre a informação dos riscos de um desastre nuclear, apercebemo-nos, que no mundo lusófono, essa informação é pequena, ou quase inexistente. O que nos chamou à atenção foi saber que existia uma pequena cidade no Alentejo com pessoas conscientes do que é a mineração, do perigo que representa. Isso nos levou até Nisa para realizar o documentário. Sobretudo, foi importante porque é um movimento num país de língua portuguesa, porque aqui no Brasil o nosso maior investimento é de conhecer aonde tem formação sobre este assunto.

Mas, como chegaram a essa informação? À Nisa?

MGO: Isso é muito interessante, porque essa foi a primeira pergunta que eu ouvi quando cheguei à Nisa. Como chegaram até a gente? É engraçado que vocês inventaram o Brasil e aí a gente achou vocês é diferente, é só detalhes (risos). Nós já estávamos pesquisando sobre o assunto, tínhamos feito um documentário próximo à usina nuclear que temos aqui, no Rio de Janeiro. Estávamos organizando toda a informação e essa localidade chegou através de um paper científico, não me lembro se é uma tese de mestrado, ou doutorado feito por um brasileiro e lá no meio falava de Nisa, um local com mineração e com prospecção. No primeiro momento eu fui procurar o mapa do Brasil, será que é no Nordeste? Depois descobrimos que era em Portugal, no Alentejo. No Brasil, nos temos um carinho muito grande pelo vosso país, porque é o umbigo, o nascimento de toda a cultura portuguesa. Depois falei, precisámos conhecer esse lugar e essa história e o que está acontecendo. Chegámos a Nisa e fizemos um contacto, não muito detalhado, com as pessoas do movimento, José Maria Moura, Maria Vieira e outros que nos receberam e vimos que era um lugar que mudou e mais importante, é uma luta preventiva. Foi isso que nos moveu e incentivou a fazer o filme. É muito comum, sobretudo os brasileiros trabalhar numa expressão típica que é “chorar depois do leite derramado”. Nisa pensou que não queremos que aconteça algo que vai prejudicar, não depois. Então isso é o valor do filme. É mostrar ao Brasil, para o mundo todo, um movimento preventivo. Isso é que eu acho mais estimulante e mais precioso.

O filme vai ser exibido no Brasil, no segundo festival de urânio?

MGO: O primeiro festival aconteceu em Maio de 201, porquê? Estivemos em Nisa, gravámos e aí guardámos o material para criar um filme. Estamos a editar as imagens agora. Não vamos estrear no Brasil. Vamos estar em Lisboa em Fevereiro, na verdade vai ser exibido em Portugal antes da segunda edição do festival, no Rio de Janeiro. No Brasil, o urânio mostra os filmes e depois temos uma extensão do festival em várias cidades brasileiras. Em Dezembro houve uma mostra na cidade do Porto e em Fevereiro vão ser exibidos os filmes da primeira edição. Porém, vamos aproveitar a oportunidade, de estrear o documentário, antes do segundo festival no Brasil, porque como somos os organizadores, o nosso filme não entra em competição.

Fala-me agora um pouco sobre o festival, de como surge esta ideia de criar um ciclo de cinema sobre urânio?

MGO: É interessante, porque acontece antes do desastre de Fukujima. Em 2006 o Norbert Shuchanek esteve num encontro mundial sobre povos indígenas atingidos por mineração de urânio, ou depósitos radioactivos. Já existe uma organização no mundo, que reúne pessoas por causa do nuclear. Nesse evento, ele viu alguns filmes e trouxe-os e aí ele já estava com essa ideia. Quando vi um deles e foi determinante, de uma enfermeira em Chernobyl com as lágrimas caindo pelo rosto, enquanto mostrava a radioactividade no corpo de crianças e isso foi recentemente, e ela falou: isso não pode acontecer nunca mais, em nenhum lugar do mundo. Quando vi isso, falei: todo o mundo tem que ver isso e ser tocado, para não se voltar a repetir. Era um filme russo, dobrado em inglês, mas não chega para nós de língua portuguesa. Eu sou professora de sociologia, trabalho com adolescentes, trabalho com o futuro engenheiro, futuro técnico e essas pessoas não recebem essa informação, só andam atrás de um emprego onde recebem bons salários. O que vão fazer, não interessa. Isso foi em 2006. Precisámos de fazer um trabalho para mostrar esses filmes, porque um livro, ou uma palestra não tem a mesma eficácia que a imagem no mundo hoje. Essa eficácia chega aos adolescentes, a um adulto e a um idoso. O filme tem um impacto da comunicação audiovisual, do momento. O trabalho é organizar esses filmes, as pessoas se inscrevem mandam os seus trabalhos, nós temos um banco audiovisual com todas essas informações e o mais fundamental é serem legendados em português. O festival tem o poder de poder exibir os melhores trabalhos feitos no mundo sobre o tema, e estarem em português para ser atingível para a gente. O nosso trabalho em Nisa, e a extensão que desenvolvemos com o António Eloy foi importante para levar para o universo lusófono, a informação do que é o urânio. Pretendemos popularizar a palavra, porque ultimamente lê-se no jornal, mineração de urânio, cotação de urânio e a população não tem noção do que se trata. Todos os riscos que vai ter na nossa vida. Não gera movimentação popular.

Qual foi a reacção do público depois de assistir a estes filmes?

MGO: Cada filme teve grande impacto. Houve abertura para fazer sessões escolares. Geralmente, as pessoas saem sem palavras. Cada um é um escândalo, as pessoas saem muito caladas, passado um tempo começam a dizer como isto é possível? Eu não sabia. Esse é o efeito do festival.

O festival de urânio para 2012, como vai ser?

MGA: Estamos no período das inscrições ainda, com muitos filmes da Austrália, da Alemanha e dos EUA. Recebemos uma grande surpresa, que foi a inscrição de um filme português, o filme ainda não. Esse ano eu percebo, pelo que recebemos o impacto que foi Fukujima. As pessoas estavam dormindo sobre o assunto, infelizmente. Por isso, é que Nisa é um exemplo, faz algo antes de acontecer. As inscrições estavam abertas antes do desastre em Japão. Foi em 11 de Março e a notícia ainda demorou uma semana a chegar, eu recebi via Portugal, porque estamos muito conectados. É engraçado que não tinha filmes sobre o Japão, apenas dois documentários relacionados com Hiroshima e Nagasaki feito por americanos. Depois do desastre começámos a receber trabalhos de japoneses que queriam mostrar o que aconteceu no festival. Nós já tínhamos encerrado as inscrições nessa altura, abrimos uma excepção e exibimos um filme japonês.

O festival tem uma mostra competitiva, mas também tem uma vertente educativa. O certame estimula as pessoas a competir, mas se temos um filme japonês que por circunstâncias extremas eu consigo mostrar sem legendas em 2011, mostro. Este ano vai ser exibido e já estará legendado, porque tenho uma proposta educacional. Nesta edição, temos filmes marginais para as escolas virem assistir, os que tem mais complexidade serão exibidos no final da tarde, para um público mais adulto. Veremos como os jovens reagiram ao terramoto e como passado uns dias tem um Fukujima. Eles falaram sobre isso nas redes sociais, de como viviam antes de 2011 e é preciso trazer essa experiencia para a mostra de cinema. Não sei como é em Portugal, mas aqui a gente vê flashes do desastre nuclear misturado com o terramoto. O que estão pensando, esses japoneses? Como sentem isso? Como processam essas informações? Por isso estamos convidando esses jovens, esses grupos para o festival. Acredito que via ser um diferencial em 2012.

Há debates após as exibições?

MGO: Cada filme gera já um debate. A nossa ideia é que as pessoas possam conversar e falar sobre cada um deles. Não temos um tempo para um período de debates, porque estamos recebendo muitos filmes, o espaço na cinemateca está quase se esgotando. (risos) O festival vai ser exibido num espaço maravilhoso, que faz parte do museu de arte moderna, na frente da baia Guanabara. Conquistamos esse espaço, nessa área desfrutável. Todo o mundo quando sai gera entre si debate. Eu sou professora numa escola técnica audiovisual e estou a organizar com os alunos da escola fazer uma cobertura, umas imagens sobre esse debate natural. Vamos fazer um registo das opiniões que as pessoas tem sobre os filmes e isso poderá gerar um documentário. O festival é um momento muito rico, tem muitos filmes, e as pessoas ficam cansadas e o debate acaba acontecendo nos cafés, nos restaurantes.

Como é que tu e o Norbert chegaram até esta temática?

MGO: O Norbert é um jornalista ambiental e eu fiz um mestrado sobre a tribo guarani, que é um povo indígena da mata Atlântica e as usinas do rio de Janeiro estão no território tradicional deles. Temos um filme de 20 minutos, que mostra como o cacique desse povo, com 94 anos, vê essa usina. Então esta dentro de uma vasta temática ambiental, por circunstância do meu trabalho académico sobre o povo guarani e os povos indígenas atingidos pela radioactividade. Eles sofrem com toda a industrialização de toda a área de sul e sudeste do Brasil, já aguentam o impactos de todas formas a usina é só mais uma. O mais interessante é que o nuclear é invisível, não é imediato. É mais um esgoto num rio poluído, então, o que mais nos mobiliza neste trabalho, é que este minério põem fim á vida no planeta, os índios guarani são mais uns e o cacique tem esse entendimento. A percepção que um desastre nuclear seria fatal para todos.

http://www.uraniumfilmfestival.org/

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.

FaLang translation system by Faboba

Podcast

Eventos


loading...